Thursday, February 27

Metas e vacilação

Só é possível decidir quando se está inteiro. O indivíduo dividido, circunstancializado e dependente de aprovações e resultados, não decide, avalia segundo critérios e valores e ao se resolver por algo - significante positivo em relação ao que quer - estabelece uma contradição com outras situações também significativas para si.

O medo de perder, de ser retaliado e outras contrapartidas despersonalizantes, cria dúvidas, tristezas traduzidas por choros, dores e desespero. Decisões fruto de avaliação são facilmente mudadas, são contingências estribadas em valores. Avaliações sobre o que será bom ou será ruim são usadas como pressões para fazer o outro agir conforme interesses. Criar situações funciona como verificadores do exercício do domínio/submissão que estão em jogo.

Quanto maior a fragmentação, mais difícil encontrar situações polarizantes. Nada é recomposto por muito tempo. Todo arranjo facilmente se quebra; as dores e incompatibilidades aumentam; consequentemente diminui a condição de decidir.

Não aguentar mais situações que são mantidas por conveniência, cria abismos, divisões impossíveis de gerir. A vivência desta impossibilidade desencadeia sintomas: crise de pânico, medo, dores e dificuldades de enfrentar o próprio cotidiano. A depressão pode aparecer como trégua necessária ao desespero de não saber o que fazer ou de saber e não conseguir, não querer, não poder.

Para o ser humano, abrir mão de sua condição de decidir é abrir mão de sua individualidade, é virar realizador das vontades alheias, instrumentalizador e gerenciador de vantagens/desvantagens. Sem decisão, apenas se segue a corrente. Esta circunstancialização, esvazia e desumaniza ao criar apegos, hábitos e vícios deslocadores das tensões geradas pela impotência, impotência essa criadora de ansiedade.

Sem questionar a impossibilidade de decidir, ocupa-se e preocupa-se com resultados, garantias e assim constrói ansiedade, ciclone responsável por tirar do próprio corpo e contexto, toda possibilidade de motivação e bem-estar. Esta  perda de espontaneidade, de decidir, de responder à totalidade do que ocorre, faz perder autonomia, gera dependência e despersonaliza.

O processo de despersonalização cria seres apegados, submissos, fragmentados, cheios de raiva, medo, revolta e contradição. Abrir mão da própria vontade em função de ser aceito, leva à situações nebulosas que arruinam as próprias bases estabelecidas de controle e avaliação.



















- “O Conceito de Angustia” de Søren Kierkegaard
- “A Felicidade Humana” de Julian Marias


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Thursday, February 20

Édipo - ações e consequências

Graças ao viés psicanalítico, a história, o mito de Édipo sempre foi exemplificador do desejo incestuoso, do inesperado, da fatalidade determinada pelo destino, determinada pelo inconsciente.

Ao resolver, consciente e criativamente, o grande enígma proposto pela Esfinge, Édipo cai na armadilha do desvendado: caminha para a realização inconsciente de desejos não pressentidos, como diria Freud. O prêmio pela decifração do enígma é casar-se com a rainha Jocasta. O prêmio emoldura a afinidade entre os protagonistas sem destacá-la, mas esta questão não se coloca, é o absurdo conseguido e não são percebidas suas implicações; mais tarde quando isto ocorre, quando Édipo descobre estar casado com sua mãe, ele fura os próprios olhos, se castiga por ter sido cego, não ter visto que Jocasta era sua mãe e assim, consequentemente, assume as decorrências de sua cegueira. Jocasta se suicida.

Estes atos trágicos são exemplos de ações consequentes, que em nosso cotidiano são desleixadas, desconsideradas. A divulgação do mito de Édipo para mostrar o incesto, deixou implícita a lição que o mito ilustra: a inevitável consequência de nossos atos, as implicações relacionais dos desejos e comportamentos, assim como a demonstração de como o indivíduo responsável e consequente não convive com enganos, acasos e necessidades arbitrárias, não convive com impunidade. Tudo pode ser feito e descoberto; o importante é que haja assumpção, participação, crítica e autocrítica das atitudes. Ao perder de vista este desenrolar consequente da existência, surgem escamoteações, justificativas, tolerâncias e ambiguidades que ao quebrar a nitidez dos processos cria a impunidade.

O Édipo moderno, o homem desumanizado e contingente, não é consequente, não quer pagar o preço de nada, muito menos dos erros ou males que causa aos outros: das relações familiares às sociais, dos “laranjas” aos incongruentes inquéritos fabricados e autenticados por diversos detentores da lei e da ordem, se constrói o caminho da impunidade.

Consequências, paradoxos e afinidades são a trajetória que diferencia o necessário do possível. As contingências são as aderências que nada definem, apenas significam enquanto redes relacionais. O intrínseco, a possibilidade de ser, não se esgota. Não saber que o grande prêmio recebido - a rainha Jocasta - era sua mãe, transforma Édipo em cego e alienado e por justiça, exatidão e coerência, ele fura os próprios olhos, cegando-se como maneira de recuperar a visão, recuperar a coerência, a aceitação e respeito próprio.

Não fugir das consequências dos próprios atos, não buscar impunidade para os mesmos, nos transforma, nos faz humanos. Pagar o preço, ser responsável é ser consequente com o praticado, é o que civiliza e mantém a roda rodando, é processo civilizatório - o mito de Édipo nos fala sobre isto mais que qualquer outra coisa.


