Thursday, September 26

Extrapolações

Deparar-se com qualquer situação, avaliando, negando e afirmando suas possibilidades e impossibilidades através de critérios alheios à situação que está ocorrendo, distorce o percebido. As conclusões não decorrem da estrutura percebida e sim dos próprios critérios. Este autorreferenciamento, além de invasivo, é destruidor do que se pretende compreender. Extrapolar dados é distorcer, é por exemplo, negar problemas enfocando-os sob os próprios pontos de vista, a partir das próprias necessidades.

Mães que não sabem o que fazer diante da depressão e angustia dos filhos são aquelas que não se relacionam com os mesmos desde muito; fazer qualquer coisa é um ato livre que não cabe nas cadeias do medo e comprometimento. Entregar o problema dos filhos aos psicólogos, educadores ou autoridades punitivas, é para elas, a solução. Esta extrapolação, cria nova métrica, ritmos diferentes dos da própria relação entre mãe e filho - dois seres, duas pessoas. Entrincheirar-se em certezas ou medos é um posicionamento que garante distanciamento, proteção, mas que desconsidera o que ocorre. Abrir mão, sentir-se sem condições e aceitar isto sem conflitos, sem impasses é uma maneira autorreferenciada de negar os próprios problemas, sufocando-os na alienação sobrevivente.

Vazios gerados pelos dados e situações extrapoladas criam também incertezas, passividade e submissão, que vão além do que ocorre. Perde-se determinação, aumenta-se a espera, a fé e a torcida por dias melhores. Direitos e deveres passam a ser norteadores do comportamento, sem se questionar a desumanização gerada por tais métodos. O legítimo, o autêntico, a compaixão, a solidariedade são substituidas pelo útil, cabível e devido. Neste processo mecânico, acertos e falhas são fundamentais para verificar bom funcionamento, lucro e prejuizo. A vida, as relações deixam de significar enquanto elas próprias, apenas sinalizam conquistas, bem-estar, mal-estar, problemas a enfrentar através de atitudes que eternizam vazio e despropósito.















- "A Essência da Liberdade Humana" de F. W. Schelling
- "O Desenvolvimento da Lógica" de William Kneale e Martha Kneale


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Wednesday, September 18

Bulimia

Bulimia é um dos deslocamentos da ansiedade . Este deslocamento é feito através de exagerada ingestão de alimentos, tanto quanto, ela, a ansiedade, é reabastecida por este mesmo deslocamento. O cerco se fecha. Quanto mais come para aplacar ansiedade, mais ansioso se fica, assim como mais desesperado em constatar um dos efeitos desta atitude: a engorda. Diante da constatação do limite (o corpo engordando), engendra-se soluções impossíveis: não engordar, esquecer o problema (o que causa a gordura) e se agarrar no resultado solucionador: vomitar o acumulado, jejuar, ingerir remédios emagrecedores e diuréticos; isto é vivenciado como neutralização de todos os problemas. A maioria das pessoas bulímicas têm peso normal e conseguem esconder seus problemas alimentares e ansiedade atrás de uma aprência física "normal": engordam e emagrecem em curtos períodos e se desesperam diariamente no esforço de manter suas práticas alimentares desapercebidas por familiares e amigos (tanto o comer compulsivamente, quanto os vômitos por exemplo).

Este comportamento bulímico (criação de uma imagem de normalidade que esconde os problemas) não difere das formas mais comuns da neurose, encontradiças na clínica psicoterápica. Diante da não aceitação dos próprios problemas, uma série de imagens, de esconderijos são construídos e desconstruídos em função de circunstâncias, omissões e conveniências. Referenciais são perdidos, chega-se ao ponto de não se saber quem se é. O processo de despersonalização é uma maneira de não sofrer com a constatação do que se é, do que se faz, embora, como na bulimia, cause estrago e danos irreversíveis vivenciados sob forma de angustia, pânico e depressão.

Atitude onipotente - achar que vai conseguir disfarçar e esconder a própria dificuldade e problemática - gera um nível de fraqueza e inautenticidade que mais os coloca à mercê do outro. É muito comum encontrarmos estas pessoas vivendo sem autonomia, circunstancializadas e balizadas por sucessos e fracassos. Fazer de conta, criar imagens, é a grande armadilha que se constrói para si mesmo, desestrutura psicologicamente da mesma forma que o enfraquecimento que vemos no organismo devastado pelas práticas bulímicas.















- "A Cozinha da Alma" de Jasmin Ramadan
- "O Inumano" de Jean-François Lyotard

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Thursday, September 12

A psicoterapia dinamiza, a problemática imobiliza

O questionamento é a alavanca, o combustível que permite continuar a trajetória humanizada, a dinâmica de ser no mundo.

