Thursday, October 31

Objetificação do relacional

As ambiguidades, as indefinições geram a necessidade de explicitar o sutil; é uma atitude responsável por dúvida, avaliação e consequentes necessidades de comprovação: especular, flagrar, classificar, fotografar garantem e sistematizam. A formação de símbolos, de ícones, nas suas diversas formas de imagem e metáfora tornam denso, tornam pregnante o relacional, encobrindo assim, as infinitas possibilidades dos processos, configurando-os como Boa Forma* e frequentemente criando distorções.

Hábitos são formados, novas histórias e demandas surgem, frequentemente geradas por distorções e enganos. Reivindicações e protestos costumam adensar e fragmentar possibilidades, quando ancoradas em posicionamentos causadores de maniqueismo entre bom e ruim, certo e errado, familiar e estranho, por exemplo. Estas divisões são destruidoras da temporalidade, da unidade dos processos. Transformar o existente em ponto de convergência, em referência de um sistema, cria posicionamentos destruidores da totalidade; as partes transformadas estabelecem novas percepções distorcidas, parcializadoras e sempre, ao transformar a parte em todo, maximizam o percebido. Esta reversibilidade perceptiva cria adensamento sonegador das relações implícitas nas sutilezas processuais.

Antropomorfizar, tomar a forma humana como padrão, é um exemplo destas convergências, é uma maneira de tornar próximo, tornar familiar o não semelhante, o diferente. Isto causa enganos e ilusões. Deuses, entidades mágicas são por este processo entronizados, assim como, já por ulterior desenvolvimento, idéias de superior, inferior e primitivo resultam de cogitações baseadas em antropomorfismo; é clássica a explicação dada por Platão para a formação e regulamentação da sociedade: os filósofos (superiores - cabeça) governavam, orientavam; os soldados protegiam e os camponeses (inferiores - pés) sustentavam, proviam. O corpo, a forma humana, era o modelo validado para criação do (corpo) social.

Atitudes etnocêntricas foram criadoras de visões compactas e isoladas sobre sociedades e culturas. Postular "inferiores" e "primitivos" como codificação de diferenças, foi uma maneira de facilitar, segmentar e dividir para afirmar os próprios modelos.  

Psicologicamente, viver neste universo densificado deriva da necessidade de segurança, resultado e sucesso; cifras, diplomas e anel de compromisso substituem o relacional. Abrigar, guardar, deter impõem caixas, gaiolas - espaços de segurança e garantia, que posicionam as vivências. Buscar a "pílula da felicidade", a droga que acalma, o reconhecimento que acha merecer, é também uma maneira de densificar, pontualizar em supostos inícios e esperadas soluções, é destruir matrizes relacionais, tessituras promissoras. Surge a causalidade criando divisões para tentar controlar as contradições. Na objetificação do relacional, o próprio espaço, o que está acima, o que está abaixo, o que melhora, o que piora é o mapa a ser organizado e seguido. A densificação sempre cria tijolos, futuros muros, muralhas que defendem, dividem e isolam. Antropomorfizar e simbolizar é exercer autorreferenciamento, é, no afã de ententer o outro através de comparações, negar toda a relatividade processual.

Descobrir o outro só é possível quando não existem modelos, paradigmas para abraçá-lo, captá-lo.

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* Boa Forma é a lei da percepção que diz ser mais pregnante (perceptivel) o já conhecido, o mais simétrico e nítido, por exemplo. É a percepção privilegiada pela pregnância da organização perceptiva. Exemplo: o velho que chora e se arrasta é percebido, geralmente, como vítima - mas pode ser um algoz. Hitler velho, seria um velho, mas era Hitler velho submerso na pregnante velhice, no caso, solapadora de realidade e vivência.


- "La question de l'homme et le fondement de la philosophie" de Didier Julia
- "Le sens du temps et de la perception chez E. Husserl" de Gêrard Granel


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Thursday, October 24

Metamorfoses e imitações

"O animal arranca o chicote de seu senhor e chicoteia a si mesmo para se tornar senhor, mas, não sabe que isto é apenas uma fantasia, produzida por um novo nó na correia" - Franz Kafka

A prepotência, resultado da tentativa desesperada de copiar, imitar, cria os improvisadores precários e emergentes. Sem base, sem estrutura de aceitação de seus problemas e vivências, surgem palafitas, suportes e construções para o que se esvai e se perde nos contorcionismos da labuta para sobreviver. Quando se percebe que a fantasia, o adereço é diferente do legítimo, se percebe também que muito já foi conseguido: várias imagens vendidas foram compradas, bons resultados apareceram. Conclui-se que é melhor continuar ganhando, comprando, plagiando, imitando e então, abrindo mão do espontâneo e vivo, aprimora-se a aparência, a representação - mais imagem.

