Thursday, March 29

Dignidade é unidade

Os problemas psicológicos do ser humano resultam da divisão gerada pelos processos de não aceitação.

Obrigado a se dividir, a se parcializar em função de resultados satisfatórios, o homem se desestrutura. Desde cedo, ainda criança, acontecem os processos de divisão diante de antíteses e contradições; elas podem ser enfrentadas, podem ser negociadas ou desconsideradas. Não sendo enfrentadas, surge a divisão, a desintegração - como expressa o ditado "uma vela a deus outra ao diabo". Contemporizações, acertos e pacificações são constantes. No decorrer desses processos, impõe-se a negociação, o despistar, o aparentar. A dignidade não existe. Sem unidade, divididos, somando e calculando negociações, tudo é feito em função de resultado e de conseguir satisfação; a atitude é de aparentar, enganar para controlar, para conseguir.

A unificação da divisão é o objetivo da psicoterapia, é a única maneira de resgatar a humanidade do sobrevivente alienado e coisificado pela meta da realização dos desejos. Na neurose o drama é imenso: cada desejo é realizado às custas da negociação, da "armação" (planejamento estratégico) da esperteza. Para realizar o que não é aceito pelos pais, pela sociedade, o indivíduo traveste-se para aparentar ser o que não é, ter o que não tem etc. Andaimes, armadilhas, pontes que funcionem são construídas. A moldura institucional e a legitimação são buscadas e valorizadas como vitais. É preciso cobrir, esconder o que não é aceito, é preciso despistar. Este processo dicotomiza, com o tempo pulveriza e transforma o indivíduo em arauto de verdades que para ele são mentiras.

A unidade, a unificação das divisões, o questionamento das mesmas, dignifica, faz com que se pise com os próprios pés e que se ande por conta própria - é autonomia.

















"Rimbaud na África" - Charles Nicholl
"Vida sem fim" - Lawrence Ferlinghetti


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Thursday, March 22

Alívio de sintomas

Quando os deslocamentos que criam ansiedade, medo, insegurança etc são neutralizados pela psicoterapia, aparece tranquilidade, determinação e segurança.

Sem mudar a estrutura, esta substituição de vivências, de atitudes acontece na estrutura de não aceitação, de pessoa descontente, cheia de restrições a si, por exemplo. Quando isto ocorre, os sintomas desaparecem, são superados, mas geralmente não há mudança. O que impede o processo de transformação da estrutura problemática é causado pelo posicionamento, pela instrumentalização do bem-estar, da melhora. Esta instrumentalização é feita no sentido de realizar todas as demandas - as metas geradas pela não aceitação.

Sem o pânico paralisante o indivíduo reinsere, retoma sua cega obstinação em ter prazer, por exemplo, não importa como, nem com quem. Obstinadamente busca realizar suas metas, procurando ter o que lhe satisfaz. Reinstala-se o círculo vicioso. Sem saída, cada vez mais marcado pelo que necessita, voltam os deslocamentos. Até globalizar, apreender seu processo, ele tenta por ensaio e erro, somar, aplacar, consumir, canibalizar o que considera vital para seu bem-estar.

Desistindo dos processos transformadores a fim de manter os desejos realizados e metas alcançadas, começa a se formar ansiedade que aplacada ou mantida torna-se responsável por prepotências criadoras de depressão etc.

Transformar o problema em justificativa é o grande álibi que mantém as parcializações. São os vitoriosos, que aos olhos de todos são excelentes pessoas apesar de terem um problema (fobias, depressão, ansiedade etc).

O grande nó, a liberação terapêutica é perceber que o que satisfaz é também o que aumenta, mantém e nutre os problemas. Surge o insight: a questão não é superar limites, é transformá-los.



