Thursday, March 27

Comunidade Virtual - Montagens e desvios


Comunidade virtual, hoje em dia, pode ser considerada uma sociedade, uma cultura; Christine Hine, antropóloga, adianta: “internet hoje é infraestrutura”.

Em geral nos referimos à internet como se ela tivesse um significado único e principalmente para o público leigo esta distorção dificulta o acompanhamento das discussões em torno das leis regulatórias da atividade online.

A Antropologia Virtual (Virtual Ethnography) tem se desenvolvido nos EUA com estudos voltados à compreensão de como a internet faz sentido para as pessoas, como ela significa coisas diferentes para grupos diversos, demonstrando que ela não tem um significado absoluto: afinal, qual é a especificidade do compromisso de uma pessoa em particular, com a internet? O que é a internet para uma família, para a mídia, para empresários, para políticos? Como diz Christine Hine, a internet tem “corpo”, ela é incorporada (embodied) através de suas circunstâncias materiais (aparelhos, conexões etc) e também compõe esta incorporação, as emoções que ela gera (o engajamento individual com o ambiente virtual). A internet existe “invisível” em nosso cotidiano, várias de nossas ações offline também dependem dela (compras em lojas físicas, transações bancárias em agências físicas, funcionamento interno de empresas, telefonia etc), portanto "a fronteira offline-online não é um limite, mas uma interação vigente", as pessoas transitam nas duas esferas mesmo que não estejam percebendo isto.

Internet não é um fenômeno 'abstrato' que paira sobre as sociedades e seus conflitos; ela viabiliza não só difusão de informação e intercâmbio em redes sociais - sua faceta mais óbvia para o grande público - mas também a realização e a possibilidade de atividades econômicas diversas, Vivenciamos nela os mesmos grandes temas políticos, econômicos, humanos existentes no ambiente físico. Estivemos, até agora, vivendo uma aparente utopia democrática de neutralidade na rede ("net neutrality", "open internet"), mas, o atual debate brasileiro sobre o Marco Civil da Internet escancara, para o grande público, uma realidade discutida nos Estados Unidos e Europa há mais de dez anos: internet é ambiente de atividades econômicas competitivas e a falta de regulação específica permite a existência de uma arena selvagem sob a máscara do acesso livre ou democrático. Regular estas atividades e garantir o acesso igualitário à velocidade e conteúdo a qualquer usuário final, é aparentemente utópico e apenas parte do problema, mas é o mínimo pelo qual se luta.

No ambiente virtual, deliberada ou acidentalmente, as pessoas podem se encontrar envolvidas em grupos com discussões inflamadas. O marco regulatório da internet é apenas mais um dos polêmicos temas em pauta e passível de manipulações. Em vésperas de eleições, de campanhas políticas, é frequente a instalação forjada de cenários virtuais, a criação de múltiplos perfis administrados por um único indivíduo com atuação intencional de promoção ideológica - perfis estes, decorrentes de iniciativas individuais ou encomendados, com atuações amenas ou agressivas. Além do Troll que atinge indivíduos, é comum o Troll em grupo com objetivos bem definidos de provocação e desintegração político-ideológica.  Existe o prazer mórbido do Troll que atua cara-a-cara e normalmente são provocativos e insistentes; mas trolling não é simplesmente um jogo de perversão individual, pode estar atrelado ou financiado por grupos com objetivos políticos; trolling é uma atuação de identidade enganosa com consequências graves: o Troll desmantela uma discussão, dissemina idéias falsas, gera dúvidas mesmo quando questões honestas são apontadas; é o prazer de inflamar, provocar, divergir do tema em pauta, perturbar, seja com um objetivo definido ou por simples prazer pessoal. Como identificar um Troll? Normalmente se identifica porque ele não “dialóga”, não “escuta”, apenas provoca o descontrole do interlocutor. É o prazer de destruir o equilíbrio do outro. São provocadores anônimos.

