Thursday, December 26

Erro trágico e peripécias

Tudo que é avaliado, medido implica sempre em erro ou acerto. Certas situações são tão óbvias que delas só deveriam resultar acertos, mas, mesmo quando se tenta "agir corretamente", sem questionamentos e sem globalizações se incorre em erro, que em alguns casos pode ser um erro trágico.

Shakespeare, em o Rei Lear, retrata magistralmente o erro do soberano ao trabalhar com o óbvio e o evidente. Obviedade, evidência são recortes parcializantes do existente, recortes integrados nas estruturas das próprias avaliações (autorreferenciamento). O que se destaca só é globalizado quando percebido em função de seus dados estruturais (presente percebido no contexto do presente). O Rei Lear achava que duas de suas filhas expressavam amor filial quando escolheram o que queriam na divisão de seu reino; a outra filha, Cordélia, expressava desconsideração quando apenas se propôs a receber o que a ela se destinasse, afirmando que o amava "como corresponde a uma filha, nada mais, nada menos". Irritado com esta resposta de Cordélia, ele a deserda, a expulsa do reino e o divide com suas duas outras filhas bajuladoras. Esta atitude do Rei Lear foi um erro trágico, que encheu de solidão e sofrimento a sua velhice.

Todo erro trágico, já diziam os gregos, acarreta peripécias.

As lutas, conflitos e peripécias, muito encontradiças na esfera familiar, decorrem de erros trágicos como por exemplo: casar com o outro pelo fato do mesmo ter tudo que se precisa e logo após o casamento descobrir a falência econômica do escolhido; escolher ser advogado pela conveniência das inserções familiares na esfera do judicial e do poder e ser surpreendido pela instalação de uma ditadura que suspende todo o poder judicial, aprisionando seus titulares; querer ser médico para curar as doenças maternas e descobrir que a mãe está a morrer pelo excesso de trabalho necessário ao financiamento de seus estudos médicos.

Garantir segurança através do exílio do que denuncia ou mostra o erro, é trágico, produz caminhos infinitos, peripécias indignas, valores significativamente transformados em moedas de negociação, como aconteceu com Rei Lear.

A tragédia não é o erro, a tragédia é a conclusão equivocada resultante de parâmetros e carência deslocada, de conflitos não questionados que a determinaram. Geralmente, depois das peripécias a verdade aparece e o erro é superado pela constatação do que o ocasionou. Sofrimento, arrependimento são as vivências, os castigos que resultam de querer salvar o impossível, negar o evidente, utilizar o outro. A perda de autonomia é uma das decorrências que logo surge com o erro trágico e é nesta cegueira que as caminhadas, as peripécias se desenrolam. Neste difícil caminho podem ser construídos heróis, que ao se sentirem salvadores, incorrem em novos erros, acarretando novas peripécias, novos personagens; pode também, ao se saberem heróis, questionar o que os engendrou, recuperando assim autonomia, equilíbrio, disponibilidade.















- "Rei Lear" de Shakespeare
- "O nascimento da tragédia" de Friedrich Nietzsche


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Thursday, December 19

Mídia e poder

Os mecanismos para mudar podem ser tão alienantes quanto os mecanismos de manutenção. A regra ou a imposição do “feliz natal” por exemplo, é uma forma de arregimentar ilusão, polarizar fragmentação em função de cruzadas midiáticas, consumistas ainda que solidarizantes.

Propalar felicidade, liberdade ou atitudes de mudança e afirmação é iludir, é criar expectativas, vendendo de produtos a governos.

Na pós-modernidade, o conhecimento, o saber é um produto que tem preço, consequentemente estrutura a pirâmide do poder, substituindo ideários e ideologias, reforçando títeres, comunidades e partidos: facções responsáveis pelo empoderamento e entesouramento a partir das demandas sociais.

Oficialização e credibilidade de ocorrências, pouco tempo atrás eram validadas pela constatação do “Deu na TV, saiu no jornal, é fato”; este referencial começa a ser falsificado, manipulado; os selos de garantia se ampliam. O selo, a embalagem, validam o produto. Nas redes sociais, por exemplo, grupos de avatares enganosos validam posições políticas que se tornam virais, falseando e influenciando conclusões arbitrárias, mas que se tornam fatos. Lojas de 'padrão excelente', 'pessoas acima de quaisquer suspeitas' são modelos a seguir. A fabricação das embalagens, imagens e despistes justificam, assim, empenhos e sacrifícios - humanidades esvaziadas.

Esconder problemáticas e dificuldades é sobressair, é significar. Paradoxalmente ao se destruir como humano, afirma-se como coisa, objeto que possibilita agradável consumo: vive-se para conseguir ser aceito, usado, comprado.

Orientações midiáticas para o desapego, a solidariedade, a determinação etc conseguem mudar atitudes e comportamentos ao criar patamares de bom e ruim, de padrões sociais valorizados e desvalorizados, mas não passam de mais um artifício para manter posicionamentos, maneira politicamente engendrada de mudar para manter: a maioria pode ser representada por minorias poderosas. As psicopatologias podem passar a ser parâmetros de ações corretas: destruir para conseguir ordem e afeto aparenta ser solucionador (Esparta e Alemanha nazista eram mestras nesta arte). “Tudo por amor” é um clichê, um slogan arregimentador de ódio e maldade, tanto quanto “o mais forte”, o imponderável que arrebata e justifica é o esconderijo de frustrações medos e não aceitações.

Mudança é intrínseca às contradições e aceitação das mesmas. Aparentar, obedecer são intrínsecos aos processos manipuladores da sobrevivência.

Quando o conhecimento, este dado relacional, é transformado em produto, criam-se posicionamentos, estancamento de processos fragmentadores do estar no mundo. Estas divisões segmentam a vivência. Convergência e divergência são artificialmente estabelecidas: barreiras, limites, preconceitos determinam, então, a trajetória humana.

Não se muda por decretos, por orientação de mídia nem por desejos e metas. Artificialidade, aderência não configuram legitimidade, apenas geram apropriação de regras e sistemas alienadores.




“A grande guerra pela civilização” de Robert Fisk
“Conversas com Albert Speer”
de Joachim Fest
“A Informação”
de James Gleick



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Thursday, December 12

Harmonia

O sentido da impermanência, da finitude, só é aceito sem divisões através da coerência. Coerência é ultrapassar divisões, é, detendo-se no instante, transcendê-lo pela ultrapassagem dos limites, pela ultrapassagem dos propósitos. Neste sentido, coerência é iluminação, é destruição de sombras criadoras de espaços, de finitudes arbitrárias. Diante do outro, do dado, sem linhas de convergência ou de divergência, neutralizam-se direções, polaridades. É o equivalente do equilíbrio da chama da vela falado pelos iogues: impermanente e sutil.

Esta vivência do presente continuamente presente é o que permite unidade. Sem divisão não há constatação, não há avaliação, existe apenas conhecimento, fruição da permanente impermanência, da continuidade do estar no mundo. Ser com o outro é o único definidor.

Estar desvinculado de tudo e integrar-se no vivenciado é o que permite vida, sensibilidade, conhecimento. Sem esta vivência, a possibilidade humana é drenada nas contingências: vivifica coisas e se desumaniza. Percebendo que percebe, constatando, se avalia, se compara, se decide e se esgota como possibilidade nestes processos, embora se afirme como individualidade estruturada e passível de autonomia. Coerência é o que se impõe para globalizar todo o percebido, contrastes e individualizações. Quanto maiores forem as segmentações, pontualizações, divisões e recortes, mais sombras, iluminação comprometida com efeitos densificadores, mais contradição, ilusões de permanência na impermanente continuidade do estar no mundo.

