Thursday, December 27

Embaraço


Alguns reencontros parecem revelar vivências tanto de estranheza, quanto de familiaridade. 

Reencontrar o íntimo e familiar em novos contextos, causa embaraço. Existe reconhecimento, encontro, porém isto se dá em situações outras que não as do estruturante relacional anteriormente vivenciado. Equivale a um pentimento. Debaixo daquela pintura existe outra; na realidade, a anterior se insinua tão forte que embaralha, embaraça. O grande limite, o insinuado é um novo que só existe enquanto marcação anterior. Esta confusão requer renúncia, seja do que ocorre, seja do que ocorreu. O passado está problematizado, está encoberto e assim o presente é esvaído nas tessituras relacionais. Equivale ao choc au vide agora traduzido pelo choque ao ocupado.

Estas vivências são frequentes no reencontro após descobertas: filhos que encontram seus pais depois de muitos anos, novas famílias; ocorre também nos reencontros de laços afetivos, tanto quanto nos reconhecimentos em situações limites.

É a perda-encontro ou o encontro-perda variando a pregnância da reversibilidade em função das individualidades em processo.






- "A Paixão Segundo G. H." de Clarice Lispector
- "Utopia" de Thomas Morus

Thursday, December 20

Despropósito


Muitas vezes o despropósito é confundido com falta de motivação, virando quase sinônimo de depressão.

Não estar contextualizado, sentir-se desintegrado e sem referencial específico, provoca a vivência de despropósito. 

Sentir-se gauche na vida, fora de foco, à margem, só acontece quando se está autorreferenciado. Por sua vez, o autorreferenciamento cria outras variáveis: de diferente e excêntrico passa a ser destoante, inapropriado, substituindo a vivência de despropósito por vivência de inadequação, desajuste, rejeição.

Despropósito, em alguns casos, origina-se de uma vivência de tédio, de distanciamento, pressupõe sempre uma crítica, um questionamento ao dado, ao posto, ao existente, mas também configura deslocamento de conflitos e não aceitações, anseios frustrados e problemas adiados.

Participações políticas, celebrações familiares, por exemplo, suportadas, negociadas, mantidas, precisam atingir a dimensão de despropósito para que se realize a crítica e questionamento das posturas e posicionamentos cobrados e estabelecidos ao longo dos anos. Muitos conflitos entendidos como choque de geração nada mais são que vivências de despropósito não assumidas nem percebidas enquanto novas configurações relacionais.














"Os Tarahumaras" de Antonin Artaud
"Parmênides" de Martin Heidegger

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Thursday, December 13

"Cara eu ganho, coroa você perde"

Matthew Hopkins, era na Inglaterra do século XVII um caçador de bruxas. Dedicado a seu trabalho, desenvolveu um teste para detectar bruxas. Colocava um peso à mulher acusada - com pedras amarradas nela ou à cadeira na qual estava sentada - e jogava-a dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e merecia a fogueira; se afundasse e morresse afogada era por ser inocente.

A necessidade de provas, os testes, por definição improváveis, impossíveis, povoam nossa sociedade, nossa vida, transformam nossos relacionamentos.

Thomas Szasz, recentemente falecido, era um grande psiquiatra que lutava pela humanização do tratamento psiquiátrico, ele dizia: se der cara os rotuladores ganham, se der coroa os rotulados perdem. Em seu livro "Esquizofrenia, o símbolo sagrado da psiquiatria", lemos: "O sujeito, o chamado 'paciente esquizofrênico', não tem o direito de rejeitar o diagnóstico, o processo de ser diagnosticado ou o tratamento ostensivamente justificado pelo diagnóstico. A própria ideia, neste esquema psiquiátrico, de 'direitos' do paciente psicótico, é tão absurda quanto a ideia do esquema escravocrata dos 'direitos do escravo'. O paciente esquizofrênico é usualmente considerado 'perigoso para si mesmo e para os outros', de um modo indefinido e indefinível, mas que é diferente do modo como outras pessoas - ou todas as pessoas - são 'perigosas para si mesmas e para os outros'".

Estar à mercê de qualquer sistema, comunidade, família ou outra pessoa, estabelece o caos, cria a desrazão, a perda de autonomia, deixa os seres aprisionados, dilacerados, estigmatizados, transformados em massa de manobra, peças de sistemas e de pessoas manipuladoras.

Os oprimidos, tanto quanto cidadãos de bom senso - a grande maioria cooptada - são atormentados, vitimizados e crucificados pelos dilemas contemporâneos do lucro, da vantagem e da conveniência, representados pela indústria de armas, de medicamentos e de alimentos. As guerras provocadas, as velhas-novas doenças tratadas, os animais (galinhas, porcos, bois etc) confinados para o abate, os alimentos processados, são os pilares que mantém a caçada dos inimigos, tanto quanto a doença e a fome.

Enquanto dependermos dos sistemas, seremos por eles utilizados.




"Esquizofrenia - o símbolo sagrado da psiquiatria" de Thomas S. Szasz
"Comer animais"
de Jonathan Safran Foer


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Thursday, December 6

Aparência

Aparentar gera sempre impossibilidades mesmo quando cria facilidades.

Posições conquistadas, portas abertas, tarefas realizadas graças ao que se aparentou ser, saber ou ter, inicia um acúmulo de disfarces que também é simultaneamente o acúmulo de impossibilidades. Nas situações de ações decisivas, falta coragem e solidariedade, sobra engano e concessão. Na época em que passou a viver escondido devido a uma sentença de morte dada pelo Aiatolá Khomeini - governante iraniano - Salman Rushdie escreveu que muitas pessoas que o conheciam cediam ao medo e diziam que era respeito à autoridade, embora discordassem do absurdo de condenar à morte um autor pelo que escreveu.

Existem pais e mães, aparentemente extremados cuidadores de seus filhos, que escondem suas impossibilidades de doação, entrega e amor, neste cuidado que vitimiza e aliena. Aparentar amor é um engano geralmente mais tarde substituído por enganosos prazeres: droga, caridade alienante, militâncias sacrificadas, abnegações despropositadas. Como disse ainda, Salman Rushdie: "ninguém se tornava um pássaro preto pintando as asas de preto, mas, como a gaivota coberta de petróleo, perdia-se a capacidade de voar".

Aparentar é esconder, é a camuflagem para preservar a sobrevivência e conseguir ultrapassar o que se julga limitador.

Quando a vítima é alvo do outro, da sociedade ou das comunidades ela é um aviso antecipatório de estratégias dominadoras. Por exemplo, a criança sexualmente abusada é transformada em foco de interesse, de atenção e afeto, para que esqueça, para que se confunda, não aparente nada revelador do que sofre e do que é submetida. Cada vez mais impossibilitada de ser criança, de confiar no outro, ela se torna mais capaz de suportar ameaças e submissão; isso a faz perder suas possibilidades relacionais e coberta de sujeiras e escombros, mergulha nesta lama, aparentando viver com muito pouco.


