Thursday, December 29

Atitude

A psicologia do sec. XIX costumava dividir o homem em intelecto, atividade e vontade (emoção). Atividade se referia a gestos, comportamento motor, significando atitudes.

Hoje em dia atitude é um comportamento que frequentemente se exerce, expressando a própria estrutura individual, psicológica, daí ela caracterizar a visão que se tem do mundo, de si mesmo e do outro.

Em Psicoterapia Gestaltista, atitude é sinônimo de motivação; para nós também a motivação está sempre no contexto relacional; a motivação não é criada, construida "interiormente" e projetada "exteriormente" como pensam os psicanalistas,  os terapeutas da gestalt therapy e outros.

Os gestaltistas, ao discutirem com os behavioristas, argumentavam que se aprendia independente das necessidades (drives) estarem ou não saciadas. O requiredness, o carater de demanda explicado por Koffka, mostra como o ambiente, a realidade, cria a motivação (os publicitários bem sabem disto).

Perceber estas demandas, estas motivações é agir estruturando atitudes. O contexto do percebido aqui e agora pode estar estruturado em passado (memória), em futuro, como metas ou perspectivas (pelos prolongamentos do percebido, pensamento) ou pode estar estruturado no próprio presente. Sempre que se percebe o que ocorre no contexto do que está ocorrendo, se é instantâneo, espontâneo, globalizando o que está ocorrendo. A atitude que surge é quase que descritiva, totalizante do percebido. Há liberdade, por exemplo.

Quando o que ocorre é percebido no contexto anterior - presentificado pela memória - a possibilidade de distorção é grande e atitudes preconceituosas, conservadoras, repetitivas de vivências anteriores, são típicas.

Quando o que ocorre é percebido em função de metas, de perspectivas (futuro), estrutura-se atitude de observar, aguardar, avaliar, recolher informação, dados. É o aproveitamento da experiência presente, do que se está vivenciando no presente, transformando este presente em uma parte, um instrumento, uma ajuda para o que se quer realizar ou evitar.

Com estes exemplos não estou tipificando a forma de agir do ser humano, apenas delineando posicionamentos, relacionamentos esclarecedores do que se percebe, do que frequentemente se faz com o percebido.

Cotidianamente ouvimos falar de pessoas impulsivas, pessoas cautelosas ou desligadas, quase como sinônimo de personalidade, característica típica destas pessoas. São as manutenções de atitudes que configuram estes perfis. Quanto maior o nível de posicionamento, maior a possibilidade de ser manipulado, maior o ajuste e a dificuldade de perceber o outro, a dinâmica do mundo e a ultrapassagem do instante.

Questões tais como permanência, impermanência, aceitação de perdas, de ser abandonado, de morrer, podem ser trabalhadas, percebidas quando são colocadas no contexto de estruturação das atitudes individuais. As percepções mudam o mundo, o mundo muda as percepções. Perceber que a grande perda é uma grande mudança que traz liberdade é uma percepção restauradora, cria atitude otimista, traz motivação. Perceber que tudo que se faz é ancorado nos desejos de vencer e ter sucesso, estabelece atitudes solitárias, pessimistas e avaliadoras.








"Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade de A. Campos
"Nebraska Symposium on Motivation"

verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 22

Compromisso

"Os impasses existenciais decorrentes de perceber o mundo, o outro como figura e colocar-se como fundo determinante desta percepção, este autorreferenciamento compromete a existência humana. Setoriza e maquiniza o ser humano, levando-o à corrida desenfreada da manutenção, do querer ser alguma coisa válida, aceita, reconhecida, considerada socialmente. Esta busca-luta, esta alienação, compromete. Surgem os padrões, normas e modelos de comportamento: as metas. Empenhado nesta conquista o homem desumaniza-se, passa a ser reconhecido pelo que o representa, por seus símbolos: carro, roupa, status, virórias, fracassos, sucessos, insucessos. O comprometimento com os rótulos cria a autofagia ou despersonalização, o vazio." *

São vários os problemas que surgem da despersonalização, da alienação e um deles é a manutenção, o compromisso. Estar comprometido é índice de alienação, de divisão, fragmentação.

Comprometer-se é estabelecer território, marcar presença e fazer acertos. Ao colonizar e manobrar estabelecemos parâmetros, consequentemente limites.