Disponibilidade, integração e dedicação - a aceitação e a determinação ao enfrentar o contraditório integrador ou alienador - são os estruturantes de coerência, de harmonia.

Viver é se relacionar com o possível e o impossível, é aceitar o limite, a impotência e a possibilidade infinita de estar no mundo, detendo-se em abismos, superando-os ou sendo por eles tragados ao exercer certezas e enganos. Na coerência não existem ilusões, ou estas são as premissas das transcendências estruturantes, desestruturantes, mas, infinitas por definição, desde que tudo ilumina.














- "Phenomenology and existence - toward a philosophy within nature" de Marvin Farber
- "Enterrem meu coração na curva do rio" de Dee Brown


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Thursday, December 5

Nada se esgota em si mesmo

É verdade, mas as coisas se esgotam em si mesmas enquanto vivência; esta inevitabilidade é transformada pelos contextos, pelos processos. A continuidade, o relacional é o processo, o movimento, a dinâmica do estar no mundo. O que é feito, o que é realizado é único enquanto vivência, mas estabelece diferenciações, significados, deixa marcas. São as implicações, as resultantes, as decorrências no sentido da continuidade processual. Não é causa, não é efeito, são momentos, passagens e paisagens diferenciadas e diferenciadoras.

No âmbito individual, tudo isto poderia ser relacionado ao processo de memória. Memória não é apenas um receptáculo de vivências, é também o start, o início de novas cogitações e considerações. A memória individualiza à medida que constrói, que estabelece o eu, o ego, referencial de individualização enquanto vivência - embora sem significação como possibilidade relacional devido a sua característica indicativa de registros e posicionamentos. Quando, à partir do registrado e posicionado, se busca significar possibilidades relacionais, apenas se estabelece padrões e critérios aquém ou além do vivenciado.  Memorizar é esgotar, mesmo quando se recorre a estes dados armazenados - é o passado - não atua ou se o faz já é presente. Kurt Lewin, em seu Princípio da Contemporaneidade, falava isto: não se pode explicar o presente pelo passado; em física, a força atua e consequentemente o movimento existe, não se pode explicar o que agora está se movendo pelo que antes atuava. Freud achava que as vivências passadas eram os determinantes do comportamento presente, assim, arbitrariamente segmentou o humano ao admitir o inconsciente como a chave mestra para entender motivação, memória e determinação. Ele comparou o inconsciente a um fantasma criador de situações inusitadas e inéditas; é o seu famoso Kobold im Kellar - fantasma da adega - o inconsciente.

As coisas se esgotam em si mesmas enquanto vivência, mas suas trajetórias criam desenhos, configurações responsáveis por continuidades ou desvios. Otimizar a vida em função dos próprios objetivos, por exemplo, traz vantagens, que na sequência são desvantagens para o otimizador; no mínimo, pelo oportunismo, estabelece posicionamento imobilizador.

A continuidade dos processos sempre leva à transformação, então, quando isto ocorre em posicionamentos imobilizadores, já não se consegue manter o que fez ficar bem. As realizações decorrentes do lucro, esgotam as possibilidades do mesmo - toda mudança de ordem social, econômica e política demonstra isto.

Indivíduos que sistematizam normas e regras, ao verificar a defasagem das mesmas e ainda assim mantê-las, são baluartes do "choque de geração" expresso no contato com os mais jovens e na dificuldade de aceitar o novo, o diferente. Para estes indivíduos as coisas se esgotam em si mesmas, não possibilitam implicações e nesta vivência estagnada, perceber suas coisas, em si mesmo esgotadas, é uma constante. Depressão, medo e revolta, passam a ser o alfabeto tradutor de seu cotidiano - velhice é isto.


















- "Le Démon de la Tautologie" de Clément Rosset
- "Sur le Rêve" de Sigmund Freud


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Thursday, November 28

Ajustes e regulações

Padronizar, regular são adaptações necessárias que realizam o ajuste indispensável ao bom convívio, entretanto, isto pode apenas realizar opressão e submissão.

Ao querer dar certo, ser eficiente, se utilizam modelos decorrentes de avaliações circunstancializadas, de esperanças e consequentes ilusões, desde que o padrão, as regras defasadas são transpostas: são anteriores ao vivenciado, são passado, são voltadas para o futuro, se referem a limites, espaços diferentes dos agora situantes.

Este posicionamento expectante cria tensões, cria angustias e coloca o indivíduo à mercê de autorização, de validação alheia a seus contextos relacionais. Adaptar supõe sempre um propósito ou uma falha a ser corrigida. Os critérios de congruência e validade são fôrmas, moldes que esperam receber a "massa humana" e adaptá-la a objetivos genéricos, não individualizados. Ser moldado é organizador, adaptador, mas também aniquila a liberdade (autonomia).

As regras do bem viver não podem ser resultantes de avaliação e decisão sobre o melhor ou o pior em detrimento da individualidade. Contingenciadas, valoradas em parâmetros extrínsecos, elas invalidam seu objetivo. Alemanha nazista, ditaduras populares e militares, Inquisição, por exemplo, foram responsáveis pela entronização de valores destruidores do bem conviver, destruidores de vidas em função de causas arbitrárias.

Buscar o ajuste para ter sucesso, para satisfazer pais autoritários é fonte de mentiras e enganos na constituição de famílias ditas equilibradas, famílias que funcionam como cobertura de vidas duplas e esgueiradas do que é considerado desadaptado e anormal. Abrir mão dos próprios desejos e certezas para realizar as frustrações e fantasias dos pais, cria base para incestos, pedofilias e outras perversões intrafamiliares, por exemplo. É o ajuste para disfarçar e realizar violência e massacre.

Todo ajuste deve ser questionado para que não se torne uma máscara que se prende ao corpo, dilacerando-o. Vivênciar e questionar as implicações dos próprios atos e desejos é uma maneira de não cair nas armadilhas do devido, do sensato, terreno fértil para preconceitos.

Padrão corresponde sempre às frequências anteriores, regularidades que funcionam, mas que são bitolas defasadas. Comprimir, encaixar subverte o indivíduo criativo e também subverte o "doente", o mórbido, o maléfico. Não há como homogeneizar esta disparidade: o intrínseco do extrínseco, a imanência da aderência.

Liberdade e novidade imperam no mundo humano. Compromisso e repetição limitam o mundo mecânico dos sobreviventes, desumanizados pelos seus anseios e metas. Aceitar a própria condição, seus limites e possibilidades, é a única forma de criar bem viver, bom convívio, harmonia. A violência, que assistimos impotentes, é um dos sintomas das regras sociais, econômicas e psicológicas. Paradoxos e contradições não podem ser resolvidas por decretos, regras, submissão ao certo, devido, autorizado.
















- "Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira" de Marcio Pochmann
- "A vida do espírito" de Hannah Arendt


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Thursday, November 21

Arrumação

A organização é intrínseca aos processos perceptivos, a própria Lei de Figura/Fundo* possibilita isto, tanto quanto possibilita distorção, desorganização. Tudo vai depender das relações estabelecidas com o mundo, com os outros. Quando a imanência dos processos relacionais organiza e isto é permanentemente continuado através de questionamentos e mudanças, se estrutura autonomia ou na linguagem comum se estrutura auto-confiança. Se os questionamentos são decorrentes de metas, desejos e medos eles geram posicionamentos advindos de certezas e crenças, que ao organizarem o não existente - o futuro - desorganizam o presente.