 

- "Joseph Anton Memórias" de Salman Rushdie


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Thursday, November 29

Corda bamba

Toda avaliação do que se tem ou do que se pode conseguir gera insegurança, ansiedade, pessimismo ou otimismo a depender das estruturas relacionais.

Esperança e expectativa se referem a um tempo futuro, um tempo não existente. Voltar-se para  além do presente dilui os referenciais das vivências cotidianas, das vivências presentificadas. Esta diluição de vivências torna difícil sustentar anseios e desejos. Sem a vivência presentificada não existe base para sustentar o desejado.

Como transformar o sutil em denso? A fome de sucesso em fotos publicadas, por exemplo? A ambição em expressiva conta bancária? Através de agrupamento, que aumenta, adensa o tenuamente delineado, a meta. Munir-se de credenciais institucionais, adquirir respaldo familiar, empoderar-se para ter sucesso e vitória, permite resultados satisfatórios tanto quanto diluição e circunstancialização da individualidade.

Passar no concurso depois de 10 anos de luta, ter a melhor posição dentro da empresa ao destruir todos os obstáculos - colegas que atrapalhavam, por exemplo - significa realização desesperada, desumanizadora.

Viver sempre em função de objetivos, sempre se preparando para vencer o dia-a-dia é a corda bamba, a ansiedade constante, o medo de cair, o esforço continuado para tecer suas redes de proteção. É viver em função da queda, transformando-se em caixa de ressonância de vitória e fracasso.



- "Um delicado equilíbrio" de Rohinton Mistry

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Thursday, November 22

Firmeza

Atitudes estáveis implicam na realização de vontades. As motivações, as vontades são sempre resultantes do que se vivencia, do que se faz. Não têm ligação com faltas, necessidades ou desejos. Esta base, que é o presente vivenciado continuamente, gera firmeza, força e capacidade de realizar todas as vontades, tudo que é proposto pelo cotidiano; assim, firmeza é tão natural quanto querer andar e andar, querer dormir e dormir.

"Desejo é o que nos falta, vontade não é o que nos sobra, mas é o que nos liberta se enfrentarmos, se vivenciarmos o dia-a-dia das contradições. Pela vontade, pela superação de contradições, pela transcendência, os limites da existência são superados, transformados ou integrados. Em psicoterapia procuramos recontextualizar os neutralizadores, os amortecedores das contradições, por meio de questionamentos, para que surja a vontade, a liberdade de mudar, a aceitação de si e dos outros." *

Angustia, depressão, ansiedade não existem quando se vivencia o presente, embora elas acompanhem sempre as estruturas minadas pelas transversais dos apegos mantidos, dos apoios negados, das crenças desmanteladas.

Sem esta base, sem vivenciar o presente, tudo é instável, volátil, circunstancializado, tudo é dependente de "Deus ou do Diabo", de forças imponderáveis. Torcer para que se consiga respirar, para que se consiga dormir, pode passar a ser constante.

Sentir-se firme é possível quando se enfrenta os próprios problemas, sem correr atrás de soluções funcionais. Vivenciar o presente é fortalecedor.

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* Em "Vontade, Desejo e Psicoterapia Gestaltista", Boletim da SBEM - pags. 42-44, Vera Felicidade A. Campos


- "A cabala da inveja" de Nilton Bonder

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Thursday, November 15

Compatibilidade

Pensar em compatibilidade como acordo, acerto, leva a relacioná-la com encaixe. Negociações e acordos sempre possibilitam discórdias, consequência natural de seus mosaicos organizados, suas arestas polidas. Confundir estas combinações com compatibilidade, gera muitos enganos.

Nos relacionamentos, ao buscar o objetivo comum, satisfações e vantagens recíprocas, a primeira exigência a ser satisfeita é a neutralização dos sujeitos desejantes. Isto não é facilmente percebido tampouco de fácil entendimento, é uma situação complexa que se torna evidente depois do processo satisfatório dos desejos atendidos. O que unia as pessoas passa a ser o que as despersonaliza.

Ficar com o outro pelo que ele é e não pelo que ele possibilita, exila do cotidiano a coisificação do outro usado para realização de necessidades.

Uniões e motivações em função de conveniências, são sempre desastrosas e sem estruturas que suportem as vivências pois que são construidas para um futuro, sem alicerce no presente.

Compatibilidade requer presença, é um processo participativo, implica em confiança e entrega, existentes apenas na própria compatibilidade, sem preexistências (acordos, acertos, necessidades) e sem propósitos de ser feliz, de ficar satisfeito, de vencer obstáculos, por exemplo.

















"Seis suspeitos" de Vikas Swarup
"Crítica da Faculdade do Juizo" de Immanuel Kant


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Thursday, November 8

Usura - desejo inesgotável

"A carência afetiva, dentro da conceituação gestaltista, é intrínseca ao ser humano, ao contrário do que ocorre em outras conceituações psicológicas, psicanálise por exemplo, onde a carência é entendida como resultante de um processo deficitário de relacionamento afetivo, principalmente fundamentado no que se refere às figuras paterna e/ou materna. Quando dizemos que a carência afetiva é intrínseca ao ser humano, estamos dizendo que ela é tão configurativa do humano, como o são os olhos, braços, pernas, etc. Localizado o tema, focalizemos seu significado. Por carência afetiva entendemos a necessidade ou possibilidade de relacionamento com o outro; dentro desta nova compreensão (abordagem da carência afetiva), torna-se claro o porquê de sua colocação extrínseca, sinônima de problemática emocional, dada pelas outras teorias psicológicas, isto porque devido à falta de visão global unitária, ou seja, à esquematização elementarista do fenômeno comportamental e existencial humano, apreenderam apenas a carência afetiva resultante de uma necessidade de relacionamento com o outro, configurativa de estruturas inautênticas, portanto, advindo daí todo um tratamento distorcido do tema, pois que unilateralizado.

A carência afetiva configura o outro no sentido de possibilidade ou de necessidade de relacionamento. Sendo intrínseca, assumida, a carência possibilita o outro; caso contrário é uma barreira, começando o outro a ser uma meta, um obstáculo.
" *

A carência como necessidade de relacionamento equivale a buscar aquilo que nos falta, aquilo que nos completa, enfim o que desejamos, conseguindo assim, transformar o semelhante, o outro, em um objeto. Conviver com o outro, inicialmente pai e mãe, portador de regras e limites, filtra as possibilidades de relacionamento, estabelece referenciais que limitam. Estas estruturas limitadas transformam as possibilidades relacionais em caminhos satisfatórios ou insatisfatórios, gerando as não aceitações; deste modo a carência afetiva deixa de ser uma possibilidades de relacionamento e passa a ser uma urgência, desejo, necessidade do outro. Esta distorção perceptiva, resultante da não aceitação das próprias impossibilidades e limites, gera a neurose. Para alcançar o desejado, para tornar próximo o distante, muitos recursos padronizados são usados: dinheiro, sexo, beleza, por exemplo. Estes recursos geralmente são amealhados e parcimoniosamente gastos. A usura aparece. O indivíduo ao administrar seus recursos, sabendo-os responsáveis pela realização do que ele necessita e deseja, começa a estabelecer regras e parâmetros, dosagens.

