Saturday, July 30

Autorreferenciamento

"Duas tarefas no início da vida: limitar seu círculo cada vez mais e verificar continuamente se você não está escondido em algum lugar fora do seu círculo" - esta frase de Kafka é uma maneira de resumir o autorreferenciamento.

Vivenciando o que ocorre no presente, no aqui e agora, estamos disponíveis para o outro, sem regras, sem medos. É a dinâmica relacional que permite teses abertas a antíteses, desencadeadoras de sínteses. Por causa disso os seres humanos motivam-se, apreendem, desenvolvem-se, relacionam-se. Quando este processo relacional fica posicionado nos próprios padrões, estrutura-se o autorreferenciamento

Podemos dizer que o eu, ego é o autorreferenciamento, é o posicionamento.

Quando reduzido a suas posições, sua história de vida, seus sucessos e fracassos,  suas metas, o indivíduo se autorreferencia. Passa a ser o centro à partir do qual tudo é percebido, pensado, lembrado. Ser centro é estar posicionado.

O contexto, o fundo não é percebido, diz a lei da percepção, a reversibilidade entre figura-fundo sempre existe, afirmaram os gestaltistas.

Posicionado, autorreferenciado, o homem passa a ser o fundo, o contexto imutável de todas as suas percepções. Ele passa a ser a medida de todas as coisas. Tudo é avaliado, valorizado ou desvalorizado em função do que é bom, do que é ruim, do que é útil, do que é inútil para ele. Ao construir este sistema de valores, estabelece também, regras e padrões que o massificam. "Autorreferenciados nos posicionamentos relacionais estruturadores do eu, lutamos pelo que criamos e produzimos: nossa família, nosso trabalho, nossos bens, nossa criatividade, passando a estabelecer relações em função de critérios preexistestes, defasados em relação aos contextos vivenciados. É o antes e o depois que nos norteiam. É a massificação, é a desvitalização. Esse processo esvazia a medida em que exila o ser como possibilidade de relacionamento" - pag. 36, A Questão o Ser do Si Mesmo e do Eu

"O ser humano, enquanto possibilidade de relacionamento só existe no presente, no aqui e agora. Contextuado em antes - no passado - ou em depois - no futuro - ele se posiciona. É a sua história, seus medos, seus desejos, suas necessidades, convicções que o guiam. É o eu situado, é o autorreferenciamento" - pag. 38, A Questão o Ser do Si Mesmo e do Eu

Quando o autorreferenciamento é a base de tudo, tudo fica contaminado: percepção, pensamento, comportamento, leituras,  opiniões, relações etc.

Para manter o posicionamento, o autorreferenciado se mune de aderências que o tornam mais blindado às dinâmicas da vida, tudo passa a ter o sentido ditado pelas necessidades:  saber o que se é, o que se quer, qual o propósito da existência em função de suas metas, desejos e valores,  é necessário para manter os posicionamentos que suportam o seu vazio; deste modo, só lhe resta escolher, decidir, lutar, querer. Ele luta por um mundo melhor onde suas necessidades serão satisfeitas.

No autorreferenciamento a percepção do outro, por exemplo, é contextualizada nos próprios padrões. Consequentemente surge a idéia de semelhante a mim, diferente de mim. Assim são gerados os preconceitos. O etnocentrismo é um exemplo de autorreferenciamento ampliado para todo o contexto social, explícito na idéia "indios não têm alma", por exemplo, ou em crenças de que sociedades africanas, sociedades tribais são sociedades primitvas. Essa valorização é arbitrária, autorreferenciada.

Ao desejar: "meu filho terá uma vida melhor que a minha", este amoroso propósito paternal está prenhe de autorreferenciamento. Referenciando-se nas próprias vivências, considerando-as não satisfatórias, espera que o filho obtenha melhores resultados, cria compromissos e modelos, estruturando assim, no filho, gratidão dependente, ou revolta, ou frustração, ou culpa, ou medo, raiva e impotência; esses fatores são responsáveis e resultantes da não aceitação:  nunca ter sido aceito pelo que é, mas sim pelo que deveria ser.

Temos assim a sociedade de consumo, mantida por reivindicações,  pela violência e pela depressão.

Questionando, sendo questionado, através de impasses do aqui e agora e de antíteses proporcionadas pela psicoterapia, retoma-se a dinâmica, surge a mudança, neutraliza-se o autorreferenciamento, é a disponibilidade do estar com o outro no mundo.














- Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Vera F. A. Campos

- A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, Vera F. A. Campos

 
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Wednesday, July 27

O Inconsciente

É o que não é consciente. Para Freud é a base da vida humana, é a esfera incognoscível de onde emergem os desejos, motivações, medos, criatividade, enfim, um campo misterioso e inacessível que não só compõe a psique humana, mas a fundamenta.

Nas explicações  deterministas, biológicas e causalistas o homem é o somatório de dinâmicas existentes no seu psiquismo.

Para os psicanalistas, através da projeção inconsciente expressamos nossos medos (fobias), resistências,  preferências e desejos, que são então 'percebidos' pela consciência. Percepção é entendida aqui de forma elementarista, ou seja, como elaboração de dados apreendidos pelos sentidos; da mesma maneira, a consciência elabora os dados advindos do inconsciente. O inconsciente é uma instância psíquica e como tal tem existência espacializada, tanto quanto é um constructo responsável pela explicação do comportamento instintivo sexual e afetivo social. É um conceito necessário à explicação psicanalítica sobre o psíquico e é também  um "objeto interior" responsável pelo equilíbrio e desequilíbrio psíquico, emocional. Nas palavras do próprio Freud podemos ver a dificuldade de lidar com este malabarismo de conceitos, a tentativa de objetivar algo que não passa de um constructo, terminando com a afirmação da impossibilidade de compreensão da psique ou de sua incognoscibilidade.

