Thursday, June 27

Processo dialético - Mudança e acomodação

Todo processo - dos psicológicos aos sociais - é dialético. Isto significa afirmar que todo processo é movimentação permanente, intrínseca ao próprio processo (tensão entre situações diversas e opostas, teses e antíteses configuradoras de sínteses).

É oportuno, mais fácil, explicar o que acontece como se tivesse sempre uma causa interveniente, situações iniciadoras; mas essa abordagem resulta de desconhecer ou de negar o processo dialético, negar o surgimento de impasses que são decorrentes das forças em jogo. A mudança não pode ser explicada buscando causas, origens determinantes da mesma; ao fazer isto instalam-se reducionismos, criam-se culpados e responsáveis alheios ao processo que está se desenrolando, embora pertencentes e contextualizados em outros processos. Estas distorções, decorrentes da não globalização dos acontecimentos, ocorrem tanto no âmbito político-social (partidos políticos, agremiações etc) quanto no âmbito privado (crises individuais e familiares etc), consequentemente posicionam, fragmentam e acomodam. A mesma tese em relação a A pode ser antítese a Z e síntese a Y, esta dinâmica esclarece e congestiona.

Como dizia Karl Marx: "A humanidade não se coloca problemas que ela não possa resolver".

Tudo que é novo resulta da simultaneidade, do confronto de estruturas antagônicas, não decorre de causas específicas, mas sim de um processo estabelecido pelo encontro de inúmeras variáveis, teses, antíteses e sínteses. Ao perceber que o que acontece é diferente do que se espera acontecer se instaura o novo, tanto quanto se cria impasse entre situações anteriormente vivenciadas como toleráveis ou intoleráveis, que reconfiguram os contextos, criando algo novo. A vivência do novo é irreversível, está sempre apontando para e iniciando outras situações diferentes das existentes e isso é mudança. A continuidade da mudança vai depender de não existirem entraves e impedimentos à mesma. Utilizar posições e matrizes das estruturas superadas e questionadas é uma maneira de descontinuar a mudança, fragmentá-la; é uma tentativa de inseri-la em outras ordens que não as resultantes da superação ao impasse, é acomodação.

Na esfera política, movimentos de protesto e repulsa à corrupção e outras arbitrariedades contra a cidadania, por exemplo, podem ser neutralizados por criação de agendas e pautas de atendimento se estas não estiverem direcionadas ao cerne da questão. Esta convergência - satisfazer reivindicações - pontualiza os questionamentos, criando enquadramento, criando contextos descontinuadores da antítese. Direcionar antíteses para reivindicações, pedidos ou soluções, é uma maneira de impedir sínteses, é uma maneira de ajustar as contradições, amortecendo-as. Esta tentativa de quebra do processo dialético, gera novas atmosferas, gera objetivos que passam a ser sinalizadores de demandas, quando na verdade são resultantes de manobras criadas para descontinuar as situações novas. A substituição da motivação, a inclusão de a priori - medos e experiências - são superposições ao que acontece, consequentemente confundem, escondem e disfarçam o ocorrido. Isto explica tanto os processos individuais quanto os sociais. Sem síntese, as teses e antíteses, os impasses e questionamentos são transformados em divisão, paralelas onde a possibilidade de mudança é retardada, deslocada.

Amortecer antíteses é a maneira de neutralizar questionamentos. Sem antítese, sem encontro, há um vazio, espaço preenchido por qualquer coisa alheia ao questionado, ao gerador de impasse. Novos questionamentos são necessários para que surja antítese.

Em psicoterapia é frequente a mudança ser transformada em ferramenta de manutenção quando ela é utilizada e reduzida às melhoras factuais e oportunas. Perceber, por exemplo, que o relacionamento conjugal construido em estruturas de sonhos, mentiras e ilusão, desmorona e ainda assim tentar reconstruí-lo com novos acertos e contratos negociados é uma maneira de atualizar o superado, o desgastado, de negar o novo, de negar o fracasso do próprio relacionamento, neutralizando temporariamente os questionamentos. Nestes casos, diálogos podem ser apenas paliativos; compreensão pode ser uma maneira de negar o ocorrido; encontrar o bode expiatório - descobrir a culpa - como causa responsável pela modificação do afeto, se transforma em um elemento salvador. Todas estas atitudes são formas de ficar diante do acontecido, neutralizando-o por se estar imerso em outras motivações, desejos e compromissos.

Utilizar o alívio dos sintomas desagradáveis para tentar realizar situações e desejos que os determinaram, é o oportunismo, a instrumentalização dos processos de mudança.

Coerência e fidelidade ao que se questiona, ao impasse criado é o que vai permitir a mudança, a continuidade do novo.

















- "Phenomenologie et Materialisme Dialectique" de Tran-Dúc-Thào
- "A Dialética Materialista" de Alexandre Cheptulin



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Thursday, June 20

Povo na rua

As crenças acomodam, mas também destroem quem nelas se posiciona. 

