Thursday, February 28

Organizar

Perceber o que ocorre e suas implicações permite organizar referências, sinais e processos. A continuidade desta vivência ao ser descrita, narrada, faz com que se situem e encaixem cenários, paisagens, sentimentos e cogitações.

Entender as implicações dos próprios atos, poder contar a própria história de vida, entendendo seus diversos desenvolvimentos, é organizador. Quando se consegue responder ao que está acontecendo ou ao que aconteceu, se começa a estabelecer ordem. É clássico na psiquiatria, para o diagnóstico diferencial, perguntar: Que dia é hoje? Onde você está? Como é seu nome? O desorientado não responde e este é um dos sintomas típicos da loucura.

Comumente, quando não se sabe por que acontece o que acontece ou nem se imaginava ser possível saber, fala-se em alienação ou em inconsciência.

Estar imerso na satisfação de desejos/necessidades esvazia, desumaniza, desorganiza, autorreferencia. São os pontos, os fragmentos humanos esperando seus polos de atração, esperando o que lhes vai dar consistência: do guru à Bíblia, ao príncipe encantado ou à princesa salvadora.

Organizar é determinar, discriminar (separar o joio do trigo). O processo organizativo só existe se é resultante do que está diante; quando tal não ocorre os critérios da organização são a priori, ferramentas, redes usadas para conseguir o que se precisa; o mundo fica "organizado" em termos do que vai fazer bem ou do que vai causar mal. Nestes casos não há organização, o que existe são esquemas prévios, funcionando como captadores, armazenadores.

Organização é sempre intrínseca ao percebido e vivenciado; quando extrínseca, não é organização, é regulamentação, produção de rótulos e categorias.














 

- "Filosofia de las formas simbólicas" de Ernst Cassirer
- "O Homem que se achava Napoleão - Por uma história política 
   da loucura" de Laure Murat

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Thursday, February 21

Prolongamento e transcendência

A única maneira de não ser tragado e esgotado pelas necessidades de sobrevivência é através da realização de possibilidades intrínsecas ao humano.

Vivenciar o presente gera sempre continuidade. Este suporte, esta continuação, prolonga e transcende o vivenciado, criando novas necessidades ou ampliando possibilidades.

Nas estruturas fragmentadas pela não aceitação, a satisfação de necessidades está sempre criando novas demandas, mesmo que sejam as de manutenção e garantia do conseguido.

Nas estruturas inteiras, de aceitação, de aceitação da não aceitação, satisfazer necessidades é abrir perspectivas, é gerar continuidade para ampliação relacional. Este ficar quieto, em paz e aberto para o que ocorre é a disponibilidade: suporte fundamental para transcender limites e contingências. É através disto que podemos entender porquê quanto mais se presentifica mais se é disponível e inteiro para transcender limites, para entender que a morte faz parte da vida, por exemplo. A fusão de contrários, a unificação das divisões ocorre assim.

Sem a continuidade do presente que prolonga e transcende o vivenciado, a vida é realmente "um vale de lágrimas", as perdas e frustrações são constantes e a ansiedade gerada pelas metas preside o dia a dia, impedindo a disponibilidade, criando ganância, medo e mágoas e assim se vive no passado ou no futuro, perdendo-se o processo que permite tudo perceber e aceitar.
















"Dialética do Concreto" de Karel Kosik
"Martin Heidegger: Fenomenologia da Liberdade" de Günter Figal


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Thursday, February 14

Engano

Vencer ou vencer - desconsiderar o fracasso - cria oposições intransponíveis. O indivíduo isolado em seus objetivos ao transformar a esperança em matéria prima, em tampão de abismos e vazios, nega tudo em volta: desde o outro até o próprio desespero e medo. Realizando-se como vetor do próprio desejo estrutura-se como desejante perdido e engolfado no próprio desejar. Esta pontualização fragmenta e destroi.