Usura é sinônimo de carência enquanto desejo do que nos falta. Esta complementação, este preenchimento do que falta nunca se realiza, não se preenche o oco. Preenche e desaparece, nada fica; é preciso deter, sentir que algo foi estabelecido e mais, que quando ocorra não possa ser destruído. É um processo que gera ansiedade, medo, já não significa ter ou conseguir, o importante é não parar de tentar ter, de tentar conseguir. Extenuante e inesgotável. Nada aplaca e tudo significa. A usura, este vício é uma parada no processo. Ao repetir e seguir prévias repetições, vem a satisfação pela neutralização da satisfação. Apenas em um átimo, em um segundo, se consegue a felicidade, a pausa, o instante vivenciado como prazer, desejo realizado.

Amealhar resultados, juntar as próprias histórias de sucesso, saber-se aceito e querido, tanto quanto economizar seus tostões, são típicos da atitude de usura, da carência afetiva como necessidade de relacionamento, necessidade de resultados e aplacamento de desejos e ansiedades; é também a pavimentação do caminho de realização de sonhos e da busca desesperada, frenética de um lugar ao sol.

Usura é apego, "sentimento de posse", zelo com o conseguido; usura é o que exila de nosso cotidiano toda e qualquer disponibilidade, consequentemente, solidariedade, compaixão, enfim, percepção do outro.

* "Carência Afetiva" em "Psicoterapia Gestaltista Conceituações", de Vera Felicidade de Almeida Campos
















"Visão do paraiso", Sérgio Buarque de Holanda
"O Mercador de Veneza", W. Shakespeare



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Thursday, November 1

Pressentimentos e interpretações


O insinuado é percebido enquanto prolongamento do que ocorre. Esta é uma das leis perceptivas postuladas pelos gestaltistas clássicos - é a Lei da Closura ou do Fechamento.

O percebido é estruturado relacionalmente (é resultante da relação sujeito-objeto). Havendo preexistências que invadem o dado, o presente, o que ocorre fica nublado, fragmentado por desejos, medos e lembranças. Estes posicionamentos determinam as interpretações, as constatações e catalogam as vivências.

No dia a dia da clínica psicológica, trabalhar com referenciais, com conceitos posicionantes - inconsciente por exemplo - gera interpretações, reflexões e conclusões redutoras das vivências, explicações estas baseadas principalmente na visualização dos desejos e dos medos.

Frequentemente, o cotidiano das pessoas é invadido e estabelecido à partir de clichês  (que são closuras estabelecidas em outro contexto e reutilizadas) e à partir dos pressentimentos gerados pela transformação de índices em totalidades indicativas. Por exemplo, os próprios desejos ou medos são indicativos do que se deseja ou teme acontecer. Ao privilegiar as partes, se perde a globalidade, repete-se pensando estar descobrindo, antecipando.

Esta incapacidade de constatar o que ocorre, esta substituição do que se dá (do presente) pelo que se deu ou pelo que se antecipou por desejo e temor, instala ansiedade, intranquilidade, tanto quanto certeza, resultante de dogmas. A certeza é o alicerce das interpretações, das "descobertas"; verdadeiros achados redutores das dinâmicas conflitivas e paradoxais. Isto gera muito preconceito e distorção. E assim, a certeza do que ocorreu confirma os pressentimentos. Considerar-se privilegiado, capaz de intervir e pressentir, cria os que estão descobrindo, antecipando e determinando as ordens reguladoras e aniquiladoras dos relacionamentos.

A invasão do presente, pelas superposições geradoras de esfacelamentos, de fragmentações é sempre alienante, gera profetas, sensitivos e experts, assim como cientistas comprometidos com regras e ordens a manter ou destruir.









 








"A Guerra dos Sonhos", Marc Augé
"A fala Sagrada - Mitos e Cantos Sagrados dos Índios Guaranis", Pierre Clastres


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Thursday, October 25

Decisão libertadora

Aniquilado como ser humano, entregue à sobrevivência, o indivíduo é transformado em uma estrutura que funciona para satisfazer suas necessidades. Sente-se sozinho, os outros são sempre ameaçadores; a falta de confiança, a vivência de ter sido aniquilado é pregnante. Todas as suas relações são estruturadas nesses referenciais. Não há amor, compaixão, bondade. O outro é usado, enganado para satisfazer os próprios objetivos. O outro é apenas um objeto útil, inútil, que ajuda ou que atrapalha. Esta sobrevivência, engano, utilização e traição, estrutura revoltas e medos além de aniquilar outros seres humanos.

De queda em queda, de engano a engano chega-se a limites intransponíveis. É o marginal que cai na malha da lei, é o impoluto finalmente desmascarado ou são também os que colocados em impasses, têm todas as coordenadas e percepções para realizar-se como objeto, como coisa desumanizada ou para pegar a réstia de luz que leva ao nó, à virada humanizante. É o momento onde não mais importa o que se consegue, apenas importa o que se é, sacramenta-se a monstruosidade gerada pela consciência de sobreviver. Este momento gera o turning point, momento da virada que humaniza, faz aceitar limites, perceber mediocridade e maldade, ver que não há o que salvar, nem o que vencer. Esta entrega é aceitação da não aceitação, é libertadora ao significar abandono das aderências e aceitação dos limites e realidades imanentes; aceitação de seu vazio e despropósito até então preenchido pelo 'tenho que esquecer', 'preciso vencer', 'preciso ser mais forte e capaz do que quem me aniquilou'.




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Thursday, October 18

Fábrica de sonhos

Quando não se vive o presente, tudo é vivenciado como expectativa.

Viver dedicando-se à realização de objetivos, sonhos e propósitos é esvaziador, transforma o ser humano em um robô (objeto) programado para a realização de desejos e necessidades.

Inicialmente o processo de mecanização é vivenciado como bem-estar, tranquilidade, sorte, sucesso, acerto. Tudo que é necessário é programado e a eficiência dá bons resultados. Ganhar dinheiro, ser respeitado, ser considerado bom, estas aderências suprem a deficiência e a falta desencadeadoras dos sonhos e propósitos.

Sucesso e realização, nestas estruturas mecanizadas, resultam em vazio; realizar objetivos, sonhos é também estabelecer despropósito: não há mais por que lutar, não há o que empreender, não há o que fazer, só existe tédio, vazio.

Ao vivenciar este vazio, inicia-se um novo processo, frequentemente percebido como impasse: é preciso abrir mão do conquistado para conseguir bem-estar, sentir-se vivo. Viver é percebido como doloroso e esta vulnerabilidade requer proteção; reinicia-se o processo de realizar necessidades, criando novas mecanizações. Adaptação, adequação são conseguidas, eternizando o bem-estar sob condições padronizadas e estagnadas.