"A Psicanálise nos obriga pois, a afirmar que os processos psíquicos são inconscientes e a comparar sua percepção pela consciência com a percepção do mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Esta comparação nos ajudará ainda a ampliar nossos conhecimentos. A hipótese psicanalítica da atividade psíquica inconsciente constitui de certo modo uma continuacão do animismo, que nos mostrava sempre fiéis imagens de nossa consciência e por outro lado a da retificação feita por Kant da teoria da percepção externa. Do mesmo modo que Kant nos levou a considerar a condicionabilidade subjetiva de nossa percepção e, a não considerá-la idêntica ao percebido incognoscível, convida-nos a psicanálise a não confundir a percepção da consciência com o processo psíquico inconsciente objeto da mesma. Tampouco o psíquico precisa ser, em realidade, tal como o percebemos. Mas, temos que esperar que a retificação da percepção interna não ofereça tantas dificuldades como a da externa e que o objeto interior seja menos incognoscível que o mundo exterior."   Sigmund Freud, Metapsicologia, in Obras Completas, Volumen I. Madrid, Biblioteca Nueva, 1948, p.1045

A Psicanálise é uma teoria pontualizada, segmentada, trabalha com divisões e incoerências bastante fáceis de serem entendidas e reproduzidas. Não é por acaso que alguns de seus conceitos fundamentais cairam no uso popular, viraram senso-comum, como a própria noção de 'inconsciente' e frases como 'Freud explica'.

O inconsciente é um conceito chave da Psicanálise em torno do qual desenvolve-se todo seu corpo teórico e prática terapêutica, tem enorme influência nas várias abordagens psicológicas, mas não passa de um constructo. Inconsciente não é um existente, não é uma instância psíquica que tenha necessariamente que ser considerada por todas as teorias psicológicas.

Para mim, o inconsciente é um mito.*

Tudo o que é explicado pelo inconsciente, pelos instintos, pelos traumas é explicado na Psicoterapia Gestaltista pela percepção, pelas dinâmicas relacionais. Por exemplo: não perceber o próprio problema não é porque o problema seja inconsciente, mas sim porque ele é o fundo estruturante do comportamento e o fundo nunca é percebido enquanto fundo (lei da percepção).

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  * - Sobre a questão do inconsciente, ler neste Blog o artigo 'O Denso e o Sutil' e a entrevista publicada no Jornal 'A Tarde', 1988.


- "A Interpretação dos Sonhos" - Sigmund Freud


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Sunday, July 24

O denso e o sutil


Tudo o que conhecemos, toda nossa vida psicológica decorre do que percebemos. Somos um organismo com um sistema nervoso responsável pela realização deste processo perceptivo. O que nos permite perceber e o que é percebido vai depender das relações perceptivas que estabelecemos com o outro, com o mundo, com nós próprios. O processo perceptivo, relacional sempre ocorre no tempo presente. Seja esta percepção de algo presente, passado ou futuro, quando ela é vivenciada, ela é o que ocorre, não importando se é uma lembrança, uma antecipação ou um estar diante. O contexto de estruturação da percepção pode estar relacionado com o que ocorreu (passado) ou com o que vai ocorrer (futuro), mas o que se vivencia é sempre presente, quer seja o que se lembra, quer seja o que se antecipa.

Vida psicológica é vida perceptiva, podemos dizer que o processo perceptivo nos constitui, nos define e identifica. O pensamento é a continuidade, o desdobramento de nossas percepções; a memória é o que nos permite mantê-las, estocá-las. As falhas de memória são decorrentes de vivências não presentificadas (o presente como fundo, não é percebido). Quanto mais voltados para trás, para o que ocorreu, ou voltados para o futuro, preocupados com o que vai ocorrer, menos ocupação com o que ocorre, menor formação de memória, de engrama, consequentemente.

Percebemos pela visão, audição, olfação, gustação e tato. A organização existente é assim apreendida. Os dados sensoriais não são captados e recolhidos pelos sentidos para organizações posteriores como diziam os que não globalizavam o processo perceptivo (os que achavam que existiam sensações elaboradas pela percepção: Locke, Hume, Aristóteles, Freud e todos os elementaristas acompanhados também pelos dualistas: Descartes, Kant entre outros) que pensavam que consciência, inconsciente, alma, psiquê eram responsáveis pelo conhecimento.

Perceber é conhecer. Eis a grande solução, eis o grande problema colocado para as abordagens epistemológicas e psicológicas.

Os psicólogos gestaltistas descobriram através de experimentos que toda percepção ocorre graças a existência de relações de figura-fundo. Diziam que o percebido é a figura; o fundo nunca é percebido. Quando se percebe o fundo é por ele ser figura,  é a reversibilidade perceptiva.




Neste desenho, quando percebemos o colar (figura) percebemos uma jovem, quando o pregnante da percepção é o nariz, percebemos uma velha.



Também exemplificando a reversibilidade perceptiva, quando o pregnante é o desenho em preto, percebemos uma taça, quando o pregnante é o desenho em branco, percebemos dois rostos.

A vivência dessa reversibilidade, desta passagem, da mudança entre figura e fundo, é o mesmo processo que possibilita apreender as dinâmicas do processo relacional do ser no mundo.

Durante o processo de crescimento e desenvolvimento, o sistema de referência perceptiva mais pregnante para a criança é o decorrente do que está diante dela: o espaço, o outro (mãe, pai, babá por exemplo) e o seu próprio corpo.

O que é quantificável, comparável, organiza: mais forte, mais fraco, mais rico, mais pobre etc.

O denso assim organizado decide e regula. O conhecimento começa a ser hierarquizado, é mais confiável o que se vê do que o que se ouve, por exemplo. Pegar e provar (gustar) são muito comprobatórios.

Sutil, frequentemente é o que escapa ao tato, ou à visão, ou à audição, olfato e gustação. Acontece que o sutil, o relacional é o que configura e permite a globalização da totalidade, de tudo o que se percebe.

Não se percebendo a totalidade, segmentando-a, criou-se a separação entre denso e sutil, surgindo assim inúmeras explicações filosóficas, psicológicas,  e religiosas. Ato e potência (Aristóteles) res extensa e res cogitans (Descartes), consciente e inconsciente (Freud), espírito e corpo, por exemplo.

