Thursday, January 31

Reivindicações

Olhar em volta e nada ver, este vazio, solidão ou desespero é resultante da falta de autonomia. O ser humano, enquanto organismo, não sobrevive sem autonomia, sem que o organismo realize suas funções básicas: assimilação/desassimilação, locomoção, sinalizações relacionais (cognição/percepção). O ser humano, como ser relacional, subsiste e coexiste com o outro. Quando este relacionamento é estruturado em autonomia recíproca, as relações fluem, existe disponibilidade; entretanto, quando falta autonomia surgem os apoios, as muletas ou usos, as adequações ou inadequações. Não querer ficar só, precisar de alguém, querer colorir o dia a dia, são sintomas desta dependência, desta falta de autonomia. Grandes sofrimentos, depressões por ser abandonado, desapareceriam se fosse percebida a fraqueza, o medo, o vazio a ser preenchido - não é o outro que falta, é o vazio que persiste. O espaço desocupado é a muleta quebrada ou roubada; vivencia-se a falta, o abandono, quando em verdade o que é sentido é a urgência de tampar, preencher.

Quanto maior é a vivência de perda, de falta, mais se reivindica, se chora, se exige.

Reconfigurar espaços, mudar estruturas, aplanar, dar continuidade ao que se vivencia, estabelece paisagens significativas. Ao olhar em volta sempre se vê algo ou alguém, dimensões são criadas, novas situações surgem. Este momento de descoberta transforma a atitude de reivindicar, pedir, esperar, em participação, encontro, consequentemente, mudança.



"Filosofia do Tédio" de Lars Svendsen
"A Vontade de Poder" de Friedrich Nietzsche


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Thursday, January 24

Perguntas e Respostas

Kafka em seu livro "Parábolas e Fragmentos" diz que não entendia como as perguntas dele não obtinham respostas, comentando ainda não entender como podia fazer perguntas.*

Perguntas são fundamentais para questionamento e mudança, podendo também ser impeditivas de constatações e reflexões quando transformadas em busca de respostas substitutivas das próprias vivências. A pergunta deve resultar da dúvida, do questionamento, da antítese e não ser um recorte verificador de regras e padrões.

Perguntar a alguém por alguma coisa é um direcionamento que supõe outras realidades além das configuradas. Esta expectativa gera necessidades responsáveis por familiaridade, estranhamento, dúvidas e certezas; cria e aplaca ansiedades. O estabelecimento de posições, o acreditar em delineamentos e descobertas, antes de qualquer coisa funciona como trincheiras, abrigos e caminhos a conquistar e desbravar. Este se por em cheque, faz aprender, adequar tanto quanto padroniza e adapta. Matar a curiosidade é sedar a motivação. A psicopatologia do cotidiano nos mostra isto claramente através das compulsões, hábitos obsessivos e loucura administrada. A flexibilidade do perguntar é estagnada pelas respostas.

A pergunta é o início da travessia, é a passagem para outro contexto. É uma ponte que deve ser destruida após sua utilização desde que não há porque usá-la novamente. Quando perguntar se torna regra e hábito, vira código, monumento, torna-se caminho construido que sempre supre direções anteriormente marcadas, tão necessárias que se tornaram obsoletas.

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* "Outrora eu não podia compreender que minhas perguntas não obtivessem resposta; hoje em dia não compreendo que jamais tivesse admitido a hipótese de formular perguntas… Bem, eu não acreditava então em coisa alguma - só fazia perguntar" - Franz Kafka
















"Parábolas e Fragmentos" de Franz Kafka
"Nietzsche e o Círculo Vicioso" de Pierre Klossowski

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Thursday, January 17

Intranquilidade


Intranquilidade é a dificuldade de se deter no que se propõe, é também o determinante de ansiedade, carência e medo.

Não conseguir se concentrar no que é vivenciado, a incapacidade de ser absorvido pelo presente gera ansiedade, gera medo; é uma falta que estabelece reinvindicação desejo e carência.

