Wednesday, August 31

Impasses e conflitos

Para a psicoterapia gestaltista, neurose é um processo que se caracteriza pela não aceitação.

Os relacionamentos familiares trazem padrões sociais significativos de acertos, erros, coisas boas e coisas ruins. Os resultados alcançados são compilados, e comparados; as pessoas são elogiadas ou criticadas, rejeitadas ou aceitas, mas sempre dentro de padrões. Neste processo se estrutura a experiência da não aceitação enquanto individualidade ao mesmo tempo em que se estrutura a aceitação ou não aceitação enquanto acertos ou erros determinados pelos padrões. Assim estruturados não há aceitação como individualidade, mas sim como indivíduos que acertam ou que erram. A pessoa não se sente aceita pelo que é mas sim pelo que pode ou não conseguir e consequentemente, não se aceita mas quer ser aceita. Para conseguir tal incoerência - não se aceitar e querer ser aceita - ela tem que camuflar o que não aceita em si, enganar, esconder, mentir, ousar e tentar. Neste jogo surgem sintomas, posicionamentos, inseguranças, medos, angustias, ansiedades.

A ansiedade desorganiza tudo. Dessa desorganização resulta a fragmentação, o aparecimento de partes descontínuas, posicionadas e apoiadas. Divisões, pontualizações, falta de sequência, dificuldade de dar continuidade às ações, criam paradoxo, incongruências relacionais: o indivíduo apoia-se no que oprime, conserva o que destroi etc.

Com o passar do tempo aparecem os conflitos que não são vivenciados como tal, mas que esmagam e pressionam, gerando pânico, vazio, insegurança. Não se sabe o que fazer da vida.

Em psicoterapia, quando as máscaras, os disfarces da não aceitação são denunciados, o individuo se sente ameaçado. Arrancar a máscara é vivenciado como arrancar a própria pele. Ele resiste, desiste, até que percebe que não arrancar a máscara é imobilizar-se e desistir de viver.

Este impasse entre querer continuar no processo da não aceitação e sentir-se imobilizado por ele, esta percepção das implicações, é o que possibilita a continuidade. Os pontos começam a ter sequência, o movimento começa a se estabelecer. É a mudança, é o movimento, é a transcendência dos limites até então responsáveis por medos (omissão), submissão, raiva. O processo de aceitar que não se aceita se inicia. Esta aceitação é fundamental para quebrar os posicionamentos, para mudar o autorreferenciamento, para recontextualizar os impasses e conflitos.




"Crime e Castigo" - F. Dostoievski

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Wednesday, August 24

O silêncio da maioria

Do ponto de vista psicológico, como entender o surgimento e manutenção de ditadores, torturadores, poderosos corruptos e genocidas, exploradores de toda ordem? Da mesma forma que entendemos o delator, o desesperado, o omisso, o submisso: pelo processo da não aceitação. Não aceitação não é algo quantificável, não existe não aceitação maior ou menor. Da dona de casa, mãe e esposa, do pai, trabalhador e marido, do adolescente ao jovem estudante até aos abusadores de poder (políticos, religiosos, patriarcas etc), a não aceitação é o denominador comum da inautenticidade, da desonestidade, da maldade.

Não se aceitar e querer ser aceito é um movimento contraditório, paradoxal. É a desonestidade, o disfarce, a inautenticidade.

No processo da não aceitação, por tudo que viveu, ouviu e fez, pelo esforço satisfeito e insatisfeito, o homem percebe que ele só vale se aparentar ser o que não é. Através do disfarce consegue enganar e, ao esconder o que ele considera precário, realiza sua sobrevivência, aplaca seus desejos. Caminha em direção à meta de ser aceito.

O indivíduo se sente inaceitável por vários motivos e não se aceitando passa a querer ser aceito.  Agindo assim, ultrapassa, nega o perceber-se inaceitável. Consegue isto se dividindo: ele não se aceita como "A" mas quer ser aceito como "B". A situação "A" é vivenciada em paralelo à situação "B". É uma divisão geralmente vivenciada como aparência e realidade, mentira e verdade, os outros e ele mesmo. Cada vez mais dedicado a aparentar o que não é, a esconder o que não aceita, se adapta ao processo despersonalizador. A vida de aparências, de imagem aceitável, é construida e tem que ser mantida. Esse posicionamento, cria imobilidade responsável pelo medo de ser desmascarado. Esta tensão constante aumenta a necessidade de distensionamentos: psicoterapia, remédios, drogas, sexo. O significado dos relacionamentos é vivenciado circunstancialmente, funcionando para manutenção de imagens.