Imitar é fantasiar. Fantasiar é encobrir o que se considera feio seja antecipando o futuro pelas metas e realizações desejadas, seja encobrindo o passado através de disfarces que podem repaginar, apresentar um novo ser, uma holografia das não aceitações, roteiro para dinamização do humano forjado.

Mas, a dinâmica relacional é única e específica, não pode ser reproduzida. É impossível inventar a si mesmo ainda que usando o outro como matéria-prima. A imitação é um processo que cria inesperados, cria armadilhas: o indivíduo, vivendo em função de faz-de-conta, de aparência, perde a dimensão do presente, a dimensão do outro e se transforma em máquina construída a ser mantida. Encontramos esta dinâmica em toda parte, nas famílias, nos escritórios, nas repartições, nas redes sociais, na esfera política etc seres que, se imaginando senhores livres, apenas apertam suas coleiras e cabrestos.

 



- "É preciso duvidar de tudo" de Søren Kierkegaard
- "Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches" de Bruno Latour


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Thursday, October 17

Diferenças nas psicoterapias

Toda psicoterapia é semelhante em seus objetivos de melhorar, individualizar, criar condições para resolver as problemáticas que infelicitam o ser humano, entretanto, esta igualdade se dissolve, aparecem grandes diferenças, quando consideradas as fundamentações teóricas, conceituais, metodológicas responsáveis pela visão do que é comportamento, do que é ser humano, consequentemente, de como tratar e modificar os problemas humanos.

Além da psicoterapia gestaltista, atualmente podemos ordenar as psicoterapias em dois grupos principais: psicanalíticas ou de fundamentação freudiana e as baseadas em neurologia, biologia. Orgânico, biológico, neurológico estão, assim, conceitualmente opostos ao psicológico. A gestalt therapy, de Fritz Perls, apesar de falar em gestalt, fundamenta-se em dualismos e mantém o conceito de inconsciente. Perls dizia "perca sua mente e ganhe seus sentidos".

O que caracteriza o pensamento de visão psicoterápica, ao longo das épocas, é o dualismo, a separação entre homem e mundo. Os freudianos pensam o homem em oposição ao mundo (homem x mundo); os funcionalistas - William James e agora os neurologistas - acham que há uma interação (homem e mundo), organismo e funções; os behavioristas postulam que tudo decorre do processo de aprendizagem, é o homem do mundo. Assim, Descartes e Aristóteles continuam nas divisões corpo e alma (Descartes), tanto quanto nos reducionismos classificatórios (Aristóteles).

Na psicoterapia gestaltista considero o homem no mundo uma gestalt, uma unidade, integrando os conceitos da gestalt psychology e atualizando-os através das visões fenomenológica e dialética (inexistentes na gestalt psychology). No processo de criação da psicoterapia gestaltista, chegar a esta conclusão foi básico e definidor para mim, pois, ao enfocar os processos psicológicos, pensava na relação. Mesmo na gestalt psychology havia divisão entre homem e mundo, orgânico e psíquico, corpo e alma; não era enfatizada a relação. Para mim, a relação é o que existe e através dela falo em possibilidades e necessidades. O homem está no mundo limitado por necessidades orgânicas, processos biológicos e libertado pelas suas possibilidades relacionais, que são infinitas, desde que não se posicione no sobreviver.

O tratamento psicoterápico, sob o ponto de vista da psicoterapia gestaltista, é propiciar mudança da percepção do indivíduo acerca dele próprio e dos seus referenciais, consequentemente de "seu" mundo (homem-no-mundo é uma unidade). Isto só é possível ao globalizar sua divisão, segmentações estruturais geradas pelo autorreferenciamento criado pela não aceitação estruturadora de metas, desejos e demandas.*

Trabalhando a percepção, desde que perceber é conhecer, muda-se o comportamento. Na psicoterapia gestaltista, não existe inconsciente, consciente ou instinto. Tudo é relação, tudo é processo dialético. As globalizações terapêuticas são responsáveis por questionamentos e configuração das problemáticas. O processo terapêutico é "arte do diálogo", bem diferente da "arte da escuta" freudiana.

Koffka, Koehler e Wertheimer, gestaltistas clássicos, não estabeleceram procedimentos psicoterápicos; estavam dedicados a modificar os conceitos psicofisiológicos quantitativos e o conceito de sensação como captação de dados posteriormente elaborados pela percepção. Jamais imaginaram a percepção como sinônimo de conhecimento, jamais afirmaram que perceber é conhecer, como afirmo, pois que estavam comprometidos com visões elementaristas e dualistas, apesar de seu conceito de gestalt - globalização que só aplicavam ao considerado mundo físico. Esta divisão era típica da época, início do sec.XX e correspondia ao esforço de transformar a psicologia em ciência. Eu, beneficiada pelos estudos de percepção da gestalt psychology e pela  formação em materialismo dialético e fenomenologia (Husserl), pude unificar o dividido, afirmando que o homem está no mundo e que perceber é conhecer; esta é sua estrutura relacional significativa, que anteriormente era chamada de consciência.