"Um Método Muito Perigoso" - John Kerr
"Teoria do Drama Burguês: Século XVIII" - Peter Szondi

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Thursday, March 15

Não se tem neurose, se é a neurose

Frequentemente se diz que existem problemas, que existe neurose, mas que isto é apenas um aspecto da personalidade. Pensar assim expressa a visão de que o indivíduo está bem, mas tem um distúrbio, são enfatizados os aspectos saudáveis, não neuróticos. Comprometidos com a ideia de que a totalidade é a soma de seus vários constituintes, acreditam na doença, na neurose, como uma parte, um aspecto da personalidade, que existe mas não compromete o que nela é saudável.

O todo não é a soma de suas partes; qualquer coisa que aconteça, acontece em sua estrutura, em sua totalidade. É sempre assim em qualquer organismo, em qualquer totalidade. Não há como falar em partes boas e partes más e achar que desta maneira se percebe a problemática psicológica do homem.

Na clínica psicoterápica, a visão de que se é a neurose, de que ela não é uma aderência, é uma visão  fundamental para o resgate do humano. Neurose é não aceitação que cria autorreferenciamento, distorção perceptiva e deslocamentos. Estar triste, deprimido, ansioso é resultante de processos de não aceitação do que se vivencia. A dificuldade de se comunicar, por exemplo, de se expressar não é simplesmente um aspecto psicológico que caracteriza a vivência neurótica. A dificuldade de conversar, de se expressar é uma das características do processo de não aceitação que afeta tudo. Não sendo aceito, o desenvolvimento do indivíduo é realizado através de posicionamentos criadores de divisão - eu e o outro, eu e os meus desejos, eu e o mundo. Nesta divisão surgem posicionamentos autorreferenciadores. Começa a separação: "No trabalho e com os amigos está tudo ótimo, não tenho problemas; só tenho problemas em casa com a família e quando fico só comigo mesmo".

Frequentemente ser é substituído por ter; desta operação surgem mais parcializações, mais alienação, e conclusões como esta de que não se é neurótico, se tem neurose. Uma das implicações deste reducionismo elementarista - generalizado pela visão psicanalista que vê o homem como formado por id, ego e superego - é a soma de instintos e desejos; constitui-se em terreno fértil para a medicalização: não se é, se tem problema. A dessubjetivação denunciada pelos psicanalistas foi gerada por eles mesmos. Quando se pensa "tenho neurose" equivale a "tenho dor no peito, tenho dor de cabeça". Para curar isto, toma-se remédio.

Não se tem neurose, se é a neurose. A neurose não é um atributo, ela é a estrutura que caracteriza todo o relacionamento e trajetória do ser-no-mundo quando ele não aceita seus limites, suas necessidades e possibilidades.




















"La Naturaleza Humana a La Luz de La Psicopatologia" - Kurt Goldstein
"Por que a Psicanálise?" - Elisabeth Roudinesco

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Thursday, March 8

Simbólico, Imaginário e Real

Opiniões a respeito das coisas, objetos que representam, relembram situações vivenciadas, imagens de divindades, rituais religiosos ou não, superstições, amuletos, crenças, certezas, duvidas, interpretações, enfim, quem nunca se perguntou sobre o que é real ou simbólico nas suas vivências cotidianas?

Lacan, coroando toda a conceituação psicanalista - freudiana - diz que o homem se realiza ou se frustra, se comporta enfim, dentro de dimensões simbólicas imaginárias ou reais. Ele está assim, através de uma nova linguagem, explicando o Id, o Superego e o Ego. São as necessidades instintivas, inconscientes e biológicas, as responsáveis pelo estabelecimento do simbólico, do imaginário e do real. Projeção, resistência, mecanismos de defesa do Ego, formação reativa, foraclusão, são conceitos decorrentes destas divisões reducionistas.

As certezas ilusórias são frequentes nas explicações do comportamento do homem pelo inconsciente, por entidades possessoras, pela vontade de deus, se constituindo em alicerce para manutenção de preconceitos. Por exemplo, no "Seminário", Lacan diz: "A ordem simbólica ao mesmo tempo não-sendo e insistindo para ser, eis a que visa Freud quando nos fala do instinto de morte como sendo o que há de mais fundamental - uma ordem simbólica em pleno parto, vindo, insistindo para ser realizada." *

Os dados relacionais, os processos perceptivos, nos trazem outra visão, outra explicação, outra conceituação.

