Thursday, August 30

Coragem

Três principais acepções caracterizam o que se pensa ser coragem: heroismo, salto no escuro e destemor. Um denominador comum das mesmas é a rapidez da ação, a não avaliação, a espontaneidade, enfim, o ato presente cuja implicação pode trazer alívio, mudança, liberdade, ato que se caracteriza pelo perigo, pelo risco.

O corajoso é o herói, o destemido, o desapegado até da própria vida. Em contextos massificados, coordenados para vantagens e utilidades, é cada vez mais difícil encontrarmos corajosos.

Para ter coragem basta ser honesto, nada difícil, nem impossível. Mesmo nas estruturas neuróticas, mesmo nos processos de não aceitação, a honestidade, a coragem surgem quando se aceita que não se aceita e se age conforme isto. É honestidade, por exemplo, não continuar nas fileiras de um grupo, uma agremiação, uma sociedade religiosa, quando se percebe motivações e ajustes de conveniência. Romper acertos, quebrar compromissos, mudar paradigmas, renunciar às vantagens do lucro que sustenta, tanto quanto romper relacionamentos que se transformaram em pilares de sustentação, posições estabilizadoras de bem-estar e inércia, pode ser exemplo de atitude honesta, corajosa.

Agir de acordo com o que se percebe e não de acordo com o que se precisa ou deve é honestidade, gera coragem, rompe compromissos asfixiantes, oxigenando e dinamizando. A coragem tira da imobilidade, dinamiza. Neste contexto, as acepções da coragem são honestidade, renúncia e liberdade.

Indivíduos comprometidos com o sistema não podem ser honestos, não podem ser livres e passam a traduzir renúncia como sacrifício; são seres queixosos, seres falhados, como a legião de mães e pais que tudo fizeram pela felicidade dos filhos e se sentem sacrificados, não reconhecidos; são os sustentadores, a base que reclama, sempre amedrontados.

Aceitar os próprios problemas, aceitar que não se aceita é uma atitude de honestidade, de coragem, diferente de medo, de acomodação.



 "Os Dados Estão Lançados", de Jean-Paul Sartre 


Thursday, August 23

Impaciência é indignação

Nem sempre impaciência é indignação, mas no contexto de cooptação, imagem e faz de conta, indignar-se, irritar-se, não concordar e lutar pelo que se discorda é atitude denunciante da acomodação sacramentada pelo politicamente correto.

Faz diferença dizer não, faz diferença dizer sim. Enfrentar combinações, regras e leis pode ser perturbador, mas é também questionador. Tudo que é explicado pode ser uma revelação, tanto quanto a explicação pode ser uma maneira de esconder o que não se quer que seja percebido.

Na intimidade do lar, no seio da família, quebrar o silêncio característico das omissões é visto como sinônimo de violentação à harmonia. Da mesma forma, estar bem com o colega de profissão, os pares corruptos e que abusam dos poderes profissionais é manter posicionamento que evita indignação, que ajuda a sobreviver. Muitas pessoas são prejudicadas para que se mantenham ajustes, mentiras e conveniências. Impotentes para mudar, para denunciar, resta a estes indivíduos aceitar, não criar problemas, não se expor. Esta moral de compromisso é construtora de imoralidade, de impunidade, de neurose - alienação. Impotentes, liquidados como vozes dissonantes, transformados em resíduos descartaveis, ficam sujeitos a processos de reciclagem; ficam sujeitos a adaptar-se, seguir a maioria sem indagações, com esperança de se controlar e medo de resvalar em lutas por causas perdidas. 

Civilizações clássicas, tradicionais, valorizavam a discordância; na China por exemplo, a maioria sempre vencia (50% mais 1, mais 2 etc.), salvo quando havia apenas uma discordância: em 10 pessoas, 9 a 1 por exemplo; sempre que o discordante percebia algo que a maioria não conseguia perceber, ele era considerado certo ou vencedor. Era o novo que se buscava.

Contemporaneamente, o diferente, o discordante, não significa. Oposição é transtorno, é considerado problema. Paciência e negociação para incluir, somar, acrescentar é o que interessa; resultados devem ser acumulados, ajustes devem ser conseguidos. Conviver bem com o já chamado lado B, o lado marginal do colega que vende ilícitos no trabalho é considerado saber viver.