A intranquilidade se constitui em dínamo, propulsão ao comportamento. Vive-se para realizar, para conseguir, para demonstrar que pode, consolidando-se assim a impossibilidade de se deter, ou seja, a não vivência do presente. Acontece que o presente existe e demanda presença, tem que se por os pés no chão. As drogas miraculosas são pára-quedas, artefatos que possibilitam as aterrissagens: o mundo desmorona, os próprios desejos são fantasmas, mas se consegue ficar calmo, aparentar bem-estar. 

Em situações de intimidade, em situações limites onde a presença é necessária, os artefatos são dinamitados. A impotência, a incapacidade de lidar com os limites, expressa as artimanhas e máscaras escamoteadoras. Não se sabe quem é, não se sente nada, apenas se flutua sobre o que ocorre.

Esta impossibilidade de presença, de participação e envolvimento denuncia e aniquila todos os álibis mantidos. É a crise, sempre adiada, que agora se impõe.
















- "O Diário de Nijinsky" de Vaslav Nijinsky
- "Filósofos na Tormenta" de Elizabeth Roudinesco

Thursday, January 10

Impedimentos


Quando a constatação do que se quer, do que se gosta é vivenciada em estruturas apriorísticas, surge necessariamente a descoberta da impossibilidade, do medo e da dificuldade. Nestes casos, atingir o que se deseja só é possível quando se rompe o medo, o preconceito, quando se abre mão de garantias, certezas e vantagens. 

Jogado neste embaralhado de desejos e medos, se inicia um processo de mudança, de se perceber de maneira nova, que pode ser liberador embora sempre conflitivo e fragmentador. Perceber as próprias divisões e contradições pode nada significar se isto é vivenciado de uma maneira fragmentada e circunstancial.

A ultrapassagem dos conflitos pela realização do que se deseja, pelo rompimento da omissão, do medo, cria nova realidade, determinando vivências de encontro.

Mudança é superação de padrões aprisionantes e limitadores. Abrir mão do inadequado é fácil, entretanto se torna difícil se ele for algo considerado bom, algo que traz alguma vantagem, que é conveniente. Mudar, sair desta inadequação, se torna, assim, a prova do fracasso, do erro, do desajuste, é visto como sair do bom caminho e trilhar o que conduz a prejuízos. Esta atitude onde o importante não é o andar, é onde se anda, esta teleologia, esta busca de acertos produz máquinas caminhantes, seres desejantes sob condições. É a desumanização, é o compromisso, o viver independente de realizar o que se quer, pois o mais importante é o que se aparenta querer, aparenta ser.












"Vida de Marionetes" de Ingmar Bergman
"Desejos Secretos" de Inês Reider e Diana Voight

Thursday, January 3

Renúncia - Unificação de Contradições

A única maneira da renúncia se efetivar é através do desprendimento, da disponibilidade.

Desapegar-se é um caminho para a renúncia, um caminho possível somente quando se é questionado no autorreferenciamento e suas implicações de motivações vivenciais.

As garantias responsáveis pela satisfação de necessidades são também aprisionantes. Manter-se dentro destes referenciais neutraliza descobertas, implicando principalmente na renúncia à liberdade. A renúncia por apego ao que satisfaz impede a disponibilidade, impede a unificação das contradições opressoras, cria os renunciantes apegados, aqueles que buscam salvação através do bom funcionamento, da obediência constante e da salvação eterna.

Desprendimento é a não avaliação, o largar; como já dizia o poeta "… e um gesto irônico ao que não alcanças" *

Abrir mão, soltar, largar, não reter é renunciar. Aceitar limites só é possível quando se renuncia a metas, propósitos e desejos. Entender que a morte faz parte da vida, que perder é ganhar, enfim, unificar contradições é o que permite renunciar. Esta ultrapassagem de contingências é possível quando os medos, os valores e limites foram transcendidos e as divisões unificadas.

Tudo é igual quando as diferenças são estabelecidas. Os resultados diferem, mas o processo é sempre o mesmo: continuidade, questionamento, posicionamento.

Pular fora do limite e ir além do estabelecido é sempre unificador, sempre soluciona pendências e contradições. Crescer é renunciar à manutenção do conseguido.

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* Raul de Leoni em  "ET OMNIA VANITAS…"





 











"The Dialectics of Liberation" editado por David Cooper
"Diferença e Repetição" de Gilles Deleuze

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