Thursday, November 24

O oposto como semelhante

O semelhante é o igual, o oposto é o diferente. Como entender oposto como semelhante, como sair deste antagonismo, desta divisão?

As situações estão colocadas como paralelas, não há possibilidade de antítese, de confronto; existe assim a impossibilidade de surgir síntese, no caso, comparação dessa contradição, quase non sense.

Opostos são contrários, são polos de uma mesma unidade. Só através da mediação podemos categorizar a oposição. Opostos pela condição de riqueza e pobreza, mas semelhantes enquanto seres humanos, por exemplo, é elucidativo.

Quando se fala, por exemplo, em o ser e o mundo, em opostos ou antagônicos, gera-se sempre continuidade, gera-se semelhança quando é percebida a mediação que os dividiu, que os transformou em opostos.

Ir além das parcializações, dos posicionamentos, possibilita perceber o outro, sua humanidade. Entrincheirados nas classificações sociais, econômicas, nos tipos físicos, nos critérios estéticos, transformamos as aparências, as resultantes, em sinônimo do que é intrínseco e definidor.

"O outro, o diferente de mim, meu antagônico é também o idêntico a mim, meu semelhante".*

Quando inteiros, individualizados, percebemos unidades.

Quando divididos, fragmentados os seres humanos são  transformados em ponto, objeto que tenta se apoiar, segurar, a fim de manter coladas suas fragmentações. A necessidade de funcionar, conseguir, brilhar é o polarizante. É isto que mantém suas posições conseguidas. Qualquer mudança que ameace este "equilíbrio", qualquer movimento é malvisto, não é aceito. Ele vive juntando e escondendo sua divisão, ele é o outro que ele cola e conserta. É a desumanização. Esta situação explica crises de pânico, também explica atitudes de maldade, de tortura, de obedecer cegamente para manter o que foi conseguido.

Nesta situação o outro é o diferente, sempre o antagônico, nunca idêntico, não há mediação da aceitação, do encontro. Percebe-se o semelhante, mas ele é visto como apoio ou ameaça; o pregnante é o que ele pode significar, representar de bem ou mal. Vazio ou plenitude, solidão ou integração são assim estruturadas.

* "Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista",  Vera Felicidade A. Campos, pags 112, 113




"A Questão do Ser do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos
"Productive Thinking",  Max Wertheimer

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Thursday, November 17

Interno e externo não existem

Interno e externo são apenas indicadores semelhantes a direita e esquerda quando indicamos direção. Sempre exigem uma referência a partir da qual são estabelecidos.

O uso frequente dos termos interno e externo transformou-se em metonímia, um filtro, uma lente pegajosa que atrapalha a percepção, a categorização do que é humano, do que é psicológico.

Freud, por exemplo, falava em "realidade externa" e a via como projeção do inconsciente. Para ele, esse processo de projeção era gerenciado, controlado pelo próprio inconsciente e caracterizava a natureza humana. Essa dicotomia foi tão divulgada e incorporada ao pensamento ocidental de maneira geral, que atualmente, qualquer coisa diferente disto pode até ser entendida e aceita, mas sempre é vista como tradução da mesma questão.

Para mim não existe interior, não existe exterior, existe uma relação.  Uma coisa "interna" a A é "externa" a B e vice-versa. Trata-se de mera sinalização. Sinais são convenções. Tudo é construído, exceto a possibilidade de se relacionar, de construir. Na página 27 do livro "Terra e Ouro são Iguais" * escrevo: "É muito difícil para o psicólogo dualista, categorial, tipológico entender o comportamento humano sem recorrer às ideias de interior e exterior. Ainda hoje Jung é seguido e tido como grande pensador: ele classificava o humano em tipos introvertidos e extrovertidos. Achava, tanto quanto Freud, que a percepção é uma projeção dos conteúdos internos do sujeito. A própria percepção, nessas conceituações, é um objeto."

Através do conceito isomórfico, os gestaltistas alemães disseram que as estruturas (gestalten) neurológicas são iguais às psicológicas, disseram ainda que o que está dentro está fora. Percebemos por haver estruturas neurológicas e psicológicas que possibilitam isto.

