Thursday, October 25

Decisão libertadora

Aniquilado como ser humano, entregue à sobrevivência, o indivíduo é transformado em uma estrutura que funciona para satisfazer suas necessidades. Sente-se sozinho, os outros são sempre ameaçadores; a falta de confiança, a vivência de ter sido aniquilado é pregnante. Todas as suas relações são estruturadas nesses referenciais. Não há amor, compaixão, bondade. O outro é usado, enganado para satisfazer os próprios objetivos. O outro é apenas um objeto útil, inútil, que ajuda ou que atrapalha. Esta sobrevivência, engano, utilização e traição, estrutura revoltas e medos além de aniquilar outros seres humanos.

De queda em queda, de engano a engano chega-se a limites intransponíveis. É o marginal que cai na malha da lei, é o impoluto finalmente desmascarado ou são também os que colocados em impasses, têm todas as coordenadas e percepções para realizar-se como objeto, como coisa desumanizada ou para pegar a réstia de luz que leva ao nó, à virada humanizante. É o momento onde não mais importa o que se consegue, apenas importa o que se é, sacramenta-se a monstruosidade gerada pela consciência de sobreviver. Este momento gera o turning point, momento da virada que humaniza, faz aceitar limites, perceber mediocridade e maldade, ver que não há o que salvar, nem o que vencer. Esta entrega é aceitação da não aceitação, é libertadora ao significar abandono das aderências e aceitação dos limites e realidades imanentes; aceitação de seu vazio e despropósito até então preenchido pelo 'tenho que esquecer', 'preciso vencer', 'preciso ser mais forte e capaz do que quem me aniquilou'.




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Thursday, October 18

Fábrica de sonhos

Quando não se vive o presente, tudo é vivenciado como expectativa.

Viver dedicando-se à realização de objetivos, sonhos e propósitos é esvaziador, transforma o ser humano em um robô (objeto) programado para a realização de desejos e necessidades.

Inicialmente o processo de mecanização é vivenciado como bem-estar, tranquilidade, sorte, sucesso, acerto. Tudo que é necessário é programado e a eficiência dá bons resultados. Ganhar dinheiro, ser respeitado, ser considerado bom, estas aderências suprem a deficiência e a falta desencadeadoras dos sonhos e propósitos.

Sucesso e realização, nestas estruturas mecanizadas, resultam em vazio; realizar objetivos, sonhos é também estabelecer despropósito: não há mais por que lutar, não há o que empreender, não há o que fazer, só existe tédio, vazio.

Ao vivenciar este vazio, inicia-se um novo processo, frequentemente percebido como impasse: é preciso abrir mão do conquistado para conseguir bem-estar, sentir-se vivo. Viver é percebido como doloroso e esta vulnerabilidade requer proteção; reinicia-se o processo de realizar necessidades, criando novas mecanizações. Adaptação, adequação são conseguidas, eternizando o bem-estar sob condições padronizadas e estagnadas.

Sonhos são fabricados, procurados para suprir incapacidades, não aceitações e vazios, consequentemente são as bolhas de sabão que quando tocadas desaparecem. Ter um sonho, é ter uma meta, um propósito, é não viver o presente. Viver bem é vivenciar o que se vive, é viver o presente; negá-lo, jogando-o para depois, é um adiamento lesivo, esvazia e mecaniza, deixando o ser sem flexibilidade, endurecido na realização de seus propósitos e objetivos futuros.
 















"Ilusões Perdidas", Honoré de Balzac
"Horizonte Perdido", James Hilton


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Thursday, October 11

Zeitgeist ou espírito da época

A ideia de Zeitgeist perpassa a obra de Hegel, pensado como processo histórico. Zeitgeist é um conceito básico e intrigante para compreensão da trajetória, do comportamento humano.

A atmosfera da época, o contexto dos anos, existe independente das culturas de cada nação ou é típico das nações mais adiantadas economicamente e passados para as outras. Admitir isto, implica em admitir transformações superestruturais independente de suas infraestruturas. Ocorre que os sistemas, sociedades ou culturas, comunicam-se de diversas maneiras, têm camadas, aspectos relacionados a outros sistemas, sociedades ou culturas diferentes de seus estruturantes. Esta flexibilidade, dinâmica reversível, permite criar denominadores comuns - é a atmosfera, espírito, feições, modas, configurações fundantes à partir das quais frequências são estruturadas e sintonizadas.

Processo incrível, permite semelhanças: todas as fotos do século XIX são parecidas; desde a sépia, o resultado daguerreótipo, até as feições, chapéus, casacos etc. Suecos, portugueses,  javaneses e nigerianos, por exemplo, participam do mesmo Zeitgeist. O que se lê, o que se pensa, o que se discute, como se ama, o que é crime, o que é pecado, honra, são decididos neste contexto, nesta atmosfera.

Nosso passado é comum, nosso futuro também o será independente de quaisquer características individuais. Antes do avião, antes do computador, antes das câmaras de gás, assim como depois de tudo isto, são passagens, manifestações do Zeitgeist.

Este contexto comum é também responsável pela massificação e cópias, devido a superposição que cria. Cartola e fraque nos trópicos é um exemplo de transposições absolutizadas pelo espírito da época.

Atualmente este espírito, o Zeitgeist, está sendo substituído, manipulado, quase que criado pelo mercado, perdendo assim sua característica de atmosfera, virando subproduto, resíduo reciclado sem raízes fincadas em processos, fincadas na história, por exemplo. Arbitrário, o espírito da época se transforma em políticas defasadas, em modas massificadas e nichos nostálgicos para a impotência, o medo e a depressão.

















"Viaje a Oriente", de Gustave Flaubert
"Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister", de Johann Wolfgang von Goethe

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Thursday, October 4

Trapaças e fetiches

Tudo que é usado como aderência se transforma em um extra ao processo. A própria aderência já é alheia ao que ocorre.

Utilizar-se do extra é um recurso que sempre amplia. Ampliar é justapor. Esta justaposição é um momento de trapaça em relação às ordens intrínsecas constituintes - perverte funções. A popular idéia de que "quem não tem cão caça com gato", a improvisação em função dos fins a realizar é maquiavélica, engana e transforma o outro em receptáculo de desejos, em objeto. Transformar o outro em fetiche é perversão; além de desumanizá-lo utiliza-se este objeto para propósitos solitários (autorreferenciados). Nas perversões é frequente encontrar o indivíduo rodeado de outros indivíduos submetidos a seus propósitos: sexo, dinheiro, poder etc.

Ideologias, religiões, certezas e medos podem perverter à medida que passam a ser aderências determinantes dos relacionamentos. Acreditar, por exemplo, que o filho é uma encarnação demoníaca e começar a enxergá-lo assim é uma perversão constante no quadro da não aceitação ("encarnação demoníaca" é denominação para várias situações: o filho com defeito físico, com dificuldade de adaptação, o filho que não aprende, o filho rebelde, o filho que tira péssimas notas etc).

Querer esculpir o próprio corpo (silicones, bisturis e próteses) em função do gosto do momento, da moda, é um fetiche, trapaça desesperada de tentar aceitar o que não se aceita. Em muitos casos, mudar o nariz, aumentar os seios, apenas adiam, escondem o desespero de não se aceitar, criando um álibi, um pretexto para justificar a não aceitação.

O "corpo sarado", como fetiche, é visto como uma garantia de relacionamentos amorosos, o poder e a riqueza como fetiches são considerados garantia de aceitação social etc; estas são formas evidentes do deslocamento das problemáticas.

















"A casa do incesto", de Anaïs Nin
"O livro dos seres imaginários", de Jorge Luis Borges

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