Wednesday, August 28

Paradoxos da neurose

É conhecida a escalada paradoxal da hipocondria: viver faz mal, causa doença. Este implícito funciona como uma espada de Dâmocles, é condutora e mantenedora do comportamento paradoxal. Não ir até o fim, negar, desconhecer e subtrair implicações, permite sobreviver, gera divisões, paralelas que nunca se encontram, que não estabelecem conflito embora sejam paradoxais. A não globalização fragmenta, pontualiza e ao firmar posicionamentos, nega toda possibilidade de dinâmica, de diálogo.

Várias situações no viver neurótico, distorcido - na não aceitação - criam atitudes paradoxais.

Cuidar dos sintomas, evitá-los, estabelece um caudal ritualístico, maneiras de com eles conviver ao ponto de criar vícios, hábitos. É frequente o viciado em síndrome de pânico. Enfileirar queixas, estabelecer reivindicações, fazer com que familiares e acompanhantes participem dos cuidados necessários para evitar o pânico é um vício que desloca tensão, consequentemente alivia. Detestar a solidão, demandar relacionamentos mais íntimos, mais intensos e quando eles surgem, evitá-los por desconfiança e medo, é também paradoxal.

As divisões vivenciadas posicionadamente impedem correlação, constatação e categorização. Nestes casos, é muito difícil perceber que o que apoia, oprime ou que a mão que alimenta é a mesma que explora. A mãe que todo dia reza para ver sua filha protegida dos desejos eróticos e cobiçosos do pai, seu marido, é a mesma que faz de conta que não viu o que viu, que nega o que enxergou ocorrendo. Paralelas estabelecem obliquidades disfarçadas que distorcem o existente, tanto quanto geram espaço ocupado pela ansiedade e desespero pela aparente impossibilidade de soluções.

Ter pânico, para algumas pessoas, é a maneira de saber-se vivo e cuidado, tanto quanto é também uma maneira sutil e carente de dizer não, de dizer sim, de recusar o enfrentamento, a decisão e a ação - é o álibi. A continuidade deste processo vicia, aplaca, é o caminho conhecido onde o despropósito prazeiroso impera.















 

- "Tempos Fraturados" de Eric Hobsbawn
- "Junky" de William S. Burroughs


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Wednesday, August 21

Desprezo

O processo de não aceitação às vezes assume formas extremas. O próprio indivíduo se despreza, se sente monstruoso sem nada que disfarce o que considera feio e ruim. Carente implora, mendiga que olhares simpáticos, toques piedosos o façam esquecer suas definições acerca de si mesmo.

Buscando esconder o que o afasta do que necessita - cuidado, atenção, carinho - arranja "capas protetoras" que camuflam seus dramas. Protegido pela capa  (dinheiro, estudos, inteligência ou até mesmo outra pessoa utilizada como moldura) pensa que se estiver bem vestido, bem apresentado, sendo capaz, tendo dinheiro, beleza, pode despistar, esconder suas não aceitações, suas diferenças.

Desprezando-se e agarrando-se ao que escuda e melhora, transforma-se no que rouba tudo que está à mão e serve para utilizar. Estrutura-se, assim, o cínico, o desonesto que cada vez mais se despreza, mas que também não se abate com isto. O desprezo, neste caso, neutraliza tensões. As soluções encontradas são acumuladas e cobrem qualquer possibilidade de aparecer a problemática. Não há questionamento, não há problema; existe um colecionador, arregimentador, violentador. A possibilidade humana foi transformada pela realização das necessidades e assim foi criado o parasita humano que se alimenta do outro.

Geralmente estas pessoas não procuram psicoterapia, quando o fazem é para dispor de mais um referencial para instrumentalizar. O processo terapêutico consiste em fazer com que percebam que a psicoterapia é inútil para seus propósitos, que a psicoterapia ameaça seu parasitismo; assim podem ser humanizadas. Perceber isto é crucial, pois pode acontecer mudança, tanto quanto, não aceitando o que consideram monstruoso, podem se sentir denunciadas, ameaçadas e desconsideradas: surgem conflitos, pois a terapia é utilizada também como capa de proteção. Deste impasse, mudança e transformação tornam-se possíveis.















- "Vida para consumo" de Zygmunt Bauman
- "A cultura-mundo, resposta a uma sociedade desorientada" de Gilles Lipovetsky/Jean Serroy


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Thursday, August 15

Desconsideração

Todo sistema estabelece o que considera superior, inferior e mediano. Os critérios são variáveis, mas referenciais constantes são poder e status, que implicam no que é considerado bom, vital, valorizado e ruim, inútil, desvalorizado.

Perceber o mundo, o outro e a si mesmo através destes delineamentos é esmagador, mesmo quando se é colocado no topo: o padrão aliena, isola e desumaniza, embora nem sempre seja assim percebido.

