Thursday, July 26

Superação

Atualmente, tanto nos contextos psicoterápicos quanto nos religiosos, enfatiza-se a idéia de superação, de desapego e psicoterapias e religiões são usadas como alavancas para promover mudanças consideradas desejáveis. Nestes contextos, superação e desapego tornam-se sinônimos quando entendidos como abandono e desistência. Abandonar os sonhos antigos após um acidente que gera imobilidade, desistir da família unida ao descobrir que a mesma era assentada em bases enganosas, são, então, exemplos de superação, desistência de sonhos agora impossíveis e dedicação a novos projetos.

Problemas sempre surgem. Em contextos de aceitação, ultrapassar, transcender limites é espontâneo, dispensa alavancas; a superação e o desapego aparecem como abertura de possibilidades. A percepção dos processos abre condições, gera perspectivas para o aparecimento de um núcleo fundamental: o estar vivo. Enquanto tal não ocorre, a vivência é de perda, de morte, de incapacidade e neste contexto, superar, desapegar é apenas substituir, reutilizar. Estruturas de não aceitação, se não forem questionadas, são incapazes de superação ou desapego; sujeitas a discursos de apoio apenas mascaram suas insatisfações, desistindo e substituindo metas.

Voltando ao exemplo, na família construida sob engano que existe apenas para encobrir preferências consideradas ilegítimas, quando aparece sua impostura gera grande liberdade, permite diferenciar o joio do trigo, permite vivência de verdade. Esta descoberta é libertadora, possibilita ultrapassagem e desapego,  estruturando também certezas e confiança. É um processo dialético, gerador de mudança. Geralmente tal não ocorre porque as pessoas precisam de apoio, de faz de conta e assim a sensação de mundo que desmorona é aniquiladora.

Não viver em função de funcionamento e imagem é que permite superação dos problemas, ultrapassagem de limites e desapego do que satisfaz.

















"Os andarilhos do bem", de Carlo Ginzburg
"Contingência, ironia e solidariedade", de Richard Rorty


Thursday, July 19

Confiança

Confiar nos outros decorre de ser disponível, de aceitar o que se é, o que se tem, o que se vive. Quando se avalia lucros e perdas não há disponibilidade, não há confiança, o que existe são acertos, negociações e contratos.

Discussões sobre a modernidade costumam enfatizar o aumento do individualismo e competitividade onde as relações são reguladas e controladas por contratos escritos em contraposição a uma época onde acertos eram baseados na palavra ou na confiança entre as partes. Estas afirmações podem levar a crer que a falta de confiança é resultado deste momento histórico. Em verdade, assistimos apenas uma mudança nos mecanismos coercitivos que regulam a confiabilidade ou os acertos entre as pessoas: antigamente a família e a comunidade exerciam esta controle; hoje em dia, instituições públicas regulam  os acertos.

O homem é sempre o mesmo; confiar ou não confiar, ser uma pessoa de confiança depende de como ele se estrutura.

Logo ao nascer, o rosto materno é uma boa ou má configuração, acolhedora ou limitadora. O pai, a mãe, o avô, a avó, os irmãos são também confortantes ou desconfortantes; o mesmo quanto ao ambiente onde se vive. Estruturar confiança - perceber o que se percebe - é o mais fácil, é o dado relacional direto caso não haja superposições escamoteadoras das motivações: por exemplo, dar à criança um bombom de chocolate porque se deseja que ela não conte o que viu, pode ser o início da estruturação de um ser não confiável, assim como um ser desconfiado; pode estruturar omissão ou oportunismo onde se abdica dos próprios critérios e evidências percebidas, em função de aplacar desejos impostos pelo outro, seja através de ameaças (medos), seja através de seduções (metas).

Crianças, filhos, alunos são muito sensíveis a ser manipulados e enganados ou a ser aceitos em seus limites, inseguranças e dramas. Quando manipulados e enganados são transformados em objetos, seja de desejo e perversões, seja de regras adaptadoras, coisificantes. Aceitos em seus limites e dificuldades, confiam, percebem o outro que não os utiliza e assim começam a estruturar disponibilidade, confiança, amor, aceitação.

















