Thursday, July 25

Inutilidade

Psicologicamente a vivência de ser rejeitado e assim se sentir, equivale a constatação de inutilidade. Incapaz de preencher requisitos do que é considerado bom, válido e útil, o indivíduo é expelido das relações por ele configuradas. Diversas traduções surgem para considerar e explicar esta vivência, desde às do seio mau (Melanie Klein) até às de "arianização".

A atitude de rejeitar está estruturada, geralmente, em contextos e estruturas socio-econômicas: são os preconceitos, as restrições, os bodes expiatórios, necessários à manutenção dos sistemas.

Perceber-se rejeitado atinge outras dimensões desde que surge um mediador, um filtro responsável por esta categorização. Não se aceitando, o indivíduo fica referenciado nessas vivências: é o autorreferenciamento. Ele busca ser aceito e geralmente se sente rejeitado, nada preenche suas demandas de aceitação. Criando metas e padrões onde tudo dará certo, onde ele será útil e bom, belo e aceitável, ele continuamente avalia, verifica e se sente frustrado, se sente falhado, rejeitado. Quanto mais se prepara, menos consegue e isto causa irritação, raiva que continuamente vivenciada estrutura depressão. Submetido aos desejos de ser aceito, esquece da própria problemática de não se aceitar e consegue assim transformar a vivência de rejeição em um deslocamento do próprio não se aceitar. Ao se rejeitar e por isso querer ser aceito, querer ser validado como alguém possível de qualquer coisa útil, boa e agradável, o indivíduo se desmembra, se pontualiza e anima-se ou deprime-se em função de resultados e circunstâncias favoráveis/desfavoráveis. Sentir-se rejeitado é sentir-se excluido, fora da humanidade. Lutar para ser aceito, para não ser rejeitado é concordar com critérios responsáveis por sua exclusão, é abraçar o universo social e relacional que o discrimina.

Quando, em psicoterapia, este processo não é configurado, não é globalizado surgem distorções decorrentes do reducionismo elementarista: inconsciente, instintos, configurações neurológicas, socio-econômicas e culturais; e se fala em culpa, repressão, complexo de inferioridade, problemas socias, desvios mórbidos, anomalias físicas como maneira e meio de explicar o sentir-se rejeitado.

O início do processo de rejeição é feito pelo próprio indivíduo em relação a si mesmo ao posicionar a não aceitação explicitada pelo outro e a partir daí construir seu "bunker" ou esvaziar suas bases, suas estruturas, criando abismos onde tudo fica por um fio. O posicionamento da rejeição pode se configurar em situações de prepotência ou de impotência, são polos do mesmo eixo. O extremo de acertos, regras e determinações é igual ao de fracassos, sensibilidades, medos, disforias ou dispersão inconsequente. Os primeiros geralmente se escondem em núcleos de autoridade ou saber fazer, os segundos se protegem através de dependências escravizantes que vão desde sistemas e famílias até drogas.

















- "A Colonização do Imaginário" de Serge Gruzinski
- "Narrativa da Análise de Uma Criança" de Melanie Klein


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Thursday, July 18

Covardia

Covardia é o que resulta da avaliação e omissão em uma estrutura autorreferenciada.

Quando se está travado pelas conveniências, decisão e tomada de posição não existem. Medo e covardia são, usualmente, considerados sinônimos. É como se a omissão (o medo) fosse ampliada pela conveniência. Avaliar lucros e perdas faz com que o indivíduo se retire da situação vivenciada. Muitas vezes esta retirada só é conseguida através de mentiras, falsidades, hipocrisia. Não querer enfrentar uma situação faz com que sejam utilizados vários expedientes, clichês sociais como "não se meter na vida alheia", "evitar denunciar" ou em determinadas situações  "é melhor denunciar", "ninguém sabe o que vai advir" etc.

Delatores, tanto quanto discretos que jamais interferem, são alguns dos covardes escondidos sob o politicamente correto ou o comunitariamente necessário.

Quanto maior o autorreferenciamento, quanto mais estiver a vida focada na realização de necessidades contingentes, maior a valorização do que é conveniente, maior a avaliação de lucro e prejuízo, assim como da vida protegida pelo nicho da hipocrisia, medo e covardia.

Sem atitude solidária, as pessoas dedicam-se à realização das próprias demandas, demandas estas escondidas nas conivências e conveniências consideradas necessárias à manutenção da boa ordem, do bem-estar, do equilíbrio, dos compromissos satisfatórios e alimentadores.

Ser covarde é não ter condição de estar no mundo com o outro, é o resultado do exílio exercido pela garantia da isenção diante do questionante.

Dos comportamentos reinantes, desde os encontrados nos regimes de exceção (ditadura brasileira e o "inocente útil", por exemplo), às denúncias e silêncios impostos pelas quadrilhas, gangues e máfias instauradoras de violência e devastação, temos a covardia como uma constante.

Comunidades, congregações, agremiações, inclusive religiosas, subsistem graças à manutenção de subordinação às regras estabelecidas, jamais questionadas e por isso mesmo ninhos protetores de mentiras, incestos, apropriações, fraudes e atitudes escusas mantidas pela submissão covarde aos poderes de suas lideranças.

A conivência, a cumplicidade são também geradas pela covardia - muitos lares, famílias são mantidas pela adaptação, pela covardia de fazer de conta, ignorando infidelidades e escândalos. Nesta atmosfera, ser covarde é ser adaptado, adequado, tanto quanto estar submetido ao que o desumaniza e infelicita.