Sonhos são fabricados, procurados para suprir incapacidades, não aceitações e vazios, consequentemente são as bolhas de sabão que quando tocadas desaparecem. Ter um sonho, é ter uma meta, um propósito, é não viver o presente. Viver bem é vivenciar o que se vive, é viver o presente; negá-lo, jogando-o para depois, é um adiamento lesivo, esvazia e mecaniza, deixando o ser sem flexibilidade, endurecido na realização de seus propósitos e objetivos futuros.
 















"Ilusões Perdidas", Honoré de Balzac
"Horizonte Perdido", James Hilton


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Thursday, October 11

Zeitgeist ou espírito da época

A ideia de Zeitgeist perpassa a obra de Hegel, pensado como processo histórico. Zeitgeist é um conceito básico e intrigante para compreensão da trajetória, do comportamento humano.

A atmosfera da época, o contexto dos anos, existe independente das culturas de cada nação ou é típico das nações mais adiantadas economicamente e passados para as outras. Admitir isto, implica em admitir transformações superestruturais independente de suas infraestruturas. Ocorre que os sistemas, sociedades ou culturas, comunicam-se de diversas maneiras, têm camadas, aspectos relacionados a outros sistemas, sociedades ou culturas diferentes de seus estruturantes. Esta flexibilidade, dinâmica reversível, permite criar denominadores comuns - é a atmosfera, espírito, feições, modas, configurações fundantes à partir das quais frequências são estruturadas e sintonizadas.

Processo incrível, permite semelhanças: todas as fotos do século XIX são parecidas; desde a sépia, o resultado daguerreótipo, até as feições, chapéus, casacos etc. Suecos, portugueses,  javaneses e nigerianos, por exemplo, participam do mesmo Zeitgeist. O que se lê, o que se pensa, o que se discute, como se ama, o que é crime, o que é pecado, honra, são decididos neste contexto, nesta atmosfera.

Nosso passado é comum, nosso futuro também o será independente de quaisquer características individuais. Antes do avião, antes do computador, antes das câmaras de gás, assim como depois de tudo isto, são passagens, manifestações do Zeitgeist.

Este contexto comum é também responsável pela massificação e cópias, devido a superposição que cria. Cartola e fraque nos trópicos é um exemplo de transposições absolutizadas pelo espírito da época.

Atualmente este espírito, o Zeitgeist, está sendo substituído, manipulado, quase que criado pelo mercado, perdendo assim sua característica de atmosfera, virando subproduto, resíduo reciclado sem raízes fincadas em processos, fincadas na história, por exemplo. Arbitrário, o espírito da época se transforma em políticas defasadas, em modas massificadas e nichos nostálgicos para a impotência, o medo e a depressão.

















"Viaje a Oriente", de Gustave Flaubert
"Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister", de Johann Wolfgang von Goethe

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Thursday, October 4

Trapaças e fetiches

Tudo que é usado como aderência se transforma em um extra ao processo. A própria aderência já é alheia ao que ocorre.

Utilizar-se do extra é um recurso que sempre amplia. Ampliar é justapor. Esta justaposição é um momento de trapaça em relação às ordens intrínsecas constituintes - perverte funções. A popular idéia de que "quem não tem cão caça com gato", a improvisação em função dos fins a realizar é maquiavélica, engana e transforma o outro em receptáculo de desejos, em objeto. Transformar o outro em fetiche é perversão; além de desumanizá-lo utiliza-se este objeto para propósitos solitários (autorreferenciados). Nas perversões é frequente encontrar o indivíduo rodeado de outros indivíduos submetidos a seus propósitos: sexo, dinheiro, poder etc.

Ideologias, religiões, certezas e medos podem perverter à medida que passam a ser aderências determinantes dos relacionamentos. Acreditar, por exemplo, que o filho é uma encarnação demoníaca e começar a enxergá-lo assim é uma perversão constante no quadro da não aceitação ("encarnação demoníaca" é denominação para várias situações: o filho com defeito físico, com dificuldade de adaptação, o filho que não aprende, o filho rebelde, o filho que tira péssimas notas etc).

Querer esculpir o próprio corpo (silicones, bisturis e próteses) em função do gosto do momento, da moda, é um fetiche, trapaça desesperada de tentar aceitar o que não se aceita. Em muitos casos, mudar o nariz, aumentar os seios, apenas adiam, escondem o desespero de não se aceitar, criando um álibi, um pretexto para justificar a não aceitação.

O "corpo sarado", como fetiche, é visto como uma garantia de relacionamentos amorosos, o poder e a riqueza como fetiches são considerados garantia de aceitação social etc; estas são formas evidentes do deslocamento das problemáticas.

















"A casa do incesto", de Anaïs Nin
"O livro dos seres imaginários", de Jorge Luis Borges

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Thursday, September 27

Novo

O novo não é o recente, contemporâneo, tampouco o inédito. Novo é o antagônico entre o que se vê e o que se espera ver. Neste sentido, novo é apenas o que pode surpreender. Arquitetos, estilistas, decoradores, publicitários, enfim, os que lidam com arte estão sempre trabalhando com o novo, mostrando como o démodé, o vintage é novidade total. Manter o novo é uma maneira de exilar o tédio, o previsível, o padronizado.

Seguir regras, etiquetas, sempre foi um fator de monotonia. Poetas rebeldes, a geração beat criaram o "épatér les bourgeois" como maneira de dinamizar, diversificar o dia-a-dia. Superar, quebrar o tédio também não significa bem-estar, tranquilidade. Um terremoto em uma zona não sísmica é uma tremenda novidade, desagregadora e destruidora. Organizar não é repetir, criar não é administrar situações para finalidades úteis, aceitáveis.

Este conceito de novo como surpreendente permite entender o clássico,  o estabelecido independente de circunstâncias (contingências), permitindo também contextuá-lo como novidade. Nossas vivências cotidianas sempre são tecidas como diálogos entre novo, clássico e démodé. É a nossa memória, sua atualização e transposição que realiza isto.

O familiar é um refúgio, existente pela estabilidade e constância que oferece. O estranho é um motivante, ativador pela novidade que oferece, pela não categorização apresentada.


- "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust

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Thursday, September 20

Igualdade e diferença

O igual é o diferente. Falar de igualdade ou de diferença pressupõe um terceiro ponto de comparação. Ser igual a A é ser diferente de não-A. Cachorros semelhantes entre si, por exemplo (são todos cachorros), são diferentes enquanto eles próprios (indivíduos).

Da mesma forma, a continuidade mantém igualdade ao estruturar as diferenças. Heráclito dizia que as águas do rio onde o homem se banha nunca são as mesmas, "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". O rio é contínuo, passa, o imerso  não continua ou ainda a água que passa pelo calcanhar é outra diferente da que passa pelos dedos dos pés.

Continuar e permanecer são também paradoxos contidos nestas afirmações resultantes de contextos estruturantes não explicitados.

