Thursday, January 26

Solidão

Estar só, sem alguém para namorar, para conversar é problemático para muitas pessoas. Imediatamente é desencadeado o processo de procurar alguém ou de manter um relacionamento que se considera desagradável. Poucos se questionam sobre o que aconteceu ou acontece para que se fique só.

Se o outro é percebido e usado como objeto, sobrevive-se, aliena-se, coisifica-se. A não aceitação estrutura deslocamentos, metas criadoras de vazio. Este vazio - carência afetiva como necessidade de relacionamento - gera demandas, faltas, fome que tem de ser saciada.

Algumas avaliações são nítidas neste processo: tudo foi conseguido, a vida está estabilizada, falta apenas um relacionamento que gere prazer ou, falta a realização de desejos e demandas ou, precisa de ajuda, é necessário um relacionamento, alguém participando, ajudando ou ainda, sozinho o despropósito é completo, urge um relacionamento.

Nestes casos o outro é sempre um objeto, é necessário ou é suporte. Esta visão coisificadora do outro é causada pelo despropósito da própria existência. Não se sabe quem  é, não se percebe a si mesmo como um ser no mundo, se percebe com valores, territórios a defender, situações a manter.

O sobrecarregado precisa de ajuda, o esvaziado procura motivação nas companhias, o entediado busca prazer.

Só existe solidão quando o outro é percebido como um instrumento, quando é resultado das próprias demandas e carências. Nestes casos a solidão permanece quando se está acompanhado pelo outro ou entregue a si mesmo. Solidão não é falta de companhia, solidão é o vazio resultante da transformação da carência afetiva - possibilidade de relacionamento - em necessidade de relacionamento.

O outro não pode ser necessário; quando isto ocorre ele é destruido, transformado em objeto de prazer, segurança ou cuidado.

O outro é o possibilitador, mesmo que acidental, despropositado e intangível.




- "Cem Anos de Solidão", Gabriel Garcia Marquez
- "Livro Das Mil e Uma Noites"

Thursday, January 19

Vale o que se tem - Vitória de Pirro

É muito comum ouvir explicações acerca da marginalidade, do uso de drogas, da violência como sendo causadas pela pobreza, pelas condições econômicas e educacionais sub-humanas ou precárias. As implicações desta explicação, desta visão é que "ter" é o estruturante, o constituinte do humano. É verdade sim, se apenas considerarmos o homem como um organismo.

Melhorar condições econômicas virou lema. As pessoas querem ter; as que têm querem mostrar que têm. Tudo gira em torno do que se conseguiu: riqueza amealhada ou melhoria das condições de sobrevivência. As próprias reivindicações são contingentes, problemas geradores de novos problemas.

Valorizar o ter sem questionar a coisificação, a alienação que isto implica, leva ao hiperconsumo, à sociedade do descartável. Somos escravos do que consumimos e produzimos, não faz diferença vender ou comprar, o horizonte temático é o mesmo: ter, mostrar, aparentar. A educação também foi transformada em bem de consumo: os certificados de doutorado e as certificações técnicas são fundamentais para construir carreiras bem sucedidas financeiramente; apresentação de currículo ficou mais importante que avaliação direta de qualidade profissional.

Vale-se pelo que se tem e exibe: moradia, carro, roupas, cultura e até o próprio corpo. O corpo escondido existe pelas grifes usadas e tatuagens exibidas.

Empenho, esforço e expectativa. Querendo e tendo se é feliz; não tendo se é invisível, nulidade, infeliz. Nesta visão são vitoriosos os que conseguem ter. Triste vitória. Vitória de Pirro.





"Vida a Crédito", Zygmunt Bauman
"A Felicidade Paradoxal - Ensaio Sobre a Sociedade de Hiperconsumo", Gilles Lipovetsky

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Thursday, January 12

Ideologia

É um sistema de crenças e explicações que orientam o viver cotidiano.

O século XX foi o século da "guerra fria"; ser de "direita" ou ser de "esquerda" era o polarizante principal dos movimentos políticos, sociais e até mesmo artísticos, culturais.

Em 1917, com o triunfo da revolução soviética, uma nova ordem é inaugurada. A visão religiosa, os conceitos de divino, deixam de ser a explicação dominante dos processos sociais e econômicos. Não é a vontade de deus que estabelece as diferenças socio-econômicas, não é por pecado que se é pobre, mas sim por ser explorado. Esta nova percepção liberta: de vítima ou castigado, o homem  passa a se perceber oprimido. Luta ou se acomoda, se organiza ou é organizado. Manter o sistema, explorar ou mudar é a nova ordem inscrita diante dele.