Real é o que eu percebo; quando isso se dá enquanto presente é globalização do dado percebido; se a percepção do existente (figura) é realizada com o passado como fundo, essa percepção é representativa do percebido em função do passado e não do presente; isto é a simbolização, repetição do dado ao inserí-lo em outra ordem constitutiva. Ao perceber o que está diante de mim em desdobramentos e ampliações de metas e desejos, medos e apreensões, tendo como fundo a estrutura do futuro, imaginamos.

Tudo que percebemos é real. "Nas relações de figura e fundo, o percebido é a figura, o fundo é o estruturante, nunca é percebido; ilusão é o fundo, o nunca percebido, portanto nunca real. Geralmente os preconceitos, a priori, as crenças e certezas constituem o fundo, o referencial de nossas percepções. Quanto mais crenças, certezas e fé, menos disponibilidade, mais rigidez. Crenças, certezas e fé são estruturadas no sistema categorial, resultando sempre de experiências prévias, de avaliações. A ilusão é o que dá as certezas." **

Basta perceber o ser no mundo como unidade, diferente do ser versus mundo psicanalítico que conseguimos entender e explicar seus processos relacionais, sua estrutura de aceitação e de não aceitação.


- * "O Seminário - Livro 2 - O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise", pag. 407, Jacques Lacan, Jorge Zahar Editor

- ** "A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade", pag. 44, Vera Felicidade de Almeida Campos, Relume Dumará

















"O Seminário  Livro 2  O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise", J. Lacan
"A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade", Vera Felicidade de Almeida Campos

Thursday, March 1

Infinito abrigado pelo finito

O organismo humano enquanto necessidade, limitado pelo seu próprio desgaste é uma contingência biológica que fragiliza o homem e revela sua precariedade. Viver em função dessa necessidade é sobreviver, é fazer convergir todas as suas possibilidades relacionais para este foco: sobrevivência. O organismo humano é também possibilidade relacional. O homem percebe o outro, o mundo e a si mesmo, categoriza, questiona-se, comunica-se, perpetua-se pela escrita, pelo desenho, pelo que cria e produz, expressa vivências. Neste processo o ser humano é imortal, é infinito. Transcendendo suas necessidades biológicas, exercendo suas possibilidades relacionais, rompe com a finitude de seus limites, atingindo assim o ilimitado, o infinito.

O Corpo, o organismo perece, mas as expressões relacionais afetivas eternizam-se. Questionamentos, explicações, dúvidas perpassam séculos ao desequilibrar os limites vigentes.

Esforçando-se por sobreviver da melhor forma ou de qualquer forma, o ser humano esvazia-se enquanto possibilidade relacional. Esse posicionamento na sobrevivência cria os que buscam prazer, bem-estar, notoriedade não importa como. Sobreviventes exercem sua desumanização em várias situações, das mais corriqueiras e cotidianas às consideradas perversões como os pedófilos, torturadores, enganadores, demagogos, gananciosos, deprimidos, todos compõem a galeria dos que estão reduzidos à sobrevivência.

Ultrapassar os padrões limitadores, abrir perspectivas é a maneira de realizar a infinita possibilidade humana de ser no mundo.

Perceber este antagonismo entre necessidade e possibilidade sem globalizar gera inúmeras visões religiosas e espiritualistas, criando assim o além de, o depois da vida, depois da morte como redenção final para o homem, por exemplo. Os paraisos buscados via religião foram também apreciados pelos usuários de diversas químicas: ópio, heroina etc.

Aceitar as necessidades e transformá-las, não se reduzir às mesmas é o que nos permite realizar a infinitude do estar com o outro no mundo sem posicionamentos nem fragmentações alienadoras.






"Alice no País das Maravilhas",
Lewis Carroll
"O Último Teorema de Fermat", Simon Singh
"A Janela de Euclides", Leonard Mlodinow

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