Thursday, December 27

Embaraço


Alguns reencontros parecem revelar vivências tanto de estranheza, quanto de familiaridade. 

Reencontrar o íntimo e familiar em novos contextos, causa embaraço. Existe reconhecimento, encontro, porém isto se dá em situações outras que não as do estruturante relacional anteriormente vivenciado. Equivale a um pentimento. Debaixo daquela pintura existe outra; na realidade, a anterior se insinua tão forte que embaralha, embaraça. O grande limite, o insinuado é um novo que só existe enquanto marcação anterior. Esta confusão requer renúncia, seja do que ocorre, seja do que ocorreu. O passado está problematizado, está encoberto e assim o presente é esvaído nas tessituras relacionais. Equivale ao choc au vide agora traduzido pelo choque ao ocupado.

Estas vivências são frequentes no reencontro após descobertas: filhos que encontram seus pais depois de muitos anos, novas famílias; ocorre também nos reencontros de laços afetivos, tanto quanto nos reconhecimentos em situações limites.

É a perda-encontro ou o encontro-perda variando a pregnância da reversibilidade em função das individualidades em processo.






- "A Paixão Segundo G. H." de Clarice Lispector
- "Utopia" de Thomas Morus

Thursday, December 20

Despropósito


Muitas vezes o despropósito é confundido com falta de motivação, virando quase sinônimo de depressão.

Não estar contextualizado, sentir-se desintegrado e sem referencial específico, provoca a vivência de despropósito. 

Sentir-se gauche na vida, fora de foco, à margem, só acontece quando se está autorreferenciado. Por sua vez, o autorreferenciamento cria outras variáveis: de diferente e excêntrico passa a ser destoante, inapropriado, substituindo a vivência de despropósito por vivência de inadequação, desajuste, rejeição.

Despropósito, em alguns casos, origina-se de uma vivência de tédio, de distanciamento, pressupõe sempre uma crítica, um questionamento ao dado, ao posto, ao existente, mas também configura deslocamento de conflitos e não aceitações, anseios frustrados e problemas adiados.

Participações políticas, celebrações familiares, por exemplo, suportadas, negociadas, mantidas, precisam atingir a dimensão de despropósito para que se realize a crítica e questionamento das posturas e posicionamentos cobrados e estabelecidos ao longo dos anos. Muitos conflitos entendidos como choque de geração nada mais são que vivências de despropósito não assumidas nem percebidas enquanto novas configurações relacionais.














"Os Tarahumaras" de Antonin Artaud
"Parmênides" de Martin Heidegger

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Thursday, December 13

"Cara eu ganho, coroa você perde"

Matthew Hopkins, era na Inglaterra do século XVII um caçador de bruxas. Dedicado a seu trabalho, desenvolveu um teste para detectar bruxas. Colocava um peso à mulher acusada - com pedras amarradas nela ou à cadeira na qual estava sentada - e jogava-a dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e merecia a fogueira; se afundasse e morresse afogada era por ser inocente.

A necessidade de provas, os testes, por definição improváveis, impossíveis, povoam nossa sociedade, nossa vida, transformam nossos relacionamentos.

Thomas Szasz, recentemente falecido, era um grande psiquiatra que lutava pela humanização do tratamento psiquiátrico, ele dizia: se der cara os rotuladores ganham, se der coroa os rotulados perdem. Em seu livro "Esquizofrenia, o símbolo sagrado da psiquiatria", lemos: "O sujeito, o chamado 'paciente esquizofrênico', não tem o direito de rejeitar o diagnóstico, o processo de ser diagnosticado ou o tratamento ostensivamente justificado pelo diagnóstico. A própria ideia, neste esquema psiquiátrico, de 'direitos' do paciente psicótico, é tão absurda quanto a ideia do esquema escravocrata dos 'direitos do escravo'. O paciente esquizofrênico é usualmente considerado 'perigoso para si mesmo e para os outros', de um modo indefinido e indefinível, mas que é diferente do modo como outras pessoas - ou todas as pessoas - são 'perigosas para si mesmas e para os outros'".

Estar à mercê de qualquer sistema, comunidade, família ou outra pessoa, estabelece o caos, cria a desrazão, a perda de autonomia, deixa os seres aprisionados, dilacerados, estigmatizados, transformados em massa de manobra, peças de sistemas e de pessoas manipuladoras.

Os oprimidos, tanto quanto cidadãos de bom senso - a grande maioria cooptada - são atormentados, vitimizados e crucificados pelos dilemas contemporâneos do lucro, da vantagem e da conveniência, representados pela indústria de armas, de medicamentos e de alimentos. As guerras provocadas, as velhas-novas doenças tratadas, os animais (galinhas, porcos, bois etc) confinados para o abate, os alimentos processados, são os pilares que mantém a caçada dos inimigos, tanto quanto a doença e a fome.

Enquanto dependermos dos sistemas, seremos por eles utilizados.




"Esquizofrenia - o símbolo sagrado da psiquiatria" de Thomas S. Szasz
"Comer animais"
de Jonathan Safran Foer


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Thursday, December 6

Aparência

Aparentar gera sempre impossibilidades mesmo quando cria facilidades.

Posições conquistadas, portas abertas, tarefas realizadas graças ao que se aparentou ser, saber ou ter, inicia um acúmulo de disfarces que também é simultaneamente o acúmulo de impossibilidades. Nas situações de ações decisivas, falta coragem e solidariedade, sobra engano e concessão. Na época em que passou a viver escondido devido a uma sentença de morte dada pelo Aiatolá Khomeini - governante iraniano - Salman Rushdie escreveu que muitas pessoas que o conheciam cediam ao medo e diziam que era respeito à autoridade, embora discordassem do absurdo de condenar à morte um autor pelo que escreveu.

Existem pais e mães, aparentemente extremados cuidadores de seus filhos, que escondem suas impossibilidades de doação, entrega e amor, neste cuidado que vitimiza e aliena. Aparentar amor é um engano geralmente mais tarde substituído por enganosos prazeres: droga, caridade alienante, militâncias sacrificadas, abnegações despropositadas. Como disse ainda, Salman Rushdie: "ninguém se tornava um pássaro preto pintando as asas de preto, mas, como a gaivota coberta de petróleo, perdia-se a capacidade de voar".

Aparentar é esconder, é a camuflagem para preservar a sobrevivência e conseguir ultrapassar o que se julga limitador.

Quando a vítima é alvo do outro, da sociedade ou das comunidades ela é um aviso antecipatório de estratégias dominadoras. Por exemplo, a criança sexualmente abusada é transformada em foco de interesse, de atenção e afeto, para que esqueça, para que se confunda, não aparente nada revelador do que sofre e do que é submetida. Cada vez mais impossibilitada de ser criança, de confiar no outro, ela se torna mais capaz de suportar ameaças e submissão; isso a faz perder suas possibilidades relacionais e coberta de sujeiras e escombros, mergulha nesta lama, aparentando viver com muito pouco.


 

- "Joseph Anton Memórias" de Salman Rushdie


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