Imaginar um interior, um exterior é coisificar o homem, é transformá-lo em uma caixa e depois procurar abrir saídas, janelas para suas demandas e realizações, estabelecendo aplanadores de caminho - como fazem várias psicologias e psicoterapias adaptativas - não sabendo o que é o homem, criam uma série de senhas para decifrá-lo e explicá-lo. Falam de interioridade como se existisse um lugar do psicológico dentro do organismo humano, por exemplo: mente, inconsciente etc.

Não existe o inconsciente, gerenciador da realidade interna, também não existe a mente, receptáculo de dados. O que existe é o homem no mundo, percebendo, categorizando, conhecendo. Perceber é se relacionar, é conhecer. O pensamento é o prolongamento da percepção.

Pensar é prolongar o percebido é uma percepção que se expressa ou que se memoriza.


* Terra e Ouro são Iguais, Percepção em Psicoterapia Gestaltista, Vera Felicidade A. Campos
















- "Icons",  Maurits C. Escher
"Godel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid", Douglas R. Hofstadter


Escher e a Fita de Möbius  ("As Formigas")
Animação do quadro de Escher: "A Fita de Möbius II"




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Thursday, November 10

Dividir para entender, dividir para limitar

Dividir sempre fez parte das estratégias de vida, estratégias de guerra e organização das comunidades.

Ir por etapas, seguir o passo a passo é a regra para análise e resolução de problemas. As classificações, as tipificações são fruto de divisões. Dividir é separar, fracionar, quebrar, criar classes, tipos. Separa-se para em seguida agrupar-se na tentativa de organizar e entender.

Desde pequenos somos ensinados a pensar e agir a partir das divisões. Crianças aprendem a traçar, a demarcar territórios, separarando conceitos que são indissolúveis. A reta, por exemplo é uma sucessão infinita de pontos, o ponto é interseção de infinitas retas. Esta sequência de relações foi transformada na afirmação: ligando o ponto A ao ponto B, temos uma reta. Uma simplificação que leva a ignorar os infinitos pontos da reta e sua interseção com outras retas. O resultado é que se segue na vida imaginando setas ----->  interações entre pontos previamente determinados <----> pensando tudo em termos de causa e efeito, em termos de consequência, de divergência.

Aprende-se a ser dualista, a criar dicotomias, tomar as resultantes, os polos como unidades que se opõem, jamais se aprende que a polaridade resulta da unidade.

Negando a relação restam os elementos, como eu dizia em "Terra e Ouro são Iguais": "O pensamento filosófico/ psicológico enfocou os polos, os posicionamentos, quebrando ou desprezando o eixo, a relação configurativa de sujeito e objeto. A filosofia, na busca de explicar o conhecimento, imaginou um sujeito que conhecia e objetos que eram conhecidos. Isto posto e aceito, surgiu o grande debate sobre quem iniciava o processo. Era o sujeito que pela idéia criava o mundo ou o mundo que era captado pelo sujeito? Surgiram assim as diversas filosofias idealistas e materialistas. Resíduos posicionantes disso são os conceitos de idéia, alma, espírito, consciência, mente, sensações, matéria, como explicativos desencadeantes dos processos cognitivos". *

Divide-se para limitar áreas e manipular conhecimentos. Bastaria se deter na unidade ser no mundo e tudo teria sido muito diferente: não teríamos a idéia de inconsciente, de interno/externo, de natureza humana, energias ou ações divinas para explicar o comportamento humano.

É muito fácil copiar e colar, partir e depois juntar a fim de tecer considerações acerca de qualquer coisa. Esta atitude de separar, cria preconceitos, certezas, regras, medos, limites, controles, influenciando a formação de divisões e restrições, criando situações inexistentes como a tão comentada vida interior, realidade externa/interna, vivência objetiva/subjetiva, rótulos que viraram verdades. Como o comportamento humano é estruturado através de relacionamentos, ele integra estas divisões. Isto gera conflito e o fragmenta. O ser ou não ser, o fazer ou não fazer, desistir ou não desistir de relacionamentos, mudar de trabalho ou continuar no trabalho etc são divisões vivenciadas no contexto desta avaliação, onde tudo se exclui, nada se integra.