Só pode continuar o que permanece, tanto quanto a divisão traz em si sua unificação. O que divide é o mesmo que unifica. Polaridades sempre traduzem unidades se globalizados seus contextos estruturantes. Perceber o diferente como o igual é um dos grandes momentos geradores de tranquilidade, de abolição de antagonismos e divergências. Ver isto é integrar o excluido - o diferente - ao perceber que todos somos seres, por exemplo.

A criação de parâmetros, de regras, estabelece diferenças ou semelhanças hauridas de situações alheias ao que existe. A comparação é sempre resultante de outros contextos. Por utilidade, por vantagem, são criadas categorias, tipificações. Igualdade e diferença podem originar idéias de superior e inferior, melhor e pior e assim são extintos animais, destruidas culturas e nações são subjugadas.

Somos todos seres vivos iguais como tais e diferentes enquanto estruturas individualizadas.


"Quando fui outro", de Fernando Pessoa

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Thursday, September 13

Responsabilidade

Responsabilidade só é possível quando existe autonomia. Ser responsável não é simplesmente cumprir tarefas, não se caracteriza por obediência. Responder pelos próprios atos ou pelos praticados por aqueles pelos quais somos responsáveis é a definição socio-jurídica de responsabilidade.

Ser responsável é não usar os outros e não se deixar usar. Obedecer ordens, cumprir o dever sem questionamento é apenas servir de base de sustentação para sistemas alienantes e até crueis.

Perceber as implicações do que se faz é ir além do que é feito. Este ir além, só significa responsabilidade se for tomado como contexto estruturante. Desincumbir-se de tarefas e ações sugeridas pelo mestre, mentor, pais ou qualquer autoridade, pode significar grande irresponsabilidade se não houver autonomia que permita o questionamento das tarefas, missões ou obrigações. Desde seguir a mesma profissão do pai, até votar em seu candidato pode ser apenas obediência, simpatia irresponsável.

Saber que o que se faz é feito com autonomia, tira o peso das coisas. A gravidade, o peso das coisas resulta de relações intrínsecas às mesmas; elas não necessitam de suporte, precisam apenas de contextos adequados para que possam ser configuradas, globalizadas, permitindo deixá-las ou abrigá-las. O mesmo vale para os relacionamentos, não pode haver responsabilidade para com os próprios atos e para com o outro - filhos, pais, amigos, amantes - se não houver autonomia, aceitação.

Responsabilidade como obrigação e regra é uma camisa de força para conter os deslocamentos da sobrevivência, da neurose.



"Bela do senhor", de Albert Cohen

Thursday, September 6

Iniciativa

Iniciativas não são atitudes inesperadas, súbitas.

A iniciativa sempre decorre de decisões, neste sentido, havendo unidade, existe iniciativa. A constatação das implicações, a percepção do que está ocorrendo sem autorreferenciar, não gerando dúvida, não gera vacilação, é a globalização dos dados relacionais, sem divisões, pois que não existem contradições ou complementações. Tudo é contínuo, qualquer momento é iniciador e também finalizante; a decisão está contextualizada no processo e nas suas implicações.

Para o indivíduo que não está posicionado, sem emergências arbitrárias, a iniciativa, a decisão são constantes; aparecem sob forma de participação, de presença. O que está ocorrendo indica sua continuidade, tudo é espontâneo, tudo é contextualizado. Não existe necessidade de esforço, não existe regra. Não há "o tem que" ou o "deve ser".

Decidir é ter iniciativa, é o se propor a, estando presente e dialogando com o que acontece.

Qualquer coisa que ocorre traz seus contextos relacionais estruturantes. Não quebrar esta ordem é ser livre, é estar entregue ao que ocorre sem a priori ou meta. Não havendo compromissos nem submissão, existe iniciativa, existe decisão, não precisa pensar (prolongamento da percepção), basta perceber.


"Os irmãos Karamázov", de Fiódor Dostoiévski

Thursday, August 30

Coragem

Três principais acepções caracterizam o que se pensa ser coragem: heroismo, salto no escuro e destemor. Um denominador comum das mesmas é a rapidez da ação, a não avaliação, a espontaneidade, enfim, o ato presente cuja implicação pode trazer alívio, mudança, liberdade, ato que se caracteriza pelo perigo, pelo risco.

O corajoso é o herói, o destemido, o desapegado até da própria vida. Em contextos massificados, coordenados para vantagens e utilidades, é cada vez mais difícil encontrarmos corajosos.

Para ter coragem basta ser honesto, nada difícil, nem impossível. Mesmo nas estruturas neuróticas, mesmo nos processos de não aceitação, a honestidade, a coragem surgem quando se aceita que não se aceita e se age conforme isto. É honestidade, por exemplo, não continuar nas fileiras de um grupo, uma agremiação, uma sociedade religiosa, quando se percebe motivações e ajustes de conveniência. Romper acertos, quebrar compromissos, mudar paradigmas, renunciar às vantagens do lucro que sustenta, tanto quanto romper relacionamentos que se transformaram em pilares de sustentação, posições estabilizadoras de bem-estar e inércia, pode ser exemplo de atitude honesta, corajosa.

Agir de acordo com o que se percebe e não de acordo com o que se precisa ou deve é honestidade, gera coragem, rompe compromissos asfixiantes, oxigenando e dinamizando. A coragem tira da imobilidade, dinamiza. Neste contexto, as acepções da coragem são honestidade, renúncia e liberdade.

Indivíduos comprometidos com o sistema não podem ser honestos, não podem ser livres e passam a traduzir renúncia como sacrifício; são seres queixosos, seres falhados, como a legião de mães e pais que tudo fizeram pela felicidade dos filhos e se sentem sacrificados, não reconhecidos; são os sustentadores, a base que reclama, sempre amedrontados.

Aceitar os próprios problemas, aceitar que não se aceita é uma atitude de honestidade, de coragem, diferente de medo, de acomodação.



 "Os Dados Estão Lançados", de Jean-Paul Sartre 


Thursday, August 23

Impaciência é indignação

Nem sempre impaciência é indignação, mas no contexto de cooptação, imagem e faz de conta, indignar-se, irritar-se, não concordar e lutar pelo que se discorda é atitude denunciante da acomodação sacramentada pelo politicamente correto.

Faz diferença dizer não, faz diferença dizer sim. Enfrentar combinações, regras e leis pode ser perturbador, mas é também questionador. Tudo que é explicado pode ser uma revelação, tanto quanto a explicação pode ser uma maneira de esconder o que não se quer que seja percebido.

Na intimidade do lar, no seio da família, quebrar o silêncio característico das omissões é visto como sinônimo de violentação à harmonia. Da mesma forma, estar bem com o colega de profissão, os pares corruptos e que abusam dos poderes profissionais é manter posicionamento que evita indignação, que ajuda a sobreviver. Muitas pessoas são prejudicadas para que se mantenham ajustes, mentiras e conveniências. Impotentes para mudar, para denunciar, resta a estes indivíduos aceitar, não criar problemas, não se expor. Esta moral de compromisso é construtora de imoralidade, de impunidade, de neurose - alienação. Impotentes, liquidados como vozes dissonantes, transformados em resíduos descartaveis, ficam sujeitos a processos de reciclagem; ficam sujeitos a adaptar-se, seguir a maioria sem indagações, com esperança de se controlar e medo de resvalar em lutas por causas perdidas. 

