Thursday, June 28

Sacrifício e restrição

O ser é possibilidade de relacionamento, apenas isto e isto é tudo. Não existem seres bons, maus, mediocres ou superdotados como preexistências aos dados relacionais.

Somos seres com possibilidades relacionais que, quando posicionados, mantemos arquivos de memória, estruturando o eu. O eu é o sistema de referências responsável pelas identificações. Confundir ou igualar o ser ao eu é reduzir as possibilidades a padrões e regras características do indivíduo. Somos seres relacionais limitados por referenciais posicionantes. Questionar e identificar esses posicionamentos cria dinâmica, faz mudar. Psicoterapia é onde esse processo se realiza ou é impedido a depender das metodologias e conceitos utilizados.

Atualmente é frequente ouvir psicoterapeutas dizerem que toda criança precisa de uma relação estável: os pais não podem estar separados. Opiniões baseadas em juizos de valor são alienantes. Pensar assim é responsável pela manutenção das ordens constituidas, demonstram o medo da mudança, a busca da adequação e segurança.

Sistemas e religiões, para manter as engrenagens que os sustentam, precisam de sacrifícios, renúncias, normas e rituais. Adquirir segurança como regra padronizada implica em sacrifícios e restrições. Adequar é encaixar; acontece que seres humanos não são objetos.

Qualquer coisa efetivada em função de normatizações seguem parâmetros: os que não cabem, devem ser cortados. Assim fazem os arautos das ordens constituidas, que como Procusto*, mantém seu reinado às custas de restrições e sacrifícios, ajustes e adequações que por sua vez resultam em sofrimentos insuportáveis.

A única maneira de evitar essa alienação adequadora é através da autonomia, verdadeiro antídoto do sacrifício e das restrições coisificantes.


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 * "Leito de Procusto" - no mito, Procusto era um assaltante na antiga Grécia que além de assaltos, submetia suas vítimas a sacrifícios terríveis: ele tinha uma cama na qual as colocava e se fossem menores que o leito, eram então esticadas, se fossem maiores que o leito, tinham as extremidades (cabeça e pernas) cortadas. Ouviam-se os gritos por toda parte e quando os deuses resolveram intervir, Procusto justificou-se dizendo que agia em nome da justiça por que as diferenças são injustas, permitem que uns se sobressaiam sobre os outros e que a sua técnica, a sua cama, iguala todos os homens. Seu reinado de atrocidades só terminou quando foi subjugado por Teseu, mas até o fim defendia-se achando que estava sendo justo igualando as pessoas. O mito é muito usado para mostrar tanto a intolerância com a diversidade, quanto a imposição de padrões nas áreas do conhecimento, seja na educação, ciência, política ou no cotidiano.













 

"A questão do Ser do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos
"Temor e Tremor", Søren Kierkegaard

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Thursday, June 21

Sentimentos e emoções

Uma das implicações do conceito da Psicoterapia Gestaltista de que tudo é relação* - percepção é relação, o ser é possibilidade de relacionamento - é rever a noção elementarista, dualista, causalista, de afetividade humana. 

A fundamentação dualista, a idéia de interno e externo, de sujeito e objeto como posições preexistentes, distorcem o conhecimento, o trabalho e o pensamento psicológicos, catalogando e esquematizando a vida psicológica em categorias como sensível versus insensível, bondoso versus maldoso, sentimental versus racional etc. Eles fazem também uma distinção entre "sentimento" e "emoção" onde o "sentimento" remete a "interioridade" e a "emoção" à "exterioridade", à expressão física (como lágrimas, aumento de batimentos cardíacos, calafrios etc).

Alguns psicólogos pensam que sentimento é algo subjetivo, interno; acham que sentimentos são característicos de pessoas sensíveis. E quando perguntamos qual o significado de "sensível", respondem: é o que não é racionalizado. Sensibilidade, paixão, emoção, bondade fazem parte da mesma genealogia, que se origina na dicotomia entre afetividade e razão. Para eles, pessoas sensíveis seriam aquelas que não racionalizam suas emoções, seus sentimentos.

