Thursday, April 26

Diálogos impossíveis

Pensamento é um prolongamento da percepção. Quanto mais focado na solução dos próprios problemas, na realização das próprias metas, mais árduo se torna globalizar as relações, suas sutilezas e implicações.

O indivíduo voltado para a necessidade de adquirir, de otimizar os dados relacionais, não consegue acompanhar abstrações, conceitos, teorizações filosóficas ou psicológicas; tudo para ele tem que ser palpável, útil, operacional.

Filosofar à partir do próprio contexto de vida, da própria realização de demandas é impossível. Reduzindo o geral ao específico se percebe parcializadamente. Esta pontualização cria mesmices, tautologias, desconfianças, e raivas.

Muitos dos ditos "complexos de inferioridade" se originam disto: não consegue compreender, não consegue acompanhar o raciocínio, se sente humilhado, preterido. Outro dia li que alguém disse: "sou medíocre, o que estou fazendo no mundo? para quê vivo?" Era uma busca do sentido da vida estruturada na vivência de fracasso, de frustração; não era questionamento, era queixa proveniente de não aceitação da não aceitação. Pretender estabelecer o que é devido, o que é válido, o que significa e dá sentido à vida, já traduz não aceitação, raiva e desespero, tanto quanto cria as vítimas do sistema, vítimas da família, vítimas do mundo.

Como, neste universo autorreferenciado, pontualizado pelas frustrações, se consegue dialogar?

Antes de dialogar é necessário dinamização conseguida pelo impacto gerador da quebra de certezas, é necessário questionar o autorreferenciamento, criando disponibilidade, sem a qual diálogos são impossíveis.



"O efeito sofístico" - Barbara Cassin
"Eu Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão" - M. Foucault
"As palavras e as coisas" - M. Foucault

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Thursday, April 19

Mundo infantil - características relacionais

Não existe um mundo infantil, não existe um mundo adolescente ou um mundo adulto, enfim, não existem tipos nem categorias para os processos relacionais.

Influenciados pela psicologia do século XIX e pelos conceitos freudianos de desenvolvimento da sexualidade, desenvolvimento da libido (fase oral, anal, fálica e genital) extrapolou-se para pensar o que seria próprio e característico das idades, fases da vida, começando assim os padrões, as regras: mundo infantil, mundo feminino etc.

Todo conhecimento é processo perceptivo. Quando percebemos que percebemos, categorizamos, sabemos que sabemos.

Geralmente o chamado mundo infantil é descrito como cheio de brinquedos, cores e situações descomprometidas. Mas existem também crianças que trabalham, que dormem na rua, que não têm brinquedos. São crianças em um mundo não infantil, diriam.

Não existe mundo infantil ou mundo adulto, o que existe são contextos onde as categorizações são estabelecidas a partir da realidade que se vivencia. A criança bem alimentada, não precisa mendigar pela comida; para ela comida não é um referencial para categorização, por exemplo.

Uma criança filha de traficante, tem o referencial do dinheiro, do crime e da morte, como dia-a-dia, como contexto cotidiano; estas situações são percebidas dentro de seus referenciais, onde o ganhar ou perder se impõem. A aglutinação de categorizações, o referenciamento das percepções nos poucos contextos existentes, fazem com que se misturem, confundam as vivências. A criança, neste contexto, repete, exerce maldades. É a crueldade da ingenuidade, a bestialidade do inocente, resultado de achar que tudo pode e deve morrer, pois vê seu pai bandido matar e comemorar.

Crianças repetem o que veem, vivenciam o que lhes é permitido; crianças filhas de bordel agem como sedutoras, imitam o percebido, onde se submeter ao outro e fazer o que ele pede é o considerado bom, é o que lhe dá dinheiro, comida.

Poucos anos atrás, vimos na TV um bandido ensinando seu filho pequeno a assaltar: colocava o revolver na cabeça de uma boneca e gritava "passa o dinheiro!". O filho sorria e aprendia o que o pai-bandido lhe ensinava; em seu referencial era um comportamento novo que estava aprendendo, não era um crime ou maldade. Mais tarde as coisas ensinadas e praticadas pelos pais ou mais velhos são identificadas com seus nomes e estruturas constituintes. É o choque, é o drama, é o abuso sexual identificado, por exemplo.

Não há mundo infantil ou adulto ou feminino etc; há um mundo relacional onde são transmitidas vivências que humanizam ou que desumanizam.



- "Festa no covil" - Juan Pablo Villalobos

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Thursday, April 12

Simbioses doentias

A bondade cruel, a simbiose doentia são oximoros e são também o que acontece em relações de dependência/cuidados obrigatórios, relações fundamentadas em não aceitação, relações que respondem a necessidades. Neste contexto, tudo pode acontecer, até 'dependentes' que agem como algozes e 'independentes' que se submetem.

