Thursday, December 26

Erro trágico e peripécias

Tudo que é avaliado, medido implica sempre em erro ou acerto. Certas situações são tão óbvias que delas só deveriam resultar acertos, mas, mesmo quando se tenta "agir corretamente", sem questionamentos e sem globalizações se incorre em erro, que em alguns casos pode ser um erro trágico.

Shakespeare, em o Rei Lear, retrata magistralmente o erro do soberano ao trabalhar com o óbvio e o evidente. Obviedade, evidência são recortes parcializantes do existente, recortes integrados nas estruturas das próprias avaliações (autorreferenciamento). O que se destaca só é globalizado quando percebido em função de seus dados estruturais (presente percebido no contexto do presente). O Rei Lear achava que duas de suas filhas expressavam amor filial quando escolheram o que queriam na divisão de seu reino; a outra filha, Cordélia, expressava desconsideração quando apenas se propôs a receber o que a ela se destinasse, afirmando que o amava "como corresponde a uma filha, nada mais, nada menos". Irritado com esta resposta de Cordélia, ele a deserda, a expulsa do reino e o divide com suas duas outras filhas bajuladoras. Esta atitude do Rei Lear foi um erro trágico, que encheu de solidão e sofrimento a sua velhice.

Todo erro trágico, já diziam os gregos, acarreta peripécias.

As lutas, conflitos e peripécias, muito encontradiças na esfera familiar, decorrem de erros trágicos como por exemplo: casar com o outro pelo fato do mesmo ter tudo que se precisa e logo após o casamento descobrir a falência econômica do escolhido; escolher ser advogado pela conveniência das inserções familiares na esfera do judicial e do poder e ser surpreendido pela instalação de uma ditadura que suspende todo o poder judicial, aprisionando seus titulares; querer ser médico para curar as doenças maternas e descobrir que a mãe está a morrer pelo excesso de trabalho necessário ao financiamento de seus estudos médicos.

Garantir segurança através do exílio do que denuncia ou mostra o erro, é trágico, produz caminhos infinitos, peripécias indignas, valores significativamente transformados em moedas de negociação, como aconteceu com Rei Lear.

A tragédia não é o erro, a tragédia é a conclusão equivocada resultante de parâmetros e carência deslocada, de conflitos não questionados que a determinaram. Geralmente, depois das peripécias a verdade aparece e o erro é superado pela constatação do que o ocasionou. Sofrimento, arrependimento são as vivências, os castigos que resultam de querer salvar o impossível, negar o evidente, utilizar o outro. A perda de autonomia é uma das decorrências que logo surge com o erro trágico e é nesta cegueira que as caminhadas, as peripécias se desenrolam. Neste difícil caminho podem ser construídos heróis, que ao se sentirem salvadores, incorrem em novos erros, acarretando novas peripécias, novos personagens; pode também, ao se saberem heróis, questionar o que os engendrou, recuperando assim autonomia, equilíbrio, disponibilidade.















- "Rei Lear" de Shakespeare
- "O nascimento da tragédia" de Friedrich Nietzsche


verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 19

Mídia e poder

Os mecanismos para mudar podem ser tão alienantes quanto os mecanismos de manutenção. A regra ou a imposição do “feliz natal” por exemplo, é uma forma de arregimentar ilusão, polarizar fragmentação em função de cruzadas midiáticas, consumistas ainda que solidarizantes.

Propalar felicidade, liberdade ou atitudes de mudança e afirmação é iludir, é criar expectativas, vendendo de produtos a governos.

Na pós-modernidade, o conhecimento, o saber é um produto que tem preço, consequentemente estrutura a pirâmide do poder, substituindo ideários e ideologias, reforçando títeres, comunidades e partidos: facções responsáveis pelo empoderamento e entesouramento a partir das demandas sociais.

Oficialização e credibilidade de ocorrências, pouco tempo atrás eram validadas pela constatação do “Deu na TV, saiu no jornal, é fato”; este referencial começa a ser falsificado, manipulado; os selos de garantia se ampliam. O selo, a embalagem, validam o produto. Nas redes sociais, por exemplo, grupos de avatares enganosos validam posições políticas que se tornam virais, falseando e influenciando conclusões arbitrárias, mas que se tornam fatos. Lojas de 'padrão excelente', 'pessoas acima de quaisquer suspeitas' são modelos a seguir. A fabricação das embalagens, imagens e despistes justificam, assim, empenhos e sacrifícios - humanidades esvaziadas.

Esconder problemáticas e dificuldades é sobressair, é significar. Paradoxalmente ao se destruir como humano, afirma-se como coisa, objeto que possibilita agradável consumo: vive-se para conseguir ser aceito, usado, comprado.

Orientações midiáticas para o desapego, a solidariedade, a determinação etc conseguem mudar atitudes e comportamentos ao criar patamares de bom e ruim, de padrões sociais valorizados e desvalorizados, mas não passam de mais um artifício para manter posicionamentos, maneira politicamente engendrada de mudar para manter: a maioria pode ser representada por minorias poderosas. As psicopatologias podem passar a ser parâmetros de ações corretas: destruir para conseguir ordem e afeto aparenta ser solucionador (Esparta e Alemanha nazista eram mestras nesta arte). “Tudo por amor” é um clichê, um slogan arregimentador de ódio e maldade, tanto quanto “o mais forte”, o imponderável que arrebata e justifica é o esconderijo de frustrações medos e não aceitações.

Mudança é intrínseca às contradições e aceitação das mesmas. Aparentar, obedecer são intrínsecos aos processos manipuladores da sobrevivência.

Quando o conhecimento, este dado relacional, é transformado em produto, criam-se posicionamentos, estancamento de processos fragmentadores do estar no mundo. Estas divisões segmentam a vivência. Convergência e divergência são artificialmente estabelecidas: barreiras, limites, preconceitos determinam, então, a trajetória humana.

