Thursday, September 29

Hybris e onipotência

A não aceitação de limites possibilita vários deslocamentos, um deles consiste na tentativa de ultrapassar o limite. Essa desconsideração do que está diante é gerada pela onipotência oriunda do autorreferenciamento. Ao se perceber impotente, surge aceitação ou não aceitação desta vivência. Recolhimento ou exacerbação vão caracterizar esta constatação. A onipotência é um deslocamento da impotência. Não existem duas situações: onipotência e impotência. A impotência não aceita e deslocada, configura a onipotência.

A construção de imagens, máscaras aceitáveis é característica dos que vão além da própria dificuldade, atingindo bons resultados que camuflam e parecem neutralizar os limites. Gigantes de pés de barro nascem. Escorar-se nos bons resultados obtidos, exibí-los, é uma atitude indicativa de que problemas foram superados e assim agindo aumenta a necessidade de mostrar, de exaltar o conseguido.

Na atitude onipotente, a vida é resultado, não é processo; não importa como foi conseguido o que era necessário para ser valorizado e considerado, basta querer e lutar para conquistar, seguindo roteiros que vão desde ter amigos influentes até realizar todas as etapas necessárias à profissionalização por exemplo e esperar o sucesso. Esta atitude em função de metas, este foco nos objetivos, desconhece limites. Para preencher o vazio daí resultante, surgem crenças e ideologias fanáticas, rigidez, obsessões, compulsões, exercícios e disciplinas extenuantes. A fé, a esperança, a persistente preocupação com os próprios direitos, os deveres cumpridos são os lemas, os suportes deste esvaziamento.

Ultrapassar limites negando-os, é autorreferenciamento. É o não limite gerador de onipotência que nada mais é que uma das formas de autorreferenciamento, característica dos processos de não aceitação. Tudo é percebido a partir das próprias necessidades, desejos e vivências. Este acúmulo de referências em um mesmo contexto, pontualiza. Quando isto acontece novas situações são requeridas, novos contextos, até um outro eu (dividir para suportar), é a imagem, hybris maior, responsável pela despersonalização, pela desumanização.

Na antiga Grécia Hybris* era uma deusa que personificava a insolência, a desmedida, o excesso. Aristóteles associava hybris ao 'erro trágico' do protagonista dos dramas gregos, erro este que advinha da tentativa de ação correta em uma situação onde isso era impossível, em outras palavras, um grande engano.

Enfatizar é parcializante, divide, consequentemente desorganiza; qualquer ênfase gera excesso, hybris.

Enfatizar o belo, enfatizar a cultura, parcializa. Achar que só se pode viver em um mundo belo, espiritualmente refinado, socialmente igualitário, economicamente justo, por exemplo, estabelece regras (o belo, o feio, o refinado, o grosseiro, o adaptado, o marginal, o rico, o pobre etc) situações antagônicas, duais, geradoras de valores determinantes de hierarquias; criadoras de posicionamentos: a luta do revolucionário, as verdades religiosas, a eternidade da beleza. Os limites não são integrados, permanecem como valores, são transformados em referenciais. É o 'erro trágico', a hybris dos bem-intencionados que enfatizando seus próprios referenciais apenas expõem sua onipotência. A superação de limites unilateraliza. Superação não é aceitação. Aceitação de limite implica em integração do limite o que só é possível se não tiver uma meta a ser atingida. Ultrapassar limites negando-os é uma forma de fazer de conta que não está limitado. Este processo não é inócuo: ansiedade, excesso de gastos, responsabilidades postergadas e imagens fabricadas se transformam em perseguidores. O gigante dos pés de barro, as imagens criadas, compromissos assumidos não têm base de sustentação. O indivíduo colapsa, tentando corrigir o erro ele mata, ele morre.

Não aceitação de limites, onipotência, excesso, exagero - hybris - é o autorreferenciamento, resultante da não aceitação.

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* Hybris, palavra grega, excesso, arrogância, insolência, soberba, impetuosidade, violência - em português está dicionarizada como húbris















- "O Homem sem Qualidades", Robert Musil
- "A Mutilação Sacrificial e a Orelha Cortada de Van Gogh", Georges Bataille


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Thursday, September 22

Limites e transformações

Aceitar o limite é transformador. Quando a percepção muda, o que antes limitava passa a ser percebido como um contexto, como realidade na qual o limite está estruturado, ele já não é um obstáculo.

Esta evidência gera mudança podendo criar, entre outras coisas, liberdade, responsabilidade e autonomia. Exemplifiquemos com algumas situações: uma do herói, outra do cidadão comum, outra do sobrevivente oprimido.