Em Psicoterapia Gestaltista sabemos que o que divide é o que unifica. A divisão decorre de um processo que foi quebrado, separado, interrompido. Encontrar o ponto (motivo) da divisão é encontrar o contexto, a sequência de unificação.

* "Terra e Ouro são Iguais, Percepção em Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos - pags 25 e 26


















- "A Divina Comédia", Dante Alighieri
- "O Príncipe",  Nicolau Maquiavel


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Thursday, November 3

Preconceito

É o conceito antecipado, é o entendimento, o conhecimento independente da relação que se estabelece com o conhecido. É a cópia, a reprodução a sobreposição de conhecimentos prévios sobre situações novas. Conceitos antecipados geram cópia, genéricos usados sempre em abundância, necessitando, portanto, de catalogação e arquivamento para estar sempre prontos para o uso.

A sabedoria popular, através de sua coleção de provérbios, também ajuda a incorporar experiências responsáveis por conceitos antecipados, por preconceitos. "Quem vê cara não vê coração", "diz-me com quem andas que te direi quem és" são alguns exemplos. Segui-los, orientar-se  por este saber disseminado pela vox populi é impermeabilizar-se às próprias experiências. Estes filtros são mediações que obscurecem. Fica impossível perceber igualdade quando tudo já está carimbado e descrito como bom, ruim ou prejudicial.

Na Idade Média, além de regras de conduta e geradores de advertências, os provérbios representavam quase todas as relações de superestrutura. Mesmo a pintura era influenciada por eles. Hieronymus Bosch, por exemplo, tem um de seus mais conhecidos quadros baseado em um proverbio flamengo: "o mundo é como um carro de feno e cada um colhe o que puder" (no sec. XVI se referia aos desejos materiais, à ganância, à concorrência, à falta de solidariedade). Este provérbio medieval ainda pode ser usado hoje em dia; a melhora é que muita antítese é feita a esta atitude, através de leis principalmente, mesmo que tenhamos os atuais "salve-se quem puder" e o "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Além da experiência, outra fonte geradora de preconceitos são as expectativas criadas pelos desejos. O desejo estabelece os padrões, as regras necessárias para sua realização. Satisfazer a carência, arranjar amigos que podem ser bons, úteis, obriga a frequentar ambientes que favoreçam a realização deste desejo. Amigos bons são, por exemplo, os bem educados, os que ocupam lugares destacados na sociedade. Quando aparece alguém com estes requisitos, imediatamente é considerado bom. Este julgamento antecipado induz a muitos enganos. Frequentemente "o bom partido" por exemplo, também está interessado em conseguir realizar seus desejos, colecionar namoradas etc.

Só percebendo que todos somos iguais, que as diferenças entre os seres não são estabelecidas pelos aspectos étnicos, nem pelos culturais, educacionais e econômicos é que é possível não ter preconceito em relação ao que seria um ser humano bom ou ruim. Só através do relacionamento com  o outro é que podemos perceber o que é humanizado ou desumanizado.

O preconceito, quando ocupa o lugar dos conceitos, restringe a experiência, parcializa o encontro com o outro e com o mundo, à medida em que orienta, sinaliza. É um impermeabilizante, um filtro, uma cunha responsável por quebras e divisões. Ser preconceituoso, ter conceitos antecipados, não importa a respeito do que seja, é viver defasado, é ter informações e conhecimento de segunda, terceira mão, é estar sempre manipulado.

O preconceito é a alavanca para a manipulação, quer seja da família, da sociedade, das ciências, religiões ou ideologias.

Ciência e religião alicerçadas em dogmas geram muitos preconceitos responsáveis por terríveis carnificinas: guerras religiosas (católicos e protestantes, árabes e judeus), genocídios comandados e fundamentados em pseudo verdades científicas como raça superior e inferior por exemplo.

Ter um selo de garantia exige avaliação, verificação. Preocupado em não errar, em não se enganar, o homem se aprisiona ao que o limita.







. "O Carro de Feno", Hieronymus Bosch  (Museu do Prado, Madrid)
. "O outono da Idade Média", Johan Huizinga

Animação com partes do quadro "O Jardim das Delícias"
de Hieronymus Bosch, por Eve Ramboz



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