Quando consegue ser aceito sente prazer; é aceito ao conseguir enganar o semelhante. As possibilidades de relacionamento foram transformadas em necessidades de relacionamento. Cada coisa devorada, digerida, utilizada aplaca e esvazia. A pessoa se sente sempre sozinha. A não aceitação é responsável por esta vivência desde que o outro é utilizado como objeto, coisa para satisfazer desejos, aplacar medos.

É muito comum os indivíduos desistirem de psicoterapia quando seus sintomas desaparecem. Quando mudar não é o propósito, quando a terapia é instrumentalizada, adquirem mais instrumentos para construir imagens, para disfarçar e enganar. Mantendo a não aceitação, seu núcleo desvitalizador, o indivíduo se desumaniza ao ponto de ser capaz de realizar qualquer coisa que o faça sobreviver melhor, até o colápso da depressão ou do pânico total do ser com os outros.

Ao virar uma "massa de manobra" do sistema e dos outros, resta ao que não se aceita se submeter. São os que formam a maioria silenciosa que cumplicia com autoridades e ditadores, são os que matam para não morrer e que assistem as injustiças e genocidios, dizendo: "ainda bem que não é comigo". Do lado dos agressores, dos subordinadores, o pensamento é "sou superior, sou melhor que eles" e assim justificam suas aberrações e perversões, assim como a manutenção de sistemas desumanizadores por eles criados e ajudados a manter pelo silêncio da maioria.



"Sociedade de Risco" de Ulrich Beck

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Thursday, August 18

A certeza como engano

Certeza, crença, convicção, dúvida, além de constantes na vida psicológica são temas tradicionais das discussões teológicas e da reflexão filosófica, amplamente conceituados e sistematizados nas várias teorias, tanto na religião, quanto na filosofia e na ciência.

Para nós, a certeza é um estado psicológico que se caracteriza por impermeabilização que impede a dúvida.

A unilateralização das vivências e desejos se constitui para muitos, em um porto seguro, uma âncora que garante não ser arrastado pelos ciclones das mudanças e da impermanência.

Ter certeza, jamais se questionar, jamais duvidar das próprias convicções ou da visão que tem de si é uma tentativa de evitar a ameaça da impermanência e a hesitação que a acompanha, é uma maneira de manter-se focado nas próprias metas.

A instrumentalização das possibilidades, a instrumentalização da crença de ser honesto, bom e capaz como um a priori, por exemplo, impermeabiliza. Manter a priori, instrumentalizar habilidades ou características próprias valorizadas, posiciona, esvazia, quebra a dinâmica relacional do ser no mundo.

O vazio e a fragmentação resultantes de posicionamentos transformam o humano em alvo eleito para arregimentação de fieis (nas várias religiões), para arregimentar amigos carentes e responsáveis (nos círculos familiares e de amizade). Surgem crenças, bem expressas em frases populares como: "se rezar estarei a salvo das tentações, Deus nos salva". Surgem as instrumentalizações, por exemplo, de ser responsável, cumprir as obrigações, atos simples e corriqueiros são transformados em credito, em certeza de que nada será ruim, pois "virtudes" estão sendo cumpridas. Esse processo normalmente resulta em compulsão ou em fanatismo.

O compulsivo é o que avalia, se enche de 'crédito', regras, senhas e certezas que o beneficiarão; seguindo todas as regras, todo o ritual, nada dará errado. A certeza decorre do exercício da regra, do método. Nesta vivência compulsiva, com todos estes controles, alguma coisa está errada, só que isto não é percebido, isto é o fundo, o contexto à partir do qual o comportamento é exercido.

O compulsivo diariamente tenta evitar enganos. Vive avaliando. Não existe por existir, as evidências não significam, tudo precisa ser avaliado, verificado; a necessidade de certeza se impõe. O natural, o instantâneo desespera. Ele existe através de senhas que devem ser cotidianamente acessadas.