As sociedades, através de suas instituições, principalmente as educativas e religiosas, procuram organizar, educar e acenar com explicações geradoras de conforto e paz diante das vicissitudes. Educação, quando focada em necessidades a satisfazer, se constitui em um verdadeiro atentado ao humano e a religião ao tentar organizar o medo, através da fé, mobiliza o egoismo, prometendo vida eterna, paraiso etc ou quando busca melhorar a impotência, recordando que poderia ser pior, se constitui em fator de alienação. Administrar medos, esperanças e dificuldades é um dos principais objetivos religiosos.

Qualquer organização extrínseca aos processos se transforma em poder alienante; as arrumações, então, são necessárias e frequentes para que se consiga exigir subordinação a rituais, regras e padrões.

Religião oprime quando busca conduzir indivíduos aos pontos de certeza postulados por outros. Viver sob a égide de uma religião é uma maneira de alienar-se.

Religião é sensibilidade, é criatividade quando é encontro consigo mesmo através do outro, quando não é regra/ritual a ser processado em função de arrumações que precisam ser mantidas. Ser religioso é estar livre, aberto ao outro, ao mundo, ao absoluto/relativo da existência; é estar disponível para a possibilidade de transcendência - experiência do além do limite e circunstâncias - aplacando assim os problemas ao realizar continuidade humana além dos obstáculos sobreviventes. A religião institucionalizada tenta organizar, mas pode estar alienando quando transformada em mediação entre o contingente e o absoluto. O dito espiritual transcende as formas religiosas e suas arrumações.

Flexibilizações, dispersões também organizam e arrumam ao separar o joio do trigo, ao entender o constituído e o constituinte, ao perceber igualdade e diferenças como sinônimos. Tudo vai depender da liberdade ou do compromisso.

A organização transforma se for intrínseca aos processos vivenciais; quando ela é aderente, fracassa, é armadura esmagadora do humano.

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* Gestalt - Reversibilidade perceptiva, lei da percepção: o que se percebe é a Figura, estruturada em um Fundo não percebido, quando o Fundo é percebido ele se torna Figura; são reversíveis, a Figura se transforma em Fundo e vice-versa.



- "Galileu" de Philip Steele
- "Joana d'Arc, a lenda e a realidade" de Frances Gies
- "Sociedade Sem Escola" de Ivan Illich



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Thursday, November 14

Trunfos, amuletos e contra-egun

Estar no mundo, deparar-se com o inesperado, com perigos e dificuldades, gera medo ou no mínimo insegurança e apreensão. Deter-se nesta vivência leva a questionamentos que permitem que o indivíduo descubra mudanças em sua percepção: o percebido pode se tornar libertador, as dificuldades podem significar confrontros esclarecedores e o inesperado é o novo que sempre questiona; entretanto, quando voltados para manutenção de situações e conquistas, se evita, se foge do que não está sob controle, mas se sabe que o imponderável, o fora de controle existe, isto amedronta e o individuo busca proteção.

No afã de tudo garantir, são criados locais blindados pela proteção da família, de amigos, pela garantia do dinheiro, dos amuletos, do poder e de estratégias. São os trunfos, que vão desde "o sabe com quem está falando", "o dinheiro tudo resolve" até "não mexe comigo que eu não ando só".   

Pensar que a vida está garantida através do exercício de recursos e estratégias, compromete, neurotiza. A necessidade de garantia e certeza constrói duplos, seres inseguros que só se mantém amarrados aos seus pedestais de compromisso, crença e ilusão. A imobilidade assim conseguida, estratifica: vitoriosos e fracassados, ricos e pobres, protegidos e prejudicados passam a ser os determinantes das cogitações relacionais.

Neste universo organizado pelas significações aderentes, surge o homem temeroso, oprimido pela necessidade de bons resultados. E assim, crenças, trunfos, amuletos, contra-eguns* são decisivos, são a proteção para enfrentar a considerada selva, proteção para sobreviver.

Voltar-se para o além daqui, para o ainda não vivenciado, criando expectativas, transformando tudo em indicações, é abrir mão da liberdade; é circunstancializar-se subvertendo a dialética das próprias vivências: o sim é o não, o não é o sim e nesta alternância a instabilidade se torna constante, permitindo condição de mudança, de flexibilização, puramente ilusórias.

Proteger-se é bom, é salvador, mas também pode ser aniquilador, no mínimo a autonomia é substituida por rituais sociais e religiosos.

Autonomia só é possível como resultante da satisfação de estar entregue a si mesmo, no mundo com os outros.

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* No Candomblé de tradição yorubá, contra-egun é a palha da costa tecida e colocada na parte superior do braço e cintura, usada geralmente após a iniciação no Orixá como proteção contra os espíritos (egun).
















- "El Monte" de Lydia Cabrera
- "Mitos, emblemas e sinais" de Carlo Ginzburg


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Thursday, November 7

Mitos

Hobsbawm já escreveu sobre a invenção das tradições como fator importante nos processos ideológicos, nos processos históricos. A construção de identidades através dos mitos de origem são frequentes nas sociedades, gerando manipulações das mesmas para conseguir "benesses" dos poderes públicos, assim como possibilitando a criação de histórias que servem para deslocar não aceitações.

Reis, rainhas povoam o imaginário dos adeptos de Candomblé e muitos deles, oprimidos e escorraçados deslocam suas não aceitações, utilizam máscaras régias, fazem uma fusão entre os mitos, lendas de seus Orixas com sua personalidade. Têm sido tão frequentes estes processos no Brasil, que foi pesquisado por Monique Augras - psicóloga - como estudos de personalidade, no livro "O Duplo e a Metamorfose".

Temos outro exemplo na cultura indiana clássica, que engendra esta fusão entre mito, identidade e ideologia. Na India, com seus múltiplos deuses e avatares, a heroina Sita do Ramayana é o modelo de identidade feminina: mulher submissa, esposa, mãe, raptada, vítima injustiçada salva pelos deuses; identificação valorizada que serena e mantém a obediência às regras familiares. No âmbito das manipulações sociais, as divindades Kali e Durga, muito violentas, são modelos, são exemplos que se seguidos, possibilitam energia, força para enfrentar conflitos e por isso mesmo, servem à manipulação política do imaginário popular nas lutas entre grupos religiosos.

Nas sociedades ocidentais em geral, baseadas na tradição greco-romana, a identificação com os mitos desta tradição já não é operativa.  Atualmente se insere no mundo contemporâneo ocidental, a idéia de vidas passadas (Karma), por exemplo, de reencarnação como explicitação de situações paradoxais, inesperadas e não aceitáveis, mas, que justificam identidades.

Quando os mitos são deslocados de sua função resultante, decorrente de perguntas diante dos "mistérios" do mundo e passam a ser utilizados como background, como base, surge uma inversão penosa, desagregadora. Enganos são estabelecidos, reis, rainhas, deuses abundam, mitigando o desespero, criando deslocamentos, produzindo válvulas de escape para drenar a não aceitação que congestiona, deslocamentos expressos em frases como: "sou pobre, mas minha família era latifundiária", "venho de origem real da Nigéria", "ser mulher é assim mesmo, eu sei sofrer", "é o meu karma, por isso sou assim" etc.