Sísifo, apesar de mortal, desafiava os deuses gregos (era, ele próprio, filho de deuses e tido como muito inteligente e rebelde). Em uma das versões do mito, Sísifo é castigado por tentar salvar Prometeu, o titã condenado por Zeus por ter roubado o fogo para entregá-lo aos humanos. O castigo de Sísifo consistia em diariamente carregar uma enorme pedra até o cume da montanha, pedra essa que era empurrada de volta à base, obrigando-o a novamente carregá-la montanha acima dia após dia. Depois de muito esforço e desespero, Sísifo percebeu que seu castigo não era apenas levar a pedra ao cume da montanha, mas sim levá-la e vê-la rolar montanha abaixo, tendo consequentemente que carregá-la novamente em um repetir incessante.  Ao perceber isto, libertou-se, apreendeu a totalidade da situação e não mais esperou se livrar do castigo. Perceber o processo o deixou sem expectativas, o fez suplantar o castigo.

O mito de Sísifo deu margem a muitas páginas de literatura e filosofia. A analogia com o trabalho cotidiano e repetitivo, com os problemas a serem enfrentados do dia a dia, se impõe. A aparente falta de sentido da vida, ou o "absurdo da vida" como diria Camus, são aí expressos e resolvidos.

São inúmeras as situações onde se vivencia o limite: a morte, as doenças, as condições diversas de vida etc. Doenças, vivenciadas como limite, geralmente desencadeiam medo de morrer, raiva e impotência. A aceitação deste limite leva à busca de tratamentos, à mudança de atitude, transformando medo e raiva em cuidado e disciplina, em responsabilidade.

Frequentemente as pessoas se queixam de falta de tempo, de falta de dinheiro e de amores permanentes. Queixas e lamentos pelo trabalho subdimensionado, vocações não realizadas, sensibilidades poéticas sufocadas pelas rotinas do trabalho, tudo isso expressa a não aceitação do limite. Só se verifica falta ou excesso quando se avalia; só se avalia quando surge verificação sobre a realização de metas e desejos.

Perceber o limite depende da estrutura de aceitação ou não aceitação. Quando a pessoa não se aceita, ela desloca seus desejos, sonhos e fantasias para objetivos, para metas a realizar e consequentemente ela se divide, vivenciando parcialmente o presente. Nesta vivência parcializada do presente, quase tudo limita, quase tudo é obstáculo. Quando este processo é percebido, surge a mudança. Essa mudança perceptiva ocorre, via de regra, na psicoterapia através de  questionamentos e antíteses. Quanto maior a divisão, maior a vivência de situações limitadoras, até ao ponto em que a própria pessoa é um limite: síndrome de pânico, depressão, hipocondria. Estes deslocamentos  são vivenciados como naturais, orgânicos, como caindo sobre o indivíduo e nada se pode fazer, exceto suportá-los com ajuda de remédios, rezas ou amuletos.

Perceber o que está ocorrendo com o limite gerado pelo processo da não aceitação, criadora de metas esvaziadoras, faz desaparecer o robô programado para dar certo e não falhar, traz de volta a individualidade, humaniza.

A não aceitação do limite pode gerar onipotência responsável pela violência. Na sociedade, o "precisar e roubar" exemplifica este aspecto, tanto quanto deixa claro que quando se transforma o problema em justificativa, mais limitado se torna e outros deslocamentos surgem: agressividade, oportunismos etc.

Também as situações de opressão percebidas como "sem saída" (donas-de-casa sustentadas por maridos opressores, homens e mulheres que se percebem incapazes de ação autônoma) se transformam quando são questionadas a submissão e tolerância em função das próprias metas e desejos. Estes questionamentos mostram que manter a conveniência é a chave perdida da saída. Encontram-se caminhos, mudanças surgem.

Alguém que só pode viver sob efeito de drogas, ao perceber que a droga é a morte, não mais consegue usá-la para viver; se continua a usá-la é para morrer.

Aceitar o limite é decidir; única forma possível de eliminar os conflitos causados pela necessidade de escolher resultante de acumulação de limites não aceitos.

Aceitar o que limita implica em poder transformar o obstáculo, implica em mudar.




- "O Diário de Frida Kahlo - Um Auto-retrato" -  Frida Kahlo
- "Berlin Alexanderplatz" - Alfred Doblin
- "Os Miseráveis" - Victo Hugo

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Thursday, September 15

Monotonia

Quando o aderente é o fundamental o ser humano se escraviza ao que o aliena.

O vício (não conseguir desempenhar suas funções, não conseguir viver sem estar alcoolizado; a droga como sedativo constante do sofrimento, da dificuldade de estar no mundo com os outros), o viver em função dos outros, ou em função das aparências, ou das instituições que dignificam, que conferem status são formas de aderência.

Intrínseco, imanente é o constituinte, o legítimo. Imanente ao humano é sua possibilidade de relacionamento com os outros, consigo mesmo e com o mundo. Transformar esta possibilidade em necessidade de relacionamento, em carência* faz surgir aderência explicitada gradualmente em satisfação e insatisfação.