O fanático, assentado em suas certezas, é basicamente intolerante e agressivo com todos que divergem de suas posições, é igualmente impermeável às evidências, mantendo-se em seu autorreferenciamento.

A falta de disponibilidade, a quebra da dinâmica relacional, o posicionamento nas próprias necessidades são algumas das consequências de posicionar-se em certezas inabaláveis.

Sempre podemos ter certeza quando vivenciamos as possibilidades relacionais. Sempre teremos engano quando, pelas necessidades a satisfazer, utilizamos nossas certezas como lemas, regras de conduta.



- On Certainty de Ludwig Wittgenstein

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Thursday, August 11

Prazer, sedação e repetição

Tudo que é humano só pode ser globalizado se considerarmos que o biológico é a estrutura suporte de toda vivência relacional, perceptiva, psicológica portanto. Não havendo esta globalização, surgem os elementarismos, os causalismos e pontualizações acerca do que é humano, através, por exemplo, dos conceitos de natureza humana, instintos, dados culturais como construtores de humanidade.

O que seria prazeroso para o humano, o que propicia prazer às pessoas? Satisfazer suas necessidades ou ampliar suas possibilidades.

Prazer, como satisfação de necessidades, é o alívio, a diminuição da tensão, apontando sempre para sedação.

Prazer como ampliação de possibilidades, transcendência de limites das necessidades por exemplo, leva sempre a integração e a fusão.

Os principais prazeres responsáveis pela sedação de necessidade se referem a sexo e drogas. Sexo como aplacamento e drogas (alcool, maconha, cocaina, crack, tranquilizantes etc) como aplacamento e desaparecimento de tudo que rodeia, ambos excitam e demandam continuidade, repetição. Buscar estes prazeres é esvaziante, gera rotinas, monotonia muitas vezes camufladas por invenções ritualizadas, outras por variações de parceiros.

O prazer como ampliação de possibilidades acontece quando não se esgota na satisfação das necessidades. O mesmo prazer que aplaca pode ser percebido e vivenciado enquanto transcendência de limites. Geralmente isto ocorre na vivência contemplativa - êxtase religioso - ou na vivência de integração - fusão. Não há repetição, não há monotonia. Novos marcos foram encontrados, não há sedação, existem descobertas, motivação para o que está diante: o outro, a arte, o enígma, o descoberto.

O aspecto mais negativo e destruidor do prazer como sedação é o posicionamento que ele cria. Focado na satisfação dos desejos se perde de vista o outro e a si mesmo. O que está em volta é percebido no contexto da satisfação prazeirosa de necessidades ou é percebido como insatisfatório. A droga se transforma no que vai resolver tudo, o que vai realizar mágica. O outro é o objeto que vai satisfazer, não importa se vivo ou morto. Perversões e vícios caracterizam a vivência do prazer como sedação, como satisfação de necessidades. As linhas de parentesco são violadas, as caracteristicas etárias desaparecem, o mundo inanimado e até os animais são transformados em objeto de sedação e satisfação.

Infelizmente muitos psicanalistas (Lacan por exemplo) privilegiam o prazer como a realização do humano. Freud, buscando a anti-repressão sexual na época vitoriana - sec. XIX - enfatizou o prazer sexual como libertador do homem.  Visões elementaristas pensam assim, seja a não repressão, seja atingir o paraiso, atingir a bem-aventurança, seja o que se conhece como sublimação de instintos.

Na sociedade moderna, o prazer tornou-se o referencial de tudo que se precisa, a meta a ser perseguida, quer seja pelos prazeres sexuais, seja pelas drogas.

Para nós, prazer é o que existe quando nos percebemos no mundo com o outro. É o encontro, é transformar-se, é o respirar, caminhar, enfim, é o exercício das possibilidades relacionais, resultantes de estar disponível, resultantes de não estar preso e submetido às necessidades que clamam por aplacamento.