"O Engenhoso Cavaleiro D. Quixote de La Mancha" (2 volumes), de Miguel Cervantes
"Mãe Coragem e seus Filhos", in "Teatro Completo" Vol.6, de Bertolt Brecht

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Thursday, August 16

Fissuras e revelações

Toda descontinuidade, divide, cria separações. Quebras, rachaduras podem ser consertadas gerando o que se constitui em disfarce do que foi dividido. Terceiros fatores, outras variáveis, normalmente revelam estas emendas. Situações reveladas e desmascaradas sempre existiram. Não há como controlar o inevitável: a dinâmica relacional que subverte e questiona posicionamentos.

Os contextos relacionais, as contenções, as irregularidades não revelam as estruturas comprometidas pela divisão mas explicitam os limites possíveis do estar bem. Adaptação, desadaptação ao limite do outro expõem dificuldades, acertos e negociações realizadas para manutenção da boa ordem familiar, do emprego conseguido, do status almejado, por exemplo.

Consertar é reestruturar, mas quando acontece como uma emenda, arrumação e disfarce se constitui em um limite. Disfarces não resistem às transformações; são contextos onde é impossível tirar implicações do que ocorre quando esta ocorrência está mantida dentro de padrões e regras que as definem como um cessar de possibilidades. Pensar, tirar conclusões é visto como perigoso, pode quebrar toda a ordem constituida, a harmonia a ser preservada. Não pode haver questionamentos, pois geram desequilíbrio. O importante é manter o que está arrumado, disfarçado.

Filhos sempre questionam à medida em que se constituem em um novo; por mais que estabelecidos e enquadrados, alguma atualidade - novo contexto - existe. O questionamento realizado pelos filhos é uma fissura, uma quebra, uma divisão, que trará mudança, reconstrução ou novos consertos, disfarces e acúmulo de situações não enfrentadas, consequentemente mais compromissos, mais posicionamentos, imagens e disfarces.

Infinitas situações podem criar rompimentos, responsáveis por questionamentos e reestruturações ou emendas e disfarces.


















"Em busca da unificação", de Abdus Salan, Paul Dirac e W. Heisemberg
"Minha irmã e eu", de F. Nietzsche

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Thursday, August 9

Coação e acertos

Amedrontar, ameaçar são ferramentas muito usadas para conseguir realizar objetivos autorreferenciados. O exercício desta técnica exige criação de artifícios (imagens geralmente vistas como positivas) e armadilhas (manipulação dos desejos e metas do outro). Encontramos coação não só na esfera criminosa, mas também na esfera da legalidade, nas casas, nos escritórios, nas escolas.

Historicamente as mulheres, com a meta do príncipe encantado, do casamento, são presas fáceis: se deixam seduzir e enganar, fazem qualquer negócio, arriscam qualquer coisa para realizar a meta. Realizada, vem o vazio - não têm mais onde se sustentar. Amarradas, penduradas nas vantagens conseguidas, suportam todos os massacres para manter o sonho realizado, agora frustrado. Este paradoxo só pode ser vivenciado na divisão; esta frustração diária, os maltratos sofridos - físicos e psíquicos - são considerados acasos, acidentes, não fazem parte do processo: são vistos como acidentes causados por inveja dos amigos, por espíritos esfaimados por alegria, cheios de despeito ou é a dificuldade, a doença do outro que precisa ser cuidado, ajudado, suportado, enfim, são inúmeras as justificativas para a manutenção do que apoia, do que oprime.

Coagidas e infelizes, buscam derivações. Empenhadas na manutenção do processo, sacrificam-se por seus filhos, abrem mão de suas idéias; aprendem a fazer de conta que não vêem a violência, que não percebem o que acontece. Tudo é sacrificado para manter o que se precisava e conseguiu: aparência e faz de conta. Vítimas e agressores estão imanados.

Pessoas que não se aceitam, que vivem em função de metas, assim como também crianças, idosos, doentes, subalternos, indivíduos que de uma forma ou de outra não têm ou não estruturaram autonomia, estão sujeitos a coação.

Dependentes do que recebem em troca de se tornar objeto, seja útil, seja de prazer, o indivíduo assim coisificado, despersonalizado, se torna mais um dedicado a conseguir, a vencer, a atingir sucesso. Os processos de não aceitação, as humilhações exigem superações, exigem novas imagens. Assim apegados nos resultados, realizam acertos a fim de superar o que os desumaniza. Os caminhos trilhados são unilaterais, desde que referenciados na busca de saidas, e portanto comprometidos com o que se quer sanar.