Posicionado e imobilizado, cercado e identificado pelas próprias dificuldades e problemas, o indivíduo colapsa, perde dinâmica. Toda sua movimentação é na construção de máscaras, pontes e artefatos para atingir soluções e assim se dividindo, se fragmentando. O outro, enquanto terapeuta, através do diálogo, ao globalizar os pontos de fragmentação, os núcleos de não aceitação, possibilita que o indivíduo tenha novas percepções acerca dele próprio. É um momento de dinâmica que altera a imobilidade do ajuste/desajuste gerado pela problemática, pela não aceitação e sintomas. Quanto mais questionamento, mais mudança; quanto mais busca de solução dos problemas mais desgaste, mais deslocamento, mais metas e desejos de resultados saitsfatórios, consequentemente de ansiedade.

No posicionamento imobilizador gerado pela problemática, a ansiedade é uma constante. Tentativas de correr de um lado para outro, imobilizado pela amarração aprisionante, criam a ilusão de movimento e dinâmica, através da ansiedade gerada como residuo; quando transformada em situação nova e independente a ansiedade se transforma na ilusão criadora de vício, hábitos que a arrefece. Um destes aspectos é o conhecido prazer de ir às compras, ou as masturbações assíduas ou os diversos vícios como alcoolismo, redes sociais, jogos etc. A ansiedade cria demandas, como se fossem ilusões ópticas, que parecem comportamentos obsessivos e descontrolados: a ilusão de movimento obriga a busca de freios, de paradas. Nada dinamiza, tudo imobiliza. Quanto mais bebe, menos sente que bebeu, quanto mais busca o prazer sexual, menos goza, enfim, quanto mais se move, mais parado está.

A imobilização criada pelos posicionamentos problemáticos e deslocada pela ansiedade aniquiladora, só pode ser interrompida pela dinamização psicoterápica. Outras dinâmicas às vezes aparecem, mas como não globalizam o que tem que ser dinamizado, são esgotadas, extenuadas, gerando mais fragmentação, mais posicionamento. Apenas a dinamização do questionamento permite a unificação, a aceitação e transformação dos problemas.














- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos" de Giordano Bruno

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Thursday, September 5

Aprisionado ao bem-estar

Adaptação, acomodação, adequação são frequentemente sinônimos de limites, renúncias e aprisionamentos.

Manter compromissos, negar a própria vontade, disfarçar desejos, esconder e negociar motivações é uma maneira de construir alienação, despersonalização. Nada mais tranquilo, neste contexto de alienação, do que o previsível, o certo e limitado. A organização realizada por aderências - padrões e regras - é o que existe de mais alienante e aprisionador.

Sem determinação não há iniciativa; vive-se a ilusão de ter iniciativa através da chamada escolha. Este acaso arbitrário - a escolha - é muito valorizado por trazer colorido à vida. Brincar disto ou aquilo, de sim e não, é fazer de conta que existem dúvidas conflitantes, que existem possibilidades de escolha. Nas vivências comprometidas não existem antíteses, nada destoa do bem-estar e adequação: dúvida entre comer carne ou peixe, por exemplo, quando se tem comida, não é desesperadora; enlouquecer por não conseguir escolher um dos dez ternos utilizados para reuniões de negócios, ameaça, mas não quebra a prisão do bem-estar, adequação e regras.

Manter-se seguro, protegido, exercer ajustes e adaptações, geralmente não é percebido como aprisionamento, é entendido como conforto, bem-estar. As implicações do processo, também não são percebidas devido às fragmentações posicionantes e ao não questionamento. Quando o excesso de deslocamentos ultrapassa os limites possibilitados pelas necessidades realizadas, surgem sintomas desconfortáveis, causadores de mal-estar. Inicia-se um processo de divisão, de alienação. Não se percebe que o mal-estar é uma resultante do bem-estar e aí, buscando uma terapia, os problemas podem ser globalizados e novas percepções surgem; ou buscando remédios para aplacar e neutralizar os sintomas, surgem níveis de sedação e fragmentação que alternam mal-estar e bem-estar e que fazem desejar o limitado e aprisionante bem-estar como felicidade suprema: conseguir dormir uma noite depois do tranquilizante é o nirvana, tanto quanto ter seu medo encoberto pelo remédio mágico é tudo de bom que se deseja.

Abrir as portas da prisão, destrancar as grades, aceitar que conforto e desconforto, tranquilidade e intranquilidade são lados da mesma moeda, aspectos e faces do estar no mundo com o outro, é liberdade, satisfação, contentamento.















- "Breve Tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar" de Espinosa
- "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky 


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