Thursday, May 30

Palácios, catedrais e shoppings

Na Idade Média, onde a condição de sobrevivência era precária, os deslocamentos eram dirigidos para o céu, para os deuses. Olhar para cima, pedir e esperar, cria expectativas. Construir catedrais era uma maneira de depositar os sonhos os medos e esperanças. Dos palácios às catedrais, esta era a arquitetura dominante. A maneira de transcender os limites aniquiladores (peste, fome, morte) era rezar, jejuar, rogar misericórdia. Olhando o processo histórico do desenvolvimento arquitetônico, vemos como tudo convergia para os templos, mesmo antes da Idade Média.

Transcendências contingenciadas não transcendem mas permitem fontes de alívio, prazer e esperança.

O que faz a humanidade, hoje, quando reduzida às demandas de sobrevivência? Consome - das comidas às bebidas, griffes e pessoas. Shopping centers, parques temáticos e de diversão são as catedrais, os templos que abrigam sonhos perdidos, desejos impossíveis, vidas fantasiadas. O mega entretenimento realiza esta função de congregar, unir, realizar; preces são rogadas para o todo poderoso consumo: dinheiro, mercadorias. Vive-se esperando as graças conseguidas pelo dinheiro, que permite o consumo, que tudo transforma. As griffes criam identidades vitoriosas. Neste novo Coliseu já não existem leões famintos, existem poderosos capazes de sedar as feras e os incapazes que servem para alimentá-las.

As construções e atmosferas sociais resultam de nossa trajetória como seres no mundo. Privilegiar o necessário implica em submissão e revolta. Desenvolver possibilidades dentro de limites se torna utópico quando os mesmos não são aceitos. Aceitar os limites ou transformá-los é o que humaniza, é o que permite transcendência.

Não se esgotar em si mesmo, em demandas e limitações confere realização de possibilidades, muda o restritivo e cria novas ordens; é o si mesmo presentificado, realizado e possibilitador do outro, do semelhante que transforma, limita e transcende.
















- "Nova York Delirante" de Rem Koolhaas
- "Civilização Material Economia e Capitalismo Séculos XV-XVIII - O Tempo do Mundo" de Fernand Braudel



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Thursday, May 23

Avidez

Estar submisso, ser desconsiderado, ser invisível (pobres, desempoderados, idosos, mulheres às vezes) gera revolta, gera medo e não aceitação. A carência afetiva, nestes contextos e estruturas, é transformada em necessidade de relacionamento, surgindo assim, distorções, perversões e dependências relacionais.

Ao não se aceitar, o ser humano observa e deseja padrões aceitáveis, cogitando que se atingí-los, vai ser aceito: seu mundo vai mudar, vai ser amado, considerado. No Brasil colônia, ou até pouco tempo atrás, ser negro ou aparentar qualquer sinal de negritude era responsável por não aceitação. É bem conhecido quão danoso foi o chamado "processo de branqueamento" em termos sociais e também enquanto realidade psicológica geradora de não aceitação; atualmente as denominadas auto-estima e cidadania plena, escamoteiam os processos discriminatórios.

Na avidez de ser aceito, tudo se faz, tudo se busca para realizar esta motivação. Na adolescência, este processo é nítido: "gangs", "pegas", funcionamento programado pelos grupos aos quais se adere mostram a avidez de ser considerado, ser visto como capaz, independente, corajoso. Submeter-se para conseguir é uma estratégia gerada pela não aceitação deslocada sob forma de carência relacional. Submeter-se aos desejos da raiva, da perversão exercidas pelo outro é uma maneira de se sentir útil, amado, considerado. Ser espancado, às vezes, é uma forma de manter o provedor, o protetor, de aplacar a avidez, o vazio resultante da falta de perspectivas.

A violência urbana gerada por processos econômicos está também estribada na busca de afirmação autorreferenciada: "meu reino por um amor" agora existe sob a forma de "meu reino por um tênis", por um contato de pele. Virando massa de manobra não só de sistemas, mas também de famílias, se busca viver, sentir alguma coisa.