Não se muda por decretos, por orientação de mídia nem por desejos e metas. Artificialidade, aderência não configuram legitimidade, apenas geram apropriação de regras e sistemas alienadores.




“A grande guerra pela civilização” de Robert Fisk
“Conversas com Albert Speer”
de Joachim Fest
“A Informação”
de James Gleick



verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 12

Harmonia

O sentido da impermanência, da finitude, só é aceito sem divisões através da coerência. Coerência é ultrapassar divisões, é, detendo-se no instante, transcendê-lo pela ultrapassagem dos limites, pela ultrapassagem dos propósitos. Neste sentido, coerência é iluminação, é destruição de sombras criadoras de espaços, de finitudes arbitrárias. Diante do outro, do dado, sem linhas de convergência ou de divergência, neutralizam-se direções, polaridades. É o equivalente do equilíbrio da chama da vela falado pelos iogues: impermanente e sutil.

Esta vivência do presente continuamente presente é o que permite unidade. Sem divisão não há constatação, não há avaliação, existe apenas conhecimento, fruição da permanente impermanência, da continuidade do estar no mundo. Ser com o outro é o único definidor.

Estar desvinculado de tudo e integrar-se no vivenciado é o que permite vida, sensibilidade, conhecimento. Sem esta vivência, a possibilidade humana é drenada nas contingências: vivifica coisas e se desumaniza. Percebendo que percebe, constatando, se avalia, se compara, se decide e se esgota como possibilidade nestes processos, embora se afirme como individualidade estruturada e passível de autonomia. Coerência é o que se impõe para globalizar todo o percebido, contrastes e individualizações. Quanto maiores forem as segmentações, pontualizações, divisões e recortes, mais sombras, iluminação comprometida com efeitos densificadores, mais contradição, ilusões de permanência na impermanente continuidade do estar no mundo.

Disponibilidade, integração e dedicação - a aceitação e a determinação ao enfrentar o contraditório integrador ou alienador - são os estruturantes de coerência, de harmonia.

Viver é se relacionar com o possível e o impossível, é aceitar o limite, a impotência e a possibilidade infinita de estar no mundo, detendo-se em abismos, superando-os ou sendo por eles tragados ao exercer certezas e enganos. Na coerência não existem ilusões, ou estas são as premissas das transcendências estruturantes, desestruturantes, mas, infinitas por definição, desde que tudo ilumina.














- "Phenomenology and existence - toward a philosophy within nature" de Marvin Farber
- "Enterrem meu coração na curva do rio" de Dee Brown


verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 5

Nada se esgota em si mesmo

É verdade, mas as coisas se esgotam em si mesmas enquanto vivência; esta inevitabilidade é transformada pelos contextos, pelos processos. A continuidade, o relacional é o processo, o movimento, a dinâmica do estar no mundo. O que é feito, o que é realizado é único enquanto vivência, mas estabelece diferenciações, significados, deixa marcas. São as implicações, as resultantes, as decorrências no sentido da continuidade processual. Não é causa, não é efeito, são momentos, passagens e paisagens diferenciadas e diferenciadoras.

No âmbito individual, tudo isto poderia ser relacionado ao processo de memória. Memória não é apenas um receptáculo de vivências, é também o start, o início de novas cogitações e considerações. A memória individualiza à medida que constrói, que estabelece o eu, o ego, referencial de individualização enquanto vivência - embora sem significação como possibilidade relacional devido a sua característica indicativa de registros e posicionamentos. Quando, à partir do registrado e posicionado, se busca significar possibilidades relacionais, apenas se estabelece padrões e critérios aquém ou além do vivenciado.  Memorizar é esgotar, mesmo quando se recorre a estes dados armazenados - é o passado - não atua ou se o faz já é presente. Kurt Lewin, em seu Princípio da Contemporaneidade, falava isto: não se pode explicar o presente pelo passado; em física, a força atua e consequentemente o movimento existe, não se pode explicar o que agora está se movendo pelo que antes atuava. Freud achava que as vivências passadas eram os determinantes do comportamento presente, assim, arbitrariamente segmentou o humano ao admitir o inconsciente como a chave mestra para entender motivação, memória e determinação. Ele comparou o inconsciente a um fantasma criador de situações inusitadas e inéditas; é o seu famoso Kobold im Kellar - fantasma da adega - o inconsciente.

As coisas se esgotam em si mesmas enquanto vivência, mas suas trajetórias criam desenhos, configurações responsáveis por continuidades ou desvios. Otimizar a vida em função dos próprios objetivos, por exemplo, traz vantagens, que na sequência são desvantagens para o otimizador; no mínimo, pelo oportunismo, estabelece posicionamento imobilizador.

A continuidade dos processos sempre leva à transformação, então, quando isto ocorre em posicionamentos imobilizadores, já não se consegue manter o que fez ficar bem. As realizações decorrentes do lucro, esgotam as possibilidades do mesmo - toda mudança de ordem social, econômica e política demonstra isto.

Indivíduos que sistematizam normas e regras, ao verificar a defasagem das mesmas e ainda assim mantê-las, são baluartes do "choque de geração" expresso no contato com os mais jovens e na dificuldade de aceitar o novo, o diferente. Para estes indivíduos as coisas se esgotam em si mesmas, não possibilitam implicações e nesta vivência estagnada, perceber suas coisas, em si mesmo esgotadas, é uma constante. Depressão, medo e revolta, passam a ser o alfabeto tradutor de seu cotidiano - velhice é isto.


















- "Le Démon de la Tautologie" de Clément Rosset
- "Sur le Rêve" de Sigmund Freud


verafelicidade@gmail.com