Estar além, considerado superior, possibilita a vivência de ser melhor, mais apto, mais capaz, poderoso. Neste momento, assim se percebendo, vem a desumanização; passa-se a ser representante de ordens constituidas, transforma-se em uma coisa, objeto entre outros, caros e poucos.

Estar abaixo, oprimido, esmaga e revolta. Ser o desprovido, desconsiderado, apenas a massa de manobra, sem voz própria, utilizado para servir é também desumanizador; só existe em função das vantagens conseguidas por se deixar usar e manipular.

Consideração e desconsideração são resultantes de processos socialmente alienantes, balizados em padrões de julgamentos estabelecidos em outros contextos que não os das individualidades julgadas. Ser produtivo, ser improdutivo, ter status ou não, variam conforme as demandas sociais, econômicas e políticas de cada sistema. Por exemplo, o escravo de ontem é o lider político ou religioso de hoje. Sua individualidade só significa em função dos referenciais atribuidos; este processo é desumanizante e alienador.

Perceber os processos e contextos que estruturam consideração e desconsideração pode ser libertador ou aprisionante: tudo vai depender do questionamento ou da submissão estabelecida. Atingir a glória, a consideração dentro do sistema político social econômico, pode ser coroamento de esforços arbitrários e discutíveis: às vezes o que é reconhecido institucionalmente significa desconsideração da individualidade, enquanto a consideração e aceitação da própria limitação que causa desconsideração é um caminho de mudança e descompromisso desalienante.
















- "A Ponte - Vida e Ascensão de Barack Obama" de David Remnick
- "E o Vento Levou" de Margaret Mitchell

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Thursday, August 8

Contentamento

Alegria, bem-estar, satisfação, alívio caracterizam a vivência de contentamento, assim como descobrir o novo, saber-se capaz, perceber as superações realizadas ao longo de difíceis processos traz contentamento. O filho que nasce, receber o diagnóstico acertado, as obrigações cumpridas, o prazer realizado são algumas situações onde se fica contente.

Sucesso, realização e o inesperado auspicioso, sintetizam as vivências de contentamento, mas, resumir a existência em função de objetivos, de resultados satisfatórios cria polarizações de bom e ruim, tristeza e alegria, contentamento e descontentamento. Nestes universos assim polarizados, qualquer coisa contenta ou descontenta. Esta contingência enfraquece, deixa muito tênue a estrutura humana, desde que, alienando-se em função de resultados a pessoa se circunstancializa e ouve apenas "toques de tambor", reagindo em função do que é programado e organizado. Comprometidos com estes referenciais, os indivíduos têm sempre seus nichos, suas fontes de satisfação, de contentamentos momentâneos, que também podem ser fatais: o gol de sua seleção ou clube de futebol, por exemplo, realiza e contenta, tanto quanto pode enfartar.

Contentamento é uma constante na vida do indivíduo que está no mundo com o outro, vivenciando seus impasses e superações cotidianas e é eventual bem-estar quando constantemente é buscado sob a forma de resultados, de sucesso, de realização, de paz e harmonia.

















- "Conhecer, cuidar, amar" de Hipócrates
- "Crítica da Razão Cínica" de Peter Sloterdijk


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Thursday, August 1

Perdão

No cristianismo, perdoar é praticamente uma regra definidora do bom cristão, que tanto pede perdão constantemente (confissão e expiação dos pecados), quanto, mirando-se no Cristo, busca perdoar seus agressores sistematicamente.

Saindo do referencial cristão e popular, perdoar, sob o ponto de vista psicológico é quase sinônimo de generosidade, neste sentido é o oposto de mesquinharia. Mesquinho é o avaliador, aquele que tudo conta, considera, aproveita e não esquece.

Limitada pelos referenciais do que beneficia, do que atrapalha, do que dá segurança ou pressiona, a vida é diminuida, amesquinhada; nenhum crescimento, desenvolvimento cultural ou expansão podem acontecer. Restringindo-se a estes parâmetros, tudo é avaliado e assim se vive. Neste contexto de avaliação, ou se perdoa facilmente, quando perdoar não atrapalha, não prejudica ou se contabiliza a situação e se torna implacável, jamais perdoando. O foco não é o outro, não é o perdão, mas sim evitar o que atrapalha. Nesta contabilidade, por definição pragmática, não existem resíduos, qualquer sobra é prejuizo, tudo é aproveitado, relações são vistas como investimento/ganho/perda.

Perdoar é o ato generoso de ser com o outro, mesmo quando a única maneira disto ocorrer seja pela mobilidade relacional; saindo dos próprios referenciais e contextualizando-se nos do outro, se percebe as tessituras do considerado erro a ser perdoado. A magnanimidade de abrir mão dos próprios referenciais e atingir os do outro, por mais intransitáveis que sejam, é o início do processo responsável pelo perdão.

















- "O Crime do Padre Amaro" de Eça de Queirós
- "O Sujeito Incómodo - O Centro Ausente da Ontologia Política" de Slavoj Zizek



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