Infelizmente a idéia de relação, de relacional, ainda se perde na densidade contingente dos pontos de partida, das causas prévias: traumas, instintos, repressões, vocações, mapas genéticos.

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* Para quem interessar leitura sobre o desenvolvimento dos conceitos por mim criados, clique aqui: "Criação, questões e soluções da psicoterapia gestaltista", Revista E-PSI



- "Psicoterapia Gestaltista Conceituações" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Trois Essais sur la Théorie Sexuelle" de Sigmund Freud


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Thursday, October 10

Incompatibilidades

No trabalho psicoterápico é frequente ouvir pais se queixarem das "incapacidades" dos filhos. A idéia de incapacidade é sempre avaliada em função do rendimento escolar e da socialização. Crianças autistas, crianças com deficit intelectual, consideradas fronteiriças quanto ao QI, ao serem conduzidas às escolas, não conseguem o rendimento desejado. Geralmente os pais não aceitam a afirmação de que tanto faz que seus filhos sejam bem-sucedidos nas letras e números ou em desenho, pintura e dança, que não faz diferença se são alfabetizados, se se tornarão doutores, que o importante para a criança é ser aceita como ser humano que tem capacidades e possibilidades a desenvolver. Quando assim questionados, alguns chegam a afirmar que tudo bem se o filho ficasse só em casa, se não precisasse ir à rua, se não tivesse "vida social", que o avalia e inferioriza.

Público e privado, social e individual, sociedade e família são agrupamentos, são contingências que não se excluem, se completam a depender das integrações exercidas.

A criança aceita como ela é, se torna feliz, espontânea e esta disponibilidade criará algo onde ela poderá exercer excelência. Crianças super capacitadas quando criadas diante de padronizações, mantêm divisões como nós e os outros, sociedade e família, por fim mínguam, colapsam seguindo regras inflexíveis. Este não ver em volta pontualiza, reduz as vivências, as dimensões contigenciadas por utilidade e inutilidade, lucro e prejuizo.

Estabelecer e alimentar o conflito entre indivíduo e sociedade é se dedicar a criar pontes, mediações, aderências destruidoras do processo de ser com o outro à medida que tudo é transformado em posição, pontos a atingir e superar.

Ser humano é ser uma possibilidade que não deve estar estabelecida em parâmetros baseados em necessidades de outros, consequentemente distantes e destoantes de si.

Quando os pais percebem que a sociedade e a família não são antagônicos, que não existe divisão, que tudo é contínuo, eles apreendem a unidade significada pelo filho problemático, deficiente e assim conseguem mudar suas demandas, seus esquemas de pode não pode, libertando seu filho, anteriormente escravo de suas aspirações frustradas. As incompatibilidades são transformadas. Surgem dançarinos, artistas, atores, doutores, professores, cantores, cozinheiros, jogadores de futebol e experts em vida, em felicidade.


















- "Dibs: em busca de si mesmo" de Virginia M. Axline
- "Brilhante - a inspiradora história de uma mãe e seu filho gênio e autista" de Kristine Barnett

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Thursday, October 3

Exigência

Exigência é a alavanca que move os anseios de mudança e superação, é também a linha de demarcação que aniquila o presente, dividindo e fragmentando o humano; transforma os processos direcionando-os para resultados circunstancializadores do comportamento.

O indivíduo, limitado entre conseguir e não falhar, faz com que tudo seja instrumentalizado. O outro é a variável interveniente, responsável por sucesso e fracasso. A avaliação constante, positivo e negativo, bom e ruim, enfim, os valores são premissas e resguardos configurados como forma de estar no mundo. Exigir, atingir é o que conta. Estes robôs processam e exigem matéria prima. A vida se transforma em regras. As notas escolares validam as relações com os filhos, os acréscimos salariais determinam a felicidade e alegria cotidianas, por exemplo.

Exigir é perder, desde que toda contabilidade busca comparação, supõe erros, supõe acertos transformados em evidências e selos de garantia. Perdendo o presente, balizado e validado pela demarcação, pela busca de um futuro que deverá modificar o erro passado, o indivíduo é esmagado, oprimido pela exigência. O direito substitui o legítimo; a vontade só é exercida através das brechas possibilitadas pelas alavancas - os instrumentos eficientes.

Pedestais de garantia e certeza entronizam culpas, medos, vitórias e fracassos. Processos de desumanização são substituídos por sintomas: pânico, depressão, angustia. Exigir amor, exigir sucesso e superação, exigir acerto é estabelecer armadilhas imobilizadoras.

Exigir é uma maneira de escravizar, é o bom-senso que move a alienação, a submissão ao devido. É através da exigência que se constrói a negação dos processos, substituindo-os por regras, normas e parâmetros.














- "Cultura com aspas" de Manuela Carneiro da Cunha
- "A Folie Baudelaire" de Roberto Calasso


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