Como sempre afirmo, comportamento no ambiente virtual não difere radicalmente do ambiente físico, mas existe uma facilidade de ilusão e alienação: frequentemente nos deparamos com as consequências psicológicas de perfis enganosos criados online - tanto para seus criadores, quanto para seus interlocutores - consequências da vivência virtual fantasiosa voltada para suprir desejos, carências e metas, de relacionamentos como válvula de escape, da alienação, da pseudo-realização de impossibilidades (Zizek menciona preocupação com a promoção de sonhos delirantes na internet, tais como: cura do câncer, viagens a outros planetas, nivelamento social enquanto na “realidade”, estes mesmos internautas têm vidas massacrantes; políticos justificam má administração pública por falta de dinheiro, as necessidades básicas da vida não são atendidas).

Em toda esta discussão sobre efeitos psicológicos da possibilidade de ilusão e engano nas interações virtuais, um ponto fundamental é a questão de porque alguém decide infringir sofrimento a outro que lhe é desconhecido? Antes de ser uma indagação do ambiente virtual, é uma questão humana, relacional e antiga. De fato, a possibilidade de ação nefasta nas interações entre indivíduos está ampliada pela tecnologia, mas a motivação inicial não se explica por esta facilidade; como diz Judith Donath, é uma ação destrutiva, horrível, que muitos podem sentir, mas que é dificultada no ambiente físico. Aqui, mais uma vez, voltamos à questão da identidade: manipuladores, Trolls, Flaming (com escrita provocativa e raivosa) correspondem ao bulling offline e são cada vez mais frequentes exatamente porque os participantes do ambiente virtual têm um mínimo conhecimento da identidade uns dos outros.

Seja em ambiente físico ou virtual, todos sabemos que a comunicação não se restringe à troca de informações; comunicação também é interação social e para isto, a confiabilidade na identidade dos participantes é importantíssima. Além das dúvidas já descritas quanto à identidade de nossos interlocutores virtuais, hoje é uma realidade a questão da inteligência artificial: podemos ter como interlocutor, não um humano, mas um robô. ELIZA* já tem mais de 40 anos e seu criador, Weizembaum, há muitos anos se declarou terrificado com o uso que o programa estava tendo como entretenimento, companhia ou psicoterapeuta; declarou que este tipo de uso de seu programa era um atentado direto a nossa humanidade. Weizembaum criou o script DOCTOR no ELIZA, apenas por facilidade de programação e em um contexto de pesquisa, jamais para substituir relações entre humanos.

Psicoterapeutas, de várias orientações teóricas, estão, cada vez mais, anunciando terapias online. Considero o ambiente virtual inadequado para o exercício da psicoterapia por ser impossível estabelecer o set terapêutico presencial, imprescindível para a realização de sessões psicoterápicas (o uso de web-câmeras como mediação não substitui a observação face-a-face).

A comunidade virtual reproduz e repete alienações e desumanizações decorrentes das metas, ganâncias e não aceitação, tanto quanto realiza intercâmbio e comunicação entre os semelhantes, ampliando, assim, o universo relacional, quebrando fronteiras, neutralizando defasagens temporais e geográficas. É um novo mundo, copiando velhas ordens, mas que vai também gerando sínteses revolucionadoras na comunicação e informação.

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* ELIZA - programa desenvolvido entre 1964-1966, por Joseph Weizembaum, sob a óptica da inteligência artificial, para simulação de diálogo entre máquina e humanos. Continha vários scripts, mas o mais famoso foi o que simulava uma conversa entre um humano e um psicoterapeuta (DOCTOR). Weizembaum justificou a escolha do psicoterapeuta baseado no procedimento rogeriano por este se pautar em devolver ao paciente perguntas baseadas nos estados que ele apresentava e não no conteúdo de suas afirmações; isso facilitava a programação do software, evitando a necessidade da introdução de base de dados sobre diversas áreas do conhecimento humano.


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Thursday, March 20

Comunidade Virtual - Reversibilidade


O homem continua o mesmo e quando age pela necessidade de ser aceito transforma as mudanças tecnológicas em mais uma plataforma, mais um palco de alegorias. Neste palco, neste contexto, a vivência de transitoriedade se impõe: os relacionamentos são imediatistas. Neste sentido, os relacionamentos, sejam no ambiente físico (offline) ou no virtual (online), são vinculados apenas ao instante de interação.

