Thursday, November 29

Corda bamba

Toda avaliação do que se tem ou do que se pode conseguir gera insegurança, ansiedade, pessimismo ou otimismo a depender das estruturas relacionais.

Esperança e expectativa se referem a um tempo futuro, um tempo não existente. Voltar-se para  além do presente dilui os referenciais das vivências cotidianas, das vivências presentificadas. Esta diluição de vivências torna difícil sustentar anseios e desejos. Sem a vivência presentificada não existe base para sustentar o desejado.

Como transformar o sutil em denso? A fome de sucesso em fotos publicadas, por exemplo? A ambição em expressiva conta bancária? Através de agrupamento, que aumenta, adensa o tenuamente delineado, a meta. Munir-se de credenciais institucionais, adquirir respaldo familiar, empoderar-se para ter sucesso e vitória, permite resultados satisfatórios tanto quanto diluição e circunstancialização da individualidade.

Passar no concurso depois de 10 anos de luta, ter a melhor posição dentro da empresa ao destruir todos os obstáculos - colegas que atrapalhavam, por exemplo - significa realização desesperada, desumanizadora.

Viver sempre em função de objetivos, sempre se preparando para vencer o dia-a-dia é a corda bamba, a ansiedade constante, o medo de cair, o esforço continuado para tecer suas redes de proteção. É viver em função da queda, transformando-se em caixa de ressonância de vitória e fracasso.



- "Um delicado equilíbrio" de Rohinton Mistry

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Thursday, November 22

Firmeza

Atitudes estáveis implicam na realização de vontades. As motivações, as vontades são sempre resultantes do que se vivencia, do que se faz. Não têm ligação com faltas, necessidades ou desejos. Esta base, que é o presente vivenciado continuamente, gera firmeza, força e capacidade de realizar todas as vontades, tudo que é proposto pelo cotidiano; assim, firmeza é tão natural quanto querer andar e andar, querer dormir e dormir.

"Desejo é o que nos falta, vontade não é o que nos sobra, mas é o que nos liberta se enfrentarmos, se vivenciarmos o dia-a-dia das contradições. Pela vontade, pela superação de contradições, pela transcendência, os limites da existência são superados, transformados ou integrados. Em psicoterapia procuramos recontextualizar os neutralizadores, os amortecedores das contradições, por meio de questionamentos, para que surja a vontade, a liberdade de mudar, a aceitação de si e dos outros." *

Angustia, depressão, ansiedade não existem quando se vivencia o presente, embora elas acompanhem sempre as estruturas minadas pelas transversais dos apegos mantidos, dos apoios negados, das crenças desmanteladas.

Sem esta base, sem vivenciar o presente, tudo é instável, volátil, circunstancializado, tudo é dependente de "Deus ou do Diabo", de forças imponderáveis. Torcer para que se consiga respirar, para que se consiga dormir, pode passar a ser constante.

Sentir-se firme é possível quando se enfrenta os próprios problemas, sem correr atrás de soluções funcionais. Vivenciar o presente é fortalecedor.

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* Em "Vontade, Desejo e Psicoterapia Gestaltista", Boletim da SBEM - pags. 42-44, Vera Felicidade A. Campos


- "A cabala da inveja" de Nilton Bonder

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Thursday, November 15

Compatibilidade

Pensar em compatibilidade como acordo, acerto, leva a relacioná-la com encaixe. Negociações e acordos sempre possibilitam discórdias, consequência natural de seus mosaicos organizados, suas arestas polidas. Confundir estas combinações com compatibilidade, gera muitos enganos.

Nos relacionamentos, ao buscar o objetivo comum, satisfações e vantagens recíprocas, a primeira exigência a ser satisfeita é a neutralização dos sujeitos desejantes. Isto não é facilmente percebido tampouco de fácil entendimento, é uma situação complexa que se torna evidente depois do processo satisfatório dos desejos atendidos. O que unia as pessoas passa a ser o que as despersonaliza.

Ficar com o outro pelo que ele é e não pelo que ele possibilita, exila do cotidiano a coisificação do outro usado para realização de necessidades.

Uniões e motivações em função de conveniências, são sempre desastrosas e sem estruturas que suportem as vivências pois que são construidas para um futuro, sem alicerce no presente.

Compatibilidade requer presença, é um processo participativo, implica em confiança e entrega, existentes apenas na própria compatibilidade, sem preexistências (acordos, acertos, necessidades) e sem propósitos de ser feliz, de ficar satisfeito, de vencer obstáculos, por exemplo.

















"Seis suspeitos" de Vikas Swarup
"Crítica da Faculdade do Juizo" de Immanuel Kant


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Thursday, November 8

Usura - desejo inesgotável

"A carência afetiva, dentro da conceituação gestaltista, é intrínseca ao ser humano, ao contrário do que ocorre em outras conceituações psicológicas, psicanálise por exemplo, onde a carência é entendida como resultante de um processo deficitário de relacionamento afetivo, principalmente fundamentado no que se refere às figuras paterna e/ou materna. Quando dizemos que a carência afetiva é intrínseca ao ser humano, estamos dizendo que ela é tão configurativa do humano, como o são os olhos, braços, pernas, etc. Localizado o tema, focalizemos seu significado. Por carência afetiva entendemos a necessidade ou possibilidade de relacionamento com o outro; dentro desta nova compreensão (abordagem da carência afetiva), torna-se claro o porquê de sua colocação extrínseca, sinônima de problemática emocional, dada pelas outras teorias psicológicas, isto porque devido à falta de visão global unitária, ou seja, à esquematização elementarista do fenômeno comportamental e existencial humano, apreenderam apenas a carência afetiva resultante de uma necessidade de relacionamento com o outro, configurativa de estruturas inautênticas, portanto, advindo daí todo um tratamento distorcido do tema, pois que unilateralizado.