Para nós, perceber o sutil é tão instantâneo quanto perceber o denso, basta estar voltado para o que se dá * ou o viver o "ser das coisas" como dizia Clarice Lispector ou ainda o que percebe a mãe quando olha para seu filho e o vê feliz, ou triste por exemplo.

Na teoria do conhecimento, no desenvolvimento do conhecimento psicológico, o dualismo é responsável por distorções e incoerências conceituais. Por exemplo, dizer que a imitação, a repetição são fatores responsáveis pela aprendizagem gerou muitos enganos: ao privilegiar o denso, o quantitativo, quebrou-se a unidade, a totalidade.

Não se aprende por imitação nem por observação muito menos por esforço ou por ensaio e erro. Koehler fez uma experiência com chimpanzés para demonstrar isso. Como gestaltista ele estava muito preocupado em mostrar que o todo não é a soma das partes e ainda que isso se aplicava a toda e qualquer vivência humana inclusive ao processo de aprendizagem. À época, o dominante para explicar os processos de aprendizagem era a teoria behaviorista. Atualmente psicólogos cognitivistas estão presos a este esquema conceitual mesmo quando tentam melhorá-lo com a idéia de percepção (que entendem como processamento de informações captadas pelos sentidos), permanecem elementaristas e reducionistas.

Koehler fez seu experimento na ilha de Tenerife (Canárias). Ele queria mostrar que não se aprende por imitação mas sim por insight, apreensão subita de relações.

Construiu uma grande gaiola onde colocou vários caixotes no solo;  pendurou no teto um cacho de bananas. Colocou um chimpanzé dentro da gaiola e deixou outro chimpanzé observando a experiência, observando o que acontecia. O chimpanzé que estava dentro da gaiola passeava, olhava e quando avistou a banana pulou, gesticulou para tentar pegá-la. Não conseguiu. Depois de andar, olhar o ambiente (conduta exploratória) ver os caixotes, arrastou-os e os colocou uns sobre os outros embaixo do cacho de bananas, consguindo pegá-las para comer.

Os caixotes são, então, desarrumados, o macaco é retirado da gaiola e o outro chimpanzé, que a tudo assistia, é colocado na mesma gaiola para ver se imitava o que tinha assistido, para ver se ele tinha aprendido. Logo que entra, em disparada, ele corre para os caixotes e os empilha, só que não consegue pegar as bananas pois apesar de colocar os caixotes uns sobre os outros, não os colocou embaixo das bananas. Imitou o que viu  - caixote em cima de caixote. Mas a relação caixote em cima de caixote embaixo de banana não pôde ser imitada, era a sutiliza relacional, configuradora da globalização, do insight.

Quando copiamos, quando  imitamos, apenas utilizamos, não temos insight, não apreendemos a relação configuradora dos fenômenos, não transformamos; seguimos mantendo as adaptações. Nos massificamos no processo de conseguir, de parecer. Tudo passa a significar enquanto resultado, vitória ou fracasso.

A necessidade de adaptação e utilização estabelece blocos, padrões que subtraem o sutil (o dado relacional).


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* É o colocar entre parênteses husserliano. Noesis é o ato pelo qual se pensa. Noema é o que é pensado. Husserl tinha seu pensamento orientado para o problema da correlação do sujeito e do objeto no ato do conhecimento, passando assim de um certo realismo eidético para um idealismo transcendental. Mais radical que a dúvida cartesiana, a redução fenomenológica consiste em colocar entre parênteses a atitude natural, ingênua, da consciência, afirmando espontaneamente a existência do mundo, e em isolar o dado natural, contingente (o mundo exterior e o eu empírico) do eu puro, do sujeito ou ego transcendental. Modelo de toda evidência original e necessária, a consciência pura se descobre como "intencionalidade", fonte de toda significação, pois que constituinte do objeto. Sua análise eidética permite precisar modalidades de consciência: consciência perceptiva, consciência imaginativa etc. Insistindo sobre a experiência fundamental e original que o sujeito tem do outro e fazendo da intersubjetividade o próprio fundamento da objetividade do mundo, Husserl evitou o solipsismo para onde arriscava conduzir o idealismo transcendental.

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Wednesday, July 20

Raiva

Sempre me espantei com a raiva. Esta forma de deslocamento da impotência, da frustração, da omissão é destruidora, congestionante, pontualizante. Quanto mais se extravasa a raiva, mais se aumenta o autorreferenciamento.

O outro destruido, agredido, significa vitória alcançada. A raiva é o vetor transmissor de desejo. Quando se consegue satisfazer a raiva, se consegue realizar o desejo de destruir.

A raiva, este contorcionismo - transformação de necessidades em possibilidades* - é frequentemente gerado em situações de falta, de carência, de nunca ser considerado, de estar sempre pisado, ofendido, humilhado e oprimido. Ao trucidar, ao matar ou destruir, seja um carro, um animal, um ser humano ou a festa comemorativa de promoção do colega de trabalho, por exemplo, o raivoso se sente vitorioso.

Não existem pequenas ou grandes raivas, raiva não é quantificável; o seu efeito é que vai depender do seu contexto estruturante, responsável desde envenenamento de cachorros a planos de genocídio.

A raiva aplacada, satisfeita, às vezes conduz à culpa.

A culpa não é fator de reparação como pensam os freudianos, principalmente Melanie Klein com o conceito de culpa reparadora, fator necessário ao crescimento psíquico. Lembram da descrição do split (divisão), feita por Klein, quando o bebê percebe que o 'seio bom' e o 'seio mal' fazem parte do mesmo corpo, que são os seios da mãe?

Os psicodramaticistas (Moreno) valorizam muito a expressão da raiva no contexto terapêutico, usam almofadas para que a violência, a raiva sejam expressas.

Os sistemas políticos  utilizam 'bodes expiatórios' como captadores da 'raiva coletiva' em função de seus próprios interesses (os judeus foram bodes expiatórios no período nazista por exemplo). Assim, o deslocamento, o disfarce, o 'faz de conta' são bem vindos desde que sejam úteis.