A avidez, quando satisfeita, alivia e sacia para imediatamente gerar mais avidez, mais desejos. Quando tudo parece estar  resolvido e estabelecido, se pode então conquistar o que se anseia, o que falta; mas, basta pensar no relacional e humanamente esgotado, falhado, para se perceber um círculo vicioso, perverso e danoso.















- "Desespero e Maldade" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Délire" de Ludwig Binswanger

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Thursday, May 16

Preocupação x Ocupação

A preocupação é uma vivência do não presente, é uma antecipação da ocupação; ocupar-se de é relacionar-se com algo existente. Em geral, o indivíduo, ao invés de se ocupar com os próprios problemas, se preocupa com os sintomas que os encobrem como se os problemas não existissem. Assim, se torna preocupado com a velhice, com a conquista de um emprego valorizado, com o desempenho profissional, com relacionamentos garantidos e seguros, com o desenvolvimento dos filhos, com a aparência física e  imagem social, com os sintomas que surpreendem etc ao invés de deter-se na problemática de onde tais preocupações são decorrentes. Ocupar-se da própria problemática e não de como ela aparece, possibilita a vivência do presente.

Preocupar-se com imagens, com sintomas, por exemplo, é esvaziador, desumanizante por transformar o outro no testemunho circunstancial do fracasso ou do sucesso; faz perder autonomia, transforma os referenciais relacionais em sinalização de apreço ou desapreço, consideração ou desconsideração, aceitação ou não aceitação. Decorrente deste funcionamento fragmentado, já não se sabe se o que se sente é o que se sente, se o percebido ou pensado é real ou imaginado, desejado ou temido. Nesta constante dúvida, a necessidade de avaliação e controle se impõe. Cheio de preocupação, antecipação e ansiedade, paira acima do que acontece, sendo impossível viver o presente. Saber o que os outros estão pensando a respeito de si, saber se agrada ou desagrada, se é aceito ou não, é o que importa. A contabilização, a constante verificação de resultados conseguidos e de empreendimentos realizados e a realizar, gera uma rede administrada de empenhos e negociações. O controle do que acontece é mais importante que o que acontece. Das perdas ao luto, do ganho às vitórias, tudo deve estar sob controle. Eliminar o que atrapalha ou tira do sério é valorizado como adequação, eficiência. Este controle de aparência e imagem é o controle dos sintomas. Não importa o problema, o que importa é que ele não apareça, não atrapalhe.

Ter febre e esfriá-la sem ver que ela geralmente indica uma infecção ou algum transtorno orgânico, é comum no imediatismo gerado pelas vivências pontualizadas. Ignorar, não ser treinado educacionalmente, gera imediatismo, ansiedade que logo se converte em limites que podem ser aceitos e transformar; ou não sendo aceitos estabelecem uma maneira de ser e fazer continuamente fragmentada.

Preocupação e ansiedade andam juntas, transformam o cotidiano em uma arena onde tem que se vencer ou fugir para não morrer, fazendo assim, que se funcione como máquinas, tops de linha ou defasadas, obsoletas. O funcionamento como objetivo e meta, desestrutura. O ser humano é uma estrutura relacional que ao se pontualizar no exercício de funções e resultados, minimiza suas possibilidades e maximiza suas necessidades.















- "Ou bien... ou bien…" de Søren Kierkegaard
- "Pensamentos" de Blaise Pascal


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Thursday, May 9

Expectativas

As expectativas são fontes geradoras de medo mesmo quando o esperado é bom e desejado. Temer o que pode acontecer de ruim, ter medo da morte por exemplo, é uma expectativa onde o espectro do ruim se impõe, mas a expectativa do desejado, a festa de formatura, por exemplo, pode também criar medo e apreensão. Toda meta esvazia, todo vazio desumaniza, cria espaços de não ser, responsável por temor.

