Thursday, May 31

Ícaros

As pessoas estruturadas na não aceitação da não aceitação, geralmente se propõem ao impossível. São inúmeros os exemplos deste processo, como: perceber a própria estatura mediana como fator responsável pelo não sucesso, criando propósitos de mudança comprometidos com finalidades e objetivos impossíveis. Disfarces e próteses reparadoras não mudam a estrutura, não mudam a estatura básica individual; fazer de conta que não dá importância, comparar a questão com o que é considerado sucesso, passa a ser uma solução, como expressam frases do tipo: "sou baixinho mas tenho muito dinheiro".

Comparar as dificuldades, comparar os problemas é uma maneira de escondê-los. Processo e realidade são inexoráveis, independem dos desejos e diferenças individuais, embora sejam por eles estruturados. Tudo é feito para superar e esconder o problema, consegue-se disfarçá-lo, consequentemente ele deixa de existir pregnantemente para o problemático, mas fica estabelecido como estrutura, contexto à partir do qual tudo é vivenciado. A transformação do impedimento em referência é uma acrobacia que posiciona, esvazia e infelicita. No exemplo do caso da estatura mediana não aceita, esta dificuldade, quando transformada em referência, leva à criação de padrões, contextos e situações onde não existem medidas de tamanho, de estatura. Consegue-se o que se quer, atinge-se o que se deseja driblando, escondendo. Esta realização das impossibilidades, dá ânimo, força, tanto quanto deixa sempre a marca indelével do que se detesta e quer evitar.

As não aceitações físicas criam a impossibilidade permanente, tensionante, gerando também a busca desesperada de permanente solução. Qual o significado de permanente e da permanência nesta situação? Aparência, o que é exposto. Solução rápida: imagem que precisa estar sempre renovada, mudada para permanecer passível de camuflagem. Este paradoxo absurdo do mostrar para esconder, gera impossibilidades relacionais sérias. Nada pode ser muito íntimo, tudo deve ser contingente, fortuito e representativo: vale o que aparece, escondendo.

As não aceitações de origem, ter vergonha dos próprios pais, de não ter estudado por exemplo, também geram sonhos impossíveis, aparentemente realizáveis devido a sinalizações e caminhos organizados para superação de dificuldades. Saber como se comportar, lutar para isto, pode até garantir vitória, estrutura adaptação, adequação, mas não estrutura aceitação da não aceitação. As não aceitações calcadas nas dimensões sociais são mais exequíveis de resolver pelo rápido apagar das trajetórias; para eles quando se chega ao topo, se está no topo.

Não deixar rastros, se impor, estar fortemente ancorado no lado bom e valorizado, gera posicionamentos criadores de padrões, preconceitos e ilusões.

Alguns vôam com suas asas postiças, esquecendo até da cera que prende as asas e que inexoravelmente será derretida pelo calor do sol ou pelo próprio movimento do vôo, pelo bater de asas.

Outros instrumentalizam os questionamentos e denúncias, ficam blindados, imobilizados, protegem suas asas e nem tentam voar, "salvam-se" pela depressão, raiva e medo.

A não aceitação como desejo impossível só pode ser eliminada, neutralizada através da aceitação da não aceitação.


"Paisagem com a Queda de Ícaro" (cerca de 1558), de Pieter de Oude Bruegel

"Dinheiro e Magia", de Hans Christoph Binswanger

Thursday, May 24

Interrupção e continuidade

Os processos são infinitos, o movimento é eterno. Ao nos relacionarmos, estabelecemos limites, posições, espaços. Descontinuamos, interrompemos para continuar. Isto cria tensão, cria motivação. Bluma Zeigarnik, uma pesquisadora dos fenômenos da memória, descobriu no início do século passado, que as tarefas interrompidas eram frequentemente mais memorizadas, mais lembradas que as completadas. Esta experiência é muito fértil; podemos entender a  motivação, o estar interessado em algo ou alguém em função desta descontinuidade, desta interrupção. O que eu chamo de "efeito Zeigarnik" explica a tensão criada pelo que não é concluido.

As sequências relacionais vivenciadas em contexto de não aceitação, de autorreferenciamento são ilustrativas de como o interesse ou desinteresse, o ânimo ou desânimo variam em função de metas realizadas, completadas ou situações instigantes sempre insinuadas e nunca definidas.

As técnicas de manipulação política, a propaganda, a demagogia são sempre um exemplo desse efeito Zeigarnik: motivar é gerar esperança que quanto mais distante fica, mais motiva.