O que é identidade na comunidade virtual?

Identidade é um tema clássico em psicologia, filosofia, antropologia; as questões levantadas em relação à identidade virtual não são novas ou específicas do mundo virtual, apesar de que no ambiente virtual estas questões sejam urgentes, práticas, não partem de preocupações teóricas: homens criam perfis femininos e vice-versa; adolescentes se passam por profissionais maduros; portadores de doenças buscam informações médicas, acreditando que sejam de fonte fidedigna, por exemplo; além de questões de reputação de perfis “autênticos” (correspondentes tanto a individuos que se colocam no ambiente virtual com sua identidade legal, quanto a indivíduos famosos ou conhecidos publicamente em uma dada sociedade). Sinais para confiabilidade de identidade são poucos e insuficientes no mundo virtual mas eles existem (emails, fotos, estilo de expressão, cruzamento de dados, referência de terceiros etc). Neste ambiente, reputações virtuais são estabelecidas e questionadas.

Ainda hoje, muitas pessoas entram no ambiente virtual com a atitude básica de que seus interlocutores sejam quem pretendem ser e aqui temos um problema crescente e atual: a natureza controversa da identidade virtual, gerando enganos e posições que variam do simples abandono da interlocução à desestruturação psicológica do enganado, muitas vezes com consequências graves como foi o famoso caso Megan Meier nos EUA, adolescente de 13 anos que cometeu suicídio a partir de interação com um interlocutor, digamos, “falso”. As consequências psicológicas nefastas da interação com identidades enganosas na internet não se limitam a adolescentes (talvez as vítimas mais vulneráveis), mas atingem indivíduos de várias idades e formação. Este tema vem ocupando psicólogos em muitos países.

Encontramos inúmeras variedades de identidade enganosa nas redes sociais; algumas são muito disfarçadas e danosas para indivíduos e comunidades; outras se referem apenas ao dono do perfil sem prejudicar ninguém; outras ainda são claramente desafiadoras, criadas para provocar uma impressão ruim, como os Trolls, muito encontradiços em discussões políticas, mas não só aí. No caso de um criador de várias identidades virtuais, ou seja, um indivíduo com vários perfis virtuais, enfrentamos questões de gênero, comum quando sexo é o tema predominante da interlocução (um homem que cria um perfil de mulher ou vice versa - a interlocução pode envolver sedução com consequências psicológicas quando ocorre o desmascaramento, a constatação do engano); enfrentamos também, questões ideológicas (perfis criados para promoção ou difamação de pontos de vista políticos, pontos de vista religiosos, por exemplo); questões criminais (perfis criados para seduzir, atraindo para encontros que envolvem perversões sexuais, roubo, sequestro, chantagem etc além do dano psicológico, temos aqui, danos físicos, materiais) e também a questão do prazer mórbido da manipulação do outro, que pode ser o único objetivo do perfil ou apenas mais um elemento nos perfis citados acima.

Principalmente nas interações virtuais interpessoais e não públicas (emails, por exemplo), a identificação e confiança na identidade é fundamental na motivação para interação. Acontece que, como dissemos, um indivíduo pode ter tantos perfis virtuais quanto queira, e como afirma Judith Donath - conceituada estudiosa deste tema - “quando dizemos ‘o indivíduo pode ter…’, quem é o indivíduo? Naturalmente é o corpo diante do teclado”. Para um psicólogo é tão importante entender o que acontece com quem se descobre enganado na interlocução com alguém de identidade forjada, quanto entender o que acontece com o indivíduo físico que cria varias identidades virtuais: no mundo físico a norma é um corpo, uma identidade; no mundo virtual não existe esta correspondência.