A carência afetiva configura o outro no sentido de possibilidade ou de necessidade de relacionamento. Sendo intrínseca, assumida, a carência possibilita o outro; caso contrário é uma barreira, começando o outro a ser uma meta, um obstáculo.
" *

A carência como necessidade de relacionamento equivale a buscar aquilo que nos falta, aquilo que nos completa, enfim o que desejamos, conseguindo assim, transformar o semelhante, o outro, em um objeto. Conviver com o outro, inicialmente pai e mãe, portador de regras e limites, filtra as possibilidades de relacionamento, estabelece referenciais que limitam. Estas estruturas limitadas transformam as possibilidades relacionais em caminhos satisfatórios ou insatisfatórios, gerando as não aceitações; deste modo a carência afetiva deixa de ser uma possibilidades de relacionamento e passa a ser uma urgência, desejo, necessidade do outro. Esta distorção perceptiva, resultante da não aceitação das próprias impossibilidades e limites, gera a neurose. Para alcançar o desejado, para tornar próximo o distante, muitos recursos padronizados são usados: dinheiro, sexo, beleza, por exemplo. Estes recursos geralmente são amealhados e parcimoniosamente gastos. A usura aparece. O indivíduo ao administrar seus recursos, sabendo-os responsáveis pela realização do que ele necessita e deseja, começa a estabelecer regras e parâmetros, dosagens.

Usura é sinônimo de carência enquanto desejo do que nos falta. Esta complementação, este preenchimento do que falta nunca se realiza, não se preenche o oco. Preenche e desaparece, nada fica; é preciso deter, sentir que algo foi estabelecido e mais, que quando ocorra não possa ser destruído. É um processo que gera ansiedade, medo, já não significa ter ou conseguir, o importante é não parar de tentar ter, de tentar conseguir. Extenuante e inesgotável. Nada aplaca e tudo significa. A usura, este vício é uma parada no processo. Ao repetir e seguir prévias repetições, vem a satisfação pela neutralização da satisfação. Apenas em um átimo, em um segundo, se consegue a felicidade, a pausa, o instante vivenciado como prazer, desejo realizado.

Amealhar resultados, juntar as próprias histórias de sucesso, saber-se aceito e querido, tanto quanto economizar seus tostões, são típicos da atitude de usura, da carência afetiva como necessidade de relacionamento, necessidade de resultados e aplacamento de desejos e ansiedades; é também a pavimentação do caminho de realização de sonhos e da busca desesperada, frenética de um lugar ao sol.

Usura é apego, "sentimento de posse", zelo com o conseguido; usura é o que exila de nosso cotidiano toda e qualquer disponibilidade, consequentemente, solidariedade, compaixão, enfim, percepção do outro.

* "Carência Afetiva" em "Psicoterapia Gestaltista Conceituações", de Vera Felicidade de Almeida Campos
















"Visão do paraiso", Sérgio Buarque de Holanda
"O Mercador de Veneza", W. Shakespeare



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Thursday, November 1

Pressentimentos e interpretações


O insinuado é percebido enquanto prolongamento do que ocorre. Esta é uma das leis perceptivas postuladas pelos gestaltistas clássicos - é a Lei da Closura ou do Fechamento.

O percebido é estruturado relacionalmente (é resultante da relação sujeito-objeto). Havendo preexistências que invadem o dado, o presente, o que ocorre fica nublado, fragmentado por desejos, medos e lembranças. Estes posicionamentos determinam as interpretações, as constatações e catalogam as vivências.

No dia a dia da clínica psicológica, trabalhar com referenciais, com conceitos posicionantes - inconsciente por exemplo - gera interpretações, reflexões e conclusões redutoras das vivências, explicações estas baseadas principalmente na visualização dos desejos e dos medos.

Frequentemente, o cotidiano das pessoas é invadido e estabelecido à partir de clichês  (que são closuras estabelecidas em outro contexto e reutilizadas) e à partir dos pressentimentos gerados pela transformação de índices em totalidades indicativas. Por exemplo, os próprios desejos ou medos são indicativos do que se deseja ou teme acontecer. Ao privilegiar as partes, se perde a globalidade, repete-se pensando estar descobrindo, antecipando.

Esta incapacidade de constatar o que ocorre, esta substituição do que se dá (do presente) pelo que se deu ou pelo que se antecipou por desejo e temor, instala ansiedade, intranquilidade, tanto quanto certeza, resultante de dogmas. A certeza é o alicerce das interpretações, das "descobertas"; verdadeiros achados redutores das dinâmicas conflitivas e paradoxais. Isto gera muito preconceito e distorção. E assim, a certeza do que ocorreu confirma os pressentimentos. Considerar-se privilegiado, capaz de intervir e pressentir, cria os que estão descobrindo, antecipando e determinando as ordens reguladoras e aniquiladoras dos relacionamentos.

A invasão do presente, pelas superposições geradoras de esfacelamentos, de fragmentações é sempre alienante, gera profetas, sensitivos e experts, assim como cientistas comprometidos com regras e ordens a manter ou destruir.









 








"A Guerra dos Sonhos", Marc Augé
"A fala Sagrada - Mitos e Cantos Sagrados dos Índios Guaranis", Pierre Clastres


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