Culpa é a maneira, psicologicamente viável, de camuflar seja a impotência, seja a maldade. É melhor, mais útil, mais bonito se sentir culpado do que se sentir impotente, incapaz, alheio ou responsável pelo drama do outro.

A culpa de existir, tão ouvida nas sessões psicoterápicas, remete sempre a questionamentos da impotência de estar no mundo com o outro.

Culpas antigas, usadas para esconder impotência, as vezes geram raiva entre outras coisas. Cuidar do outro, estar com o outro, é impossível para o autorreferenciado. É necessário transformar o outro em objeto, espelho refletor de imagens. A transformação do outro em objeto é um processo violento e raivoso. Pais e mães através de 'faz de conta' conseguem isto, quando o cuidado não é legítimo.

A raiva é uma resultante de processo falhado. Oprimidos, revoltados, quando conseguem ser "alguém na vida, no sistema" extravasam diariamente sua raiva, vivem tensionados, porque têm que manter o conseguido. A intriga, o estar alerta são seus combustíveis para garantir suas posições arduamente conquistadas, onde sinceridade, solidariedade, harmonia e paz não existem.

É espantoso, na raiva, ver o isolamento criado pelo autorreferenciamento, que deixa o indivíduo cego, surdo e inatingível.

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* Conceitos desenvolvidos no meu livro: Psicoterapia Gestaltista, Conceituações 



- O Bode Expiatório - René Girard

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Saturday, July 16

Por que algumas mulheres que são espancadas pelos companheiros, continuam com eles?

As sínteses, os resultados são gerados pelas contradições inerentes ao processo - é a dialética da relação senhor-escravo, citada por Hegel, retomada por Marx quando falava que o processo de exploração exercido pelo patrão (o explorador) sobre o empregado (o explorado) é aplacado pela satisfação de necessidades propiciadas pelo explorador. Em meu livro Mudança e Psicoterapia Gestaltista eu resumo esta dialética dos processos ao dizer que "o que apoia oprime".

O companheiro que espanca a mulher é o mesmo que apoia, que sustenta, que dá status, que dá jóias ou comida.

Por que mulheres são oprimidas? Por que não se vê homens espancados por mulheres? Existem diversas respostas, desde a explicação que considera a fraqueza física da mulher em relação ao homem; a histórica questão socio-econômica que sempre permitiu ao homem a condição de provedor; a passividade, a sensibilidade feminina; afirmações do tipo "os homens são de Marte (agressivos) as mulheres são de Vênus (passivas)", até frases como a de Nelson Rodrigues "toda mulher gosta de apanhar".

Sabemos que a mulher só suporta apanhar quando está submetida, sem perspectiva, acuada, sem saída.

A mulher, o homem ou qualquer ser vivo só se submete, só suporta seja o que for, quando não percebe possibilidades de saída. Não existe antítese, o ângulo é zero, sem resultante.

Para algumas mulheres, o companheiro que espanca é o que a alimenta ou o que dá carros e jóias; para outras o companheiro é tão importante e valioso que pode fazer o que quiser, desde que continue com ela. A submissão é sempre um escamoteador de vantagens. Apanhar é a moeda de transação, é o que permite ser alguém na vida, permite ter status social, ter comida ou até sentir o calor da pancada como afago, como carinho. Sempre que há submissão há degradação humana, vira-se objeto.

Apesar de transformado em objeto, sempre se é um ser humano transformado em coisa, em sobrevivente. Pode ser resgatado, pode haver mudança. Um dos primeiros passos para a mudança é a existência de contextos que questionem a situação. Uma lei, como a conhecida "Lei Maria da Penha", por exemplo, abre perspectivas. Comentários alicerçados em ordens selvagens, autoritárias e machistas, ou como o de Nelson Rodrigues  (mulher gosta de apanhar), fecham a saída ao transformar o problema, ser espancada, em justificativa para espancar.

O indivíduo, quando posicionado e degradado, perde a dignidade, rasteja por afeto, esconde a verdade para não desmanchar o castelo de mentiras que frequentemente mantém seus relacionamentos familiares e profissionais. Filhos criados em contextos de submissão serão mais tarde os que batem, os que apanham, os que corrompem e são corrompidos.

Às vezes  considera-se uma pessoa "livre" por não depender economicamente de ninguém, mas, ela pode ter dinheiro etc e estar submetida à droga, ao vício, a 'n' formas de submissão psicológica. Infelizmente essa submissão nem sempre é vista assim, é normalmente vista como "escolha", identificação individual de liberdade e poder. Quando os processos, os contextos, as estruturas são esquecidas, surgem discursos deterministas, causalistas e mágicos para explicar os fatos, explicar os comportamentos humanos. Livre não é quem faz o que quer, querer não é poder e não se está sozinho com os outros, tanto quanto submissão não é aceitação.

A mulher que apanha é bode expiatório, objeto de deslocamento da raiva e impotência do outro e isso não é um problema dela, não é submissão. Continuando a apanhar, submete-se. A submissão sim, é um problema dela.

Autonomia é o que resolve as situações de submissão. A autonomia pode começar a ser conseguida quando se percebe que se está submetido. É uma antítese que leva a mudança; vale para o estar submetido a maus tratos, tanto quanto a estar submetido ao conformismo gerado pela satisfação de necessidades.

Inicia-se a autonomia quando se quebra a submissão, a cumplicidade mantida pela conveniência.

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Wednesday, July 13

Querer não é poder

A instrumentalização do que há de mais legítimo, autêntico e imanente no humano, gera seres contingentes, nos quais a vontade, a motivação, o querer passam a ser vistos e utilizados como alavanca para se alcançar uma meta. O que era próprio, característico é então modificado, processado e destruído, principalmente de duas maneiras: a primeira, quebrando a gestalt, a totalidade ser no mundo, através de divisões criadoras do interno e externo; e a segunda, criando a falta, que surge pelo pedaço arrancado para a instrumentalização, falta essa responsável pelo desejo, vetor de mercado ultra necessário ao homem que se realiza através do consumo.