Limitados pelo compromisso, somos livres apenas em função dos mesmos. A liberdade conseguida é sempre manipulada, decorre de acertos e estratégias. Não é liberdade, é medo, angustia, ansiedade. Kafka, em "O Acorrentado", escreve: "Livre e confiante cidadão da Terra, eis que está preso a uma corrente longa o bastante para lhe proporcionar liberdade sobre todo o espaço terrestre; conquanto longa apenas de maneira a que não o solicite coisa alguma fora dos limites da Terra. É ao mesmo tempo livre e confiante cidadão do Céu, e eis que está preso a igual corrente celeste. Quando pende muito para a Terra, estrangula-o a coleira celeste; quando pende muito para o Céu, estrangula-o a coleira terrestre… Tem todavia todos os recursos, e sente isso; sim, mas obstina-se em negar que tudo se deva a um erro inicial na fixação dos grilhões." **

Este comentário kafkaniano é excelente para mostrar como a divisão, a necessidade de estabelecer separação, as metas e os medos, as crenças (ideologias) e vontades geram compromissos, e dividem. Divididos, os indivíduos correm de um lado para outro a fim de manter seus compromissos. É uma vida de manutenção, contabilizando resultados, funcionamentos, etapas para atingir metas.

Assim a vivência é de angustia e a ansiedade - causada pela divisão resultante da falta de liberdade - é mantida pela negação dos questionamentos ao que compromete.


* "Mudança e Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos, pag. 43, Zahar Editores, 1978

** "Parábolas e Fragmentos", Franz Kafka, pag. 25, Philobiblion - Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1956



















 





"Melancolia I", de Albrecht Dürer, 1514
"Uivo", de Allen Ginsberg


verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 15

Sobrevivente não questiona

A imanência do ser humano é biológica. "Essa estrutura biológica está em um lugar, em um tempo com outros seres. Estabelecemos relações percebendo, conhecendo. Perceber é conhecer, perceber que se percebe é categorizar. Essa categorização é o estar consciente de, é o saber que sabe." *

No mundo da sobrevivência tudo converge para a satisfação de necessidades, de desejos. Os julgamentos e valores, neste nível, são binários: bom e ruim, satisfatório e insatisfatório, lucro e prejuízo, eu e outro. A pregnância da imanência biológica desumaniza, não há antítese, consequentemente a dinâmica, a dialética do processo é transformada em paralelas: bom ou ruim, igual ou diferente. Psicologicamente, as vivências são desenvolvidas através de divisões paradoxais: o que apoia oprime, o marido que espanca é o que sustenta, o patrão que explora é o que permite a sobrevivência da família, por exemplo. Estas contradições não possibilitam antíteses, não permitem resultantes pois são mediadas pela avaliação do ser sobrevivente.

Ao avaliar, se exerce mediações neutralizadoras de possíveis antíteses. Examinando o lado bom e o ruim, deve-se aproveitar o bom. Este foco polariza o comportamento da sobrevivência. O sobrevivente não questiona a contradição pois um dos seus aspectos é o apoio e o outro é a ameaça, o perigo. Segurando-se no lado do apoio, só percebe o que ameaça, não percebe a contradição com seus dois aspectos, experimenta o que dá segurança como contexto de bem-estar (não se enxerga o próprio chão que se pisa, embora se enxergue o chão em volta).

O ser oprimido pela contradição não questiona, tanto quanto não exerce solidariedade, tampouco tem clareza sobre os próprios problemas, embora exorbite nas soluções buscadas. É frequente não se perceber a solidão, o medo, o vazio resultante do estar comprometido com o casamento a manter, o emprego a defender, por exemplo. Só se percebe a injustiça, a falta de relacionamento, o abandono causado pelos outros. Estruturam-se assim, raiva, inveja, medo etc.

Quanto maior a exploração, a opressão, maior a revolta e quanto mais ela é mitigada (é o clássico "panem et circenses" **) mais é mantida.

O sobrevivente não quer mudar, ele quer conseguir, quer se adaptar e ter seus desejos atendidos.

Não existe contradição, não existe antagonismo no nível de sobrevivência, as possibilidades foram transformadas em necessidades. A contingência, a circunstancialidade (consumo ou não consumo por exemplo) soterra qualquer dinâmica existencial.