Possibilidades exercidas não são quantificáveis ou "quando se trata de direito não há legitimidade", como dizia Luypen, fenomenólogo holandês. Não se discute a legitimidade de caminhar, embora se discuta para onde se pode ir.

Dirigir as possibilidades para alvos específicos cria esgotamento e transbordamento. Este processo pressupõe manutenção, cuidados, aderências. Assim, para continuar é necessário manter "como um caminho no outono: mal se acaba de varrer, logo se torna a cobrir de folhas mortas…" (Franz Kafka).

Manutenção é o que dá continuidade e também o que destrói o dia a dia das pessoas. Quando ela não é realizada cria resíduos que aumentam, crescem, se tornando obstáculos no dia a dia. Quando realizada pela persistência e continuidade, exila o novo, pois o que se repete, o que continua, já é o esperado. No exemplo de Kafka, as aderências sazonais, em relação ao caminho, exigem que o mesmo tenha sua existência preservada através da limpeza (varredura) ou da drenagem (gelo e água) para que continue sendo caminho - possibilidade.

Neutralizar aderências implica em explicitar imanências. Mudar uma visão preconceituosa acerca do outro, do semelhante percebido como diferente, realiza o milagre do encontro, do reconhecimento, da descoberta do novo, por exemplo.

Abrir mão de apoio, mesmo arriscando cair, é libertador. Saber que tudo acontece na exata dimensão das possibilidades realizadas, das possibilidades atualizadas, dá consistência, confiança para mudar, para permitir o novo, para se surpreender, para quebrar a monotonia da alienação.


* Ver: Psicoterapia Gestaltista - Conceituações - Vera Felicidade A. Campos


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Wednesday, September 7

Despersonalização

Despersonalização é o que acontece quando se vive para ser ou não ser o que os outros (pai, mãe e mais tarde os amantes e amigos etc) desejam que seja.

As imagens construidas existem para compor os diversos personagens. Rebelando-se ou atendendo as expectativas ou imposições, sendo ou não, o que se espera que seja, o indivíduo se circunstancializa, começa apenas a concordar ou a discordar com o que lhe é proposto; surgem os enquadrados, ajustados e os revoltados, enfim os marginais. Ambos estão cooptados pelos sistemas, ambos sem autonomia. Não questionam, não fazem perguntas apenas respondem, reagem ao proposto. 

Este processo não cria individualidades, entretanto, estabelece espaços, posições, direitos e deveres que demarcam e estabelecem seus caminhos e motivações. 

A permanência destas aderências, destas "externalidades" inicia o processo de despersonalização. Vive-se para conseguir realizar propósitos, atingir situações à partir das quais pode ser alguem socialmente considerado. Valer pelo que representa e pelo que consegue é o sonho de todo despersonalizado. Ao realizar seus sonhos, resta mantê-los. Passa a viver em função do conseguido, tendo que cuidar da imagem, da aparência. O que se mostra, o que se expressa tem também a função de esconder e calar.  Esse jogo impõe malabarismos geralmente aliviados através da criação de personagens, receptáculos dos fragmentos causados pelas constantes e sucessivas divisões. Exemplos extremos e encontradiços dessas divisões aparecem, por exemplo, nas atitudes de padres que abusam sexualmente de seus discípulos, nos ginecologistas que, sob a máscara de atendimento profissional, abusam sexualmente de suas clientes etc. Freud fala na sublimação de desejos instintivos, exemplifica com o sádico que se transforma em cirurgião. 

Para nós, não é o que se faz, mas sim o como se faz que vai determinar a aceitação ou a não aceitação, a sanidade ou a doença. Não existe um sádico, existe o indivíduo autorreferenciado, que não se aceita e que precisa exercer função socialmente aceitável para sobreviver e deslocar seu desejo de matar e destruir sem pagar o preço disto, por exemplo. 

As situações aderentes, as vivências circunstancializadas, situações vivenciadas em função de necessidades a serem satisfeitas, são responsáveis pela despersonalização, pela não individualização. O despersonalizado procura expressar bom gosto através da escolha de objetos, da roupa que impressiona os amigos, procura ser amigo de poderosos, dos admirados, dos vencedores. É uma maneira de se identificar com o poder, sucesso e vitória. Para ele, fazer parte, pertencer é definidor do que ele é, de onde está, de que mundo domina. A vida psicológica vai depender do que consegue, do resultado dos empreendimentos. Quando não consegue, quando falha, vem a frustração. A continuidade de frustrações leva a insegurança, dúvida sobre o próprio valor, revolta, inveja de quem consegue bons resultados e vitórias.

A insegurança aumenta a necessidade de se manter, aumenta o autorreferenciamento. Percebendo à pratir dos próprios referenciais e nele se esgotando, o indivíduo se esvazia. Este processo é cada vez mais desumanizante. É como se fosse uma caixa de ressonância, apenas ecoando o que está em volta, é a despersonalização.

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