O que era natural, resultante de um diálogo, resultante da vivência do presente, vivência essa geradora de perspectivas (neste caso, futuro é o que continua o presente) passa a ser artificialismo construido, ponte para realização de metas, ambições que nos impulsionam e alavancam (neste caso, futuro é situação ou coisas a serem atingidas, negação dos limites criadores de opressões e insatisfações). Neste contexto surge o "se propor a", o "lutar para conseguir".

Querer não é poder. Querer é exercer, é fazer, é tão natural quanto andar e respirar. Acentuar a naturalidade do querer não significa reduzi-lo às estruturas biológica e fisiológica. Apenas mostra a continuidade do estar no mundo.

Viver é perceber, é querer, é realizar. Sempre que se quer, se consegue, desde que tudo o que se quer esteja em um contexto, em um raio de ação dentro das próprias possibilidades. Quando se quer o que não se pode, mas sim o que se precisa, o contorcionismo passa a imperar: tem que se transformar necessidades em possibilidades. Isso é esvaziante, desumanizante.

O querer da necessidade é instantâneo, deixa de sê-lo quando algum comprometimento nos agrava, nos adoece: o estar com dificuldade de respirar cria necessidade de sondas, por exemplo; a insônia, a incapacidade de exercer esta coisa tão natural que é o sono, cria demandas, cria vazio, cria desejo. É uma quebra de continuidade fisiológica que necessita de artifícios: máquinas para respirar, drenos, sondas etc. Nessa quebra, nesta imobilização surge o desejo.

Reduzindo o mundo ao próprio corpo, ao organismo, sem o outro diante de si com motivações diferentes, o indivíduo se transforma em uma fábrica de desejos, de quereres e poderes falhados, mas sempre buscados.

A transformação do presente em obstáculo a ser transposto por tudo que nele existe de desagradável e denunciador (problemas de origem, medos, dificuldades - não aceitação) faz com que se queira construir o que é valorizado dentro dos sistemas, começando assim o relacionamento com o próprio corpo, o próprio organismo como se fosse um outro. Essa divisão obriga a mais construções para realização do que se quer. Cria-se o lema, a meta de "querer é poder". Busca-se o corpo construido, bonito, aceitável, por exemplo;  a sexualidade aplacada, os vínculos relacionais ancorados: a família, a comunidade.

Tudo que se quer se consegue, se realiza, não existe descontinuidade, tampouco dificuldade para o ser humano quando ele integra seus limites. As dificuldades, os problemas surgem quando não se aceita limites, quando não se aceita a realidade, isto é, quando o presente é transformado em obstáculo. Isso é possível através de avaliações causadas por divisões. O que ocorre é percebido em outros referenciais não existentes - passados ou futuros - onde são estabelecidos novas percepções criadoras de metas e desejos, por exemplo. O esforço, a dita "força de vontade", o "querer é poder" são estupefacientes, entorpecedores que mantém os sistemas massificadores, desumanizadores.



- "Humano demasiado humano", Friedrich Nietzsche
 
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Saturday, July 9

Liberdade e escolha


Quando nos colocamos a questão da liberdade é inevitável lembrar que Sartre dizia que o homem está condenado à liberdade; lembramos também que Freud ao invés de falar em liberdade, preferia falar no processo da repressão exercida pelo superego no controle dos recalques inconscientes; e quanto às doutrinas religiosas, estas consideravam o livre-arbítrio como sinônimo de liberdade.

Nos anos 60, estávamos em plena Guerra Fria, a palavra de ordem era participar, era comprometer-se com uma causa. Os "pequenos burqueses" eram os ditos alienados, deveriam se engajar para mudar a ordem capitalista vigente. Sartre misturou Heidegger e Marx - alienação com Dasein - o em si com o para si, criando novos dualismos. A necessidade da inclusão política contra o sistema valorizava a escolha.

Em 1988, por ocasião do lançamento do livro Relacionamento Trajetória do Humano, em entrevista à jornalista Rosane Santana do Jornal A Tarde, eu dizia:


A TARDE - Neste quarto livro, você diz que não existe escolha. Dá para explicar isso?

Vera Felicidade
- A escolha vai estar sempre comprometida com alguma contingência.  Essa contingência passa a ser necessariamente uma aderência,  extrínseca a própria situação escolhida. Quando as situações forem diferentes e você tiver de escolher,  você vai escolher em função de algum referencial outro,  que não o da coisa escolhida.  Esse referencial outro é um comprometedor,  desde que ele é um orientador,  um determinante de conduta.  Então,  no que a sua conduta de escolha fica em função de um determinante,  a escolha já é uma total aderência,  quer dizer,  ou ela é um acaso ou é um obrigatório.  No primeiro caso,  aliena; no segundo,  orienta. De 1960 para cá,  a escolha foi uma palavra que ficou em moda,  porque Sartre começou a dizer que o homem é livre quando escolhe. Isto porque as pessoas eram tão comprometidas pelas engrenagens do sistema,  que sequer escolhiam.  O grande momento humano da não-coisa,  da geração de 60,  era quando o indivíduo podia escolher. Camus disse que a liberdade é a possibilidade de dizer não.  Caetano disse que é a possibilidade de dizer sim.  Então,  é a liberdade como aquele ato desesperado,  quando o indivíduo transcende a circunstância e consegue dizer sim,  eu quero isto,  não,  eu não quero isto.  É uma visão meio desesperada,  meio aquela frase de Brecht: "Triste do país que precisa de heróis".  Quando eu digo que a escolha é o que há de mais negativo,  quero dizer triste da pessoa que tem de escolher.



Dentro dos determinantes ideológicos e biológicos restava ao homem sonhar com a liberdade, considerá-la inatingível, desnecessária ou condenatória. As vezes a traduzia como paz e amor (os hippies por exemplo); outras vezes achava que experimentando drogas, visitando os "paraisos artificiais" poderia conquistá-la, poderia ser livre. Pensou também que tudo dependia da educação e foi criado um modelo de escola para a formação de "crianças livres", a escola Summerhill de Alexander S. Neill, por exemplo, cuja máxima era "para ser feliz a pessoa precisa ser livre para escolher seus próprios caminhos".