Salvar a própria pele, ferindo, destruindo a alheia, é também um dos aspectos do comportamento covarde.
















- "Holocausto Brasileiro" de Denise Arbex
- "Conhecimento e Interesse" de Jürgen Habermans


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Thursday, July 11

Transposição de obstáculos

Superar é transpor obstáculos tanto quanto ultrapassar referenciais identificatórios. Ao transpor obstáculos se transforma limites, se realiza desejos e se recontextualiza. Esta recontextualização é responsável pela neutralização de vivências e situações de não aceitação, assim como também pode ser incentivadora de novas metas geradas pelos processos da não aceitação.

Estímulos e incentivos estruturados com o objetivo de apagar referenciais considerados empobrecedores e empobrecidos, seja no aspecto econômico, social ou pessoal, leva a constantes desafios motivadores do desejo de superar. Quando a transformação do limite é realizada no contexto do autorreferenciamento, surge muita ambição, certezas e inseguranças e não há solidariedade. A participação é contingenciada pela competição; ser o melhor é então uma imposição, tanto quanto continuar mantendo o que conseguiu, mesmo que isto implique em destruir o que ameaça. Quando o outro é o ameaçador, ele é transformado - por conveniência, estratégia ou necessidade - em objeto e assim pode, literalmente, ser destruido ou tirado do caminho.

Superar exige a magia da criatividade, estabelece liberdade, disponibilidade e flexibilidade; amplia os referenciais e inclui o outro sem limites restritivos como os estabelecidos pelo autorreferenciamento.

Ultrapassar referenciais com execução de regras e padrões que podem prover bem-estar e sucesso é a guilhotina que despersonaliza e coisifica. É o esforço por um diploma, por um emprego super valorizado, pelo convívio com o poder ou com elites diversas (econômicas, artísticas, intelectuais), é a busca obstinada por adequação física a um padrão (griffes, plásticas, próteses) etc. Conseguir ser o melhor, lutar por isto, geralmente é a maneira de eternizar o que causa o sentimento de incapacidade, com manchas à esconder, camufladas pelo sucesso.

Superar é mudar e isto requer liberdade e transformação. Superações que se constituem em upgrades ou "cerejas do bolo" alcançadas, nada mais são que metas batalhadas, resultantes de determinação obstinada e desestruturante.
















- "O Futuro Dura Muito Tempo" de Louis Althusser
- "A Loucura de Stalin" de Constantine Pleshakov



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Thursday, July 4

Homogeneização de campo

Nas dinâmicas relacionais, nos processos perceptivos, inúmeros conflitos, diversas posições, significados contraditórios quando não percebidos em suas especificidades, podem ser traduzidos como dificuldades e transtornos psicológicos, tumultos sociais etc criando assim, homogeneizações parcializantes e responsáveis por tipificações de normalidade ou anormalidade.

O desenrolar de situações, suas dinâmicas, podem possibilitar percepções que apreendem o que está acontecendo ou podem estabelecer homogeneizações onde toda diferenciação é resumida em significados iguais. Isto acontece por exemplo, quando por causa do pai alcoolista, todos os transtornos familiares são por isto explicados; esta homogeneização impede diferenciações das variáveis envolvidas nas constelações familiares. Da mesma forma quando episódios de violência ou de manipulação em movimentos de massa são destacados para justificaticar ações repressoras ou respostas pontualizadas, os questionamentos centrais são dispersados. Buscar o prepoderante, o mais pregnante como explicação é um causalismo homogeneizador.

Impactos, sustos e surpresas (perdas, luto, separações etc), tanto quanto monotonia, repetições são também responsáveis pela configuração de campos homogeneizados. Superposição de significados parcializam o ocorrido ou podem descaracterizá-lo. Querer saber se o que acontece resulta de outras configurações, é um fator homogeneizador. Não identificando as diversas variáveis configuradoras da totalidade, surgem parcializações.

Quando as contradições são neutralizadas, as motivações comportamentais são dispersadas e instalam-se as condições propícias às homogeneizações perceptivas; o indivíduo paralisa-se em expectativas por exemplo, que nada mais são que aspirações e esperas sem vivenciar contradições, vivenciando apenas demandas e frustrações, busca de sucesso e evitação de fracasso. Vivendo para os esforços, voltado para o futuro, cheio de metas - desejos além de sua estrutura de vida - sobrevive adequando-se ao que não o amedronta, submetendo-se ao que o domina, perdendo lucidez, motivação e determinação. São situações não configuradas, homogeneizadas, onde a percepção não é diferenciada, determinando assim explicações mágicas, arbitrárias, alheias ao que ocorre. Empenhar-se na criação de justificativas, por exemplo, é uma maneira de transformar os problemas, as questões contraditórias, em regras, protocolos e procedimentos de atuação. É frequente a preocupação dos pais com as más companhias que "estragam seus filhos"; "tudo ia muito bem, até que apareceu alguém que o levou para o precipício", dizem aflitos. Não conseguindo categorizar as situações específicas que se desenrolam à volta, resumem tudo como influências perniciosas. Percebem e agem sem questionamentos, consequentemente, cheios de certezas proverbiais.

Deste modo, tudo é igual, não existe variação. Igualar para submeter é uma das resultantes gerada pela dispersão, pelo deslocamento. A homogeneização de campo, como dizia Kurt Lewin, faz com que o indivíduo não se motive, tudo é branco, tudo é preto, nada desperta sua curiosidade, não há sinalização.















- "O Olhar Distanciado" de Claude Lévi-Strauss
- "Teoria de Campo em Ciência Social" de Kurt Lewin



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