Thursday, December 29

Atitude

A psicologia do sec. XIX costumava dividir o homem em intelecto, atividade e vontade (emoção). Atividade se referia a gestos, comportamento motor, significando atitudes.

Hoje em dia atitude é um comportamento que frequentemente se exerce, expressando a própria estrutura individual, psicológica, daí ela caracterizar a visão que se tem do mundo, de si mesmo e do outro.

Em Psicoterapia Gestaltista, atitude é sinônimo de motivação; para nós também a motivação está sempre no contexto relacional; a motivação não é criada, construida "interiormente" e projetada "exteriormente" como pensam os psicanalistas,  os terapeutas da gestalt therapy e outros.

Os gestaltistas, ao discutirem com os behavioristas, argumentavam que se aprendia independente das necessidades (drives) estarem ou não saciadas. O requiredness, o carater de demanda explicado por Koffka, mostra como o ambiente, a realidade, cria a motivação (os publicitários bem sabem disto).

Perceber estas demandas, estas motivações é agir estruturando atitudes. O contexto do percebido aqui e agora pode estar estruturado em passado (memória), em futuro, como metas ou perspectivas (pelos prolongamentos do percebido, pensamento) ou pode estar estruturado no próprio presente. Sempre que se percebe o que ocorre no contexto do que está ocorrendo, se é instantâneo, espontâneo, globalizando o que está ocorrendo. A atitude que surge é quase que descritiva, totalizante do percebido. Há liberdade, por exemplo.

Quando o que ocorre é percebido no contexto anterior - presentificado pela memória - a possibilidade de distorção é grande e atitudes preconceituosas, conservadoras, repetitivas de vivências anteriores, são típicas.

Quando o que ocorre é percebido em função de metas, de perspectivas (futuro), estrutura-se atitude de observar, aguardar, avaliar, recolher informação, dados. É o aproveitamento da experiência presente, do que se está vivenciando no presente, transformando este presente em uma parte, um instrumento, uma ajuda para o que se quer realizar ou evitar.

Com estes exemplos não estou tipificando a forma de agir do ser humano, apenas delineando posicionamentos, relacionamentos esclarecedores do que se percebe, do que frequentemente se faz com o percebido.

Cotidianamente ouvimos falar de pessoas impulsivas, pessoas cautelosas ou desligadas, quase como sinônimo de personalidade, característica típica destas pessoas. São as manutenções de atitudes que configuram estes perfis. Quanto maior o nível de posicionamento, maior a possibilidade de ser manipulado, maior o ajuste e a dificuldade de perceber o outro, a dinâmica do mundo e a ultrapassagem do instante.

Questões tais como permanência, impermanência, aceitação de perdas, de ser abandonado, de morrer, podem ser trabalhadas, percebidas quando são colocadas no contexto de estruturação das atitudes individuais. As percepções mudam o mundo, o mundo muda as percepções. Perceber que a grande perda é uma grande mudança que traz liberdade é uma percepção restauradora, cria atitude otimista, traz motivação. Perceber que tudo que se faz é ancorado nos desejos de vencer e ter sucesso, estabelece atitudes solitárias, pessimistas e avaliadoras.








"Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade de A. Campos
"Nebraska Symposium on Motivation"

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Thursday, December 22

Compromisso

"Os impasses existenciais decorrentes de perceber o mundo, o outro como figura e colocar-se como fundo determinante desta percepção, este autorreferenciamento compromete a existência humana. Setoriza e maquiniza o ser humano, levando-o à corrida desenfreada da manutenção, do querer ser alguma coisa válida, aceita, reconhecida, considerada socialmente. Esta busca-luta, esta alienação, compromete. Surgem os padrões, normas e modelos de comportamento: as metas. Empenhado nesta conquista o homem desumaniza-se, passa a ser reconhecido pelo que o representa, por seus símbolos: carro, roupa, status, virórias, fracassos, sucessos, insucessos. O comprometimento com os rótulos cria a autofagia ou despersonalização, o vazio." *

São vários os problemas que surgem da despersonalização, da alienação e um deles é a manutenção, o compromisso. Estar comprometido é índice de alienação, de divisão, fragmentação.