Não existem sentimentos ou emoções; esta idéia advém da psicologia do sec. XVIII, que vê o ser humano como tendo uma parte afetiva, uma motora e uma intelectiva. Freud renova esta abordagem com os conceitos de instinto, consciente e inconsciente. As pessoas, em geral, falam da questão de maneira dualista: emoção e razão; emoção, sentimento, sensibilidade associados à bondade e razão associada a frieza, insensibilidade. É lugar comum ouvirmos: "o criminoso, o serial killer por exemplo, não tem sentimento".

Existem as situações que são chamadas de sentimento e emoção? Sim, o ser humano é uma totalidade e o que é visto de forma partida e separada como sentimento e emoção, são posicionamentos de dados relacionais. Tudo é percepção, tudo é relação. Dado relacional, percepção são sinônimos. A partir da percepção a pessoa se sente com medo, raiva, desconfiança ou alegria e prazer, por exemplo. Quando o indivíduo posiciona o dado relacional, isto é contextualizado na rede geral das próprias vivências; é a constatação na qual o presente, o percebido é a percepção da percepção que estabelece o conhecimento de, o sentir que, com diversos significados (bom, ruim, agradável, desagradável, feio, bonito etc). Estes posicionamentos são os ditos "sentimentos" causados pelas situações a, b ou c. Estas percepções dilaceradas, posicionamentos mantidos, estabelecem o que é normalmente chamado de "sentimento" e "emoção" pelas abordagens elementaristas.

Portanto, "sentimento" é o posicionamento do dado relacional, do perceptível. Entender "sentimento" como resultante do dado relacional perceptivo transforma toda a maneira de abordar o psicológico,  de abordar o comportamento humano. Dizer que o "sentimento de amar" - o amor - é o responsável pela dependência e carência afetiva, não tem sentido, a não ser o de expressar a idéia causalista de que amar é se entregar, se vulnerabilizar, fixar-se em alguém.

Relações amorosas são estruturadas em disponibilidade, aceitação, não resultam de acertos, contratos e complementação. Comportamento resulta de processos relacionais vivenciados por pessoas que se aceitam ou não. Quanto mais presentificada a vivência, mais espontaneidade, menos posicionamento, menos rigidez, mais vivacidade. Pensar nisto como "sentimento de entrega", "energia que flui", é fragmentador do humano ao criar esquemas a partir dos quais se classificam os ditos "sentimentos bons e ruins".


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* entenda-se 'relação' como defino na Psicoterapia Gestaltista: percepção é relação, o ser é possibilidade de relacionamento - não se trata do substantivo que nomeia relações afetivas, trata-se de conceito do processo perceptivo.


















- "Sacher-Masoch - o frio e o cruel", Gilles Deleuze
- "A Partilha do Sensível", Jacques Rancière

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Thursday, June 14

Sistemas e robôs

Fundamentados no lucro, mais valia, exploração, habilidades e direitos, os sistemas sociais - desde a família às regras educacionais e legais - se esmeram na produção de robôs bem acabados ou com avarias de fabricação. Não há lugar para o humano. Doença, neurose, drogas, não aceitação, desespero e maldades surgem.

As psicoterapias, são as ilhas onde as paradas e pausas deste processo desumanizador podem existir. Entretanto, para que aconteça transformação é necessário questionamento a todo processo de adaptação em função dos valores desumanizadores. Geralmente isto não ocorre. O que se vê nas terapias é o chamado "recarregamento de baterias" para enfrentar e manter as raivas, invejas, desejos e justificativas.

Situações extremas, excruciantes geram sempre a pergunta: sobreviver para quê? Viver para quê? Muitas psicoterapias, pelo compromisso que têm com o sistema, conseguem transformar estas perguntas em meros sinais, em símbolos, dizem: "perguntas são interrogações, interrogar é procurar o significado, o sentido, a justificativa de ser humano, de ter problema, quem não os tem?" Obviamente este aplacamento permite reciclagens. Latinhas amassadas podem ser reutilizadas, isto é muito eficaz. Atritar, amassar é recondicionar, é crescer, mas com esta visão temos mais doença, mais desumanização necessária para manutenção do sistema.