O perfil virtual é tanto voluntário quanto involuntário. É notório que na internet existimos como dados de informação e não como corpos. Um perfil ou uma identidade virtual é composta pelo que deliberadamente decidimos expor: design (com ou sem fotos e web-câmeras) e descrições contidas em um site pessoal ou em um perfil de rede social, mas também por dados involuntários, rastros que deixamos no ambiente virtual, como: históricos de buscas em catálogos como Google, por exemplo, escritos, comentários em blogs e interações em redes sociais, padrões de viagens, padrões de consumo, processos judiciais disponibilizados pelos poderes públicos, arquivos médicos etc são, portanto, dados acumulados de exposição voluntária e rastros involutários buscados a partir do interesse da audiência; em outras palavras, a identidade virtual foge ao controle do perfilado, é também composta pelo interesse de terceiros. Como bem afirmam antropólogos e outros pesquisadores do ambiente virtual, isto não é radicalmente diferente do que sempre ocorreu no ambiente físico: qualquer retrato transmite mais do que uma imagem; quem olha um retrato vê, alí representado, status social através de vestimentas, ambiente em volta, infere época histórica e conotações de personalidade a partir de expressões faciais etc.

O ambiente virtual amplifica enormemente a interpretação dos perfis pela insinuação estruturante do campo perceptivo - Lei da Closura -, as fragmentações, os espaços vazios, insinuam complementações, sendo estas geradas por desejos, frustrações e necessidades. Existe, também, um elemento invasivo que desafia as questões de privacidade como a entendíamos no passado. Os rastros de nossas ações estão sempre à mão de quem quiser consultá-los, são enorme fonte de dados utilizados na composição de interlocuções pessoais, além de serem também, produtos comercializados entre redes (Google, Facebook, Twitter etc) e empresas interessadas em padrões de consumo e finalmente, dados sujeitos a monitoramento político.

Os estudos de identidade no ambiente virtual, os temas a ela relacionados, tendem a uma visão de especificidade que não se sustenta: nem o fato destas identidades serem formadas por dados e não por corpos, tampouco a facilidade em criar imagens ou perfis falsos, levam a uma radicalização de diferenciação na definição de identidade online e identidade offline; os dois ambientes não passam de esferas onde transitamos, agindo de maneira semelhante em um e outro, concordante com nossas estruturas psicológicas; em ambos estamos sujeitos a controle de terceiros, em ambos é possível construir imagens, em ambos exercemos comunicação, corremos riscos, interagimos descuidadamente ou não com nossos interlocutores. Por exemplo, na interação entre um perfil enganoso e um perfil legítimo, apesar da ação deliberadamente manipuladora do “enganoso”, existe a recepção do “honesto”; nas palavras de um famoso Troll americano em entrevista no New York Times: o interlocutor do enganoso é “cumplice” na interação enganosa porque “se deixa enganar, alimenta o engano, expõe carências, parte de uma atitude ingênua de crença”. É certo que o ambiente virtual facilita a atuação de enganadores e aproveitadores; mas esta é uma atuação maldosa semelhante à que sempre existiu no ambiente físico; o ambiente virtual a facilita pela falta de sinalizadores de confiabilidade, no entanto, ele é apenas mais um contexto onde se desenrolam relacionamentos estruturados em necessidades ou possibilidades relacionais, em não-aceitações ou aceitações.

















- “O Filtro invisível - O que a internet está escondendo de você” de Eli Pariser
- “Matrix, bem-vindo ao deserto do real” - coletânea de William Irwin


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Thursday, March 13

Destituições

Certas sociedades tribais - a antiga sociedade iorubá por exemplo - conseguiam amenizar contradições entre governados e governos. O princípio da autoridade absolutista não se cristalizava, não criava déspotas eternos, pois mecanismos de pressão ajudavam a esvair o poder. Entre os iorubás, era tradição, costume e saída de emergência, o envio de ovos de papagaio para o rei quando este se transformava em déspota. Receber uma cabaça com ovos de papagaio era equivalente a ler a mensagem: “se mate”.

O sistema judiciário iorubá, antes da colonização, não era estritamente formal e o que poderíamos chamar de instâncias informais sempre possibilitaram, ao povo, a regulação dos casos criminais ou de abuso de poder: se constituiam em uma espécie de dispositivo, monitorando a sociedade na forma de sanções, tabus, costumes, moral etc. Era um sistema sem paralelo com nossos sistemas ocidentais. Nas sociedades onde o judiciário é uma instituição formal, as regulações ocorrem na forma de leis, direito de propriedade e constituição, com julgamentos formais em locais apropriados para isto. Entre os iorubás, tanto o pai de família quanto o chefe de aldeia, tinham autoridade para julgar e punir. A sociedade compunha-se basicamente do rei (Oba), dos chefes de aldeias, dos chefes de famílias extensas e dos chefes (o pai) de famílias individuais que eram as unidades básicas da sociedade, também consideradas unidades jurídicas fundamentais. Em outras palavras, o controle político e jurídico era exercido principalmente via família, unidade familiar.

