Thursday, September 27

Novo

O novo não é o recente, contemporâneo, tampouco o inédito. Novo é o antagônico entre o que se vê e o que se espera ver. Neste sentido, novo é apenas o que pode surpreender. Arquitetos, estilistas, decoradores, publicitários, enfim, os que lidam com arte estão sempre trabalhando com o novo, mostrando como o démodé, o vintage é novidade total. Manter o novo é uma maneira de exilar o tédio, o previsível, o padronizado.

Seguir regras, etiquetas, sempre foi um fator de monotonia. Poetas rebeldes, a geração beat criaram o "épatér les bourgeois" como maneira de dinamizar, diversificar o dia-a-dia. Superar, quebrar o tédio também não significa bem-estar, tranquilidade. Um terremoto em uma zona não sísmica é uma tremenda novidade, desagregadora e destruidora. Organizar não é repetir, criar não é administrar situações para finalidades úteis, aceitáveis.

Este conceito de novo como surpreendente permite entender o clássico,  o estabelecido independente de circunstâncias (contingências), permitindo também contextuá-lo como novidade. Nossas vivências cotidianas sempre são tecidas como diálogos entre novo, clássico e démodé. É a nossa memória, sua atualização e transposição que realiza isto.

O familiar é um refúgio, existente pela estabilidade e constância que oferece. O estranho é um motivante, ativador pela novidade que oferece, pela não categorização apresentada.


- "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust

verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 20

Igualdade e diferença

O igual é o diferente. Falar de igualdade ou de diferença pressupõe um terceiro ponto de comparação. Ser igual a A é ser diferente de não-A. Cachorros semelhantes entre si, por exemplo (são todos cachorros), são diferentes enquanto eles próprios (indivíduos).

Da mesma forma, a continuidade mantém igualdade ao estruturar as diferenças. Heráclito dizia que as águas do rio onde o homem se banha nunca são as mesmas, "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". O rio é contínuo, passa, o imerso  não continua ou ainda a água que passa pelo calcanhar é outra diferente da que passa pelos dedos dos pés.

Continuar e permanecer são também paradoxos contidos nestas afirmações resultantes de contextos estruturantes não explicitados.

Só pode continuar o que permanece, tanto quanto a divisão traz em si sua unificação. O que divide é o mesmo que unifica. Polaridades sempre traduzem unidades se globalizados seus contextos estruturantes. Perceber o diferente como o igual é um dos grandes momentos geradores de tranquilidade, de abolição de antagonismos e divergências. Ver isto é integrar o excluido - o diferente - ao perceber que todos somos seres, por exemplo.

A criação de parâmetros, de regras, estabelece diferenças ou semelhanças hauridas de situações alheias ao que existe. A comparação é sempre resultante de outros contextos. Por utilidade, por vantagem, são criadas categorias, tipificações. Igualdade e diferença podem originar idéias de superior e inferior, melhor e pior e assim são extintos animais, destruidas culturas e nações são subjugadas.

Somos todos seres vivos iguais como tais e diferentes enquanto estruturas individualizadas.


"Quando fui outro", de Fernando Pessoa

verafelicidade@gmail.com 

Thursday, September 13

Responsabilidade

Responsabilidade só é possível quando existe autonomia. Ser responsável não é simplesmente cumprir tarefas, não se caracteriza por obediência. Responder pelos próprios atos ou pelos praticados por aqueles pelos quais somos responsáveis é a definição socio-jurídica de responsabilidade.

Ser responsável é não usar os outros e não se deixar usar. Obedecer ordens, cumprir o dever sem questionamento é apenas servir de base de sustentação para sistemas alienantes e até crueis.

Perceber as implicações do que se faz é ir além do que é feito. Este ir além, só significa responsabilidade se for tomado como contexto estruturante. Desincumbir-se de tarefas e ações sugeridas pelo mestre, mentor, pais ou qualquer autoridade, pode significar grande irresponsabilidade se não houver autonomia que permita o questionamento das tarefas, missões ou obrigações. Desde seguir a mesma profissão do pai, até votar em seu candidato pode ser apenas obediência, simpatia irresponsável.

Saber que o que se faz é feito com autonomia, tira o peso das coisas. A gravidade, o peso das coisas resulta de relações intrínsecas às mesmas; elas não necessitam de suporte, precisam apenas de contextos adequados para que possam ser configuradas, globalizadas, permitindo deixá-las ou abrigá-las. O mesmo vale para os relacionamentos, não pode haver responsabilidade para com os próprios atos e para com o outro - filhos, pais, amigos, amantes - se não houver autonomia, aceitação.

Responsabilidade como obrigação e regra é uma camisa de força para conter os deslocamentos da sobrevivência, da neurose.



"Bela do senhor", de Albert Cohen

Thursday, September 6

Iniciativa

Iniciativas não são atitudes inesperadas, súbitas.

A iniciativa sempre decorre de decisões, neste sentido, havendo unidade, existe iniciativa. A constatação das implicações, a percepção do que está ocorrendo sem autorreferenciar, não gerando dúvida, não gera vacilação, é a globalização dos dados relacionais, sem divisões, pois que não existem contradições ou complementações. Tudo é contínuo, qualquer momento é iniciador e também finalizante; a decisão está contextualizada no processo e nas suas implicações.

Para o indivíduo que não está posicionado, sem emergências arbitrárias, a iniciativa, a decisão são constantes; aparecem sob forma de participação, de presença. O que está ocorrendo indica sua continuidade, tudo é espontâneo, tudo é contextualizado. Não existe necessidade de esforço, não existe regra. Não há "o tem que" ou o "deve ser".

Decidir é ter iniciativa, é o se propor a, estando presente e dialogando com o que acontece.

Qualquer coisa que ocorre traz seus contextos relacionais estruturantes. Não quebrar esta ordem é ser livre, é estar entregue ao que ocorre sem a priori ou meta. Não havendo compromissos nem submissão, existe iniciativa, existe decisão, não precisa pensar (prolongamento da percepção), basta perceber.


"Os irmãos Karamázov", de Fiódor Dostoiévski