Thursday, November 28

Ajustes e regulações

Padronizar, regular são adaptações necessárias que realizam o ajuste indispensável ao bom convívio, entretanto, isto pode apenas realizar opressão e submissão.

Ao querer dar certo, ser eficiente, se utilizam modelos decorrentes de avaliações circunstancializadas, de esperanças e consequentes ilusões, desde que o padrão, as regras defasadas são transpostas: são anteriores ao vivenciado, são passado, são voltadas para o futuro, se referem a limites, espaços diferentes dos agora situantes.

Este posicionamento expectante cria tensões, cria angustias e coloca o indivíduo à mercê de autorização, de validação alheia a seus contextos relacionais. Adaptar supõe sempre um propósito ou uma falha a ser corrigida. Os critérios de congruência e validade são fôrmas, moldes que esperam receber a "massa humana" e adaptá-la a objetivos genéricos, não individualizados. Ser moldado é organizador, adaptador, mas também aniquila a liberdade (autonomia).

As regras do bem viver não podem ser resultantes de avaliação e decisão sobre o melhor ou o pior em detrimento da individualidade. Contingenciadas, valoradas em parâmetros extrínsecos, elas invalidam seu objetivo. Alemanha nazista, ditaduras populares e militares, Inquisição, por exemplo, foram responsáveis pela entronização de valores destruidores do bem conviver, destruidores de vidas em função de causas arbitrárias.

Buscar o ajuste para ter sucesso, para satisfazer pais autoritários é fonte de mentiras e enganos na constituição de famílias ditas equilibradas, famílias que funcionam como cobertura de vidas duplas e esgueiradas do que é considerado desadaptado e anormal. Abrir mão dos próprios desejos e certezas para realizar as frustrações e fantasias dos pais, cria base para incestos, pedofilias e outras perversões intrafamiliares, por exemplo. É o ajuste para disfarçar e realizar violência e massacre.

Todo ajuste deve ser questionado para que não se torne uma máscara que se prende ao corpo, dilacerando-o. Vivênciar e questionar as implicações dos próprios atos e desejos é uma maneira de não cair nas armadilhas do devido, do sensato, terreno fértil para preconceitos.

Padrão corresponde sempre às frequências anteriores, regularidades que funcionam, mas que são bitolas defasadas. Comprimir, encaixar subverte o indivíduo criativo e também subverte o "doente", o mórbido, o maléfico. Não há como homogeneizar esta disparidade: o intrínseco do extrínseco, a imanência da aderência.

Liberdade e novidade imperam no mundo humano. Compromisso e repetição limitam o mundo mecânico dos sobreviventes, desumanizados pelos seus anseios e metas. Aceitar a própria condição, seus limites e possibilidades, é a única forma de criar bem viver, bom convívio, harmonia. A violência, que assistimos impotentes, é um dos sintomas das regras sociais, econômicas e psicológicas. Paradoxos e contradições não podem ser resolvidas por decretos, regras, submissão ao certo, devido, autorizado.
















- "Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira" de Marcio Pochmann
- "A vida do espírito" de Hannah Arendt


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Thursday, November 21

Arrumação

A organização é intrínseca aos processos perceptivos, a própria Lei de Figura/Fundo* possibilita isto, tanto quanto possibilita distorção, desorganização. Tudo vai depender das relações estabelecidas com o mundo, com os outros. Quando a imanência dos processos relacionais organiza e isto é permanentemente continuado através de questionamentos e mudanças, se estrutura autonomia ou na linguagem comum se estrutura auto-confiança. Se os questionamentos são decorrentes de metas, desejos e medos eles geram posicionamentos advindos de certezas e crenças, que ao organizarem o não existente - o futuro - desorganizam o presente.