Quanto mais é mantido o mito como explicação da identidade, mais alienação e ilusão se estabelecem. Psicologicamente, este deslizamento de conceitos é importante para entender os contorcionismos gerados pela não aceitação. De tanto repetir, se acredita e assim se organizam comunidades que sobrevivem deste saber, desta tradição reinventada; cenários que obrigam a desempenhos e camuflam não aceitações, além de se constituirem em ilhas de fantasia enganosa.



- "A invenção das tradições" de Eric Hobsbawm e Terence Ranger
- "O Duplo e a Metamorfose - a identidade mítica em comunidades nagô" de Monique Augras
- "The Buddhist Saints of the forest and the cult of amulets" de Stanley Jeyaraja Tambiah


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Thursday, October 31

Objetificação do relacional

As ambiguidades, as indefinições geram a necessidade de explicitar o sutil; é uma atitude responsável por dúvida, avaliação e consequentes necessidades de comprovação: especular, flagrar, classificar, fotografar garantem e sistematizam. A formação de símbolos, de ícones, nas suas diversas formas de imagem e metáfora tornam denso, tornam pregnante o relacional, encobrindo assim, as infinitas possibilidades dos processos, configurando-os como Boa Forma* e frequentemente criando distorções.

Hábitos são formados, novas histórias e demandas surgem, frequentemente geradas por distorções e enganos. Reivindicações e protestos costumam adensar e fragmentar possibilidades, quando ancoradas em posicionamentos causadores de maniqueismo entre bom e ruim, certo e errado, familiar e estranho, por exemplo. Estas divisões são destruidoras da temporalidade, da unidade dos processos. Transformar o existente em ponto de convergência, em referência de um sistema, cria posicionamentos destruidores da totalidade; as partes transformadas estabelecem novas percepções distorcidas, parcializadoras e sempre, ao transformar a parte em todo, maximizam o percebido. Esta reversibilidade perceptiva cria adensamento sonegador das relações implícitas nas sutilezas processuais.

Antropomorfizar, tomar a forma humana como padrão, é um exemplo destas convergências, é uma maneira de tornar próximo, tornar familiar o não semelhante, o diferente. Isto causa enganos e ilusões. Deuses, entidades mágicas são por este processo entronizados, assim como, já por ulterior desenvolvimento, idéias de superior, inferior e primitivo resultam de cogitações baseadas em antropomorfismo; é clássica a explicação dada por Platão para a formação e regulamentação da sociedade: os filósofos (superiores - cabeça) governavam, orientavam; os soldados protegiam e os camponeses (inferiores - pés) sustentavam, proviam. O corpo, a forma humana, era o modelo validado para criação do (corpo) social.

Atitudes etnocêntricas foram criadoras de visões compactas e isoladas sobre sociedades e culturas. Postular "inferiores" e "primitivos" como codificação de diferenças, foi uma maneira de facilitar, segmentar e dividir para afirmar os próprios modelos.  

Psicologicamente, viver neste universo densificado deriva da necessidade de segurança, resultado e sucesso; cifras, diplomas e anel de compromisso substituem o relacional. Abrigar, guardar, deter impõem caixas, gaiolas - espaços de segurança e garantia, que posicionam as vivências. Buscar a "pílula da felicidade", a droga que acalma, o reconhecimento que acha merecer, é também uma maneira de densificar, pontualizar em supostos inícios e esperadas soluções, é destruir matrizes relacionais, tessituras promissoras. Surge a causalidade criando divisões para tentar controlar as contradições. Na objetificação do relacional, o próprio espaço, o que está acima, o que está abaixo, o que melhora, o que piora é o mapa a ser organizado e seguido. A densificação sempre cria tijolos, futuros muros, muralhas que defendem, dividem e isolam. Antropomorfizar e simbolizar é exercer autorreferenciamento, é, no afã de ententer o outro através de comparações, negar toda a relatividade processual.

Descobrir o outro só é possível quando não existem modelos, paradigmas para abraçá-lo, captá-lo.

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* Boa Forma é a lei da percepção que diz ser mais pregnante (perceptivel) o já conhecido, o mais simétrico e nítido, por exemplo. É a percepção privilegiada pela pregnância da organização perceptiva. Exemplo: o velho que chora e se arrasta é percebido, geralmente, como vítima - mas pode ser um algoz. Hitler velho, seria um velho, mas era Hitler velho submerso na pregnante velhice, no caso, solapadora de realidade e vivência.


- "La question de l'homme et le fondement de la philosophie" de Didier Julia
- "Le sens du temps et de la perception chez E. Husserl" de Gêrard Granel


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Thursday, October 24

Metamorfoses e imitações

"O animal arranca o chicote de seu senhor e chicoteia a si mesmo para se tornar senhor, mas, não sabe que isto é apenas uma fantasia, produzida por um novo nó na correia" - Franz Kafka

A prepotência, resultado da tentativa desesperada de copiar, imitar, cria os improvisadores precários e emergentes. Sem base, sem estrutura de aceitação de seus problemas e vivências, surgem palafitas, suportes e construções para o que se esvai e se perde nos contorcionismos da labuta para sobreviver. Quando se percebe que a fantasia, o adereço é diferente do legítimo, se percebe também que muito já foi conseguido: várias imagens vendidas foram compradas, bons resultados apareceram. Conclui-se que é melhor continuar ganhando, comprando, plagiando, imitando e então, abrindo mão do espontâneo e vivo, aprimora-se a aparência, a representação - mais imagem.

Imitar é fantasiar. Fantasiar é encobrir o que se considera feio seja antecipando o futuro pelas metas e realizações desejadas, seja encobrindo o passado através de disfarces que podem repaginar, apresentar um novo ser, uma holografia das não aceitações, roteiro para dinamização do humano forjado.

Mas, a dinâmica relacional é única e específica, não pode ser reproduzida. É impossível inventar a si mesmo ainda que usando o outro como matéria-prima. A imitação é um processo que cria inesperados, cria armadilhas: o indivíduo, vivendo em função de faz-de-conta, de aparência, perde a dimensão do presente, a dimensão do outro e se transforma em máquina construída a ser mantida. Encontramos esta dinâmica em toda parte, nas famílias, nos escritórios, nas repartições, nas redes sociais, na esfera política etc seres que, se imaginando senhores livres, apenas apertam suas coleiras e cabrestos.

 



- "É preciso duvidar de tudo" de Søren Kierkegaard
- "Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches" de Bruno Latour


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Thursday, October 17

Diferenças nas psicoterapias

Toda psicoterapia é semelhante em seus objetivos de melhorar, individualizar, criar condições para resolver as problemáticas que infelicitam o ser humano, entretanto, esta igualdade se dissolve, aparecem grandes diferenças, quando consideradas as fundamentações teóricas, conceituais, metodológicas responsáveis pela visão do que é comportamento, do que é ser humano, consequentemente, de como tratar e modificar os problemas humanos.

Além da psicoterapia gestaltista, atualmente podemos ordenar as psicoterapias em dois grupos principais: psicanalíticas ou de fundamentação freudiana e as baseadas em neurologia, biologia. Orgânico, biológico, neurológico estão, assim, conceitualmente opostos ao psicológico. A gestalt therapy, de Fritz Perls, apesar de falar em gestalt, fundamenta-se em dualismos e mantém o conceito de inconsciente. Perls dizia "perca sua mente e ganhe seus sentidos".

