Thursday, March 28

Fidelidade

Fidelidade ou traição pressupõe, como tudo, contextualizações relacionais. Ser fiel a si mesmo ou ao outro é a movimentação instantânea que existe quando se é livre, quando se é coerente, quando se aceita.

Enganar, iludir é estar comprometido com metas, é querer conquistar, querer vencer e utilizar o outro como artefato.

O indivíduo, quando dividido, fragmentado trai, engana, negocia. Quando unitário, inteiro é fiel, é coerente.

Viver querendo ser aceito, criando imagens e referenciais que possibilitem este processo, é comum quando se procura conseguir bem-estar e tranquilidade sem condições para isto. Consequentemente, as garantias de sucesso e aprovação partem de traiçôes diárias feitas a si mesmo e aos outros. É o trambique, a propaganda enganosa, o uso do outro para aplacar incapacidades, a omissão, a submissão.

Aliciar menores, por exemplo, utilizar as necessidades carenciais do outro para o que se deseja, é também traição. Quando se pensa no amor como algo a ser construído e conseguido, começam as traições, infidelidades, pois que o outro é visto como a presa, o butim, o prêmio, a recompensa.

Na neurose - na não aceitação - não é possível ser fiel, mesmo quando o indivíduo a isto se propõe. Não há liberdade na neurose, não há coerência; aí só existem medos, metas e imagens a manter, esconder e construir.

A fidelidade implicará sempre em traição quando não há unidade, quando existe divisão de propósitos: o fiel a X é infiel ao diferente de X, ao não-X. Judas, o ícone da traição, foi fiel aos seus desejos de usura e de vingança.

Estas visões relacionais eliminam uma série de cargas, tais como: culpa, medo, raiva, sempre vivenciadas autorreferenciadamente como impotência/prepotência e omissão, resultantes de deslocamentos das situações não enfrentadas. O importante é estruturar unidade, o que só acontece quando detidos os deslocamentos e neutralizadas as divisões criadoras das infidelidades, das traições.
















"Barba Ensopada de Sangue" de Daniel Galera
"Antígona" de Sófocles

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Thursday, March 21

Amor

A antropomorfização do amor - desde os gregos com o Cupido - é responsável pela construção medieval, renascentista do que se imagina ser amor. Seria o amor, natural ou construído? Este debate continua contemporaneamente, das novelas às teses doutorais, passando pela clínica psicoterápica e também dentro das associações espiritualistas e congregações religiosas.

Amar é uma condição comum a todo ser humano? É uma mágica que surge como atração rápida, fatal? É ilusão, desespero, engano?

Relacionamentos que se mantêm por compromisso, obrigação ou relacionamentos vistos como apoio ou baseados em tolerância são contextos onde amar é confundido com exercer compatibilidades, adequações e acertos, é até mesmo gostar de satisfazer necessidades.

Amor, no sentido compassivo, romântico deve ser entendido como disponibilidade. Ser disponível resulta de se aceitar, de não se perder em limites e metas, padrões configuradores de regras, de erros e acertos. A disponibilidade possibilita perceber o outro enquanto ele próprio. Este sair da contingência, da circunstância é esvaziador pois que neutraliza propósitos. Transcender a si mesmo é a maneira de ficar disponível para o outro, é amor.

Sem reciprocidade, o movimento, a transcendência desaparece nas redes de proteção. O que sustenta, o que apoia, esmaga. Esta fragmentação cria descontinuidade, responsável pela transformação da disponibilidade em compromisso - é o clássico "você é responsável pelo que conquista" de Saint-Exupéry no "Pequeno Príncipe".

Amor não é uma entidade, não é um estado; é resultante, é expressão de disponibilidade. A maneira de eternizar a disponibilidade é pela integração, é o ser com o outro. Esta fusão não se cria, ela é resultante, é configurada além dos seus estruturantes, além do estabelecido.

Amor, liberdade, tranquilidade, disponibilidade são expressões do ser no mundo com o outro sem estar reduzido às necessidades de realização, de manutenção dos encontros.
















- "Eros, Tecelão de Mitos" de Joaquim Brasil Fontes 
- "Amar, Verbo Intransitivo" de Mário de Andrade

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Thursday, March 14

Compaixão e dignidade

Detido nos próprios limites, hábil mestre da própria impotência, o ser humano é capaz de perceber o outro, o mundo e a si mesmo, é capaz de sentir compaixão, de ser afetado sinceramente, empaticamente pelo outro.

Não utilizar o semelhante, nem os animais, para satisfazer suas necessidades e conveniências, perceber o medo e o limite alheio é dignidade resultante do estar com o outro compassivamente.