Civilizações clássicas, tradicionais, valorizavam a discordância; na China por exemplo, a maioria sempre vencia (50% mais 1, mais 2 etc.), salvo quando havia apenas uma discordância: em 10 pessoas, 9 a 1 por exemplo; sempre que o discordante percebia algo que a maioria não conseguia perceber, ele era considerado certo ou vencedor. Era o novo que se buscava.

Contemporaneamente, o diferente, o discordante, não significa. Oposição é transtorno, é considerado problema. Paciência e negociação para incluir, somar, acrescentar é o que interessa; resultados devem ser acumulados, ajustes devem ser conseguidos. Conviver bem com o já chamado lado B, o lado marginal do colega que vende ilícitos no trabalho é considerado saber viver.






"O Engenhoso Cavaleiro D. Quixote de La Mancha" (2 volumes), de Miguel Cervantes
"Mãe Coragem e seus Filhos", in "Teatro Completo" Vol.6, de Bertolt Brecht

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Thursday, August 16

Fissuras e revelações

Toda descontinuidade, divide, cria separações. Quebras, rachaduras podem ser consertadas gerando o que se constitui em disfarce do que foi dividido. Terceiros fatores, outras variáveis, normalmente revelam estas emendas. Situações reveladas e desmascaradas sempre existiram. Não há como controlar o inevitável: a dinâmica relacional que subverte e questiona posicionamentos.

Os contextos relacionais, as contenções, as irregularidades não revelam as estruturas comprometidas pela divisão mas explicitam os limites possíveis do estar bem. Adaptação, desadaptação ao limite do outro expõem dificuldades, acertos e negociações realizadas para manutenção da boa ordem familiar, do emprego conseguido, do status almejado, por exemplo.

Consertar é reestruturar, mas quando acontece como uma emenda, arrumação e disfarce se constitui em um limite. Disfarces não resistem às transformações; são contextos onde é impossível tirar implicações do que ocorre quando esta ocorrência está mantida dentro de padrões e regras que as definem como um cessar de possibilidades. Pensar, tirar conclusões é visto como perigoso, pode quebrar toda a ordem constituida, a harmonia a ser preservada. Não pode haver questionamentos, pois geram desequilíbrio. O importante é manter o que está arrumado, disfarçado.

Filhos sempre questionam à medida em que se constituem em um novo; por mais que estabelecidos e enquadrados, alguma atualidade - novo contexto - existe. O questionamento realizado pelos filhos é uma fissura, uma quebra, uma divisão, que trará mudança, reconstrução ou novos consertos, disfarces e acúmulo de situações não enfrentadas, consequentemente mais compromissos, mais posicionamentos, imagens e disfarces.

Infinitas situações podem criar rompimentos, responsáveis por questionamentos e reestruturações ou emendas e disfarces.


















"Em busca da unificação", de Abdus Salan, Paul Dirac e W. Heisemberg
"Minha irmã e eu", de F. Nietzsche

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Thursday, August 9

Coação e acertos

Amedrontar, ameaçar são ferramentas muito usadas para conseguir realizar objetivos autorreferenciados. O exercício desta técnica exige criação de artifícios (imagens geralmente vistas como positivas) e armadilhas (manipulação dos desejos e metas do outro). Encontramos coação não só na esfera criminosa, mas também na esfera da legalidade, nas casas, nos escritórios, nas escolas.

Historicamente as mulheres, com a meta do príncipe encantado, do casamento, são presas fáceis: se deixam seduzir e enganar, fazem qualquer negócio, arriscam qualquer coisa para realizar a meta. Realizada, vem o vazio - não têm mais onde se sustentar. Amarradas, penduradas nas vantagens conseguidas, suportam todos os massacres para manter o sonho realizado, agora frustrado. Este paradoxo só pode ser vivenciado na divisão; esta frustração diária, os maltratos sofridos - físicos e psíquicos - são considerados acasos, acidentes, não fazem parte do processo: são vistos como acidentes causados por inveja dos amigos, por espíritos esfaimados por alegria, cheios de despeito ou é a dificuldade, a doença do outro que precisa ser cuidado, ajudado, suportado, enfim, são inúmeras as justificativas para a manutenção do que apoia, do que oprime.

Coagidas e infelizes, buscam derivações. Empenhadas na manutenção do processo, sacrificam-se por seus filhos, abrem mão de suas idéias; aprendem a fazer de conta que não vêem a violência, que não percebem o que acontece. Tudo é sacrificado para manter o que se precisava e conseguiu: aparência e faz de conta. Vítimas e agressores estão imanados.

Pessoas que não se aceitam, que vivem em função de metas, assim como também crianças, idosos, doentes, subalternos, indivíduos que de uma forma ou de outra não têm ou não estruturaram autonomia, estão sujeitos a coação.

Dependentes do que recebem em troca de se tornar objeto, seja útil, seja de prazer, o indivíduo assim coisificado, despersonalizado, se torna mais um dedicado a conseguir, a vencer, a atingir sucesso. Os processos de não aceitação, as humilhações exigem superações, exigem novas imagens. Assim apegados nos resultados, realizam acertos a fim de superar o que os desumaniza. Os caminhos trilhados são unilaterais, desde que referenciados na busca de saidas, e portanto comprometidos com o que se quer sanar.

Nos processos resultantes de coação, opressão, o que se consegue - como liberdade - é ser o próprio opressor, o próprio alienador. Nos transtornos bipolares esta situação se torna clara apesar de escamoteada pelo que chamam de "manias" e "depressões".

Como exercer autonomia em situações que foram estruturadas sob dependência e desejo de realização de metas? Obviamente abrindo mão das metas; não se trata de uma simples decisão pois  os processos se estruturam com características limitadoras, mas através de questionamento terapêutico, da aceitação de limites, torna-se possível a vivência do presente. "… até que ponto não estamos dizendo que a saída é uma acomodação, uma alienação? Como estruturar autonomia, necessária para humanização se não fizermos antíteses aos processos desumanizadores? Enfim, que antítese possibilitaria a continuidade da sobrevivência enquanto autonomia? A ocupação com o que está diante de mim, a dedicação, o enfrentamento do que me ameaça, a participação responsável pela transformação. Participar desse espetáculo sobrevivente é a maneira de transformá-lo. Qualquer recusa, ausência, origina preocupações, medos, estratégias de defesa." *

* Em "A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu", de Vera Felicidade de Almeida Campos
















"Las cartas del mal", de Baruch Spinoza
"Dos delitos e das penas", de Cesare Beccaria

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Thursday, August 2

Zumbis

Zumbis são os mortos-vivos, os fantasmas que povoam alguns deslocamentos específicos da não aceitação, da perversão.