Sempre a liberdade era pensada dentro da moldura de externo e interno, antagonismo característico das explicações deterministas e causalistas. Liberdade era quase um dom individual ou era o que resultava do não autoritarismo, resultava dos sistemas livres.

Liberdade, como tudo, é relacional, é estruturada em contextos que quando ultrapassados supera-se limites.

O homem é um ser no mundo com o outro; não existe um ser sozinho, um estar sozinho, liberdade não é estar sozinho. Neste sentido, entendo liberdade como a possibilidade de relacionamento.

Exercer possibilidades é exercer liberdade, é ser livre.

Quando o relacionamento, seja com as pessoas, com os sistemas ou as situações é feito através da satisfação de necessidades, de desejos, de objetivos mantemos regras e situações. Ficamos submetidos ao que nos satisfaz, ao que nos alimenta, nos mantém e apoia.

O desenvolvimento das possibilidades humanas também pode nos sistematizar, nos posicionar e consequentemente nos aprisionar; acontece que as possibilidades humanas estão estabelecidas no nível existencial * - ou seja, transcendência de necessidades - e trazem em si, contradições, condições de ruptura, de antagonismo. Se quisermos ser livres o primeiro passo é conhecermos nossos vínculos, nossos apegos e compromissos. A identificação de necessidades, medos e carências é a identificação dos compromissos, é conhecer a própria vontade circunstancializada em forma de desejos que não permitem estruturar disponibilidade, liberdade. A vontade circunstancializada é a vontade neutralizada, é a vontade transformada em reação. Ao reagir respondemos à programação do sistema, dos outros, dos nossos desejos - não há liberdade.

O ser não comprometido é imprevisível (por isso na atualidade do politicamente correto é comum se pensar que só os loucos são livres, ou pior, que a liberdade é loucura, destempero).

A liberdade traz abertura, quebra prisões, muda paradigmas. É a redenção, é o existir com o outro no mundo sem violências. O mundo, o outro, não são percebidos como antagônicos, desde que não existem conveniências e interesses em jogo.

Os relacionamentos afetivos quando se transformam em acertos, compromissos e vantagens mútuas, deixam os indivíduos alijados da dinâmica do ser com o outro. É difícil qualquer mudança; quando surge alguma situação que poderia libertar da prisão, isto amedronta, imobiliza. Começam as avaliações. Este pragmatismo obriga a escolhas, por definição, impossíveis, desde que estão comprometidas com as circunstâncias. Não há como escolher comer ou não comer, dormir ou não dormir, por exemplo, quando já se está dominado pelas necessidades que precisam ser satisfeitas. Quebrar as correntes das necessidades aplacadas e satisfeitas é libertador, humaniza. Perceber seus vínculos aprisionadores e transformá-los, humaniza.

A liberdade é sempre um ato transcendente. Somente indo além da condição de sobrevivência e compromisso podemos realizá-la. Ela é sempre o diferente do esperado. Liberdade é o novo que dinamiza, que transforma.

As necessidades precisam ser satisfeitas, precisam ser neutralizadas. A propagação de regras para satisfazê-las cria os mercados, os receptores e distribuidores do que se pode escolher.

Liberdade é a transcendência das contingências, das situações escolhidas para ajustar, para acomodar, das situações ditadas pelas conveniências, pelo bem-estar. Situações que eram ótimas, boas e necessárias antes, quando já não significam, existem apenas como imobilizantes.

Exercer liberdade é transformar. Manter escolhas é manter-se adaptado. Precisamos nos adaptar para sobreviver, mas somente isso não é suficiente, pois o homem é tanto igual quanto direrente de um robô programado.

A entrega total, o êxtase religioso são libertadores. A liberdade não cria ganhos, não incentiva pragmatismo. Ela se esgota em si mesma.

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* Conceituações sobre nível existencial e nível de sobrevivência no meu livro:  Terra e Ouro são Iguais. 













- Terra e Ouro são Iguais, Vera Felicidade A. Campos
- Os Paraisos Artificiais - Baudelaire

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Thursday, July 7

A dúvida continuada dilacera

A afirmação negada que possibilita uma pergunta é a dúvida.

Este aspecto dinâmico gerado por antíteses estrutura a dúvida, desenvolvendo motivação, curiosidade. Isto nos leva a crescer e a mudar. A dúvida pode gerar desenvolvimento humano tanto quanto científico, social e filosófico.

Descartes, por exemplo, ao vivenciar a dúvida decorrente de inúmeras perguntas colocadas e negadas, chega ao ponto de duvidar da própria existência, supõe-se sonhando ou existindo sob a ação de um gênio maligno. Em suas próprias palavras: "considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado de falsa crença de ter todas essas coisas". Ele é o fundador do racionalismo e portanto enfatizava a dúvida como imprescindível na busca de conhecimento. Na continuidade de suas reflexões, ele consegue resolver a dúvida sobre a própria existência, constatando-a através do pensamento; é o famoso cogito cartesiano "penso logo existo".

Shakespeare em seu magistral Hamlet, erudito desenvolvimento de inúmeras questões: traição, fidelidade, governo, lealdade filial, medo, resume emblematicamente tudo isto na célebre dúvida "ser ou não ser"  como questão fundante e construtora do humano e da sua humanidade.

A dúvida, a depender do contexto estruturante da mesma e de quem a vivencia, pode ser transformada em conflito responsável por medos, fobias etc. No século passado, a realização ou não realização de desejos sexuais diferentes do que a familia esperava, causava dúvidas persistentes, continuadas até os dramas e as angustias existenciais, geralmente apenas esclarecidas e superadas depois de muitos questionamentos psicoterápicos.

A dúvida nos movimenta ou nos emperra. Quando ela nos detem, ela divide, dilacera, fragmenta.