"Retrato de um Viciado Quando Jovem", Bill Clegg 
"Os 120 dias de Sodoma", Marquês de Sade
"Confissões de um Comedor de Ópio", Thomas de Quincey


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Saturday, August 6

Inveja


O deslocamento dos desejos não realizados, a não aceitação da não aceitação, estrutura a inveja. Invejar é desejar ser o outro a fim de ter, de vivenciar o que ele vivencia, ser o que ele é. Oprimido, compactado, enquistado pela não realização de desejos, explode. Chamamos esta explosão de inveja. Criou-se um novo ser. O ser humano enrodilhado pelo autorreferenciamento, enquistado pela vivência sobrevivente, precisa, apesar de seu isolamento, se relacionar, mas isto não é instantâneo, não é espontâneo, tem que ser construído consoante os referenciais de não aceitação; então ele explode, surge o duplo, um aliado construído para sobreviver. É o invejoso que espera, através da instrumentalização de tudo que está à sua volta, carrear recursos para viver bem, viver satisfatoriamente. Fazendo psicoterapia querem mais instrumentos, mais ferramentas para consertar o errado, as falhas da máquina sobrevivente.

Para construir e cuidar deste novo posicionamento, muito esforço é necessário. Disfarçar, aparentar é fundamental. É a memtira. É a desonestidade. É também a redação da cartilha dos próprios direitos. (Lembro-me do comentário de Bataille, no livro A Literatura e o Mal, onde ele diz: "Diante da necessidade de ação, impôe-se a honestidade de Franz Kafka que não se concedia direito algum").

A reivindicação do oprimido equivale à violência do opressor. O oprimido não se questiona, não se revolta, não vira a mesa. Ele barganha, negocia, mantendo assim toda a situação de ajuste, de alienação. O oprimido, quando começa a realizar as próprias metas, acha que está tudo sob controle, acha que venceu. Luta por manter o que conquistou. O oprimido quando não realiza suas metas, quando seus desejos não são realizados, transforma-se em um invejoso. Estamos falando do opressor/oprimido enquanto relação, sem posicionamentos econômicos-sociais estabelecidos a partir da relação exploradora, da luta de classes. O pobre, o explorado, pode não ser o oprimido. O rico, o explorador, pode ser oprimido. Estar oprimido é sinônimo de estar enrodilhado. O caso da luta de classes, o caso da exploração econômico-social é um processo que só pode ser entendido enquanto deslocamento da organização de necessidades, das organizações sobreviventes.

O invejoso transforma em objetos, em ferramentas, tudo que está à sua volta, conseguindo assim desvitalizar, matar o outro. Esta atitude predatória é excelente para a consecução de seus objetivos. Ele pode se munir destes restos humanos e, sem questionamentos, realizar seus desejos.

Vivenciando inveja, vivemos enclausurados em nosso duplo, esta bolha protetora que possibilita contatos, exila o outro; vampirizando, parasitando, matamos e conseguimos sobreviver às custas do que destruímos. Ficamos sozinhos; é o tédio enquanto mesmice. Esta homogeneização vivencial mantem o autorreferenciamento. Quanto mais se desloca em comportamento invejoso, mais se mantém a fonte do deslocamento: a não aceitação dos limites. Monotonia, falta de motivação, tédio, são as estradas para um só destino: maldade, oportunismo, inautenticidade. Sobreviver implica em lutar, se esforçar para conseguir vencer. A violência se impõe. Avançar, conseguir ser o outro, ter o que o outro tem, livrar-se do outro, jogar fora o velho pai que atrapalha, internar, como louca, a mãe que já não faz nada útil, é uma imposição lógica e consequente deste processo. O duplo - o invejoso - é um robot, ele nada assume, ele não percebe as implicações de seus atos; além de se iludir, ele sempre acha que faz o melhor e se faz algo que possa parecer ruim é por não haver melhor coisa a ser feita. Explicações, justificativas são contadas. Sintomas desagradáveis aparecem, pois de tanto ser o duplo, a fim de manter o autorreferenciamento, ele já nem percebe o próprio corpo. Perde o corpo. Adoece. Toma remédios e/ou procura ajuda terapêutica, massagens, aulas de yoga, exercícios de tai chi chuan, acupuntura e incrível... melhora, isto é, arranja novas fontes para vampirizar, para parasitar, mais instrumentalização. Cada vez mais forte, mais aceito socialmente, mais justificado e explicado em seus problemas, transforma-se, via de regra, em poderoso. Violência é o que surge, medo (omissão) também. O álibi está estabelecido, o crime não será descoberto; já pode ser invejoso.