Comprometer-se é estabelecer território, marcar presença e fazer acertos. Ao colonizar e manobrar estabelecemos parâmetros, consequentemente limites.

Limitados pelo compromisso, somos livres apenas em função dos mesmos. A liberdade conseguida é sempre manipulada, decorre de acertos e estratégias. Não é liberdade, é medo, angustia, ansiedade. Kafka, em "O Acorrentado", escreve: "Livre e confiante cidadão da Terra, eis que está preso a uma corrente longa o bastante para lhe proporcionar liberdade sobre todo o espaço terrestre; conquanto longa apenas de maneira a que não o solicite coisa alguma fora dos limites da Terra. É ao mesmo tempo livre e confiante cidadão do Céu, e eis que está preso a igual corrente celeste. Quando pende muito para a Terra, estrangula-o a coleira celeste; quando pende muito para o Céu, estrangula-o a coleira terrestre… Tem todavia todos os recursos, e sente isso; sim, mas obstina-se em negar que tudo se deva a um erro inicial na fixação dos grilhões." **

Este comentário kafkaniano é excelente para mostrar como a divisão, a necessidade de estabelecer separação, as metas e os medos, as crenças (ideologias) e vontades geram compromissos, e dividem. Divididos, os indivíduos correm de um lado para outro a fim de manter seus compromissos. É uma vida de manutenção, contabilizando resultados, funcionamentos, etapas para atingir metas.

Assim a vivência é de angustia e a ansiedade - causada pela divisão resultante da falta de liberdade - é mantida pela negação dos questionamentos ao que compromete.


* "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos, pag. 43, Zahar Editores, 1978

** "Parábolas e Fragmentos", Franz Kafka, pag. 25, Philobiblion - Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1956



















 





"Melancolia I", de Albrecht Dürer, 1514
"Uivo", de Allen Ginsberg


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Thursday, December 15

Sobrevivente não questiona

A imanência do ser humano é biológica. "Essa estrutura biológica está em um lugar, em um tempo com outros seres. Estabelecemos relações percebendo, conhecendo. Perceber é conhecer, perceber que se percebe é categorizar. Essa categorização é o estar consciente de, é o saber que sabe." *

No mundo da sobrevivência tudo converge para a satisfação de necessidades, de desejos. Os julgamentos e valores, neste nível, são binários: bom e ruim, satisfatório e insatisfatório, lucro e prejuízo, eu e outro. A pregnância da imanência biológica desumaniza, não há antítese, consequentemente a dinâmica, a dialética do processo é transformada em paralelas: bom ou ruim, igual ou diferente. Psicologicamente, as vivências são desenvolvidas através de divisões paradoxais: o que apoia oprime, o marido que espanca é o que sustenta, o patrão que explora é o que permite a sobrevivência da família, por exemplo. Estas contradições não possibilitam antíteses, não permitem resultantes pois são mediadas pela avaliação do ser sobrevivente.

Ao avaliar, se exerce mediações neutralizadoras de possíveis antíteses. Examinando o lado bom e o ruim, deve-se aproveitar o bom. Este foco polariza o comportamento da sobrevivência. O sobrevivente não questiona a contradição pois um dos seus aspectos é o apoio e o outro é a ameaça, o perigo. Segurando-se no lado do apoio, só percebe o que ameaça, não percebe a contradição com seus dois aspectos, experimenta o que dá segurança como contexto de bem-estar (não se enxerga o próprio chão que se pisa, embora se enxergue o chão em volta).