As sociedades, através de suas instituições, principalmente as educativas e religiosas, procuram organizar, educar e acenar com explicações geradoras de conforto e paz diante das vicissitudes. Educação, quando focada em necessidades a satisfazer, se constitui em um verdadeiro atentado ao humano e a religião ao tentar organizar o medo, através da fé, mobiliza o egoismo, prometendo vida eterna, paraiso etc ou quando busca melhorar a impotência, recordando que poderia ser pior, se constitui em fator de alienação. Administrar medos, esperanças e dificuldades é um dos principais objetivos religiosos.

Qualquer organização extrínseca aos processos se transforma em poder alienante; as arrumações, então, são necessárias e frequentes para que se consiga exigir subordinação a rituais, regras e padrões.

Religião oprime quando busca conduzir indivíduos aos pontos de certeza postulados por outros. Viver sob a égide de uma religião é uma maneira de alienar-se.

Religião é sensibilidade, é criatividade quando é encontro consigo mesmo através do outro, quando não é regra/ritual a ser processado em função de arrumações que precisam ser mantidas. Ser religioso é estar livre, aberto ao outro, ao mundo, ao absoluto/relativo da existência; é estar disponível para a possibilidade de transcendência - experiência do além do limite e circunstâncias - aplacando assim os problemas ao realizar continuidade humana além dos obstáculos sobreviventes. A religião institucionalizada tenta organizar, mas pode estar alienando quando transformada em mediação entre o contingente e o absoluto. O dito espiritual transcende as formas religiosas e suas arrumações.

Flexibilizações, dispersões também organizam e arrumam ao separar o joio do trigo, ao entender o constituído e o constituinte, ao perceber igualdade e diferenças como sinônimos. Tudo vai depender da liberdade ou do compromisso.

A organização transforma se for intrínseca aos processos vivenciais; quando ela é aderente, fracassa, é armadura esmagadora do humano.

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* Gestalt - Reversibilidade perceptiva, lei da percepção: o que se percebe é a Figura, estruturada em um Fundo não percebido, quando o Fundo é percebido ele se torna Figura; são reversíveis, a Figura se transforma em Fundo e vice-versa.



- "Galileu" de Philip Steele
- "Joana d'Arc, a lenda e a realidade" de Frances Gies
- "Sociedade Sem Escola" de Ivan Illich



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Thursday, November 14

Trunfos, amuletos e contra-egun

Estar no mundo, deparar-se com o inesperado, com perigos e dificuldades, gera medo ou no mínimo insegurança e apreensão. Deter-se nesta vivência leva a questionamentos que permitem que o indivíduo descubra mudanças em sua percepção: o percebido pode se tornar libertador, as dificuldades podem significar confrontros esclarecedores e o inesperado é o novo que sempre questiona; entretanto, quando voltados para manutenção de situações e conquistas, se evita, se foge do que não está sob controle, mas se sabe que o imponderável, o fora de controle existe, isto amedronta e o individuo busca proteção.

No afã de tudo garantir, são criados locais blindados pela proteção da família, de amigos, pela garantia do dinheiro, dos amuletos, do poder e de estratégias. São os trunfos, que vão desde "o sabe com quem está falando", "o dinheiro tudo resolve" até "não mexe comigo que eu não ando só".   

Pensar que a vida está garantida através do exercício de recursos e estratégias, compromete, neurotiza. A necessidade de garantia e certeza constrói duplos, seres inseguros que só se mantém amarrados aos seus pedestais de compromisso, crença e ilusão. A imobilidade assim conseguida, estratifica: vitoriosos e fracassados, ricos e pobres, protegidos e prejudicados passam a ser os determinantes das cogitações relacionais.

Neste universo organizado pelas significações aderentes, surge o homem temeroso, oprimido pela necessidade de bons resultados. E assim, crenças, trunfos, amuletos, contra-eguns* são decisivos, são a proteção para enfrentar a considerada selva, proteção para sobreviver.