Pensa-se muito e percebe-se pouco. Vivências de presente contextualizadas no presente são esparsas. No início de nossa existência elas são frequentes, mas logo iniciamos o processo de categorização. Adquirimos recursos, senhas para decodificar, para categorizar. Aprendemos e automaticamente encaixamos, traduzimos e vamos criando os posicionamentos necessários à realização de nossas demandas/desejos. Sempre o ser humano possui a possibilidade de transcendência. Na maior parte das vezes, só a vivenciamos através de crises, que é a parada abrupta do deslocamento. Não tendo mais para onde deslocar, percebe-se o que está acontecendo: o caos da vida, a impossibilidade de funcionar, etc. Exaurido o recurso de deslocar, vem o pânico, vem a crise. É o vazio da desumanização (comumente conhecido como estado depressivo), é a perda da motivação, é o medo, é a perda da vontade de viver. Depressão é vazio, é desumanização. O processo de não aceitação da não aceitação leva à estação final: depressão. Já não consigo realizar minhas metas, não vale à pena viver, não tenho vontade de fazer nada, é o pensamento dominante do deprimido. Os prozacs e lexotans são placebos, são tentativas de construir novos andaimes para funcionar. Dostoievski já dizia: "A lógica sempre comporta o tédio", em outras palavras, a organização, a instrumentalização da vida, o esquema rígido e consequente que permite vencer é esvaziador, é tedioso. Tédio é o fastio, o desgosto, o aborrecimento. Baudelaire dizia: "O tédio é o que te torna cruel".

Como psicoterapeuta, como psicóloga, acredito que o comportamento humano, em toda a sua variedade, pode ser explicado por aceitação, aceitação da não aceitação, não aceitação da não aceitação e não aceitação. E isto só pode ser realizado através do estudo das configurações perceptivas e consequentes posicionamentos. Neste sentido, falar de inveja, de maldade, de desespero, é desnecessário. Se o faço é para possibilitar, aos leitores, percepções acerca da dinâmica relacional, acerca do questionamento e da visão psicoterápica gestaltista. Configurar percepções, implicações da relação ser-no-mundo é conceitualmente importante. Neste contexto, meus livros têm sido blocos, módulos para construção de uma abordagem relacional acerca do humano. Nunca me detive em estudo de casos clínicos; procuro sempre unidades conceituais a partir das quais possa ser vislumbrada a totalidade comportamental humana.

- Transcrito do meu livro "Desespero e Maldade", pags. 80 a 83




- "Desespero e Maldade" - Vera Felicidade A. Campos

Wednesday, August 3

Somatização ou descorporificação

A percepção do corpo, no contexto do presente, é instantânea e responsável por sentirmos bem-estar/mal-estar.

Percebo meus músculos, meus nervos, tendões, percebo o movimento muscular, percebo volume, densidade. Quando o contexto destas percepções, o meu corpo, é prolongado em outros referenciais que não os do meu corpo, surgem os significados, surgem as categorizações. Destaco o meu corpo e o observo, avalio, instrumentalizo. Esta descorporificação se constitui no que é conhecido como somatização. Quando meus músculos tremem, percebo-os tremendo; caso me posicione, destaque o tremor e com ele comece a me relacionar, aparecem os prolongamentos perceptivos tipo: meu corpo está tremendo, é falta de cálcio, é stress, ou meu medo está se exteriorizando, tenho de escondê-lo etc. Estes posicionamentos passam a significar. São índices contabilizados enquanto aceitação ou não aceitação. Quebrou-se a continuidade. É a descorporificação ou somatização. O processo de descorporificação estabelece o pânico: não tenho mais controle sobre meu corpo: vou desmaiar, meu corpo vai parar, vai explodir, etc.

É interessante determo-nos no conceito de somatização e descorporificação.

Somatização é o processo pelo qual enchemos o corpo de "resíduos emocionais", transformamos nossas frustrações e mágoas em tremores, dores, etc. É a colocação dos problemas no corpo, é como se aumentássemos o nosso corpo - além de nervos, vísceras, músculos, também passamos a ter queixas, ódios guardados - esta é a idéia popular, psicanalista e psicologicamente corrente; enfim, somatizar é aumentar o corpo, transformando-o em terreno gerador/armazenador do "psicológico mal resolvido".