"Charneca em flor", de Florbela Espanca
"Coração tão branco", de Javier Marias

verafelicidade@gmail.com

Thursday, July 12

Verdades e mentiras

Quem nunca se perguntou sobre a veracidade ou falsidade de algum relato, de alguma notícia e até da própria visão sobre um determinado acontecimento? É comum surpreender-se enganado, ludibriado. Descobrir que está sendo enganado, por exemplo, é libertador se vivenciado sem as amarras do compromisso. Esta mesma descoberta - ser enganado - é também mortal, aniquiladora de todos os sonhos e confiança depositada (no outro).

Acreditar e duvidar são polos de um mesmo eixo: a constatação de um acontecimento, de uma ocorrência. 

Tudo que acontece pode ser percebido, embora nem sempre constatado. Diante de fatos, acontecimentos, percebemos e também inserimos esta percepção em redes de memórias e vivências. A inserção é a constatação, é a percepção da percepção, às vezes representação ou interpretação do acontecido. Destas vivências são estruturadas crenças ou dúvidas. 

Saber o que é e o que não é, acreditar que tal fato ocorreu ou não, enfim, dúvidar é defrontar-se com o lacunar, o incompleto. A dúvida é motivante, tanto quanto angustiante: ao gerar a busca de certeza e garantia, desconsidera o que acontece. A necessidade do flagrante, da prova é redutora das possibilidades relacionais; só ocorre quando não existe disponibilidade, confiança no que é percebido. Deter-se no que ocorre é suficiente, é revelador. Utilizar o que ocorre para estabelecer os selos de garantia, estabelecer a confiança é alienador.

Crimes, faltas, traições, usos e abusos exigem ocultação e despiste. Esta idéia de falta, de abuso, de oportunismo, é característica das relações estruturadas em apropriações e enganos. Focado nas próprias necessidades, o indivíduo lança mão de qualquer coisa para aplacá-la, tornando-se agressor ou vítima; é a sobrevivência, a perversão, a maldade. Neste nível de sobrevivência, enganar é o paradigma, o modelo usado para estruturar comportamentos. 

Aceitação do que ocorre ou do que se percebe como ocorrido, é estruturante de comportamentos  disponíveis, dinâmicos, questionantes; enquanto a não aceitação do que ocorre estrutura rigidez, fanatismo, certezas absolutas, desconfianças, enganos.

Acreditar no que se percebe, acreditar no que se acredita é unificador mesmo quando considerado delirante por outros. O importante não é estar certo ou errado, mas sim, estruturando disponibilidade inclusive para perceber engano onde antes havia certeza; isto é a mudança.
















"O mito da doença mental", de Thomas Szasz
"Macbeth", de W. Shakespeare

Thursday, July 5

Vingança

A vingança é sempre planejada. Esta antecipação, expectativa é um deslocamento de frustração. Não podendo destruir ou infelicitar o que magoou e infelicitou, o indivíduo adia, guarda sua mágoa  e começa a planejar, a desejar se vingar, a desejar fazer com que o outro sofra como ele sofreu, sinta a mágoa que ele sentiu, tenha o mesmo prejuizo, o mesmo sofrimento.

Nascido no contexto da rejeição não suportada, o desejo, o planejamento da vingança é o que resta como motivação de vida.

Parar e colocar todos os propósitos relacionais em função de uma vingança, cria idéia fixa, obsessão, às vezes percebida como determinação. Isto passa a ser o filtro, o foco de toda a motivação. Reduzindo o mundo à expectativa de se vingar, de infringir ao outro o mal sofrido, o indivíduo se reduz a uma espera.

Tudo significa à medida que se conecta com este desejo. O alvo da vingança é que determina o que se faz, o que se pensa, o que alegra, o que entristece. Constituido pelo outro percebido como receptáculo do ódio, vem a coisificação, a despersonalização. Sozinho o vingador se constitui pelo que imagina ser a vivência do vingado, correndo atrás de si mesmo, de seus desejos e sonhos perdidos, até realizar seu objetivo: se vingar. Quando isto acontece - a vingança - ele explode de felicidade, de alegria, de realização.

Ter conseguido se vingar, traz uma situação nova, não há mais o que desejar, não há o que planejar. Esta vivência de sonho realizado remete a todas as mágoas e frustrações.

Conseguir se vingar é também começar a se perceber sem propósitos, esvaziado, sem leme. Tudo foi sacrificado, destruido e queimado para manter aquecida e realizada a vingança.



"Medéia", de Eurípedes