Quando negamos antiteses, negamos a dúvida, mantemos o que já foi destruido, o que já não existe, fazemos de conta que nada mudou. Negamos o movimento, fugimos da dialética do universo. Esta fuga é feita através de deslocamentos, não há como destruir o movimento, mesmo parados estamos nele. Deixar para depois o que está se evidenciando, cria medo, cria pânico. Nós engendramos as dúvidas, elas são sempre resultantes de nossas vivências, não podemos ignorá-las sem nos alienar, sem nos despersonalizar.

Nos relacionamentos, a dúvida continuadamente mantida gera desconfiança do outro e insegurança quanto a si mesmo.

A dúvida* é um momento perceptivo possibilitador de relacionamento estruturante do humano ou de relacionamento desestruturante do humano. Quando se enfrenta o impasse gerado pela dúvida surgem configurações que caracterizam o humano, colorindo a existência. Quando se omite diante do impasse gerado pela dúvida, surgem desespero, alienação, embotamento da existência tonalizado pelos conflitos que escamoteiam e escalonam a dúvida para uma outra dimensão: a da escolha.

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* Extraído de meu livro "Relacionamento - Trajetória do Humano"















"Relacionamento - Trajetória do Humano", Vera Felicidade A. Campos
"Meditações Metafísicas" - René Descartes

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Monday, July 4

Ansiedade

O processo da não aceitação - a neurose - cria posicionamentos e imobilização. As frustrações, as impotências, o medo, o pânico de estar no mundo com o outro, são também sintomas desse processo. Viver sem conseguir realizar desejos deixa o ser humano angustiado. E ao estabelecer planos e metas para mudar o que o estigmatiza, ele aumenta sua não aceitação, iniciando assim o processo de ansiedade.

Cada meta atingida, cada desejo realizado, esvazia. O desejo saciado não satisfaz, pois ele, o desejo, surgiu de uma fuga, de um deslocamento, de uma vivência não presentificada, falta base, falta chão, falta estrutura. É o vazio sob a forma de despersonalização, submissão, sobrevivência, massificação. Tudo isso aparece de várias maneiras no comportamento de quem está vivenciando esse processo e pode surgir como vício, como apego,  compulsão ou  ganância, por exemplo. É o popularmente expresso como: "quanto mais se tem, mais se quer".

A realização das metas gera a necessidade de mantê-las, criando assim novas metas e insegurança: medo de perder o conseguido e de não mais atingir o que deseja. A ansiedade se estabelece. Este sintoma - a ansiedade - desorganiza a vida psicológica. Novos problemas surgem e com eles a tentativa de aplacá-los: mais amigos, mais apoios, mais resultados, mais sedativos, mais prazer etc. Deste processo, segue-se a imobilização, a depressão, que muitas vezes é uma maneira de fugir da ansiedade, é mais um deslocamento pois a depressão acalma, tira "aquela agonia". Ela revela e amplia o vazio, o despropósito do existir. Se tudo era meta, se a vida só tinha sentido pelo que podia ser conseguido, depois da repetição de satisfações e insatisfações, a pessoa estaciona na depressão. A ansiedade é um ciclone que deixa escombros; a depressão incapacita, esvazia e desumaniza. Ansiedade e a depressão que geralmente a segue são um só processo.

A angustia foi considerada a doença do séc. XX, mas, na visão do senso-comum e de vários profissionais, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim e se descobriu nela um aspecto bom: ela engendra e provoca a criatividade.

A ansiedade é a doença do séc. XXI (alguns afirmam ser a depressão, pensando que ela é diferente da ansiedade). Continuando com a idéia reducionista de que "tudo tem seu lado bom e seu lado ruim", a ansiedade é boa pois é o dínamo que nos faz agir, que nos desacomoda.

O que se chama de transtorno bipolar pode ser reconhecido nas configurações do processo de ansiedade e sua resultante  a depressão.

Os comprometimentos valorativos de um século dividido, de um século cravado em polaridades: da "Guerra Fria" até as definições de certo e errado, adequado e inadequado, virtuoso e impuro, familiar e devasso etc que pautavam a vida só podiam angustiar, estreitar comprometer a existência humana a padrões alienantes.  No final do séc. XX, muitos desses padrões foram derrubados, muitos muros desapareceram, mas nenhuma unidade, nenhuma integração do humano surgiu, pelo contrário, assistimos infinitas divisões, geradoras de ansiedade, de depressão.

A sociedade atual ampliou a idéia de que é possível conseguir o que se quiser e tudo está ao alcance, de que não existem mais estigmas, não existem diferenças, não existem limites. O grande shopping está aberto, o mercado se amplia. Se nos anos 70 o conflito era entre ser e ter, agora é entre ser e parecer. A divisão atual é basicamente entre o que é e o que parece ser; é o século dos reparos, das próteses, da construção de imagens. Tudo isto serve para alimentar ansiedades e depressões, tanto quanto para vender seus antídotos.

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Sunday, July 3

Realidade Virtual

Na história da computação o conceito de realidade virtual começou a ser usado na década de 70, no início alternando entre realidade artificial e realidade virtual, para designar um tipo específico de intercâmbio homem-computador onde era criado um ambiente que permitia a interação de vários participantes. Com o desenvolvimento da internet e sua democratização, o conceito caiu no senso-comum, alcançando enorme abrangência; estar "online" é estar no "mundo virtual". Seja entre técnicos da computação, seja entre usuários comuns, o fundamento do conceito de realidade virtual é a idéia de "simulação": a "realidade verdadeira" é simulada pelos computadores, seus sistemas e seus usuários. Várias questões e debates surgiram sobre as consequências da vivência desta "nova realidade", como se um novo mundo estivesse surgindo e com ele um novo homem. Foi, inclusive, cunhado o termo "geração virtual" para os que nasceram a partir de 1980 e todos os que nasceram antes desta data, são "estrangeiros" no "mundo virtual".

Para Husserl o aparente é o real. Não há realidade "de verdade" ou realidade "de mentira".