Estar motivado é querer continuar o que se está vivenciando. A sensação de completar equivale ao terminar, encerrar, não oferece perspectiva de continuidade, é alívio ou realização.

O completo, íntegro é tedioso para quem garimpa sucesso, riqueza e bem-estar, por exemplo.

Interrupção, não conclusão do que se realiza estabelece insatisfação, cria tensão, estabelece meta ou gera perspectivas à depender da aceitação dos limites existentes.

A interrupção, pelos vazios preenchidos de motivação, gera continuidade. Frustrações esmagadas, sepultam os desejos que as engendraram. Este progressivo esvaziamento faz com que não exista motivação. O presente é vivenciado como expectativa; o pregnante, a figura (elemento figural) é o que vai acontecer, é independente do que se está vivenciando. É o rompimento da continuidade, é a estagnação.

Continuidade não é manutenção, continuidade é a única maneira de mudar, desde que ao interromper cada sequência, se recria, continua, graças à motivação que é intrínseca ao processo de interrupção.

No indivíduo fragmentado, dividido, parcializado, não há o que interromper, não há consequentemente o que continuar, motivar. São "rochas" inanimadas, pontualizações existentes, onde o que se busca é ponte de união, de complementação.

Na psicoterapia gestaltista, o questionamento, as novas percepções dele resultantes, criam espaços de tensão, de motivação, onde se retorna ao interrompido. Aliviar é sedar, tensionar é acordar.

Interrupções conseguem recuperar o contínuo estar no mundo através das demandas e sinalizações criadas pelos encontros e desencontros do que se faz e do que se deseja, pensa ou precisa fazer.



- "Livro do desassossego", Fernando Pessoa

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Thursday, May 17

Disciplina

A disciplina permite ampliar ou restringir contextos relacionais. Por exemplo, ao sistematicamente se fazer  registros, lembretes prévios ou posteriores, são estabelecidos referenciais; são criados quase que palácios da memória*. Esta reconfiguração do existente é uma marcação de dados ou diluição dos mesmos. Quanto mais disciplina, mais próximos da realidade vivenciada estamos, tanto quanto mais distantes da mesma poderemos ficar.

A concentração do yoga, as técnicas dos exercícios corporais, os procedimentos médicos, enfim, rotinas, tecnologias, andaimes e suportes estabelecidos, disciplinam e organizam.

Disciplina é organização, é técnica, é rigidez. A organização disciplinada cria motivação, pensamentos e desejos, estabelecendo padrões. Isso pode realizar tanto quanto alienar.

Seguir o riscado, sem saber quem riscou e o que significa, configura a rigidez do apoiado - é a marca do que quer acertar, não errar. Disciplina é acompanhar a organização intrínseca, não é criar aderência. Toda vez que surge esta inversão, perdemos a liberdade, viramos escravos do que nos apoia, do que nos disciplina.

Não se esgotar, não se reduzir ao que segura, não se individualizar pelo invólucro, não se deter na aderência é essencial. A disciplina é uma mediação fundamental como tal e totalmente obsoleta quando estabelecida, determinada e transformada em propósito, objetivo, motivação e desejo de vida. A incessante busca de perfeição do obsessivo, o desespero do faltoso em mais uma vez falhar, não fazer o certo, o devido, são aspectos de seres disciplinados (processo) transformados em entidades disciplinadas (objeto).

A libertação da aderência, a libertação dos automatismos, do que é mecânico, rotineiro, revela sempre o novo, o característico, o definidor relacional - o imanente dos processos. Confrontações, processamentos habilitam transportes funcionais tanto quanto criam deformações estruturais.

Estruturar contextos disciplinadores é libertador, viver em função dos mesmos é aprisionador.


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* "Palácio da Memória'' é uma técnica de memorização que ficou muito conhecida depois do livro de Matteo Ricci, jesuíta que viajou para a China e a usou para aprender chinês. Embora difundida por Ricci, a técnica se origina na Grécia, com o poeta Simônides de Ceos, sec. VI a.C.