Que fazer? Acirrar cada vez mais as contradições, mostrar que o que é valorizado não significa enquanto liberdade, alegria e tranquilidade, que as trancas e blindagens para garantir o que se conseguiu, sem medo, pânico, depressão não funcionam.

A inveja, o ódio, a ilusão, o "lutar pelo próprio bem" pela própria crença são os fetiches, as bandeiras identificatórias de grupos e pessoas que estão irmanadas por estas atitudes.

Os sistemas do robô, da desumanização são mantidos pela apatia, pela depressão. A abulia é assim necessária para seguir ordens. O abúlico, o sem vontade, é fragmentado, pontilhado e paradoxalmente sempre está verificando qual é a sua vontade, qual o seu lucro, o que os outros conseguem e ele não. Nesta ordem estabelecida de sistemas e robôs não há o humano. Nietzsche falava no "super-homem", naquele que via esta mecanização e conseguia ficar fora e além da mesma. Só resolvemos esta complexidade quando nos esvaziamos dos desejos, quando nos questionamos, permitindo não sermos cooptados pela vontade de vencer, de melhorar, de conseguir. A meta gera o vazio individual que é alimentador do sistema social. Ser ambicioso, esperto, tirar o outro da frente, não ter compaixão é a marca do vencedor, do títere social.

Se deter nos próprios problemas, entender suas contradições, entender o próprio vazio é humanizador. Enfrentar estes problemas, ver como eles foram estabelecidos, gera mudança. Esta individualização diversifica a homogeneização dos sistemas, dos valores. Antíteses surgem e o sistema já não mais determina o que é bom, o que é ruim; o sistema será o contexto, o espaço onde se vive, quase que sinônimo de uma paisagem física.



- "Jamais fomos modernos", de Bruno Latour
- "Job et l'excès du mal", de Philippe Nemo
- "O mal no pensamento moderno", de Susan Neiman

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Thursday, June 7

Cordas e amarras

Esforço é desumanizador para o homem. Máquinas são programadas, homens o são apenas quando mecanizados em função de ritmos a serem mantidos. O ser humano ao se relacionar com o outro, com o mundo e consigo mesmo, enfrenta situações, caindo e levantando consegue, falha; é um processo que ele  inicia e participa, não é um espetáculo, uma situação que ele avalia, considera, aposta ou torce.

Não aceitar limites leva a romper certos coeficientes reguladores. O coeficiente de elasticidade no mundo físico e os limites de tolerância no dia-a-dia relacional nos mostram isto. Para estas pessoas que não aceitam a realidade, que não se aceitam,  estimulos, incentivos permitem geralmente realização de desejos e metas. Tudo que impulsiona, que possibilita algo pode ser utilizado e adequado. Por outro lado, sem muletas, sem amuletos, não chegam onde querem. Possibilidades de relacionamento, processos, são transformados em necessidades; surgem funcionalidades valorizadas e na sequência dos relacionamentos suas estruturas precisam ser escoradas. Atinge-se estabilidade por meio de escoras, cordas e amarras. Comprometem-se. Instrumentalizam e transformam possibilidades em necessidades aplacadas e realizadas. Muitas uniões afetivas exibem este processo, por exemplo. A educação bem planejada para que os filhos vençam na vida são também um típico exemplo desta estagnação. Conseguir vencer, estar apto, são propósitos esvaziadores gerados por sonhos e desejos.

Estar comprometido é estar assegurado por um acerto, por uma obrigação sempre defasada em relação ao que se vive, sempre gerando angustia. Obrigar-se a algo estrutura angustia, medo e pânico; escorar-se, amarrar-se permite viver, permite transformar os problemas em justificativas, mas desumaniza, mecaniza e estereotipa o modus vivendi do ser humano. Mesmo pequenas alavancas ou cordas se transformam em impedimentos que podem nos deixar sem oxigênio.




- "Occupy", de David Harvey ...et al. (Carta Maior e Boitempo Editorial)
- "A arte de ter razão", de Arthur Schopenhauer
- "O elogio da loucura", de Erasmo de Rotterdam

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