“Medo, reverência, terror - Quatro ensaios de iconografia política” de Carlo Ginzburg

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1 - Medieval painting of Oedipus blinded
2 - Oedipus, tearing out his own eyes, John Lydgate's Fall of Princess, England c.1450 - c.1460


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Thursday, February 13

Arte

Adorno dizia que a arte é antissocial. A arte é superestrutura, neste sentido é reflexo da infraestrutura econômica; por ser reflexo não é antissocial, apenas reflete a infraestrutura que a gerou, entretanto, pode possibilitar novas percepções, questionamentos e constatações, pode expressar contradições, pode ser antissocial. Quanto maior a liberdade e a crítica, mais filtrados os componentes infraestruturais.

Sociedades reguladas por ditaduras (nazismo, stalinismo, castrismo, macartismo, inquisição, por exemplo) obrigam os criadores a tornarem-se reprodutores das ordens vigentes, reprodutores de suas palavras de ordem e conceitos, facilitadores da dominação. A arte soviética, as edificações nazistas, a beatificação geral do dia a dia são artes que reproduzem as ideologias que as abrigam e engendram e ao existirem assim, negam-se como arte, não são criações, são reproduções. Na arte é necessário ter um não, um diferente, um discordante, não legalizado, não estabelecido. Este diferente desautorizado é o antissocial, o que faz diferença e se propaga, se estabelece como arte. A criação regulada por códice político, sob forma de regras e acordos jurídicos, não é arte.

O caráter de antítese, o caráter de discordância da arte faz seu aspecto antissocial no sentido do não enquadrado, não regulamentado. É exatamente este antivalor que cria novos modelos e padrões responsáveis pela mudança, pela novidade.

O artista, através de sua arte, capta contradições sutis e estabelece novos padrões discordantes e antissociais; o pseudo artista se arregimenta de benesses e garantias e tenta se manter incólume e eterno dentro de modelos exíguos do que é aceito, mas o máximo que consegue alcançar é concordância e afirmação dentro do vigente.

Na Idade Média, os pintores ilustravam provérbios e histórias, principalmente as bíblicas; Bosch com seu “Carro de Feno” é exemplar: sua ilustração do real trouxe novos assuntos, novas revelações que se escondiam nas admoestações e assim a arte realizava sua função de antítese ao discurso dominante e justificador de como se vivia.

Abrir perspectivas, criar novos espaços, isto é arte e isto só é possível sem limites às infinitas variáveis que configuram e constroem o processo criativo, o processo artístico. O artista pode ver, pode perceber o que não se vê, o que não se percebe; ele transforma o detalhe em totalidade, possibilitando que novos detalhes e totalidades surjam a depender dos diversos contextos percebidos de sua arte, de sua criação. Lançar no espaço sem o objetivo de controlar onde vai cair é criação, é arte.



- “Teoria Estética” de Theodor Adorno
- “O Belo na Arte” de G. W. Hegel
- “A História da Arte” de E. H. Gombrich


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Thursday, February 6

Usurpar, plagiar

Apoderar-se do que é do outro sob a forma de plágio, roubo ou concordância utilizadora é uma maneira desesperada de tentar ser o que não se é, de conseguir um brilho para realce do que se considera fosco, desprezível e inaceitável: a falta de inventividade, a falta de originalidade, o não perder oportunidades de se afirmar e significar positivamente.

A não aceitação de si gera metas, desejos e objetivos de ser aceito, de ser considerado, de significar algo para alguém ou para a sociedade.

Aceitar o que se considera inaceitável é um caminho de mudança, mas, querer que este inaceitável seja camuflado, escondido através da utilização do que é do outro, é usurpação, é disfarçar as próprias dificuldades e incapacidades. Plagiar, roubar para aparentar, para esconder o que considera incapacidade é um duplo atentado: ao outro e a si mesmo.

Na ganância de dinheiro, títulos e conhecimento, as pessoas se fantasiam, mentem, se colocam como capazes/incapazes, se transvestem em líderes, em conhecedores, pensadores e executores de obras anteriormente concebidas por outros. Usurpar é enganar, tanto quanto é destruir processos históricos e relacionais.

Ao apoderar-se de pensamentos, vivências e bens dos outros, se descontinua contextos onde estavam situadas e estruturadas estas vivências, pensamentos e objetos. Tentar ser o outro para com isto legitimar as coisas usurpadas, é um recurso que faz efeito, mas que também gera imprecisão, pois cria contradições a todo instante. O copiado, ao ser enxertado, cria descontinuidade, cria impermanência flagrante ou sutilmente percebida e ao longo do tempo tudo se perde, o que fica são clichês, atitudes e comportamentos que nada explicam. Quando se trata de objetos, terras e contas bancárias, o que é usurpado, embora signifique, também condena e expõe o usurpador, daí só poder ser mantido como números e papéis.

Usurpar e plagiar é criar verdades para o outro que são mentiras para si mesmo. Esta contradição gera tensão e medo, neutralizá-la passa a ser o objetivo. Por isso contradições não são vivenciadas pelos usurpadores, elas são neutralizadas, diluidas, transformadas em solo sobre o qual se pisa e realiza os deslizamentos de mentiras, desonestidades e enganos.















- “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel
- “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde


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