Uma das funções da psicoterapia é recuperar a possibilidade de estabelecer antagonismos, antíteses, de questionar. O início do questionamento é o início do processo de humanização. Apenas sobreviver nos animaliza, nos deixa a mercê de estruturas que nos manipulam, governam e orientam.

* "A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos, pag. 19
** "Cobiça e prazer, panem et circenses - eis o que move as massas quando as desampara a crença de liberdade e da dignidade popular." - José de Alencar, Cartas de Erasmo, II






- "Primeiro como tragédia, depois como farsa", Slavoj Zizek

verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 8

Adaptação e mudança - aceitação da não aceitação

Geralmente o adaptado é o posicionado, o que renunciou a qualquer mudança para manter o que conseguiu. Assim vivendo ele é um mediano, é também o que não se aceita medíocre, adaptado. Surgem sintomas e deslocamentos a fim de criar um movimento, uma dinâmica - ainda que ilusória - diante de seus posicionamentos. Movimentos pendulares, ao longo do tempo dividem e fragmentam, estruturando não aceitação de ser o que é, de ter a vida que tem. No processo terapêutico, ao perceber a não aceitação, suas estruturas e implicações, surge a aceitação da não aceitação. É um momento muito importante, é a quebra da adaptação, do posicionamento e o início da mudança. Tudo é novo, diferente, as metas são transformadas em perspectivas, o que gerava vergonha e medo passa a ser questionante de responsabilidade, de participação; inicia-se a mudança responsável pela aceitação.

Quando se está preso à idéia de que toda mudança decorre de luta, revolta e desadaptação responsáveis pela transformação social, não se consegue imaginar a aceitação como uma ação antitética. Só existe antítese se houver um ponto de encontro. O ponto de encontro das constradições é a própria antítese, isto é, a configuração do impasse e da impossibilidade. No contexto das relações humanas, a percepção desse ponto de encontro, das contradições, permite aceitar o que ocorre, independentemente de padrões valorativos, necessidades de sobrevivência ou desejos de mudança. Negar uma realidade com o objetivo de criar outra é estabelecer vias paralelas que não configuram antíteses. Não há encontro nem integração das contradições. A revolta e a não aceitação estruturam o desejo, a necessidade de mudar e de não sofrer mais. Se há negação do fenômeno é impossível o encontro, e portanto a contradição. A negação do limite de uma dada situação estabelece a existência de paralelas que criam dualismos, responsáveis por divisões e fragmentações tanto no indivíduo quanto em suas relações com os outros.

Uma das grandes questões humanas é como existir fora dos padrões sociais e econômicos e, ao mesmo tempo, estar neles e deles depender. Quanto maior for essa contradição, maior também será a possibilidade de se perceber e se descobrir como ser humano. Tal descoberta é libertadora, quebra as ordens contingentes e produz antíteses.

Aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela integração do limite. Frequentemente a aceitação é confundida com conformismo, submissão àquilo que oprime, frustra e agride. Mas a integração do limite é o que ocorre quando vivenciamos o presente, quando, sem medo nem esperança, nos relacionamos com a realidade. O medo é a avaliação do que acontece em função de referenciais outros que não os do momento. São os a priori, os traumas, as certezas já assumidas que carregamos como filtros responsáveis por novas categorizações, preconceitos, estigmas, culpas, inferioridades e vivências já acontecidas e cristalizadas. Esperanças constituem anseios, vontades e desejos contextualizados no futuro. A questão da temporalidade é complexa na filosofia, na psicologia e na física, mas em certo sentido é simples quando relacionada com vivência e percepção.

Exemplo disso é a percepção de que o patrão que explora é o mesmo que alimenta, de que aquele que oprime também apoia. A vivência dessa contradição cria sentimentos de revolta, medo, culpa, angustia e resistência, ao mesmo tempo que enseja luta, oportunismo e despersonalização, quebrando a individualidade e impedindo a mudança. A transformação surge apenas quando se percebe, por exemplo, que apoio e opressão são dois aspectos do mesmo processo. A percepção do limite estrutura as antíteses responsáveis por sínteses. A liberdade e a consequente quebra das barganhas abrem novos caminhos. *

* Idéias desenvolvidas por mim nos livros "Terra e Ouro são Iguais Percepção em Psicoterapia Gestaltista" e "Mãe Stella de Oxossi Perfil de uma Liderança Religiosa", ambos editados por Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro





















"A Dialética da Natureza" de Friedrich Engels
"Fenomenologia do Espírito" de G.W.F. Hegel


verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 1

Por que se distorce? Por que se unilateraliza?