O que caracteriza o pensamento de visão psicoterápica, ao longo das épocas, é o dualismo, a separação entre homem e mundo. Os freudianos pensam o homem em oposição ao mundo (homem x mundo); os funcionalistas - William James e agora os neurologistas - acham que há uma interação (homem e mundo), organismo e funções; os behavioristas postulam que tudo decorre do processo de aprendizagem, é o homem do mundo. Assim, Descartes e Aristóteles continuam nas divisões corpo e alma (Descartes), tanto quanto nos reducionismos classificatórios (Aristóteles).

Na psicoterapia gestaltista considero o homem no mundo uma gestalt, uma unidade, integrando os conceitos da gestalt psychology e atualizando-os através das visões fenomenológica e dialética (inexistentes na gestalt psychology). No processo de criação da psicoterapia gestaltista, chegar a esta conclusão foi básico e definidor para mim, pois, ao enfocar os processos psicológicos, pensava na relação. Mesmo na gestalt psychology havia divisão entre homem e mundo, orgânico e psíquico, corpo e alma; não era enfatizada a relação. Para mim, a relação é o que existe e através dela falo em possibilidades e necessidades. O homem está no mundo limitado por necessidades orgânicas, processos biológicos e libertado pelas suas possibilidades relacionais, que são infinitas, desde que não se posicione no sobreviver.

O tratamento psicoterápico, sob o ponto de vista da psicoterapia gestaltista, é propiciar mudança da percepção do indivíduo acerca dele próprio e dos seus referenciais, consequentemente de "seu" mundo (homem-no-mundo é uma unidade). Isto só é possível ao globalizar sua divisão, segmentações estruturais geradas pelo autorreferenciamento criado pela não aceitação estruturadora de metas, desejos e demandas.*

Trabalhando a percepção, desde que perceber é conhecer, muda-se o comportamento. Na psicoterapia gestaltista, não existe inconsciente, consciente ou instinto. Tudo é relação, tudo é processo dialético. As globalizações terapêuticas são responsáveis por questionamentos e configuração das problemáticas. O processo terapêutico é "arte do diálogo", bem diferente da "arte da escuta" freudiana.

Koffka, Koehler e Wertheimer, gestaltistas clássicos, não estabeleceram procedimentos psicoterápicos; estavam dedicados a modificar os conceitos psicofisiológicos quantitativos e o conceito de sensação como captação de dados posteriormente elaborados pela percepção. Jamais imaginaram a percepção como sinônimo de conhecimento, jamais afirmaram que perceber é conhecer, como afirmo, pois que estavam comprometidos com visões elementaristas e dualistas, apesar de seu conceito de gestalt - globalização que só aplicavam ao considerado mundo físico. Esta divisão era típica da época, início do sec.XX e correspondia ao esforço de transformar a psicologia em ciência. Eu, beneficiada pelos estudos de percepção da gestalt psychology e pela  formação em materialismo dialético e fenomenologia (Husserl), pude unificar o dividido, afirmando que o homem está no mundo e que perceber é conhecer; esta é sua estrutura relacional significativa, que anteriormente era chamada de consciência.

Infelizmente a idéia de relação, de relacional, ainda se perde na densidade contingente dos pontos de partida, das causas prévias: traumas, instintos, repressões, vocações, mapas genéticos.

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* Para quem interessar leitura sobre o desenvolvimento dos conceitos por mim criados, clique aqui: "Criação, questões e soluções da psicoterapia gestaltista", Revista E-PSI



- "Psicoterapia Gestaltista Conceituações" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Trois Essais sur la Théorie Sexuelle" de Sigmund Freud


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Thursday, October 10

Incompatibilidades

No trabalho psicoterápico é frequente ouvir pais se queixarem das "incapacidades" dos filhos. A idéia de incapacidade é sempre avaliada em função do rendimento escolar e da socialização. Crianças autistas, crianças com deficit intelectual, consideradas fronteiriças quanto ao QI, ao serem conduzidas às escolas, não conseguem o rendimento desejado. Geralmente os pais não aceitam a afirmação de que tanto faz que seus filhos sejam bem-sucedidos nas letras e números ou em desenho, pintura e dança, que não faz diferença se são alfabetizados, se se tornarão doutores, que o importante para a criança é ser aceita como ser humano que tem capacidades e possibilidades a desenvolver. Quando assim questionados, alguns chegam a afirmar que tudo bem se o filho ficasse só em casa, se não precisasse ir à rua, se não tivesse "vida social", que o avalia e inferioriza.

Público e privado, social e individual, sociedade e família são agrupamentos, são contingências que não se excluem, se completam a depender das integrações exercidas.

A criança aceita como ela é, se torna feliz, espontânea e esta disponibilidade criará algo onde ela poderá exercer excelência. Crianças super capacitadas quando criadas diante de padronizações, mantêm divisões como nós e os outros, sociedade e família, por fim mínguam, colapsam seguindo regras inflexíveis. Este não ver em volta pontualiza, reduz as vivências, as dimensões contigenciadas por utilidade e inutilidade, lucro e prejuizo.

Estabelecer e alimentar o conflito entre indivíduo e sociedade é se dedicar a criar pontes, mediações, aderências destruidoras do processo de ser com o outro à medida que tudo é transformado em posição, pontos a atingir e superar.

Ser humano é ser uma possibilidade que não deve estar estabelecida em parâmetros baseados em necessidades de outros, consequentemente distantes e destoantes de si.

Quando os pais percebem que a sociedade e a família não são antagônicos, que não existe divisão, que tudo é contínuo, eles apreendem a unidade significada pelo filho problemático, deficiente e assim conseguem mudar suas demandas, seus esquemas de pode não pode, libertando seu filho, anteriormente escravo de suas aspirações frustradas. As incompatibilidades são transformadas. Surgem dançarinos, artistas, atores, doutores, professores, cantores, cozinheiros, jogadores de futebol e experts em vida, em felicidade.


















- "Dibs: em busca de si mesmo" de Virginia M. Axline
- "Brilhante - a inspiradora história de uma mãe e seu filho gênio e autista" de Kristine Barnett

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Thursday, October 3

Exigência

Exigência é a alavanca que move os anseios de mudança e superação, é também a linha de demarcação que aniquila o presente, dividindo e fragmentando o humano; transforma os processos direcionando-os para resultados circunstancializadores do comportamento.

O indivíduo, limitado entre conseguir e não falhar, faz com que tudo seja instrumentalizado. O outro é a variável interveniente, responsável por sucesso e fracasso. A avaliação constante, positivo e negativo, bom e ruim, enfim, os valores são premissas e resguardos configurados como forma de estar no mundo. Exigir, atingir é o que conta. Estes robôs processam e exigem matéria prima. A vida se transforma em regras. As notas escolares validam as relações com os filhos, os acréscimos salariais determinam a felicidade e alegria cotidianas, por exemplo.

Exigir é perder, desde que toda contabilidade busca comparação, supõe erros, supõe acertos transformados em evidências e selos de garantia. Perdendo o presente, balizado e validado pela demarcação, pela busca de um futuro que deverá modificar o erro passado, o indivíduo é esmagado, oprimido pela exigência. O direito substitui o legítimo; a vontade só é exercida através das brechas possibilitadas pelas alavancas - os instrumentos eficientes.

Pedestais de garantia e certeza entronizam culpas, medos, vitórias e fracassos. Processos de desumanização são substituídos por sintomas: pânico, depressão, angustia. Exigir amor, exigir sucesso e superação, exigir acerto é estabelecer armadilhas imobilizadoras.