A realidade da ilusão, a ilusão da realidade são vivenciadas pelo homem. O real e o ilusório sempre interessaram aos filósofos, aos cientistas, a todos. Para as pessoas comuns isso sempre é pensado, em última análise, como verdade e mentira. A verdade e a mentira interessaram também a Nietzsche. Ele escreveu sobre elas em seus livros  e especialmente em um livro sobre verdades e mentiras, onde ele diz: "as verdades são ilusões, metáforas que se tornaram gastas e sem forças, moedas que perderam seu valor de troca e já não são mais agora consideradas moedas, mas sim metal". Descartes, Pascal, Wittgenstein, todos se debatiam com essas questões: realidade, ilusão, imaginação, sonho, conhecimento, reconhecimento.

Para mim a percepção, seus processos e contextos, permite resolver essas questões.

Nas relações de figura-fundo* o percebido é a figura. O fundo é o estruturante, nunca é o percebido. Real é o percebido, é a figura. Ilusão é o fundo, o não percebido, portanto não real.

Para Aristóteles as coisas existem em ato e em potência. Existir em potência é tender a ser outro, é guardar em si a possibilidade de ser outro, como por exemplo a semente que é a planta em potência. Existir em ato é a existência realizada, no mesmo exemplo, a planta é a semente em ato. É clássico o seu exemplo da estátua que existe potencialmente, ou virtualmente, no mármore e passa a existir em ato pelas mãos do escultor. Para ele tudo é tanto ato quanto potência, mesmo a planta que é a semente em ato, é também potência que pode vir a ser alimento, por exemplo.

As classificações, as tipologias - novamente Aristóteles!!! - criaram diversas realidades: realidade simbólica, realidade virtual, realidade escondida, realidade imaginada etc. Acontece que realidade é uma só, realidade é o que percebemos.

Quando estamos online (dito virtual), percebemos. A percepção sempre ocorre através da visão, audição, gustação, olfação e percepção tactil. Online não se sente gosto, cheiro nem se tem contato tactil. A percepção é igual a que ocorre diante de um quadro ou durante uma leitura - apenas percepção visual. A globalização e closura dos dados insinuados pelo contexto é feita pela memória e pelo pensamento. O pensamento é o prolongamento das percepções, não é uma outra atividade psíquica como pensavam os elementaristas, aristotélicos. A memória armazena tudo o que é percebido e assim entendemos porque determinadas percepções causam sinestesias: como o vermelho percebido no morango que exibe também seu gosto e cheiro.

Real é o percebido, virtual é real.
 
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* Gestalt -  lei de Figura-Fundo: a Figura é sempre o que é percebido, o Fundo nunca o é, toda percepção se dá em termos de Figura-Fundo, existe uma reversibilidade entre a Figura e o Fundo.

O tema realidade e lusão está desenvolvido com detalhes e explicações em meu livro:  A Realidade da Ilusão a Ilusão da Realidade


"A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade", Vera Felicidade A. Campos

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Saturday, July 2

Círculo vicioso abismal


A reviravolta, ontem, no caso Dominique Strauss-Kahn, me lembrou a história contada por Albert Camus em seu livro "O Estrangeiro". Na história, Marsault é condenado, principalmente por sua história de vida e pelo seu comportamento durante o enterro de sua mãe: não chorava e se mostrava indiferente. Estas atitudes, para os jurados, indicavam frieza e falta de envolvimento filial, ele era insensível, frio… já estava condenado!

No caso Dominique Strauss-Kahn descobriu-se que a camareira que o acusava de estupro, mentiu no preenchimento do formulário de imigração para os EUA, que além disso era amiga de um traficante, e que recebia depósitos bancários do mesmo; concluiu-se que era mentirosa, que era envolvida com criminosos e poderia estar praticando extorsão. Dominique Strauss-Kahn teve suspensa a sua prisão domicialiar, apesar do processo continuar em função das dúvidas envolvidas. O perfil da camareira foi o indutor da suspensão da prisão domiciliar.

Normalmente, os padrões, as regras, os índices comportamentais determinam tudo. Todos sabemos como as grifes, os selos e certificados são importantes e fundamentais para os que querem construir imagens socialmente aceitas, manter aparências dentro de determinados padrões.

Pensei: por se mentir uma vez, vai se mentir sempre? Como escreveu Kurt Lewin quando comentava o pensamento aristotélico: "por um fato acontecer mil vezes, nada garante, nem significa que ele vai acontecer a milésima primeira vez, que ele vai acontecer novamente" ele conclui e acrescenta: "regularidade e frequência não fundamentam o determinado. O passado não explica o presente, o passado não interfere no presente, o presente é que modifica o passado".  Sei que os psicanalistas e os deterministas não aceitam isso, pois acreditam que o antes explica o depois.

Aristóteles novamente e agora temperado com Platão: "a justiça é uma taça que pegamos ora com a mão esquerda, ora com a mão direita". Chegaremos a Kant? Para ele a ética é o cumprimento do dever acima de tudo. Temos assim mais padrões, problemas e parcializações. O grande carrasco nazista Adolf Eichmann, por exemplo, dizia que cumpria ordens, para ele só isso tinha importância, ele não fazia nenhum questionamento, obedecia*, cumpria o dever e  milhões de pessoas foram cruelmente assassinadas pelo bem da ordem. E a nossa Lei de Segurança Nacional nos tempos da ditadura militar? E todas as arbitrariedades das ditaduras comunistas, de alguns regimes islâmicos etc?

É muito perigoso, muito alienante e desumanizador, viver em um sistema cujas agências sociais, legais, governamentais, a grande imprensa e a opinião pública são pautadas por conclusões parcializadas, padronizadas. Junte-se a isso o politicamente correto, e temos assim arremedos de democracia e de liberdade, além de trabalhos e pensamentos psicológicos comprometidos em ajustar o indivíduo aos padrões reinantes. Tautologia, círculo vicioso abismal (de tanto girar no mesmo lugar, afunda).

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* Sobre a obediência e suas implicações desumanizadoras, ver comentário a um clássico experimento realizado pelo Dr. Milgram "Behavioral Study of Obedience", em meu livro "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", página 25.


  
- "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos    
- "O Estrangeiro", A. Camus  
- "Eishmann em Jerusalem", Hannah Arendt

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