Ilhados na sobrevivência os seres humanos percebem o que está em volta de si através de valores em função da satisfação ou insatisfação de suas necessidades (demandas). Uma das resultantes imediatas deste processo é a transformação do outro em instrumento, ferramenta, meio para satisfazer desejos (deseja-se o que falta) e necessidades (é o que permite sobreviver). O outro passa a ser caçado e utilizado para apoio e prazer.

A distorção é resultante da manutenção de posicionamentos, da quebra da dinâmica relacional do estar no mundo. Inicia-se assim, um processo que se caracteriza por buscar metas, por autorreferenciamento etc enfim, distorção perceptiva, unilateralização.

Neste contexto, tudo que se percebe, consequentemente o que se pensa - pensamento é prolongamento da percepção - é binário, mecânico, limitado: é bom? É ruim? Serve? Não serve? Este referencial, esta matriz verifica e avalia tudo que ocorre. Qualquer situação nova vai ser assim examinada. Nada é feito ao acaso, nada é feito por fazer. Diletantismo é considerado loucura, é considerado perda de tempo.

Apoiados nestes critérios, observam e avaliam o que leem, o que vêm, o que ouvem, o que propicia prazer. Sabem o que deve ser buscado e o que deve ser evitado. O que não couber no esquema tem que ser adaptado: fragmentam, dividem para manipular.

Esse processo é esvaziante, aliena do presente, leva à criação de metas, busca de objetivos como: "paz interior", "realização de sonhos" etc.

Nesta nebulosidade, nada é claro, nada é luz, tudo é distorcido, misturado, confuso. Não há apreensão de totalidades, só existe luz no fim do túnel e esta tem de ser buscada.

Quando o que acontece é percebido em contexto diverso do que está estruturado ou acontecendo, ocorre distorção perceptiva. A percepção do percebido é a categorização, o saber que se percebe. Quanto mais relacionado ao percebido está a percepção do mesmo, maior a globalização; quanto mais distante - temporal ou espacialmente - maior a fragmentação, a parcialização. Nesses casos, para nomear, significar tem que se preencher os vazios, somar as partes. Este processo é a distorção perceptiva responsável por preconceito, divisão, oposições e semelhanças.




"Obras Completas", Sigmund Freud
"O Homem e seus símbolos", Carl Gustav Jung


verafelicidade@gmail.com

Thursday, November 24

O oposto como semelhante

O semelhante é o igual, o oposto é o diferente. Como entender oposto como semelhante, como sair deste antagonismo, desta divisão?

As situações estão colocadas como paralelas, não há possibilidade de antítese, de confronto; existe assim a impossibilidade de surgir síntese, no caso, comparação dessa contradição, quase non sense.

Opostos são contrários, são polos de uma mesma unidade. Só através da mediação podemos categorizar a oposição. Opostos pela condição de riqueza e pobreza, mas semelhantes enquanto seres humanos, por exemplo, é elucidativo.

Quando se fala, por exemplo, em o ser e o mundo, em opostos ou antagônicos, gera-se sempre continuidade, gera-se semelhança quando é percebida a mediação que os dividiu, que os transformou em opostos.

Ir além das parcializações, dos posicionamentos, possibilita perceber o outro, sua humanidade. Entrincheirados nas classificações sociais, econômicas, nos tipos físicos, nos critérios estéticos, transformamos as aparências, as resultantes, em sinônimo do que é intrínseco e definidor.

"O outro, o diferente de mim, meu antagônico é também o idêntico a mim, meu semelhante".*

Quando inteiros, individualizados, percebemos unidades.

Quando divididos, fragmentados os seres humanos são  transformados em ponto, objeto que tenta se apoiar, segurar, a fim de manter coladas suas fragmentações. A necessidade de funcionar, conseguir, brilhar é o polarizante. É isto que mantém suas posições conseguidas. Qualquer mudança que ameace este "equilíbrio", qualquer movimento é malvisto, não é aceito. Ele vive juntando e escondendo sua divisão, ele é o outro que ele cola e conserta. É a desumanização. Esta situação explica crises de pânico, também explica atitudes de maldade, de tortura, de obedecer cegamente para manter o que foi conseguido.