A dialética dos processos e dos relacionamentos nos mostra que todo apoio é opressor, que o que apoia, oprime. É físico, é espacial, é nítido que o que está seguro está apoiado. É fundamental para a continuidade do processo relacional humano - para o processo de ser no mundo - não estar seguro, não estar apoiado, não estar posicionado. Todo relacionamento gera posicionamentos, geradores de novos relacionamentos e assim infinitamente. Exercer esta dinâmica é fundamental para a existência de movimento, de reversibilidade perceptiva, para se perceber e perceber o outro sem os posicionamentos do autorreferenciamento ou da renúncia de si para cuidar do outro, sem os posicionamentos da pregnância alienadora do que está diante de si.

Suportar a necessidade de ajudar e prover é esvaziador e aniquilador das boas intenções e propostas; é exemplo de como o cuidar do outro sem aceitar suas limitações é desumanizante. O posicionamento desumaniza. As vias únicas resultantes do posicionamento, resultantes da não interação, coisificam.

O filho drogado, depois de algum tempo, escraviza os pais que passam a ansiar por  libertação, passam a desejar a redenção que virá com a morte do filho, por exemplo. O que redime gera culpa tanto quanto disfarça a impotência cotidiana.

Parceiros e amigos deprimidos, voltados para a vivência de suas tristezas e mágoas, se transformam em fardos, caixas de surpresas desagradáveis.

Cuidar dos pais velhos ou doentes, quando este cuidado não está contextualizado em disponibilidade, cria obrigações insuportáveis para quem se obriga ou é obrigado a este processo.  E o filho incapacitado após um acidente sem perspectiva de melhoras? Sem disponibilidade, sem integração estes relacionamentos são esvaziadores e coisificantes, são simbioses doentias; não existe "instinto materno ou paterno ou filial ou fraternal" tampouco "instinto humano".

A obrigação imposta, o submeter-se existem; não importa como são estabelecidos, não importa se contextualizados anteriormente no que se vivenciava como amor, ou como gratidão, ou como retribuição ou dívida; tudo isso é alienador, gera simbiose, fusão que pode até atingir o equivalente de torturador/torturado. São fusões posicionantes, redutoras que prejudicam à medida que pontualizam o processo do estar no mundo.

Tudo que responde à uma necessidade, tudo que nos deixa sem saída é sempre questionável. O questionamento permite que a situação seja mudada, reestruturada: saídas surgem e/ou surgem possibilidades que mudam a rigidez, a mesquinharia, possibilidades que podem até transformar maldade em solidariedade.

















- "Paula" - Isabel Allende
- "O pequeno principe" - Antoine de Saint-Exupéry
 

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Thursday, April 5

Molduras que ocultam

O conceito corrente de que se tem neurose, de que a mesma é uma parte, um aspecto da pessoa engendra regras, normas e pseudo soluções.

Sentindo-se com uma mancha - a problemática - que gera não aceitação, busca-se limpá-la, escondê-la atrás de uma marca, uma presença notável, afirmativa e de sucesso, poderosa e responsável.

Uma série de ferramentas, de instrumentos se tornam necessários para esta afirmação social. Uns utilizam como senha a beleza, outros a inteligência, outros o dinheiro, outros o poder, e outros a tradição familiar; existem ainda as molduras institucionais, perfeitos salvaguardas do que se quer apresentar ou esconder. A moldura institucional, do emprego ao casamento, passando pelas sociedades beneficentes e recreativas, são fundamentais para a criação de imagens, de marca aceitável, de logotipo vitorioso.

Ter dinheiro, ter poder é a varinha de condão, o instrumento mágico para abrir portas, para conseguir o que se deseja.

É comum usar armaduras, fantasias que confundem; equivale a não acreditar em deus e entrar para um convento, militar contra a alienação e viver alienado, enfim, é o esconder, o fingir; nesses casos, um arsenal de ferramentas e molduras sempre despistam e podem construir imagens favoráveis.

É muito frequente encontrar pessoas preconceituosas em público, que realizarm entre quatro paredes tudo que elas discriminam. Quando percebem que são neuróticas, que sua problemática não é um acessório, começam a mudar; ou, se sentindo desmascaradas, destróem o que está em volta, até mesmo elas próprias, pois, se percebendo divididas, acreditam que um ato final de destruição (suicídio por exemplo) as salvará da vergonha da desmoralização.

Ter poder, ter pessoas, ter sucesso; ter é a ferramenta o instrumento necessário para manutenção da desumanização, da ansiedade e da não aceitação. Quem tem uma mancha quer uma marca, mas, como não se tem neurose, se é a neurose, a busca desta marca apenas camufla, aumentando o problema.





"Mentiras fatais, os casos de Liebermann" - Frank Tallis
"O Leitor" - Bernhard Schlink

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