Perceber e aceitar crianças, idosos, menos favorecidos, mais favorecidos, belos e célebres, considerados feios e despropositados é aceitar o outro independente de valorações e conveniências. É ser com o outro.

Canibalizar, vampirizar, utilizar os outros para aplacar, para realizar desejos e metas, desumaniza: surgem midas, zumbis, mestres e discípulos, comandantes e comandados.

Somos todos iguais embora só se valorize o que se destaca, diferencia dentro dos padrões positivamente valorizados. O lugar ao sol, a consagração, o estabelecimento de diferenças que criam escalas, posições e lugares faz com que tudo se transforme em números, valores, domínios - das cadeias alimentares aos perfis sociais e econômicos. Natureza, aves, pássaros, mares e rios e também os semelhantes passam a ser instrumentos que facilitam ou atrapalham, são úteis ou inúteis.

Não havendo compaixão, existe competição, utilização, apropriação, estruturando-se assim, humilhação e crueldades, frequentes em todas as áreas. Como expressa poeticamente, Luiz Gonzaga:

"Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá"


 

"As Vinhas da Ira" de John Steinbeck
"David Copperfield" de Charles Dickens



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Thursday, March 7

Embustes

Comprometidos com o que precisamos superar, alcançar, construir e realizar, deixamos de viver o dia a dia, o presente. Reféns do futuro, não sabemos quem somos, sabemos o que queremos e precisamos. Esta transformação das estruturas ontológicas - do ser em querer - nos transforma também em massa de manobra. Contextualizados na família, sociedades, épocas e economias geradoras de educação, formação e oportunidades, somos assim, representantes destes contextos formalizadores. A profissão, o nome (rendimento) da família, o status institucional (social e econômico) além das inserções midiáticas, permitem poder e sucesso. Este é o panorama da sociedade contemporânea, conhecida essencialmente como de consumo, resultado da fase do capitalismo fundamentada na economia de mercado. Os bens de produção  são agora transformados em vetores, construtores do mercado, este grande parque onde são definidas as diferenças entre explorados e exploradores, ou entre quem consome e quem não consome, quem tem e quem não tem.

Este momento socioeconômico gera estruturas psicológicas onde ainda é mais elucidativo o lema e a meta do querer é poder, desenvolvido e realizado pelos sobreviventes robotizados em função dos desejos de conseguir.

A manipulação e construção de identidades - bem conhecida nos estudos antropológicos - o estabelecimento de reivindicações de direitos, busca construir superestruturas anódinas e anômalas. A luta pelo ter direito a ter direito, o querer receber espaços sociais e públicos porque outros os têm, aumenta e complica a legitimidade, amplia as possibilidades democráticas à medida que aniquila as individualidades.

Querer não é poder, esta sinonímia partiu de uma distorção inicial ao se transformar o ontológico em volitivo. O ser humano não é um ser de demandas e desejos, ele tem necessidades e possibilidades; isto é intrínseco ao seu processo do estar no mundo. Somos organismo com necessidades e também  estruturante de individualidade relacional; somos constituídos pelo semelhante, pelo outro, graças às possibilidades de estabelecer diálogo, de perguntar e responder, de significar.

Quando o ser humano deseja e quer em função de contextos, através de perguntas e respostas ele exerce diálogo com o outro, com o mundo. Quando o ser humano deseja e quer em função de mercados, de modas e regras, ele monologa, ele não dialoga com o outro nem com o mundo. Seguir os dados, acompanhar as regras do que vai trazer satisfação ou insatisfação, esteriotipa. Exemplos caricatos podem ser baseados no desejo de ser igual, de imitar os poderosos e ricos: todos precisam viajar, então vamos viajar, o mercado oferece desde os cruzeiros aos passeios rurais; da mesma forma, fazer com que mulheres lutem por igualdade, que tenham os mesmos direitos que os homens, buscando fazer coisas independente de sua estrutura orgânica. Na esfera social, querer direitos para os quais não existe o processo histórico, uma estrutura que os justifique é também alienador. Processos são processos, a imanência de suas estruturas determinam sua permanência e impermanência. Processos utilizados para estabelecer resultados, realizações e propósitos são sempre violentadores à medida que falseiam e destroem.

"Falar a mesma linguagem" é uma estratégia usada pelo vendedor, falsos profetas e pretensos cuidadores, seja do físico (médicos) ou do psíquico (psicólogos, psicoterapêutas, orientadores). Este se lançar sem condições é um pulo no abismo, causador de grandes males - aumenta as ilusões - estabelece o faz de conta, o engano, destruindo ao realizar as demandas de mercado. São as vítimas criadoras de outras vítimas.







- "Grundrisse" de Karl Marx
- "Sens et Non-Sens" de Maurice Merleau-Ponty



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