Quando se consegue realizar o desejo, não existe mais quem desejou, existe apenas o resultado, o desejado. Quando não se realiza o desejo, fica claro o abismo que o engendrou, fica claro o despropósito.

A transformação de possibilidades em necessidades é sempre redutora. Contingenciado pela sobrevivência, desaparecem as matrizes humanas relacionais, tudo pode ser usado para realizar o que se deseja, até a própria vida serve de ficha (cacife) para a grande aposta.

A necessidade de vencer, de acertar é um dos maiores enganos e imersos nesse contexto os dados relacionais são estruturados. Enganar é o que leva a aplacar contradições e conseguir o que se deseja.

O engano cria armadilhas, os vazios estão disfarçados, é impossível continuidade e consistência. Nesse contexto, acreditar no outro é se enganar, equivale às ilusões de óptica. Depois de sobreviver às armadilhas se consegue perceber o quanto se enganou ou foi enganado. É um momento de dor, de raiva, mas também de liberdade. Constatar o engano é sempre libertador, apesar dos resíduos de dor e mágoa.

Casamentos enganosos, por exemplo, uniões que desmoronam e são reconstruidas através de explicações e justificativas suprem de fingimento e interpretações o cotidiano dos unidos.

Quanto maior o engano, a necessidade de manter o relacionamento ou o conseguido, maior a construção de justificativas neutralizadoras do engano: deixa-se de ser enganado e passa-se a se enganar. Apropriar-se do que vitima e aliena é a maneira de depender de desejos e metas alienadoras, desumanizadoras.













 

"A Aventura Semiológica" de Roland Barthes
"Os Buddenbrook" de Thomas Mann

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Thursday, February 7

O que conta - padrões

Não sendo aceito pelo que é - ser humano com possibilidades e necessidades de relacionamento - estrutura-se o processo de não aceitação, com consequentes caminhos de aceitação sob condições. Um destes caminhos é através do que se padroniza: bom comportamento, boa aparência, bons resultados. Riqueza, beleza e sucesso são padronizados e passam a ser buscados. Tudo é avaliado dentro destes referenciais. Fazer amigos, criar família, estabelecer segurança oriunda de recursos materiais é o nirvana buscado. Tudo gira em torno de estruturar-se dentro de padrões, sendo neles aceito e o que é valorizado é o que complementa, completa, realiza. O próprio ser é padronizado, é transformado em ego, em eu sustentado pelo poder do conseguido e estabelecido.

Questões existenciais foram transformadas em avaliações relacionais, onde o verificado é o poder de acréscimo ou de diminuição, de adequação ou inadequação marcados pelo outro. Olhar em volta é então, verificar o que pode ser apropriado, aproveitado para realizar objetivos, demandas de realização social e econômica.

Transformados em padrões, nos constituimos em referenciais, novos padrões que são obstáculos, limites ou marcas sinalizantes de sucesso. É a desumanização, desaparece a matéria-prima do humano: a disponibilidade/possibilidade relacional. Tudo foi transformado em necessidade, contingência, erro e acerto.

Para estes desumanizados, procurar psicoterapia é uma maneira de buscar melhora para conseguir realizar o que é necessário a um ser humano. Reduzidos às funções necessárias, ao se depararem com questionamentos e globalização de suas problemáticas, surge uma mudança: não existem padrões, existem possibilidades depositadas em referenciais limitadores. Declarar o que se é, saber o que não se aceita é o primeiro passo para o caminho de libertação, para descoberta dos abismos e das dificuldades de realização. Quebrar os padrões às vezes é expor feridas, tanto quanto é libertação. As fragilidades, as não aceitações expressas permitem transformações; elas desaparecem, são erradicadas ou se tornam consistentes demandas recriadoras de novas dimensões, agora aceitas.















 

"Sem Medo de Errar" de Alina Tugend
"Metáforas Históricas e Realidades Míticas" de Marshall Sahlins


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