Nesta situação o outro é o diferente, sempre o antagônico, nunca idêntico, não há mediação da aceitação, do encontro. Percebe-se o semelhante, mas ele é visto como apoio ou ameaça; o pregnante é o que ele pode significar, representar de bem ou mal. Vazio ou plenitude, solidão ou integração são assim estruturadas.

* "Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista",  Vera Felicidade A. Campos, pags 112, 113




"A Questão do Ser do Si Mesmo e do Eu", Vera Felicidade A. Campos
"Productive Thinking",  Max Wertheimer

verafelicidade@gmail.com

Thursday, November 17

Interno e externo não existem

Interno e externo são apenas indicadores semelhantes a direita e esquerda quando indicamos direção. Sempre exigem uma referência a partir da qual são estabelecidos.

O uso frequente dos termos interno e externo transformou-se em metonímia, um filtro, uma lente pegajosa que atrapalha a percepção, a categorização do que é humano, do que é psicológico.

Freud, por exemplo, falava em "realidade externa" e a via como projeção do inconsciente. Para ele, esse processo de projeção era gerenciado, controlado pelo próprio inconsciente e caracterizava a natureza humana. Essa dicotomia foi tão divulgada e incorporada ao pensamento ocidental de maneira geral, que atualmente, qualquer coisa diferente disto pode até ser entendida e aceita, mas sempre é vista como tradução da mesma questão.

Para mim não existe interior, não existe exterior, existe uma relação.  Uma coisa "interna" a A é "externa" a B e vice-versa. Trata-se de mera sinalização. Sinais são convenções. Tudo é construído, exceto a possibilidade de se relacionar, de construir. Na página 27 do livro "Terra e Ouro são Iguais" * escrevo: "É muito difícil para o psicólogo dualista, categorial, tipológico entender o comportamento humano sem recorrer às ideias de interior e exterior. Ainda hoje Jung é seguido e tido como grande pensador: ele classificava o humano em tipos introvertidos e extrovertidos. Achava, tanto quanto Freud, que a percepção é uma projeção dos conteúdos internos do sujeito. A própria percepção, nessas conceituações, é um objeto."

Através do conceito isomórfico, os gestaltistas alemães disseram que as estruturas (gestalten) neurológicas são iguais às psicológicas, disseram ainda que o que está dentro está fora. Percebemos por haver estruturas neurológicas e psicológicas que possibilitam isto.

Imaginar um interior, um exterior é coisificar o homem, é transformá-lo em uma caixa e depois procurar abrir saídas, janelas para suas demandas e realizações, estabelecendo aplanadores de caminho - como fazem várias psicologias e psicoterapias adaptativas - não sabendo o que é o homem, criam uma série de senhas para decifrá-lo e explicá-lo. Falam de interioridade como se existisse um lugar do psicológico dentro do organismo humano, por exemplo: mente, inconsciente etc.

Não existe o inconsciente, gerenciador da realidade interna, também não existe a mente, receptáculo de dados. O que existe é o homem no mundo, percebendo, categorizando, conhecendo. Perceber é se relacionar, é conhecer. O pensamento é o prolongamento da percepção.

Pensar é prolongar o percebido é uma percepção que se expressa ou que se memoriza.


* Terra e Ouro são Iguais, Percepção em Psicoterapia Gestaltista, Vera Felicidade A. Campos
















- "Icons",  Maurits C. Escher
"Godel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid", Douglas R. Hofstadter


Escher e a Fita de Möbius  ("As Formigas")
Animação do quadro de Escher: "A Fita de Möbius II"




verafelicidade@gmail.com

Thursday, November 10

Dividir para entender, dividir para limitar

Dividir sempre fez parte das estratégias de vida, estratégias de guerra e organização das comunidades.

Ir por etapas, seguir o passo a passo é a regra para análise e resolução de problemas. As classificações, as tipificações são fruto de divisões. Dividir é separar, fracionar, quebrar, criar classes, tipos. Separa-se para em seguida agrupar-se na tentativa de organizar e entender.