O que se imagina que seja causado pela somatização, o corpo presente, é justamente o oposto. A quantidade de fenômenos e processos resumidos no termo somatização cria o corpo ausente. Ao somatizar perdemos o corpo, descorporificamos. Nosso corpo vira um objeto diante de nós, não somos o corpo, perdemos o corpo. A perda do corpo, é a perda do contexto, do fundo estruturador das percepções proprioceptivas, estereoceptivas, cinestésicas e cenestésicas. Os processos orgânicos, a movimentação muscular, a orientação espacial, a dor, as vísceras, a percepção de calor, de frio, permanecem, só que são percebidas em outros referenciais que não os do corpo. O calor, por exemplo, pode ser percebido, no contexto das definições dos livros sobre doença, como se fosse característico do início da meningite; o tremor dos olhos indica que todos vão saber que estou às vésperas de uma falência, etc.

Descorporificados, sobrevivemos em busca de uma capa, uma âncora; procuramos massagens que nos façam sentir vivos; nos aplicamos em exercícios que nos devolvam pernas e braços; corremos atrás de meditações que nos situem, coloquem nossos pés no chão.

A descorporificação é um processo grave e frequente que só pode ser globalizado se configurarmos as relações estruturantes do ser-no-mundo.

Só o homem consegue esta mágica: descorporificar-se. O ser humano, não exercendo suas possibilidades, ao se reduzir ao nível de necessidades, de contingência, transforma o corpo em um obstáculo, nele se autorreferenciando. Os animais jamais transformam o corpo em obstáculo, pois que é através do mesmo que eles realizam sua necessidade de sobreviver. Não há no animal a dimensão transcendente, existencial-contemplativa, existe apenas o nível de sobrevivência, tudo para isto converge; o corpo, o organismo, está estruturado para sobreviver. Nos animais, os prolongamentos perceptivos (memória, pensamento) são mínimos em decorrência da estrutura neurológica cerebral. (pags. 46 a 48)

A não satisfação sexual, é um processo estabelecedor de descorporificação, é a amputação. A impotência sexual, a frigidez, a percepção de sexo como pecado, como "coisa suja", provocam descorporificação. A não aceitação da não aceitação do processo de descorporificação, esta atitude desesperada e onipotente, é o que se chama de hipocondria. O hipocondríaco quer controlar, evitar tudo que o faça perceber que não tem corpo. É como se, o tempo todo, pensasse: "Viver faz mal à saúde, provoca doença". O apego aos remédios, a busca das pílulas (tranquilizantes, antidepressivos etc), a ligação com as drogas, é uma tentativa de colocar pedras, construir alicerces, muralhas de segurança cujos blocos, tijolos, são os tranquilizantes, os antidepressivos, as drogas motivadoras e relaxadoras. A base do desespero é a aquisição de capas, roupas maravilhosas, trapos protetores, a fim de esconder ossos salientes, já descarnados.

Descorporificados, passamos a nos perceber como fantasmas e isto nos assusta, advindo daí inúmeros desequilíbrios e várias tentativas de equilibrar o perdido. Quando temos de cuidar do corpo, já o perdemos.

Em psicoterapia gestaltista, o processo de recuperação do corpo começa quando os sintomas, os deslocamentos, são questionados. A percepção do processo, a inclusão da pontualização sintomática, no contexto da não aceitação, promove a recuperação do corpo. Questionar as necessidades contingentes, perceber a infinita possibilidade de ser-no-mundo, dinamiza, quebra os posicionamentos autorreferenciados e estabelece relacionamentos com o outro, com o mundo, com o próprio corpo, isto promove integração, recuperação do corpo. Acontecendo isto e havendo permanência do contexto de não aceitação, outros problemas surgem, desaparecem os sintomas e surge a grande cratera, o vazio gerador da descorporificação. (pags. 50 e 51)

- Transcrito do meu livro: Desespero e Maldade


"Desespero e Maldade" - Vera Felicidade A. Campos

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