Thursday, October 27

Sem saída

Vivenciar o presente pode ser sinônimo de vivenciar o desagradável, despropositado e ameaçador. Situações de guerra, assalto, doença, desastre deixam isto bem claro. Essas ocorrências determinam  ansiedade, medo, que é a omissão diante do que ocorre ou determinam coragem e participação.

Ter medo é se omitir, é colapsar, sumir diante do que está acontecendo; isso se dá às vezes através do desmaio, através do desespero, dos gritos e das rezas obstinadas. Havendo participação não há medo: se enfrenta ou foge, às vezes única maneira de enfrentar, ainda ação.

Quando não temos metas - ou seja, planos e desejos a realizar no futuro, que não têm estrutura na própria realidade - não estamos divididos ao vivenciar o presente. Esta organização nos permite não colapsar com os impactos, o caos, a desorganização que está acontecendo no presente. Esta atitude cria perspectiva de vida responsável pelo descongestionamento; "o grande horror" que acontece adquire proporções menores, suportáveis e começa a ser percebido como obstáculo a ser resolvido, neutralizado, contornado.

Kurt Lewin relata o que aconteceu com os judeus alemães diante da escalada destruidora do nazismo e do antissemitismo na Alemanha. Este caos social desumano levou vários judeus a cometerem suicídio. Ao perderem toda e qualquer perspectiva de vida, abreviavam o final terrível que parecia inexorável. Frequentemente esta atitude era a do judeu assimilado. Lewin nos relata que o judeu apoiado em sua tradição religiosa, em sua história, sabia que era mais uma perseguição; durante cerca de 5 mil anos outras já haviam ocorrido e seu povo sobreviveu. Perceber este processo, serviu de respaldo, abriu perspectivas e fez com que resistissem ao desespero, resistissem à vontade de desaparecer, sumir, mesmo com o sacrifício da própria vida. Esse estudo de Lewin foi eloquente no sentido de mostrar que o caos pode ser organizado, que o respaldo surge da própria história individual.

O judeu assimilado à cultura germânica achava impossível haver tais perseguições dentro de uma sociedade tão civilizada como a alemã. Os que estavam apoiados na tradição judaica, sabiam do antissemitismo que sempre existiu nas diversas culturas e sociedades. A vivência do terror não foi inesperada para eles, tinham o processo histórico como contextualizante.

A vivência é sempre do presente mesmo quando se recorre à memória. Na situação do presente aterrorizante, reduzido ao fato, a lembrança, a memória (recordações são vivências presentificadas, são prolongamentos perceptivos) estrutura um novo contexto que permite a percepção do que ocorre, no caso o caos, de uma maneira nova, responsável por continuidade, consequentemente por perspectiva de vida.

Na vivência pontualizada do presente como sem saída, os pontualizadores podem ser situações presentes neutralizadoras de perspectivas ou podem também ser situações de memória, presentificadas sob a forma de medo e pânico. Em um de seus escritos, Kafka nos conta que ao esperar a execução na forca para o dia seguinte, o condenado, não querendo passar pelo que o aguardava, na véspera se enforca em sua cela.

Qualquer situação absurda possibilita enfrentamento ou crise, tudo vai depender de se estar inteiro ou dividido na vivência do presente ameaçador.

Quando o passado superpõe-se ao presente, mesmo que sob forma de esperança, ele divide, consequentemente aliena do presente, criando ansiedade pela necessidade e espera da saída.

Quando o passado alarga o presente surge perspectiva, surge o futuro; a redução ao que está acontecendo, o estreitamento é alargado e novas configurações surgem neutralizando o sem saída e estruturando coragem, tenacidade, resistência.














"O Holocausto", Martin Gilbert
"O Terceiro Reich no Poder", Richard J. Evans

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Thursday, October 20

A vontade de dar certo é um erro

Só se pretende um futuro diferente do presente, quando não se aceita o que se está vivendo. Partindo de uma incoerência, desejando o que não está estruturado em seu presente, chega-se ao desacerto. Ninguém, satisfeito em estar vivo, deseja morrer (futuro), por exemplo. Vivenciar o presente integralmente não deixa brechas para avaliar. Só em vivências parcializadas é que surge a comparação, a avaliação. Esta divisão estabelece o bom, o ruim, o satisfatório, o insatisfatório; cria inveja, ganância, medo, insegurança. A continuidade é quebrada e classificações e tipificações aparecem.

Querer dar certo é pensar em resultados, é vivenciar o presente como ponte para atingir metas.

Evitar o que se considera prejudicial e insatisfatório demanda estratégias e esforços e assim se começa a construir metas que, quando realizadas, geram vazio. Para validar e justificar os esforços, busca-se a todo custo, manter o conseguido.

Frequentemente obstinação, compulsão, medo, aumento da necessidade de ser considerado, vontade de acertar são mantidas para corrigir o considerado erro de apenas existir e de não encontrar significado nisto.

Estes seres obstinados, cheios de propósitos, estão dedicados à suprir suas necessidades e/ou a dos que estão à sua volta. São os baluartes do sistema, os apegados a suas rotinas, a seus vícios, tanto quanto são os obstáculos a tudo que é espontâneo, instantâneo, desvinculado de referenciais. O drogado é também um mantenedor do sistema. Viver em função de seus vícios é ser obstinado, é se consagrar ao seu prazer-alívio e sobreviver dependendo de escoras familiares ou sociais.

Para o obstinado nada pode ser apenas o que é; para ele não existe nada gratuito - tudo tem preço: ele passou a vida pagando. Para ele, se não tem preço, não vale, não significa. O preço etiquetado, o valor é o determinante da motivação, da vontade. Para eles a realização, o prazer é um tesouro escondido, consequentemente tem que se descobrir o mapa da mina, tem que conseguir acertar.
