Como entender perversões, crueldades extremas, enganos, mentiras que nos remetem a uma esfera de desumanidade desconcertante?

Mortos-vivos podem ser os amigos, os semelhantes, qualquer um que fabrique imagens, coberturas para esconder seu vazio, sua ganância, seus medos, suas não aceitações.

Não se aceitar, não aceitar que não se aceita, requer uma série de estratégias para conseguir realizar metas e desejos, desde simples posturas e hábitos civilizados até o engano, a mentira, o uso sistemático dos desejos, das metas e necessidades, enfim, das neuroses de seus interlocutores.

Na não aceitação dos próprios limites e dificuldades, a única coisa que interessa é conseguir cobrir as próprias fraquezas, consideradas feridas incuráveis. Sentindo-se monstros, mortos-vivos e vazios, vestem-se de humanos, conseguindo assim matéria-prima para sobreviver, para sentir alguma coisa. Esta é a dificuldade impossível de sanar - não sentem, são mortos-vivos. A busca, o engano, a manipulação (do outro) funcionam como sucedâneos de vida, até um ponto onde conseguindo o que precisam, passam a temer o desmascaramento. Este temor gera sintomas. Aplacar os sintomas passa a ser a nova regra, a nova busca, o paraíso necessário. Esgotado o consumo do outro - matéria-prima para a própria sobrevivência - eles passam a se consumir; é a autofagia, tornando-se necessárias mais imagem, mais aparência, consequentemente aumenta a quantidade do que esconder, do que camuflar. Em psicoterapia, a primeira mudança é deixá-los em carne viva, sem as roupas e imagens protetoras; tal estado é insuportável, a terapia é transformada em UTI (Unidade de Terapia Intensiva), enfim, ela é também vampirizada.

Denúncias, descobertas, desmoralizações são os únicos processos existentes para começar a "por a estaca no coração", acabar com estes vampiros, estes zumbis alimentados por suas contravenções, pelo roubo, pelo uso, pelas perversões até então escondidas e mantidas pelos inocentes e incautos que cruzam o seu caminho.

Dificilmente estes zumbis procuram psicoterapias, só o fazem quando buscam despistar e manter sua imagem acima de qualquer suspeita. O morto-vivo é um objeto, um fantasma que flutua e paradoxalmente pode estar escorado em alguma instituição: família, profissão e religião por exemplo.

Muito do que se tem chamado de perversão: pedofilia, necrofilia, zoofilia etc., pode ser melhor entendido sob este enfoque relacional.






"Reflexões sobre a vaidade dos homens", de Matias Aires
"Lolita", de Vladimir Nabokov
"A serpente e o arco-iris", de Wade Davis


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Thursday, July 26

Superação

Atualmente, tanto nos contextos psicoterápicos quanto nos religiosos, enfatiza-se a idéia de superação, de desapego e psicoterapias e religiões são usadas como alavancas para promover mudanças consideradas desejáveis. Nestes contextos, superação e desapego tornam-se sinônimos quando entendidos como abandono e desistência. Abandonar os sonhos antigos após um acidente que gera imobilidade, desistir da família unida ao descobrir que a mesma era assentada em bases enganosas, são, então, exemplos de superação, desistência de sonhos agora impossíveis e dedicação a novos projetos.

Problemas sempre surgem. Em contextos de aceitação, ultrapassar, transcender limites é espontâneo, dispensa alavancas; a superação e o desapego aparecem como abertura de possibilidades. A percepção dos processos abre condições, gera perspectivas para o aparecimento de um núcleo fundamental: o estar vivo. Enquanto tal não ocorre, a vivência é de perda, de morte, de incapacidade e neste contexto, superar, desapegar é apenas substituir, reutilizar. Estruturas de não aceitação, se não forem questionadas, são incapazes de superação ou desapego; sujeitas a discursos de apoio apenas mascaram suas insatisfações, desistindo e substituindo metas.

Voltando ao exemplo, na família construida sob engano que existe apenas para encobrir preferências consideradas ilegítimas, quando aparece sua impostura gera grande liberdade, permite diferenciar o joio do trigo, permite vivência de verdade. Esta descoberta é libertadora, possibilita ultrapassagem e desapego,  estruturando também certezas e confiança. É um processo dialético, gerador de mudança. Geralmente tal não ocorre porque as pessoas precisam de apoio, de faz de conta e assim a sensação de mundo que desmorona é aniquiladora.

Não viver em função de funcionamento e imagem é que permite superação dos problemas, ultrapassagem de limites e desapego do que satisfaz.

















"Os andarilhos do bem", de Carlo Ginzburg
"Contingência, ironia e solidariedade", de Richard Rorty


Thursday, July 19

Confiança

Confiar nos outros decorre de ser disponível, de aceitar o que se é, o que se tem, o que se vive. Quando se avalia lucros e perdas não há disponibilidade, não há confiança, o que existe são acertos, negociações e contratos.

Discussões sobre a modernidade costumam enfatizar o aumento do individualismo e competitividade onde as relações são reguladas e controladas por contratos escritos em contraposição a uma época onde acertos eram baseados na palavra ou na confiança entre as partes. Estas afirmações podem levar a crer que a falta de confiança é resultado deste momento histórico. Em verdade, assistimos apenas uma mudança nos mecanismos coercitivos que regulam a confiabilidade ou os acertos entre as pessoas: antigamente a família e a comunidade exerciam esta controle; hoje em dia, instituições públicas regulam  os acertos.

O homem é sempre o mesmo; confiar ou não confiar, ser uma pessoa de confiança depende de como ele se estrutura.

Logo ao nascer, o rosto materno é uma boa ou má configuração, acolhedora ou limitadora. O pai, a mãe, o avô, a avó, os irmãos são também confortantes ou desconfortantes; o mesmo quanto ao ambiente onde se vive. Estruturar confiança - perceber o que se percebe - é o mais fácil, é o dado relacional direto caso não haja superposições escamoteadoras das motivações: por exemplo, dar à criança um bombom de chocolate porque se deseja que ela não conte o que viu, pode ser o início da estruturação de um ser não confiável, assim como um ser desconfiado; pode estruturar omissão ou oportunismo onde se abdica dos próprios critérios e evidências percebidas, em função de aplacar desejos impostos pelo outro, seja através de ameaças (medos), seja através de seduções (metas).

Crianças, filhos, alunos são muito sensíveis a ser manipulados e enganados ou a ser aceitos em seus limites, inseguranças e dramas. Quando manipulados e enganados são transformados em objetos, seja de desejo e perversões, seja de regras adaptadoras, coisificantes. Aceitos em seus limites e dificuldades, confiam, percebem o outro que não os utiliza e assim começam a estruturar disponibilidade, confiança, amor, aceitação.

