- "Tudo que é sólido desmancha no ar", Marshall Berman

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Thursday, May 10

Estética e ética não existem na sobrevivência

Viver apenas para sobreviver exige foco, ganância, desconsideração para com o outro. Na sobrevivência só o "salve-se quem puder" significa. Não se considera nada diferente disto; o outro, a ética, o dever, a compaixão não existem. De exemplos corriqueiros a exemplos extremos, convivemos com estas atitudes: o enfermeiro que mata o doente que ele cuida para vender seus medicamentos; o padre que utiliza seus pupilos para satisfazer desejos; os que caluniam, denigrem, "sujam reputações" para, através das situações decorrentes, ficar com o emprego, são formas de sobreviver, são "maldades necessárias" para aplacar as necessidades e melhorar a condição de vida.

Esta falta de escrúpulos estrutura aberrações, monstruosidades. Quebrar a harmonia, estabelecer o caos, a desordem é fragmentar o humano, é tirar a beleza - dimensão característica do que é oraganizado, harmônico. Sem beleza, resta conseguir esconder a feiúra, estratégia que demanda próteses que melhoram: "brasões", títulos e histórias que dignifiquem, acrescentem alguma suposta beleza. Estas aposições são massacrantes - as estruturas são ínfimas para suportar tais aderências. Sacos vazios, tubos que toda hora precisam de preenchimento e que rápido se esgotam é o que aparece neste contexto sobrevivente.  A droga, o sexo, a comida, os remédios, os aplausos trazem momentos de felicidade, só assim alguma coisa é sentida, percebida.

Utilizar a necessidade de sobreviver de todo organismo como base para o consumo de tudo, cria desumanização, gera ansiedade, pânico, sintomas causados pela compressão das possibilidades, transformando-as em necessidades.

Antíteses a estas situações podem começar a acontecer, estruturando dimensões de cuidado (ética), de organização (beleza) e assim humanizando, fazendo perceber o outro e a si mesmo sem avaliações, sem pragmatismo, sem canibalização, sem vampirização.

"A beleza salvará o mundo", escrevia Dostoievski. Outros autores também se dedicaram a pensar a ética e a beleza, como São Tomás de Aquino e Sto. Agostinho com as suas prédicas e orações que conduziriam a Deus; ou Kant com seu conceito de 'dever', abordagens que através da moral e da religião tentavam salvar o homem de seus abismos.

Ao pensar que a beleza salvaria o mundo, Dostoievski pensava na compaixão, buscava remédio para os males humanos. Se pensarmos em profilaxia, beleza é harmonia, não posicionamento, não autorreferenciamento.



"Duas viagens ao Brasil" - Hans Staden
"História da beleza" - Umberto Eco
"História da feiúra" - Umberto Eco

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Thursday, May 3

Queixas e reivindicações

No processo da não aceitação é comum a desconsideração dos limites do próprio contexto, é comum a discussão sobre estar ou não reduzido a situações limitadoras, redutoras e empobrecedoras da vida, das oportunidades, da falta de dinheiro etc. Esta não aceitação é geralmente escondida e blindada por imagens construidas para demonstrar capacidade e tranquilidade. Imagens que quando rompidas por algum acontecimento de perda, revelam seres reivindicadores e vitimizados.

Um frequente exemplo disto é quando se adoece, quando se perde alguém ou alguma coisa, se começa a exigir direitos, reivindicações geradas pelas perdas. Mães, por exemplo, quando depois de uma vida de frustrações e deslocamentos, adoecem, exigem cuidados por parte dos filhos. O provedor familiar, impossibilitado de trabalhar, controla ajudas e participações - exige.

Vítimas e sacrificados são comuns; queixas e lamentações frequentemente conseguem cuidados e atenção. São vistos como merecedores de atenção; é a retribuição necessária de tudo que se acredita ter feito pelos que lhes são próximos. De negociação em negociação as regras são mantidas, os preços pagos. Neste panorama o importante é merecer, é fazer jus e amealhar condições para retribuir, pagar e ajudar a fim de não ser prejudicado.

Quando se vitimiza, se consegue ser olhado, cuidado. Esta crença mantem as alienações e dependências, gerando também desespero, carência e raiva quando não se consegue ser atendido.

Os espectadores do processo ou são alienados pelas demandas ou se culpam, outra forma de vitimização imobilizadora. Assim os posicionamentos são mantidos e a dinâmica do ser no mundo com os outros é submetida a esquemas de deveres e regras.

Enfrentar as próprias contradições é a única maneira de recuperar a dinâmica e abandonar o posicionamento vitimado.





"As correções" - Jonathan Franzen
"O som e a fúria" - William Faulkner
"Traité de savoir-survivre par temps obscurs" - Philippe Val

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