- "Os Sonâmbulos", Hermann Brock
- "O Valor de Nada", Raj Patel


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Thursday, October 13

Formação de identidade

Formação de indentidade é um processo decorrente do relacionamento com o outro em um determinado contexto cultural, social, histórico.

Todo conhecimento é perceptivo, é relacional, este processo identifica o humano, permite dizer que ele é constituido pelo outro enquanto ser no mundo.

Frequentemente o que se chama identidade se refere às características culturais e sociais. O fazer parte da cultura X, Y ou Z, o estar inserido em determinados grupos sociais,  estar inserido em determinada classe econômica, determinam oportunidades, impedem satisfação de necessidades tais como a de comer nutritivamente, por exemplo. Surgem os pobres, os ricos, os remediados e medianos, as minorias etc. O acesso à educação é também outro fator usado como identificador.

Nenhuma destas dimensões açambarcam, identificam o humano. A impossibilidade de identificação se faz sentir quando nos deparamos com as pulverizações do conceito de identidade: identidade étnica, identidade cultural, identidade sexual, identidade religiosa etc.

Sociedade, Estado geralmente estão voltados para manutenção da sobrevivência de seus membros. Sobrevive-se e este processo despersonaliza pela opressão tanto quanto pelo apoio. Os homens reduzidos a suas necessidades, transformam-se em massa de manobra social. Oprimidos e apoiados pelas instituições, realizam suas "vocações" buscam melhorar, lutando e sonhando com mundos e sociedades melhores.

Sociedade e cultura não são estruturantes do humano, são estruturantes de relacionamentos que humanizam ou desumanizam, que reduzem os homens à sobrevivência, à satisfação de suas necessidades ou que permitem realização de suas possibilidades.

Limites geralmente representados pelo poder exercido por minorias sobre maiorias escravizaram e escravizam o ser humano. A transformação de seres humanos em mercadoria - antigamente o tráfico negreiro (escravidão) e agora a venda das ditas "escravas brancas" para os bordéis - é um aspecto deste poder destruidor, sinonimizado com ordem econômica ou lucro não importa como.

Cultura e sociedade são sempre estabelecidas sobre hierarquias e interesses econômicos. O homem encarcerado em sua cultura, sua sociedade, sua profissão, seus grupos, suas instituições é um ser posicionado. Agrupa-se, filia-se, satisfaz necessidades e sonha com a realização de desejos impossíveis; estas metas o transformam em massa de manobra, seus sonhos, tais como "ter um carro", "viajar", "comprar um imóvel" são manipulados e administrados pelas instituições sociais, ficando assim, acorrentado a tudo que o limita em função do que deseja.

O homem é o retrato de sua época se as contingências enquanto satisfação de necessidades são consideradas (nível de sobrevivência), e ele independe de suas molduras culturais e sociais, ele continua o mesmo em todas as épocas se forem consideradas suas possibilidades de relacionamento com o outro (nível existencial).



- "O Navio Negreiro", Marcus Rediker
- "Principles of Topological Psychology", Kurt Lewin
- "L' Homme Nu", Claude Levi-Strauss

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Thursday, October 6

Padrões e costumizações

Outro dia, lendo Proust - Jean Santeuil* - achei engraçado o que ele escreveu sobre Sarah Bernhardt, a famosa atriz de teatro do sec. XIX, ele dizia:  "... assim como todo amador apaixonado pelo talento de Sarah Bernhardt sentiria diminuir sua paixão no dia em que, mesmo que continuasse grande artista, Sarah Bernhardt já não falasse mais com os dentes cerrados, sempre rindo, bem depressa, sem que se entenda bem o que diz..."

No tempo de Sarah Bernhardt era possível se apresentar fora dos padrões, era possível expressar seus próprios hábitos. As idiossincrasias eram aceitáveis e identificadoras. O "politicamente correto" não era o determinante. 

Atualmente, para se apresentar seja na festinha do amigo, na repartição pública, na empresa, no palanque ou na TV, para ser aceitável é preciso preencher algumas regras, atender alguns padrões. Além do "sorriso branco total" comum à todas as celebridades do mundo do entretenimento, de políticos, de jogadores de futebol etc uma série de ítens devem ser preenchidos: saber como se comportar, seguir as regras das boas maneiras, usar o que está na moda etc. A mesmice, a cópia são de tal ordem que surgiu o novo padrão:  costumizar. Costumizar tudo, do sorvete às camisetas e assim tem-se a impressão de estar interagindo de maneira individualizada e única quando na verdade apenas se manipula meia duzia de variáveis padronizadas.

No universo do consumo, ao se buscar manter aparências valorizadas para ser aceito, se cria a expectativa de seguir, de imitar. O novo é o que faz igual, inovar é copiar, é costumizar. Costumizar não passa de apoderar-se de sugestões, reciclá-las e apresentá-las como próprias.

A manutenção desta atitude de apropriação e cópia cria esvaziamento, despersonaliza. Não se sabe quem se é, mas se sabe com que celebridade se quer parecer ou se acha parecido; assim se torna necessário buscar símbolos que o identifique.

As leituras dos manuais de auto-ajuda, tanto quanto o deciframento de seus mistérios, de seus arcanos, de seus portais mágicos é uma regra. É este processo de constante alienação, de coisificação que requer regras, padrões gerais e costumizações específicas. Neste contexto das costumizações, Sarah Bernhardt só seria ela própria se estivesse vestida conforme seu 'affiche' ícone.

* "Jean Santeuil" de Marcel Proust - Editora Nova Fronteira, pag. 520





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