Desde pequenos somos ensinados a pensar e agir a partir das divisões. Crianças aprendem a traçar, a demarcar territórios, separarando conceitos que são indissolúveis. A reta, por exemplo é uma sucessão infinita de pontos, o ponto é interseção de infinitas retas. Esta sequência de relações foi transformada na afirmação: ligando o ponto A ao ponto B, temos uma reta. Uma simplificação que leva a ignorar os infinitos pontos da reta e sua interseção com outras retas. O resultado é que se segue na vida imaginando setas ----->  interações entre pontos previamente determinados <----> pensando tudo em termos de causa e efeito, em termos de consequência, de divergência.

Aprende-se a ser dualista, a criar dicotomias, tomar as resultantes, os polos como unidades que se opõem, jamais se aprende que a polaridade resulta da unidade.

Negando a relação restam os elementos, como eu dizia em "Terra e Ouro são Iguais": "O pensamento filosófico/ psicológico enfocou os polos, os posicionamentos, quebrando ou desprezando o eixo, a relação configurativa de sujeito e objeto. A filosofia, na busca de explicar o conhecimento, imaginou um sujeito que conhecia e objetos que eram conhecidos. Isto posto e aceito, surgiu o grande debate sobre quem iniciava o processo. Era o sujeito que pela idéia criava o mundo ou o mundo que era captado pelo sujeito? Surgiram assim as diversas filosofias idealistas e materialistas. Resíduos posicionantes disso são os conceitos de idéia, alma, espírito, consciência, mente, sensações, matéria, como explicativos desencadeantes dos processos cognitivos". *

Divide-se para limitar áreas e manipular conhecimentos. Bastaria se deter na unidade ser no mundo e tudo teria sido muito diferente: não teríamos a idéia de inconsciente, de interno/externo, de natureza humana, energias ou ações divinas para explicar o comportamento humano.

É muito fácil copiar e colar, partir e depois juntar a fim de tecer considerações acerca de qualquer coisa. Esta atitude de separar, cria preconceitos, certezas, regras, medos, limites, controles, influenciando a formação de divisões e restrições, criando situações inexistentes como a tão comentada vida interior, realidade externa/interna, vivência objetiva/subjetiva, rótulos que viraram verdades. Como o comportamento humano é estruturado através de relacionamentos, ele integra estas divisões. Isto gera conflito e o fragmenta. O ser ou não ser, o fazer ou não fazer, desistir ou não desistir de relacionamentos, mudar de trabalho ou continuar no trabalho etc são divisões vivenciadas no contexto desta avaliação, onde tudo se exclui, nada se integra.

Em Psicoterapia Gestaltista sabemos que o que divide é o que unifica. A divisão decorre de um processo que foi quebrado, separado, interrompido. Encontrar o ponto (motivo) da divisão é encontrar o contexto, a sequência de unificação.

* "Terra e Ouro são Iguais, Percepção em Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos - pags 25 e 26


















- "A Divina Comédia", Dante Alighieri
- "O Príncipe",  Nicolau Maquiavel


verafelicidade@gmail.com

Thursday, November 3

Preconceito

É o conceito antecipado, é o entendimento, o conhecimento independente da relação que se estabelece com o conhecido. É a cópia, a reprodução a sobreposição de conhecimentos prévios sobre situações novas. Conceitos antecipados geram cópia, genéricos usados sempre em abundância, necessitando, portanto, de catalogação e arquivamento para estar sempre prontos para o uso.

A sabedoria popular, através de sua coleção de provérbios, também ajuda a incorporar experiências responsáveis por conceitos antecipados, por preconceitos. "Quem vê cara não vê coração", "diz-me com quem andas que te direi quem és" são alguns exemplos. Segui-los, orientar-se  por este saber disseminado pela vox populi é impermeabilizar-se às próprias experiências. Estes filtros são mediações que obscurecem. Fica impossível perceber igualdade quando tudo já está carimbado e descrito como bom, ruim ou prejudicial.