Voltar-se para o além daqui, para o ainda não vivenciado, criando expectativas, transformando tudo em indicações, é abrir mão da liberdade; é circunstancializar-se subvertendo a dialética das próprias vivências: o sim é o não, o não é o sim e nesta alternância a instabilidade se torna constante, permitindo condição de mudança, de flexibilização, puramente ilusórias.

Proteger-se é bom, é salvador, mas também pode ser aniquilador, no mínimo a autonomia é substituida por rituais sociais e religiosos.

Autonomia só é possível como resultante da satisfação de estar entregue a si mesmo, no mundo com os outros.

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* No Candomblé de tradição yorubá, contra-egun é a palha da costa tecida e colocada na parte superior do braço e cintura, usada geralmente após a iniciação no Orixá como proteção contra os espíritos (egun).
















- "El Monte" de Lydia Cabrera
- "Mitos, emblemas e sinais" de Carlo Ginzburg


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Thursday, November 7

Mitos

Hobsbawm já escreveu sobre a invenção das tradições como fator importante nos processos ideológicos, nos processos históricos. A construção de identidades através dos mitos de origem são frequentes nas sociedades, gerando manipulações das mesmas para conseguir "benesses" dos poderes públicos, assim como possibilitando a criação de histórias que servem para deslocar não aceitações.

Reis, rainhas povoam o imaginário dos adeptos de Candomblé e muitos deles, oprimidos e escorraçados deslocam suas não aceitações, utilizam máscaras régias, fazem uma fusão entre os mitos, lendas de seus Orixas com sua personalidade. Têm sido tão frequentes estes processos no Brasil, que foi pesquisado por Monique Augras - psicóloga - como estudos de personalidade, no livro "O Duplo e a Metamorfose".

Temos outro exemplo na cultura indiana clássica, que engendra esta fusão entre mito, identidade e ideologia. Na India, com seus múltiplos deuses e avatares, a heroina Sita do Ramayana é o modelo de identidade feminina: mulher submissa, esposa, mãe, raptada, vítima injustiçada salva pelos deuses; identificação valorizada que serena e mantém a obediência às regras familiares. No âmbito das manipulações sociais, as divindades Kali e Durga, muito violentas, são modelos, são exemplos que se seguidos, possibilitam energia, força para enfrentar conflitos e por isso mesmo, servem à manipulação política do imaginário popular nas lutas entre grupos religiosos.

Nas sociedades ocidentais em geral, baseadas na tradição greco-romana, a identificação com os mitos desta tradição já não é operativa.  Atualmente se insere no mundo contemporâneo ocidental, a idéia de vidas passadas (Karma), por exemplo, de reencarnação como explicitação de situações paradoxais, inesperadas e não aceitáveis, mas, que justificam identidades.

Quando os mitos são deslocados de sua função resultante, decorrente de perguntas diante dos "mistérios" do mundo e passam a ser utilizados como background, como base, surge uma inversão penosa, desagregadora. Enganos são estabelecidos, reis, rainhas, deuses abundam, mitigando o desespero, criando deslocamentos, produzindo válvulas de escape para drenar a não aceitação que congestiona, deslocamentos expressos em frases como: "sou pobre, mas minha família era latifundiária", "venho de origem real da Nigéria", "ser mulher é assim mesmo, eu sei sofrer", "é o meu karma, por isso sou assim" etc.

Quanto mais é mantido o mito como explicação da identidade, mais alienação e ilusão se estabelecem. Psicologicamente, este deslizamento de conceitos é importante para entender os contorcionismos gerados pela não aceitação. De tanto repetir, se acredita e assim se organizam comunidades que sobrevivem deste saber, desta tradição reinventada; cenários que obrigam a desempenhos e camuflam não aceitações, além de se constituirem em ilhas de fantasia enganosa.



- "A invenção das tradições" de Eric Hobsbawm e Terence Ranger
- "O Duplo e a Metamorfose - a identidade mítica em comunidades nagô" de Monique Augras
- "The Buddhist Saints of the forest and the cult of amulets" de Stanley Jeyaraja Tambiah


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