Exigir é uma maneira de escravizar, é o bom-senso que move a alienação, a submissão ao devido. É através da exigência que se constrói a negação dos processos, substituindo-os por regras, normas e parâmetros.














- "Cultura com aspas" de Manuela Carneiro da Cunha
- "A Folie Baudelaire" de Roberto Calasso


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Thursday, September 26

Extrapolações

Deparar-se com qualquer situação, avaliando, negando e afirmando suas possibilidades e impossibilidades através de critérios alheios à situação que está ocorrendo, distorce o percebido. As conclusões não decorrem da estrutura percebida e sim dos próprios critérios. Este autorreferenciamento, além de invasivo, é destruidor do que se pretende compreender. Extrapolar dados é distorcer, é por exemplo, negar problemas enfocando-os sob os próprios pontos de vista, a partir das próprias necessidades.

Mães que não sabem o que fazer diante da depressão e angustia dos filhos são aquelas que não se relacionam com os mesmos desde muito; fazer qualquer coisa é um ato livre que não cabe nas cadeias do medo e comprometimento. Entregar o problema dos filhos aos psicólogos, educadores ou autoridades punitivas, é para elas, a solução. Esta extrapolação, cria nova métrica, ritmos diferentes dos da própria relação entre mãe e filho - dois seres, duas pessoas. Entrincheirar-se em certezas ou medos é um posicionamento que garante distanciamento, proteção, mas que desconsidera o que ocorre. Abrir mão, sentir-se sem condições e aceitar isto sem conflitos, sem impasses é uma maneira autorreferenciada de negar os próprios problemas, sufocando-os na alienação sobrevivente.

Vazios gerados pelos dados e situações extrapoladas criam também incertezas, passividade e submissão, que vão além do que ocorre. Perde-se determinação, aumenta-se a espera, a fé e a torcida por dias melhores. Direitos e deveres passam a ser norteadores do comportamento, sem se questionar a desumanização gerada por tais métodos. O legítimo, o autêntico, a compaixão, a solidariedade são substituidas pelo útil, cabível e devido. Neste processo mecânico, acertos e falhas são fundamentais para verificar bom funcionamento, lucro e prejuizo. A vida, as relações deixam de significar enquanto elas próprias, apenas sinalizam conquistas, bem-estar, mal-estar, problemas a enfrentar através de atitudes que eternizam vazio e despropósito.















- "A Essência da Liberdade Humana" de F. W. Schelling
- "O Desenvolvimento da Lógica" de William Kneale e Martha Kneale


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Wednesday, September 18

Bulimia

Bulimia é um dos deslocamentos da ansiedade . Este deslocamento é feito através de exagerada ingestão de alimentos, tanto quanto, ela, a ansiedade, é reabastecida por este mesmo deslocamento. O cerco se fecha. Quanto mais come para aplacar ansiedade, mais ansioso se fica, assim como mais desesperado em constatar um dos efeitos desta atitude: a engorda. Diante da constatação do limite (o corpo engordando), engendra-se soluções impossíveis: não engordar, esquecer o problema (o que causa a gordura) e se agarrar no resultado solucionador: vomitar o acumulado, jejuar, ingerir remédios emagrecedores e diuréticos; isto é vivenciado como neutralização de todos os problemas. A maioria das pessoas bulímicas têm peso normal e conseguem esconder seus problemas alimentares e ansiedade atrás de uma aprência física "normal": engordam e emagrecem em curtos períodos e se desesperam diariamente no esforço de manter suas práticas alimentares desapercebidas por familiares e amigos (tanto o comer compulsivamente, quanto os vômitos por exemplo).

Este comportamento bulímico (criação de uma imagem de normalidade que esconde os problemas) não difere das formas mais comuns da neurose, encontradiças na clínica psicoterápica. Diante da não aceitação dos próprios problemas, uma série de imagens, de esconderijos são construídos e desconstruídos em função de circunstâncias, omissões e conveniências. Referenciais são perdidos, chega-se ao ponto de não se saber quem se é. O processo de despersonalização é uma maneira de não sofrer com a constatação do que se é, do que se faz, embora, como na bulimia, cause estrago e danos irreversíveis vivenciados sob forma de angustia, pânico e depressão.

Atitude onipotente - achar que vai conseguir disfarçar e esconder a própria dificuldade e problemática - gera um nível de fraqueza e inautenticidade que mais os coloca à mercê do outro. É muito comum encontrarmos estas pessoas vivendo sem autonomia, circunstancializadas e balizadas por sucessos e fracassos. Fazer de conta, criar imagens, é a grande armadilha que se constrói para si mesmo, desestrutura psicologicamente da mesma forma que o enfraquecimento que vemos no organismo devastado pelas práticas bulímicas.















- "A Cozinha da Alma" de Jasmin Ramadan
- "O Inumano" de Jean-François Lyotard

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Thursday, September 12

A psicoterapia dinamiza, a problemática imobiliza

O questionamento é a alavanca, o combustível que permite continuar a trajetória humanizada, a dinâmica de ser no mundo.

Posicionado e imobilizado, cercado e identificado pelas próprias dificuldades e problemas, o indivíduo colapsa, perde dinâmica. Toda sua movimentação é na construção de máscaras, pontes e artefatos para atingir soluções e assim se dividindo, se fragmentando. O outro, enquanto terapeuta, através do diálogo, ao globalizar os pontos de fragmentação, os núcleos de não aceitação, possibilita que o indivíduo tenha novas percepções acerca dele próprio. É um momento de dinâmica que altera a imobilidade do ajuste/desajuste gerado pela problemática, pela não aceitação e sintomas. Quanto mais questionamento, mais mudança; quanto mais busca de solução dos problemas mais desgaste, mais deslocamento, mais metas e desejos de resultados saitsfatórios, consequentemente de ansiedade.

No posicionamento imobilizador gerado pela problemática, a ansiedade é uma constante. Tentativas de correr de um lado para outro, imobilizado pela amarração aprisionante, criam a ilusão de movimento e dinâmica, através da ansiedade gerada como residuo; quando transformada em situação nova e independente a ansiedade se transforma na ilusão criadora de vício, hábitos que a arrefece. Um destes aspectos é o conhecido prazer de ir às compras, ou as masturbações assíduas ou os diversos vícios como alcoolismo, redes sociais, jogos etc. A ansiedade cria demandas, como se fossem ilusões ópticas, que parecem comportamentos obsessivos e descontrolados: a ilusão de movimento obriga a busca de freios, de paradas. Nada dinamiza, tudo imobiliza. Quanto mais bebe, menos sente que bebeu, quanto mais busca o prazer sexual, menos goza, enfim, quanto mais se move, mais parado está.

A imobilização criada pelos posicionamentos problemáticos e deslocada pela ansiedade aniquiladora, só pode ser interrompida pela dinamização psicoterápica. Outras dinâmicas às vezes aparecem, mas como não globalizam o que tem que ser dinamizado, são esgotadas, extenuadas, gerando mais fragmentação, mais posicionamento. Apenas a dinamização do questionamento permite a unificação, a aceitação e transformação dos problemas.














- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista" de Vera Felicidade de Almeida Campos
- "Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos" de Giordano Bruno

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Thursday, September 5

Aprisionado ao bem-estar

Adaptação, acomodação, adequação são frequentemente sinônimos de limites, renúncias e aprisionamentos.