Guerra civil espanhola, libertação das colônias ainda existentes, declaração dos direitos humanos, divisões arbitrárias do mundo pós-guerra, tudo isto vai constituir um novo palco para o desenrolar das opressões e aspirações humanas. Quanto mais o homem se adapta e mantém, mais de direita; quanto mais se revolta e transgride, mais de esquerda. Estas divisões são acentuadas, fanatizadas e assim reduzidas a direções que não definem o processo. Atrás e controlando a direita está o grupo dominante com a retrógrada manutenção da palavra divina (escrituras sagradas) conservadora nos costumes e geradora de preconceitos que atingem até a anatomia humana, de diretrizes sobre opções sexuais à "boa" pigmentação da pele. As fileiras da esquerda também escondem seus ditadores interessados em realizar o que eles acreditam ser o poder total; são deuses: Mao Tsé-Tung, Stalin e outros tantos.

Hoje, no século XXI, já percebemos que falar de social, de governo, de economia é falar de poder. O discurso democrático contemporâneo talvez seja um dos maiores geradores de distorções, de feudos, guetos e mini ditaduras. É a pulverização, é o dividir para governar, o impressionar para cooptar. Luta e discussão em torno do que é certo e errado, para si ou para os outros, é sempre espoliadora. É a pedra fundamental colocada para o estabelecimento de mercados, para as diretrizes educacionais responsáveis pela ordenação e manutenção das ideias que sustentam os donos do poder.

Por que ser poderoso? Para que estar ao lado do que representa o poder? Este é o questionamento necessário para evitar a desumanização, a alienação e o posicionamento.

















- "Era dos Extremos - O Breve Século XX: 1914 - 1991", Eric Hobsbawm
- "No Mesmo Barco, Ensaio Sobre a Hiperpolítica", Peter Sloterdijk


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Thursday, January 5

Simples e complexo

Perceber o simples decorre da neutralização de acréscimos e atalhos geradores de distorções, de dificuldades. Perceber a simplicidade é quase impossível; é muito difícil pois o contexto, as diversas variáveis, as inúmeras circunstâncias camuflam e obscurecem. Não é uma questão de significado, é uma questão de aposições e justaposições.

O Princípio de Ockham* diz que tudo sempre tende para o mais simples, cientistas afirmam que a natureza é parcimoniosa; essas são diretrizes apropriadas quando constatamos processos contínuos. Tudo que é aderente é agregado. Estes agregados são também suportes, as vezes ocultadores, do que está acontecendo. Ao se deter no que ocorre, sem objetivos nem explicações, consegue-se perceber o que está acontecendo. Ao querer incluir o que está acontecendo em alguma função ou propósito, atribui-se valores, novos agregados, situações extras. Tudo fica muito complexo. Precisa-se de mais informação, verificação e garantias para saber se o que se percebe é o que se percebe. Complexidades passam a existir e fica difícil desenrolar o fio da meada; assim nada é simples e os efeitos têm que ser explicados pelas suas causas. Cortes abruptos, separações, arrebentam e reduzem as situações a sua simplicidade. É a Navalha de Ockham, mal usada. Mutilações, fragmentações, chega-se ao simples decepando.

O simples é o inteiro que só é percebido quando se trilha suas decorrências, quando se percebe que o complexo não é o diferente dele: é outro simples a ele agregado.

No dia a dia da clínica psicológica vemos que tudo é re-estruturado quando se percebe o que é problema, o que é desejo, o que é solução, quais os valores que estão atrapalhando a percepção da boa forma (Gute Gestalt).

Infelizmente a complexidade ainda é percebida como antagônica à simplicidade. Conseguimos utilizar a Navalha de Ockham quando nos detemos no presente, quando vivenciamos os problemas enquanto problemas, sem os desvios criados pela busca da solução dos mesmos.


* "A Navalha de Ockham" ou "O Princípio de Ockham" são expressões que resumem a idéia básica do filósofo medieval e frade inglês William of Ockham, século XIV  (Guilherme de Occam) que criticava a metafísica medieval; ele pretendia uma separação entre filosofia e metafísica onde ficava clara a abordagem "direta e econômica" da filosofia e a abordagem "dos excessos" da metafísica, sobretudo no campo do conhecimento. "Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" - "não se multiplica os entes se não for necessário", essa é a máxima que fundamenta sua separação entre filosofia (e ciência) X metafísica (e teologia). Esse princípio lógico é também associado a Lei da Parcimônia (Lex Parsimoniae) que recomenda a explicação mais simples ou a teoria que implique em menor número de premissas. Obviamente essa não é uma regra a ser seguida cegamente, mas sim um alerta aos excessos, à dispersão no supérfluo.


 "A Filosofia na Idade Média", Etienne Gilson

Cubo mágico ou Rubik's Cube



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