Frequentemente as expectativas não são contidas pelos próprios limites do corpo. É comum saber dos infartos, acidentes e outros problemas físicos às vésperas da realização do grande sonho, dos casamentos próprios ou dos filhos, por exemplo.

A expectativa aponta sempre para caminhos divididos: o que é bom e o que não é. Ter expectativa é ser direcionado para avaliar e esperar e isto cria tensão e mal-estar. Esperar que tudo dê certo é aniquilado pela homogeinização perceptiva - desaparece qualquer motivação, resta apenas conferir. Quando as expectativas ainda comportam dúvidas, mais aniquilantes se tornam, pois requerem divisão para ser suportadas. A inutilidade, o despropósito cria pântanos preenchidos por dúvida, insegurança e medo. Lançar-se em confronto, tirar os pés do chão, é jogar-se no não existente. Esta falta de dimensão e referenciais nadifica.

Kierkegaard, no seu "Temor e Tremor", Heidegger em "Chemins qui ne mènent nulle part" ou Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) no seu poema "Tabacaria", expressam bem a alienação e desespero criados pelas expectativas.

Sociedades movidas por políticas manipulativas e demagógicas, cada vez mais estruturam alienação em seus membros ao manter as expectativas de melhores dias. É próprio das ditaduras e das democracias forjadas, a construção da expectativa de futuro melhor, tanto quanto do sacrifício recompensado. A crença em um além de ou além daqui é também um provedor/solucionador de expectativas e frustrações.















- "Chemins qui ne mènent nulle part" de Martin Heidegger
- "A conquista do inútil" de Werner Herzog


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Thursday, May 2

Cotidiano e repetição

Não é a mesmice, o que tem que ser feito, que configura o cotidiano. Cotidiano é o que acontece todos os dias. Frequentemente o cotidiano é percebido como o que anda sozinho, como o que é mecânico, o que decorre de pequenos acenos ou apertos de botão. A certeza da repetição intrínseca ao que é cotidiano, o transforma em manutenção. Tudo que é mantido, que é repetido, é alienador.

Fazer todo dia o que se faz, de dormir a trabalhar ou divertir-se, pode ser vivenciado como manutenção, automação ou como participação e enfrentamento. Participação pressupõe o outro, o mundo - é um potencial dinâmico de encontro, de desencontro, de deslizamentos e imobilizações. Nada se repete, tudo que é igual pode ser diferente.

Qualquer vida se desenrola no dia-a-dia, é o processo cotidiano do estar no mundo. É uma repetição monótona e previsível quando estamos dedicados a manter e é uma aventura diária, constante, nova e excitante se estivermos dedicados a perceber e unificar as contradições continuamente existentes.

Filósofos podem dizer que quando o cotidiano é enfocado como pergunta ele é um tesouro inesgotável, ao contrário de percebê-lo como resposta, caso em que ele gera tédio, repetição.

Grandes sábios iogues diziam que a maneira de sair deste mundo contingente e material é a ele se dedicando - é o Karma Yoga*, ação que leva à transcendência, ao desapego, à libertação; neste sentido, ação é a própria vida que vai permitir a transcendência se pautada no Dharma*, em outras palavras, na coerência e aceitação de limites.

Cotidiano é a contingência, a circunstância que permite transcendência, tanto quanto pode esmagar e alienar; tudo vai depender da atitude voltada para realização de necessidades ou de possibilidades.

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* Karma Yoga - literalmente 'yoga da ação'. Karma vem da raiz sânscrita 'kri' que significa 'agir' e yoga significa, no sentido clássico, concentração. No yoga de Patanjali, karma yoga é a ação concentrada, ação pela ação sem expectativa de resultados, sem desejos pelos resultados da ação.

* Dharma - existem várias acepções para dharma, uso aqui no sentido de disciplina, aceitação da própria condição de ser no mundo.



- "Buddhist Wisdom: The Diamond Sutra and The Heart Sutra" by Edward Conze
- "Filosofia da História" de G.W.F. Hegel
- "Yoga Philosophy of Patanjali" by Patanjali



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