Manter compromissos, negar a própria vontade, disfarçar desejos, esconder e negociar motivações é uma maneira de construir alienação, despersonalização. Nada mais tranquilo, neste contexto de alienação, do que o previsível, o certo e limitado. A organização realizada por aderências - padrões e regras - é o que existe de mais alienante e aprisionador.

Sem determinação não há iniciativa; vive-se a ilusão de ter iniciativa através da chamada escolha. Este acaso arbitrário - a escolha - é muito valorizado por trazer colorido à vida. Brincar disto ou aquilo, de sim e não, é fazer de conta que existem dúvidas conflitantes, que existem possibilidades de escolha. Nas vivências comprometidas não existem antíteses, nada destoa do bem-estar e adequação: dúvida entre comer carne ou peixe, por exemplo, quando se tem comida, não é desesperadora; enlouquecer por não conseguir escolher um dos dez ternos utilizados para reuniões de negócios, ameaça, mas não quebra a prisão do bem-estar, adequação e regras.

Manter-se seguro, protegido, exercer ajustes e adaptações, geralmente não é percebido como aprisionamento, é entendido como conforto, bem-estar. As implicações do processo, também não são percebidas devido às fragmentações posicionantes e ao não questionamento. Quando o excesso de deslocamentos ultrapassa os limites possibilitados pelas necessidades realizadas, surgem sintomas desconfortáveis, causadores de mal-estar. Inicia-se um processo de divisão, de alienação. Não se percebe que o mal-estar é uma resultante do bem-estar e aí, buscando uma terapia, os problemas podem ser globalizados e novas percepções surgem; ou buscando remédios para aplacar e neutralizar os sintomas, surgem níveis de sedação e fragmentação que alternam mal-estar e bem-estar e que fazem desejar o limitado e aprisionante bem-estar como felicidade suprema: conseguir dormir uma noite depois do tranquilizante é o nirvana, tanto quanto ter seu medo encoberto pelo remédio mágico é tudo de bom que se deseja.

Abrir as portas da prisão, destrancar as grades, aceitar que conforto e desconforto, tranquilidade e intranquilidade são lados da mesma moeda, aspectos e faces do estar no mundo com o outro, é liberdade, satisfação, contentamento.















- "Breve Tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar" de Espinosa
- "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky 


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Wednesday, August 28

Paradoxos da neurose

É conhecida a escalada paradoxal da hipocondria: viver faz mal, causa doença. Este implícito funciona como uma espada de Dâmocles, é condutora e mantenedora do comportamento paradoxal. Não ir até o fim, negar, desconhecer e subtrair implicações, permite sobreviver, gera divisões, paralelas que nunca se encontram, que não estabelecem conflito embora sejam paradoxais. A não globalização fragmenta, pontualiza e ao firmar posicionamentos, nega toda possibilidade de dinâmica, de diálogo.

Várias situações no viver neurótico, distorcido - na não aceitação - criam atitudes paradoxais.

Cuidar dos sintomas, evitá-los, estabelece um caudal ritualístico, maneiras de com eles conviver ao ponto de criar vícios, hábitos. É frequente o viciado em síndrome de pânico. Enfileirar queixas, estabelecer reivindicações, fazer com que familiares e acompanhantes participem dos cuidados necessários para evitar o pânico é um vício que desloca tensão, consequentemente alivia. Detestar a solidão, demandar relacionamentos mais íntimos, mais intensos e quando eles surgem, evitá-los por desconfiança e medo, é também paradoxal.

As divisões vivenciadas posicionadamente impedem correlação, constatação e categorização. Nestes casos, é muito difícil perceber que o que apoia, oprime ou que a mão que alimenta é a mesma que explora. A mãe que todo dia reza para ver sua filha protegida dos desejos eróticos e cobiçosos do pai, seu marido, é a mesma que faz de conta que não viu o que viu, que nega o que enxergou ocorrendo. Paralelas estabelecem obliquidades disfarçadas que distorcem o existente, tanto quanto geram espaço ocupado pela ansiedade e desespero pela aparente impossibilidade de soluções.

Ter pânico, para algumas pessoas, é a maneira de saber-se vivo e cuidado, tanto quanto é também uma maneira sutil e carente de dizer não, de dizer sim, de recusar o enfrentamento, a decisão e a ação - é o álibi. A continuidade deste processo vicia, aplaca, é o caminho conhecido onde o despropósito prazeiroso impera.















 

- "Tempos Fraturados" de Eric Hobsbawn
- "Junky" de William S. Burroughs


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Wednesday, August 21

Desprezo

O processo de não aceitação às vezes assume formas extremas. O próprio indivíduo se despreza, se sente monstruoso sem nada que disfarce o que considera feio e ruim. Carente implora, mendiga que olhares simpáticos, toques piedosos o façam esquecer suas definições acerca de si mesmo.

Buscando esconder o que o afasta do que necessita - cuidado, atenção, carinho - arranja "capas protetoras" que camuflam seus dramas. Protegido pela capa  (dinheiro, estudos, inteligência ou até mesmo outra pessoa utilizada como moldura) pensa que se estiver bem vestido, bem apresentado, sendo capaz, tendo dinheiro, beleza, pode despistar, esconder suas não aceitações, suas diferenças.

Desprezando-se e agarrando-se ao que escuda e melhora, transforma-se no que rouba tudo que está à mão e serve para utilizar. Estrutura-se, assim, o cínico, o desonesto que cada vez mais se despreza, mas que também não se abate com isto. O desprezo, neste caso, neutraliza tensões. As soluções encontradas são acumuladas e cobrem qualquer possibilidade de aparecer a problemática. Não há questionamento, não há problema; existe um colecionador, arregimentador, violentador. A possibilidade humana foi transformada pela realização das necessidades e assim foi criado o parasita humano que se alimenta do outro.

Geralmente estas pessoas não procuram psicoterapia, quando o fazem é para dispor de mais um referencial para instrumentalizar. O processo terapêutico consiste em fazer com que percebam que a psicoterapia é inútil para seus propósitos, que a psicoterapia ameaça seu parasitismo; assim podem ser humanizadas. Perceber isto é crucial, pois pode acontecer mudança, tanto quanto, não aceitando o que consideram monstruoso, podem se sentir denunciadas, ameaçadas e desconsideradas: surgem conflitos, pois a terapia é utilizada também como capa de proteção. Deste impasse, mudança e transformação tornam-se possíveis.















- "Vida para consumo" de Zygmunt Bauman
- "A cultura-mundo, resposta a uma sociedade desorientada" de Gilles Lipovetsky/Jean Serroy


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Thursday, August 15

Desconsideração

Todo sistema estabelece o que considera superior, inferior e mediano. Os critérios são variáveis, mas referenciais constantes são poder e status, que implicam no que é considerado bom, vital, valorizado e ruim, inútil, desvalorizado.

Perceber o mundo, o outro e a si mesmo através destes delineamentos é esmagador, mesmo quando se é colocado no topo: o padrão aliena, isola e desumaniza, embora nem sempre seja assim percebido.

Estar além, considerado superior, possibilita a vivência de ser melhor, mais apto, mais capaz, poderoso. Neste momento, assim se percebendo, vem a desumanização; passa-se a ser representante de ordens constituidas, transforma-se em uma coisa, objeto entre outros, caros e poucos.

Estar abaixo, oprimido, esmaga e revolta. Ser o desprovido, desconsiderado, apenas a massa de manobra, sem voz própria, utilizado para servir é também desumanizador; só existe em função das vantagens conseguidas por se deixar usar e manipular.