"Charneca em flor", de Florbela Espanca
"Coração tão branco", de Javier Marias

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Thursday, July 12

Verdades e mentiras

Quem nunca se perguntou sobre a veracidade ou falsidade de algum relato, de alguma notícia e até da própria visão sobre um determinado acontecimento? É comum surpreender-se enganado, ludibriado. Descobrir que está sendo enganado, por exemplo, é libertador se vivenciado sem as amarras do compromisso. Esta mesma descoberta - ser enganado - é também mortal, aniquiladora de todos os sonhos e confiança depositada (no outro).

Acreditar e duvidar são polos de um mesmo eixo: a constatação de um acontecimento, de uma ocorrência. 

Tudo que acontece pode ser percebido, embora nem sempre constatado. Diante de fatos, acontecimentos, percebemos e também inserimos esta percepção em redes de memórias e vivências. A inserção é a constatação, é a percepção da percepção, às vezes representação ou interpretação do acontecido. Destas vivências são estruturadas crenças ou dúvidas. 

Saber o que é e o que não é, acreditar que tal fato ocorreu ou não, enfim, dúvidar é defrontar-se com o lacunar, o incompleto. A dúvida é motivante, tanto quanto angustiante: ao gerar a busca de certeza e garantia, desconsidera o que acontece. A necessidade do flagrante, da prova é redutora das possibilidades relacionais; só ocorre quando não existe disponibilidade, confiança no que é percebido. Deter-se no que ocorre é suficiente, é revelador. Utilizar o que ocorre para estabelecer os selos de garantia, estabelecer a confiança é alienador.

Crimes, faltas, traições, usos e abusos exigem ocultação e despiste. Esta idéia de falta, de abuso, de oportunismo, é característica das relações estruturadas em apropriações e enganos. Focado nas próprias necessidades, o indivíduo lança mão de qualquer coisa para aplacá-la, tornando-se agressor ou vítima; é a sobrevivência, a perversão, a maldade. Neste nível de sobrevivência, enganar é o paradigma, o modelo usado para estruturar comportamentos. 

Aceitação do que ocorre ou do que se percebe como ocorrido, é estruturante de comportamentos  disponíveis, dinâmicos, questionantes; enquanto a não aceitação do que ocorre estrutura rigidez, fanatismo, certezas absolutas, desconfianças, enganos.

Acreditar no que se percebe, acreditar no que se acredita é unificador mesmo quando considerado delirante por outros. O importante não é estar certo ou errado, mas sim, estruturando disponibilidade inclusive para perceber engano onde antes havia certeza; isto é a mudança.
















"O mito da doença mental", de Thomas Szasz
"Macbeth", de W. Shakespeare

Thursday, July 5

Vingança

A vingança é sempre planejada. Esta antecipação, expectativa é um deslocamento de frustração. Não podendo destruir ou infelicitar o que magoou e infelicitou, o indivíduo adia, guarda sua mágoa  e começa a planejar, a desejar se vingar, a desejar fazer com que o outro sofra como ele sofreu, sinta a mágoa que ele sentiu, tenha o mesmo prejuizo, o mesmo sofrimento.

Nascido no contexto da rejeição não suportada, o desejo, o planejamento da vingança é o que resta como motivação de vida.

Parar e colocar todos os propósitos relacionais em função de uma vingança, cria idéia fixa, obsessão, às vezes percebida como determinação. Isto passa a ser o filtro, o foco de toda a motivação. Reduzindo o mundo à expectativa de se vingar, de infringir ao outro o mal sofrido, o indivíduo se reduz a uma espera.

Tudo significa à medida que se conecta com este desejo. O alvo da vingança é que determina o que se faz, o que se pensa, o que alegra, o que entristece. Constituido pelo outro percebido como receptáculo do ódio, vem a coisificação, a despersonalização. Sozinho o vingador se constitui pelo que imagina ser a vivência do vingado, correndo atrás de si mesmo, de seus desejos e sonhos perdidos, até realizar seu objetivo: se vingar. Quando isto acontece - a vingança - ele explode de felicidade, de alegria, de realização.

Ter conseguido se vingar, traz uma situação nova, não há mais o que desejar, não há o que planejar. Esta vivência de sonho realizado remete a todas as mágoas e frustrações.

Conseguir se vingar é também começar a se perceber sem propósitos, esvaziado, sem leme. Tudo foi sacrificado, destruido e queimado para manter aquecida e realizada a vingança.



"Medéia", de Eurípedes

Thursday, June 28

Sacrifício e restrição

O ser é possibilidade de relacionamento, apenas isto e isto é tudo. Não existem seres bons, maus, mediocres ou superdotados como preexistências aos dados relacionais.

Somos seres com possibilidades relacionais que, quando posicionados, mantemos arquivos de memória, estruturando o eu. O eu é o sistema de referências responsável pelas identificações. Confundir ou igualar o ser ao eu é reduzir as possibilidades a padrões e regras características do indivíduo. Somos seres relacionais limitados por referenciais posicionantes. Questionar e identificar esses posicionamentos cria dinâmica, faz mudar. Psicoterapia é onde esse processo se realiza ou é impedido a depender das metodologias e conceitos utilizados.

Atualmente é frequente ouvir psicoterapeutas dizerem que toda criança precisa de uma relação estável: os pais não podem estar separados. Opiniões baseadas em juizos de valor são alienantes. Pensar assim é responsável pela manutenção das ordens constituidas, demonstram o medo da mudança, a busca da adequação e segurança.

Sistemas e religiões, para manter as engrenagens que os sustentam, precisam de sacrifícios, renúncias, normas e rituais. Adquirir segurança como regra padronizada implica em sacrifícios e restrições. Adequar é encaixar; acontece que seres humanos não são objetos.

Qualquer coisa efetivada em função de normatizações seguem parâmetros: os que não cabem, devem ser cortados. Assim fazem os arautos das ordens constituidas, que como Procusto*, mantém seu reinado às custas de restrições e sacrifícios, ajustes e adequações que por sua vez resultam em sofrimentos insuportáveis.

A única maneira de evitar essa alienação adequadora é através da autonomia, verdadeiro antídoto do sacrifício e das restrições coisificantes.


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 * "Leito de Procusto" - no mito, Procusto era um assaltante na antiga Grécia que além de assaltos, submetia suas vítimas a sacrifícios terríveis: ele tinha uma cama na qual as colocava e se fossem menores que o leito, eram então esticadas, se fossem maiores que o leito, tinham as extremidades (cabeça e pernas) cortadas. Ouviam-se os gritos por toda parte e quando os deuses resolveram intervir, Procusto justificou-se dizendo que agia em nome da justiça por que as diferenças são injustas, permitem que uns se sobressaiam sobre os outros e que a sua técnica, a sua cama, iguala todos os homens. Seu reinado de atrocidades só terminou quando foi subjugado por Teseu, mas até o fim defendia-se achando que estava sendo justo igualando as pessoas. O mito é muito usado para mostrar tanto a intolerância com a diversidade, quanto a imposição de padrões nas áreas do conhecimento, seja na educação, ciência, política ou no cotidiano.













 

"A questão do Ser do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos
"Temor e Tremor", Søren Kierkegaard

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