Se o rei fosse considerado culpado de um crime ou se sua liderança se tornasse tirânica ou impopular, ele deveria ser julgado sem oportunidade de defesa: os chefes das aldeias se reuniam do lado de fora do palácio, dirigiam-se ao rei dizendo que ele não era mais desejado e lhe entregavam uma cabaça com ovos de papagaio, uma maneira eufêmica de dizer-lhe que deveria cometer suicídio - ovos de papagaio eram tabu (ewò) para os reis iorubás.

Esta possibilidade de diálogo com o poder absoluto permitia renovação, coerção e regulação de excessos. Com o passar do tempo as mensagens se desgastaram, balas de canhão e ingerências outras se tornaram responsáveis pela mudança de poder.

Obviamente sociedades complexas e populosas não podem se organizar como sociedades tribais, mas não deveriam prescindir do diálogo entre seus membros e governantes. Controle da rua, do quarteirão, do bairro, das cidades, tudo se soma conseguindo uma máscara democrática; mas o todo não é a soma das partes e o que se consegue, assim, é diluir os espaços do poder para mais tarde configurá-los em função de objetivos absolutistas. Instalada a meta e o objetivo de tudo conseguir, tudo controlar, perde-se o diálogo, não há reflexão, autocrítica e decisões modificadoras. Nesta indução de atitude e de poder, as partes transformadas em todo - grupos, escolas, sindicatos, agremiações partidárias, grandes corporações etc - são também manipuladoras e detentoras de poder, consequentemente as críticas que levariam à transformação são pulverizadas.

Não há quem receba os ovos de papagaio ou se todos precisassem recebê-los não haveria quem os entregasse.




 











- “Ethics” de Henry Odera Oruka
- "A Sociedade contra o Estado" de Pierre Clastres

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Thursday, March 6

Sobrevoando o caos

Sobrevoar dificuldades, sobrevoar o caos é possível quando há disponibilidade. Esta ultrapassagem de contradições não se constitui em alheamento ou negação das mesmas. Conseguir ir além do aprisionante e esmagador é uma forma de transcender limites; isto não surge por acaso. Quando se toma conhecimento dos impasses, das dificuldades, se toma também conhecimento da possibilidade ou impossibilidade de resolvê-las.

No autorreferenciamento não se consegue querer resolver, querer enfrentar nada, tudo é massacrante, dificuldades são vistas como causadas pelos outros; apenas o que está no próprio mundo significa e os problemas do outro são sempre causadores de mal-estar e indignação. Neste contexto, como conviver com doenças, velhice e restrições econômicas? O que fazer diante do filho que diariamente se droga?

As crianças portadoras de necessidades especiais, por exemplo, são transformadas quando aceitas em suas limitações, são socializadas em pequenos grupos; estas mesmas crianças vivenciadas como problemas, “atrapalham”, são o inesperado ruim, cada vez mais são obstáculos e impedimentos, transformadas em problemas, situações que devem desaparecer.

O interesse pelo outro, a compaixão, a solidariedade são tapetes mágicos que permitem planar sobre dificuldades e é frequente encontrá-las, só que por pequenos momentos polarizantes: tragédias, enchentes, desastres vários. Não é nas emergências que compaixão e solidariedade deveriam ser estruturadas e sim no cotidiano, na continuidade do existir, do estar com o outro.

Disponibilidade é magia, “varinha de condão” que transforma as dificuldades e vicissitudes em situações à resolver; transforma a dor, a tristeza, amplia os horizontes e faz descobrir soluções, alegrias.

Disponibilidade é o tapete mágico que sobrevoa o caos, realizando transcendência de contingências e limites.















- “Eros e Civilização” de Herbert Marcuse
- “Sobre Comunidade” de Martin Buber


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