Consideração e desconsideração são resultantes de processos socialmente alienantes, balizados em padrões de julgamentos estabelecidos em outros contextos que não os das individualidades julgadas. Ser produtivo, ser improdutivo, ter status ou não, variam conforme as demandas sociais, econômicas e políticas de cada sistema. Por exemplo, o escravo de ontem é o lider político ou religioso de hoje. Sua individualidade só significa em função dos referenciais atribuidos; este processo é desumanizante e alienador.

Perceber os processos e contextos que estruturam consideração e desconsideração pode ser libertador ou aprisionante: tudo vai depender do questionamento ou da submissão estabelecida. Atingir a glória, a consideração dentro do sistema político social econômico, pode ser coroamento de esforços arbitrários e discutíveis: às vezes o que é reconhecido institucionalmente significa desconsideração da individualidade, enquanto a consideração e aceitação da própria limitação que causa desconsideração é um caminho de mudança e descompromisso desalienante.
















- "A Ponte - Vida e Ascensão de Barack Obama" de David Remnick
- "E o Vento Levou" de Margaret Mitchell

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Thursday, August 8

Contentamento

Alegria, bem-estar, satisfação, alívio caracterizam a vivência de contentamento, assim como descobrir o novo, saber-se capaz, perceber as superações realizadas ao longo de difíceis processos traz contentamento. O filho que nasce, receber o diagnóstico acertado, as obrigações cumpridas, o prazer realizado são algumas situações onde se fica contente.

Sucesso, realização e o inesperado auspicioso, sintetizam as vivências de contentamento, mas, resumir a existência em função de objetivos, de resultados satisfatórios cria polarizações de bom e ruim, tristeza e alegria, contentamento e descontentamento. Nestes universos assim polarizados, qualquer coisa contenta ou descontenta. Esta contingência enfraquece, deixa muito tênue a estrutura humana, desde que, alienando-se em função de resultados a pessoa se circunstancializa e ouve apenas "toques de tambor", reagindo em função do que é programado e organizado. Comprometidos com estes referenciais, os indivíduos têm sempre seus nichos, suas fontes de satisfação, de contentamentos momentâneos, que também podem ser fatais: o gol de sua seleção ou clube de futebol, por exemplo, realiza e contenta, tanto quanto pode enfartar.

Contentamento é uma constante na vida do indivíduo que está no mundo com o outro, vivenciando seus impasses e superações cotidianas e é eventual bem-estar quando constantemente é buscado sob a forma de resultados, de sucesso, de realização, de paz e harmonia.

















- "Conhecer, cuidar, amar" de Hipócrates
- "Crítica da Razão Cínica" de Peter Sloterdijk


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Thursday, August 1

Perdão

No cristianismo, perdoar é praticamente uma regra definidora do bom cristão, que tanto pede perdão constantemente (confissão e expiação dos pecados), quanto, mirando-se no Cristo, busca perdoar seus agressores sistematicamente.

Saindo do referencial cristão e popular, perdoar, sob o ponto de vista psicológico é quase sinônimo de generosidade, neste sentido é o oposto de mesquinharia. Mesquinho é o avaliador, aquele que tudo conta, considera, aproveita e não esquece.

Limitada pelos referenciais do que beneficia, do que atrapalha, do que dá segurança ou pressiona, a vida é diminuida, amesquinhada; nenhum crescimento, desenvolvimento cultural ou expansão podem acontecer. Restringindo-se a estes parâmetros, tudo é avaliado e assim se vive. Neste contexto de avaliação, ou se perdoa facilmente, quando perdoar não atrapalha, não prejudica ou se contabiliza a situação e se torna implacável, jamais perdoando. O foco não é o outro, não é o perdão, mas sim evitar o que atrapalha. Nesta contabilidade, por definição pragmática, não existem resíduos, qualquer sobra é prejuizo, tudo é aproveitado, relações são vistas como investimento/ganho/perda.

Perdoar é o ato generoso de ser com o outro, mesmo quando a única maneira disto ocorrer seja pela mobilidade relacional; saindo dos próprios referenciais e contextualizando-se nos do outro, se percebe as tessituras do considerado erro a ser perdoado. A magnanimidade de abrir mão dos próprios referenciais e atingir os do outro, por mais intransitáveis que sejam, é o início do processo responsável pelo perdão.

















- "O Crime do Padre Amaro" de Eça de Queirós
- "O Sujeito Incómodo - O Centro Ausente da Ontologia Política" de Slavoj Zizek



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Thursday, July 25

Inutilidade

Psicologicamente a vivência de ser rejeitado e assim se sentir, equivale a constatação de inutilidade. Incapaz de preencher requisitos do que é considerado bom, válido e útil, o indivíduo é expelido das relações por ele configuradas. Diversas traduções surgem para considerar e explicar esta vivência, desde às do seio mau (Melanie Klein) até às de "arianização".

A atitude de rejeitar está estruturada, geralmente, em contextos e estruturas socio-econômicas: são os preconceitos, as restrições, os bodes expiatórios, necessários à manutenção dos sistemas.

Perceber-se rejeitado atinge outras dimensões desde que surge um mediador, um filtro responsável por esta categorização. Não se aceitando, o indivíduo fica referenciado nessas vivências: é o autorreferenciamento. Ele busca ser aceito e geralmente se sente rejeitado, nada preenche suas demandas de aceitação. Criando metas e padrões onde tudo dará certo, onde ele será útil e bom, belo e aceitável, ele continuamente avalia, verifica e se sente frustrado, se sente falhado, rejeitado. Quanto mais se prepara, menos consegue e isto causa irritação, raiva que continuamente vivenciada estrutura depressão. Submetido aos desejos de ser aceito, esquece da própria problemática de não se aceitar e consegue assim transformar a vivência de rejeição em um deslocamento do próprio não se aceitar. Ao se rejeitar e por isso querer ser aceito, querer ser validado como alguém possível de qualquer coisa útil, boa e agradável, o indivíduo se desmembra, se pontualiza e anima-se ou deprime-se em função de resultados e circunstâncias favoráveis/desfavoráveis. Sentir-se rejeitado é sentir-se excluido, fora da humanidade. Lutar para ser aceito, para não ser rejeitado é concordar com critérios responsáveis por sua exclusão, é abraçar o universo social e relacional que o discrimina.

Quando, em psicoterapia, este processo não é configurado, não é globalizado surgem distorções decorrentes do reducionismo elementarista: inconsciente, instintos, configurações neurológicas, socio-econômicas e culturais; e se fala em culpa, repressão, complexo de inferioridade, problemas socias, desvios mórbidos, anomalias físicas como maneira e meio de explicar o sentir-se rejeitado.

O início do processo de rejeição é feito pelo próprio indivíduo em relação a si mesmo ao posicionar a não aceitação explicitada pelo outro e a partir daí construir seu "bunker" ou esvaziar suas bases, suas estruturas, criando abismos onde tudo fica por um fio. O posicionamento da rejeição pode se configurar em situações de prepotência ou de impotência, são polos do mesmo eixo. O extremo de acertos, regras e determinações é igual ao de fracassos, sensibilidades, medos, disforias ou dispersão inconsequente. Os primeiros geralmente se escondem em núcleos de autoridade ou saber fazer, os segundos se protegem através de dependências escravizantes que vão desde sistemas e famílias até drogas.

















- "A Colonização do Imaginário" de Serge Gruzinski
- "Narrativa da Análise de Uma Criança" de Melanie Klein


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