O ser oprimido pela contradição não questiona, tanto quanto não exerce solidariedade, tampouco tem clareza sobre os próprios problemas, embora exorbite nas soluções buscadas. É frequente não se perceber a solidão, o medo, o vazio resultante do estar comprometido com o casamento a manter, o emprego a defender, por exemplo. Só se percebe a injustiça, a falta de relacionamento, o abandono causado pelos outros. Estruturam-se assim, raiva, inveja, medo etc.

Quanto maior a exploração, a opressão, maior a revolta e quanto mais ela é mitigada (é o clássico "panem et circenses" **) mais é mantida.

O sobrevivente não quer mudar, ele quer conseguir, quer se adaptar e ter seus desejos atendidos.

Não existe contradição, não existe antagonismo no nível de sobrevivência, as possibilidades foram transformadas em necessidades. A contingência, a circunstancialidade (consumo ou não consumo por exemplo) soterra qualquer dinâmica existencial.

Uma das funções da psicoterapia é recuperar a possibilidade de estabelecer antagonismos, antíteses, de questionar. O início do questionamento é o início do processo de humanização. Apenas sobreviver nos animaliza, nos deixa a mercê de estruturas que nos manipulam, governam e orientam.

* "A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos, pag. 19
** "Cobiça e prazer, panem et circenses - eis o que move as massas quando as desampara a crença de liberdade e da dignidade popular." - José de Alencar, Cartas de Erasmo, II






- "Primeiro como tragédia, depois como farsa", Slavoj Zizek

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Thursday, December 8

Adaptação e mudança - aceitação da não aceitação

Geralmente o adaptado é o posicionado, o que renunciou a qualquer mudança para manter o que conseguiu. Assim vivendo ele é um mediano, é também o que não se aceita medíocre, adaptado. Surgem sintomas e deslocamentos a fim de criar um movimento, uma dinâmica - ainda que ilusória - diante de seus posicionamentos. Movimentos pendulares, ao longo do tempo dividem e fragmentam, estruturando não aceitação de ser o que é, de ter a vida que tem. No processo terapêutico, ao perceber a não aceitação, suas estruturas e implicações, surge a aceitação da não aceitação. É um momento muito importante, é a quebra da adaptação, do posicionamento e o início da mudança. Tudo é novo, diferente, as metas são transformadas em perspectivas, o que gerava vergonha e medo passa a ser questionante de responsabilidade, de participação; inicia-se a mudança responsável pela aceitação.

Quando se está preso à idéia de que toda mudança decorre de luta, revolta e desadaptação responsáveis pela transformação social, não se consegue imaginar a aceitação como uma ação antitética. Só existe antítese se houver um ponto de encontro. O ponto de encontro das constradições é a própria antítese, isto é, a configuração do impasse e da impossibilidade. No contexto das relações humanas, a percepção desse ponto de encontro, das contradições, permite aceitar o que ocorre, independentemente de padrões valorativos, necessidades de sobrevivência ou desejos de mudança. Negar uma realidade com o objetivo de criar outra é estabelecer vias paralelas que não configuram antíteses. Não há encontro nem integração das contradições. A revolta e a não aceitação estruturam o desejo, a necessidade de mudar e de não sofrer mais. Se há negação do fenômeno é impossível o encontro, e portanto a contradição. A negação do limite de uma dada situação estabelece a existência de paralelas que criam dualismos, responsáveis por divisões e fragmentações tanto no indivíduo quanto em suas relações com os outros.

Uma das grandes questões humanas é como existir fora dos padrões sociais e econômicos e, ao mesmo tempo, estar neles e deles depender. Quanto maior for essa contradição, maior também será a possibilidade de se perceber e se descobrir como ser humano. Tal descoberta é libertadora, quebra as ordens contingentes e produz antíteses.

Aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela integração do limite. Frequentemente a aceitação é confundida com conformismo, submissão àquilo que oprime, frustra e agride. Mas a integração do limite é o que ocorre quando vivenciamos o presente, quando, sem medo nem esperança, nos relacionamos com a realidade. O medo é a avaliação do que acontece em função de referenciais outros que não os do momento. São os a priori, os traumas, as certezas já assumidas que carregamos como filtros responsáveis por novas categorizações, preconceitos, estigmas, culpas, inferioridades e vivências já acontecidas e cristalizadas. Esperanças constituem anseios, vontades e desejos contextualizados no futuro. A questão da temporalidade é complexa na filosofia, na psicologia e na física, mas em certo sentido é simples quando relacionada com vivência e percepção.

Exemplo disso é a percepção de que o patrão que explora é o mesmo que alimenta, de que aquele que oprime também apoia. A vivência dessa contradição cria sentimentos de revolta, medo, culpa, angustia e resistência, ao mesmo tempo que enseja luta, oportunismo e despersonalização, quebrando a individualidade e impedindo a mudança. A transformação surge apenas quando se percebe, por exemplo, que apoio e opressão são dois aspectos do mesmo processo. A percepção do limite estrutura as antíteses responsáveis por sínteses. A liberdade e a consequente quebra das barganhas abrem novos caminhos. *

* Idéias desenvolvidas por mim nos livros "Terra e Ouro são Iguais Percepção em Psicoterapia Gestaltista" e "Mãe Stella de Oxossi Perfil de uma Liderança Religiosa", ambos editados por Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro





















"A Dialética da Natureza" de Friedrich Engels
"Fenomenologia do Espírito" de G.W.F. Hegel


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Thursday, December 1

Por que se distorce? Por que se unilateraliza?

Ilhados na sobrevivência os seres humanos percebem o que está em volta de si através de valores em função da satisfação ou insatisfação de suas necessidades (demandas). Uma das resultantes imediatas deste processo é a transformação do outro em instrumento, ferramenta, meio para satisfazer desejos (deseja-se o que falta) e necessidades (é o que permite sobreviver). O outro passa a ser caçado e utilizado para apoio e prazer.

A distorção é resultante da manutenção de posicionamentos, da quebra da dinâmica relacional do estar no mundo. Inicia-se assim, um processo que se caracteriza por buscar metas, por autorreferenciamento etc enfim, distorção perceptiva, unilateralização.

Neste contexto, tudo que se percebe, consequentemente o que se pensa - pensamento é prolongamento da percepção - é binário, mecânico, limitado: é bom? É ruim? Serve? Não serve? Este referencial, esta matriz verifica e avalia tudo que ocorre. Qualquer situação nova vai ser assim examinada. Nada é feito ao acaso, nada é feito por fazer. Diletantismo é considerado loucura, é considerado perda de tempo.

Apoiados nestes critérios, observam e avaliam o que leem, o que vêm, o que ouvem, o que propicia prazer. Sabem o que deve ser buscado e o que deve ser evitado. O que não couber no esquema tem que ser adaptado: fragmentam, dividem para manipular.

Esse processo é esvaziante, aliena do presente, leva à criação de metas, busca de objetivos como: "paz interior", "realização de sonhos" etc.

Nesta nebulosidade, nada é claro, nada é luz, tudo é distorcido, misturado, confuso. Não há apreensão de totalidades, só existe luz no fim do túnel e esta tem de ser buscada.

Quando o que acontece é percebido em contexto diverso do que está estruturado ou acontecendo, ocorre distorção perceptiva. A percepção do percebido é a categorização, o saber que se percebe. Quanto mais relacionado ao percebido está a percepção do mesmo, maior a globalização; quanto mais distante - temporal ou espacialmente - maior a fragmentação, a parcialização. Nesses casos, para nomear, significar tem que se preencher os vazios, somar as partes. Este processo é a distorção perceptiva responsável por preconceito, divisão, oposições e semelhanças.




"Obras Completas", Sigmund Freud
"O Homem e seus símbolos", Carl Gustav Jung


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