Nos processos resultantes de coação, opressão, o que se consegue - como liberdade - é ser o próprio opressor, o próprio alienador. Nos transtornos bipolares esta situação se torna clara apesar de escamoteada pelo que chamam de "manias" e "depressões".

Como exercer autonomia em situações que foram estruturadas sob dependência e desejo de realização de metas? Obviamente abrindo mão das metas; não se trata de uma simples decisão pois  os processos se estruturam com características limitadoras, mas através de questionamento terapêutico, da aceitação de limites, torna-se possível a vivência do presente. "… até que ponto não estamos dizendo que a saída é uma acomodação, uma alienação? Como estruturar autonomia, necessária para humanização se não fizermos antíteses aos processos desumanizadores? Enfim, que antítese possibilitaria a continuidade da sobrevivência enquanto autonomia? A ocupação com o que está diante de mim, a dedicação, o enfrentamento do que me ameaça, a participação responsável pela transformação. Participar desse espetáculo sobrevivente é a maneira de transformá-lo. Qualquer recusa, ausência, origina preocupações, medos, estratégias de defesa." *

* Em "A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu", de Vera Felicidade de Almeida Campos
















"Las cartas del mal", de Baruch Spinoza
"Dos delitos e das penas", de Cesare Beccaria

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Thursday, August 2

Zumbis

Zumbis são os mortos-vivos, os fantasmas que povoam alguns deslocamentos específicos da não aceitação, da perversão.

Como entender perversões, crueldades extremas, enganos, mentiras que nos remetem a uma esfera de desumanidade desconcertante?

Mortos-vivos podem ser os amigos, os semelhantes, qualquer um que fabrique imagens, coberturas para esconder seu vazio, sua ganância, seus medos, suas não aceitações.

Não se aceitar, não aceitar que não se aceita, requer uma série de estratégias para conseguir realizar metas e desejos, desde simples posturas e hábitos civilizados até o engano, a mentira, o uso sistemático dos desejos, das metas e necessidades, enfim, das neuroses de seus interlocutores.

Na não aceitação dos próprios limites e dificuldades, a única coisa que interessa é conseguir cobrir as próprias fraquezas, consideradas feridas incuráveis. Sentindo-se monstros, mortos-vivos e vazios, vestem-se de humanos, conseguindo assim matéria-prima para sobreviver, para sentir alguma coisa. Esta é a dificuldade impossível de sanar - não sentem, são mortos-vivos. A busca, o engano, a manipulação (do outro) funcionam como sucedâneos de vida, até um ponto onde conseguindo o que precisam, passam a temer o desmascaramento. Este temor gera sintomas. Aplacar os sintomas passa a ser a nova regra, a nova busca, o paraíso necessário. Esgotado o consumo do outro - matéria-prima para a própria sobrevivência - eles passam a se consumir; é a autofagia, tornando-se necessárias mais imagem, mais aparência, consequentemente aumenta a quantidade do que esconder, do que camuflar. Em psicoterapia, a primeira mudança é deixá-los em carne viva, sem as roupas e imagens protetoras; tal estado é insuportável, a terapia é transformada em UTI (Unidade de Terapia Intensiva), enfim, ela é também vampirizada.

Denúncias, descobertas, desmoralizações são os únicos processos existentes para começar a "por a estaca no coração", acabar com estes vampiros, estes zumbis alimentados por suas contravenções, pelo roubo, pelo uso, pelas perversões até então escondidas e mantidas pelos inocentes e incautos que cruzam o seu caminho.

Dificilmente estes zumbis procuram psicoterapias, só o fazem quando buscam despistar e manter sua imagem acima de qualquer suspeita. O morto-vivo é um objeto, um fantasma que flutua e paradoxalmente pode estar escorado em alguma instituição: família, profissão e religião por exemplo.

Muito do que se tem chamado de perversão: pedofilia, necrofilia, zoofilia etc., pode ser melhor entendido sob este enfoque relacional.






"Reflexões sobre a vaidade dos homens", de Matias Aires
"Lolita", de Vladimir Nabokov
"A serpente e o arco-iris", de Wade Davis


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