A antítese ao marasmo, cooptação e arrendamento é o novo que acontece agora nas avenidas, praças e ruas da maior parte do Brasil.

Emerge a insatisfação diante das históricas mentiras apregoadas, manifestações com o povo nas ruas acontecem imprensadas entre festas, comemorações, gastos faraônicos das copas futebolísticas e opacas e ameaçadoras realidades caracterizadas por: transporte público caro e ruim, impostos régios, cidades insalubres e sem segurança, educação deficiente, sistema de saúde pública precário com imensos problemas logísticos e carência de profissionais, corrupção política, impunidade e justiça lenta etc.

Durante muito tempo a sociedade brasileira vem sendo sedada sob várias formas, desde o "milagre brasileiro" até a classificação de quinta economia mundial. Isto criou esperanças, sonhos e ilusões. A espera limita, cria revoltas, quebra sedações especialmente nos mais jovens, disponíveis para novas vivências, para a ação, para a antítese, principalmente quando encontram contextos onde isto pode se realizar. A mobilidade e interação proporcionada pelas novas tecnologias, pela ampliação democrática através de suas redes sociais é um espaço ainda não tragado, não engolido pelos poderes constituidos e obsoletos. As redes sociais não são vetores determinantes de mudança, são contextos onde a mudança é tecida, dialogada, constituindo-se assim em uma alavanca dinamizadora de acontecimentos e mobilizações.

Esta última semana devolveu o Brasil ao seu povo. Passeatas, protestos, silêncio, brados e ruídos significam o rompimento, a quebra dos filtros politicamente institucionalizados como negociadores do que é bom para o povo.

Ver nos estádios cartazes, "não somos contra a seleção, somos contra a corrupção", mostrou o corte cirúrgico perfeito, realizado sobre a cooptação acontecida nos anos 70 pelo "pra frente Brasil, viva a seleção". Esta cooptação era clara para poucas pessoas não alienadas, não aprisionadas (algumas mais tarde mortas pela repressão do governo de ditadura da época). Torcer pela seleção brasileira era uma maneira de fazer de conta que tudo ia bem, tanto quanto de negar os porões da ignomínia. Agora podemos torcer pela seleção brasileira, sem esconder, sem esquecer. Não precisamos de senhores, não somos mais escravos do medo, da conivência e conveniência.

O novo - povo na rua mobilizado, protestando - significa. Isto é um início, pode ter continuidade ou não. Tudo vai depender da consistência, da continuidade dos propósitos motivadores.

Nada que resulta de votação comprometida, acertos e negociações, pode ser aceito. Nenhuma bancada, grupo ou governo pode representar ou defender o que nos aliena e destrói em função de interesses pessoais ou de suas agremiações.

Incoerência e inconsistência já não mais podem ser mantidas em função do angariado por bancadas baseadas em votos numericamente decisivos, mas ilegítimos. A sociedade laica e democrática não mais aceita segmentos religiosos determinando leis, regras e comportamentos. Direitos humanos têm que ser representados por pessoas humanizadas e não por arautos, avatares demoníacos ou divinos.

A mudança decorre de um processo e quando se estabelece é o novo, pode ser abertura para sanar problemas, tanto quanto pode ser cooptada como "sangue novo", revitalizador do já despropositado, desgastado e superado.

Esta movimentação - a mobilidade do povo na rua - conseguiu descentralizar o interesse, o foco da festa. A Copa das Confederações não foi mais um divertimento para aumentar a sedação, ela transformou o projetado panem et circenses em uma arena onde o velho e o novo, o legítimo e o ilegítimo se defrontam, estruturando questionamentos criadores de uma integração entre jogadores e torcedores, por exemplo, um contexto onde antes de sermos jogadores e torcedores, somos brasileiros com lucidez, reivindicando honestidade e seriedade no fazer político.

Não somos mais o país do futuro, do carnaval nem do futebol; somos um país que se transforma, onde carnaval e futebol são apenas eventos. Riqueza e probreza, privilégios e impedimentos, políticas e negociações são questionadas.

Pela mobilização contínua que transforma!



- "A Guerra Civil na França" de Karl Marx
- "1989 O Ano Que Mudou o Mundo" de Michael Meyer
- "Cultura na Prática" de Marshall Sahlins



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Thursday, June 13

Inteligência, ferramenta ou habilidade?

A velha questão dualista sobre inato e adquirido sempre foi um fantasma constante dentro das abordagens psicológicas; nada explica, mas persiste, criando círculos viciosos, tautologias reponsáveis por opiniões, teses, criação de escolas e saberes corporativos.

Humanos e animais - seres no mundo - percebem, decidem, agem. O processo perceptivo é comum a ambos, embora restrito aos humanos quando se trata de constatação da constatação, percepção das próprias percepções. Os animais constatam, percebem que percebem, mas não têm estrutura neurológica apta a armazenar e relacionar estas constatações, percepção de percepções; não dispõem de abstrações significativas e conceituais como os humanos.

Inteligência é insight, apreensão súbita de relações, implicando em constatação de contradições, reconhecimento e continuidade perceptiva. Esta percepção do insinuado é possível graças à reversibilidade entre Figura e Fundo, possibilitadora de closura. Comumente, inteligência é sinonimizada com esperteza, treinamento educacional, expressão cultural; nesse sentido ela é avaliada como um bem adquirido, uma ferramenta útil à sobrevivência. Outros pensam que ela é uma habilidade, um dom que se traz, graças aos genes ou às experiências de vidas passadas.

Inteligência é reestruturação de campo, transformação e ampliação do dado a perceber em paisagem, referência para novas percepções - destaques.

Diante da própria coisa, do fenômeno, do que aparece e se evidencia, encontramos inúmeros caminhos de continuidade - nada se esgota em si mesmo - tudo possibilita algo desde que não se limite a circunstâncias e necessidades, desde que se ultrapasse as necessidades. Querer, por exemplo, em uma emergência, abrir um armário de remédios sem a chave, produz impasses ou criatividade, tudo vai depender da inteligência, da transcendência dos limites postos, da manutenção dos limites apostos e situações contraditórias opostas. O definidor da inteligência é mobilidade, não fixidez, não rigidez.

Quanto maior a flexibilidade, mais frequente será o comportamento inteligente (é a apreensão da contradição que unifica). Não pensar, não lembrar, se deter no que está diante, no percebido é a vara de salto que possibilita comportamento criativo, inteligencia.

Situações limites podem produzir comportamentos inteligentes, bastante diferentes dos típicos de toda uma vida. A confluência de resultados é polarizante, tanto como obstáculo, como quanto criação de outras percepções; percepções novas e por isso mesmo inteligentes.

















- "Psicologia da Inteligência" de Jean Piaget
- "Productive Thinking" de Max Wertheimer


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Thursday, June 6

Paixão

Estar reduzido a um desejo, estar detido na percepção do outro como sonho, como passagem para o infinito, para o absoluto da felicidade, do bem-estar, do prazer é o que configura o estar apaixonado, é o que configura a paixão. É um encontro, que por ser foco, se torna polarizante, inclusive de posicionamentos.

Paixão implica em fragmentação ou resulta da unidade, inteireza e motivação?

Ao buscar o que falta, o que completa, o ser humano se encaminha para o abismo, para a descontinuidade de propósitos criadora de posicionamentos. Nesta atmosfera, nesta estrutura, o encontro é resultado de buscas, expectativas e necessidades, é alienador, complementa, mas divide: o simétrico é o oposto, é o duplo, não é o mesmo.

Quando somos surpreendido pelo que não percebíamos, não conhecíamos, o encontro se configura revelação, descoberta, conhecimento; é o encontro sem prévio, sem busca: apodítico. Descortina-se outra configuração, outra realidade, outra vivência: paixão pelo encontrado, pelo descoberto.

Neste fluxo, o desenrolar de arrebatamentos resulta das estruturas relacionais existentes. É o caos, o conflito ou a imensidão do ser-com-o-outro no vórtice que transcende limites, regras e padrões.

Paixão é quebra, fragmentação ou é fusão, integração. Quebrar ou integrar, vai depender das atitudes de manutenção ou de mudança. Enjaular esta descoberta em limitadores aprisionantes relacionais, dá pouco fôlego, vida curta ao êxtase, à paixão. Implodindo estabelecidos funcionais e cenários ramificados, criam-se espaços, atmosferas possibilitadoras de contínuos mananciais possibilitadores de paixão pela paixão. É o cuidado, o zelo, a atitude de deixar fortificar. Neste momento, o outro não é o simétrico, é o contínuo. Disponibilidade caracteriza o estar apaixonado enquanto integração, ao passo que, nas fragmentações provocadas pelo exercício e uso decorrente da percepção do outro como simétrico vital e satisfatório, a posse, a garantia dada por este outro transformado em objeto, também esvazia seu possuidor.

Frequentemente se diz que paixão passa e amor fica. Essa visão dualista, sonega a continuidade. Paixão é o caminho para o amor ou dele resulta. Não há gradação no encontro. A intensidade, a entrega pode ser contínua em estruturas disponíveis ou fugaz, apenas momentos posicionantes, criadores de vícios, frustrações e conflitos, em estruturas comprometidas com deslocamentos dos processos de não aceitação, consequentemente fechadas para o novo, para o relacionamento integrador.















- "Anna Kariênina" de Liev Tolstói
- "Des spirales - De l'équilibre des figures planes - L'arénaire - La quadrature de la parobole" de Archimède


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