Na Idade Média, além de regras de conduta e geradores de advertências, os provérbios representavam quase todas as relações de superestrutura. Mesmo a pintura era influenciada por eles. Hieronymus Bosch, por exemplo, tem um de seus mais conhecidos quadros baseado em um proverbio flamengo: "o mundo é como um carro de feno e cada um colhe o que puder" (no sec. XVI se referia aos desejos materiais, à ganância, à concorrência, à falta de solidariedade). Este provérbio medieval ainda pode ser usado hoje em dia; a melhora é que muita antítese é feita a esta atitude, através de leis principalmente, mesmo que tenhamos os atuais "salve-se quem puder" e o "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Além da experiência, outra fonte geradora de preconceitos são as expectativas criadas pelos desejos. O desejo estabelece os padrões, as regras necessárias para sua realização. Satisfazer a carência, arranjar amigos que podem ser bons, úteis, obriga a frequentar ambientes que favoreçam a realização deste desejo. Amigos bons são, por exemplo, os bem educados, os que ocupam lugares destacados na sociedade. Quando aparece alguém com estes requisitos, imediatamente é considerado bom. Este julgamento antecipado induz a muitos enganos. Frequentemente "o bom partido" por exemplo, também está interessado em conseguir realizar seus desejos, colecionar namoradas etc.

Só percebendo que todos somos iguais, que as diferenças entre os seres não são estabelecidas pelos aspectos étnicos, nem pelos culturais, educacionais e econômicos é que é possível não ter preconceito em relação ao que seria um ser humano bom ou ruim. Só através do relacionamento com  o outro é que podemos perceber o que é humanizado ou desumanizado.

O preconceito, quando ocupa o lugar dos conceitos, restringe a experiência, parcializa o encontro com o outro e com o mundo, à medida em que orienta, sinaliza. É um impermeabilizante, um filtro, uma cunha responsável por quebras e divisões. Ser preconceituoso, ter conceitos antecipados, não importa a respeito do que seja, é viver defasado, é ter informações e conhecimento de segunda, terceira mão, é estar sempre manipulado.

O preconceito é a alavanca para a manipulação, quer seja da família, da sociedade, das ciências, religiões ou ideologias.

Ciência e religião alicerçadas em dogmas geram muitos preconceitos responsáveis por terríveis carnificinas: guerras religiosas (católicos e protestantes, árabes e judeus), genocídios comandados e fundamentados em pseudo verdades científicas como raça superior e inferior por exemplo.

Ter um selo de garantia exige avaliação, verificação. Preocupado em não errar, em não se enganar, o homem se aprisiona ao que o limita.







. "O Carro de Feno", Hieronymus Bosch  (Museu do Prado, Madrid)
. "O outono da Idade Média", Johan Huizinga

Animação com partes do quadro "O Jardim das Delícias"
de Hieronymus Bosch, por Eve Ramboz



verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 27

Sem saída

Vivenciar o presente pode ser sinônimo de vivenciar o desagradável, despropositado e ameaçador. Situações de guerra, assalto, doença, desastre deixam isto bem claro. Essas ocorrências determinam  ansiedade, medo, que é a omissão diante do que ocorre ou determinam coragem e participação.

Ter medo é se omitir, é colapsar, sumir diante do que está acontecendo; isso se dá às vezes através do desmaio, através do desespero, dos gritos e das rezas obstinadas. Havendo participação não há medo: se enfrenta ou foge, às vezes única maneira de enfrentar, ainda ação.

Quando não temos metas - ou seja, planos e desejos a realizar no futuro, que não têm estrutura na própria realidade - não estamos divididos ao vivenciar o presente. Esta organização nos permite não colapsar com os impactos, o caos, a desorganização que está acontecendo no presente. Esta atitude cria perspectiva de vida responsável pelo descongestionamento; "o grande horror" que acontece adquire proporções menores, suportáveis e começa a ser percebido como obstáculo a ser resolvido, neutralizado, contornado.

Kurt Lewin relata o que aconteceu com os judeus alemães diante da escalada destruidora do nazismo e do antissemitismo na Alemanha. Este caos social desumano levou vários judeus a cometerem suicídio. Ao perderem toda e qualquer perspectiva de vida, abreviavam o final terrível que parecia inexorável. Frequentemente esta atitude era a do judeu assimilado. Lewin nos relata que o judeu apoiado em sua tradição religiosa, em sua história, sabia que era mais uma perseguição; durante cerca de 5 mil anos outras já haviam ocorrido e seu povo sobreviveu. Perceber este processo, serviu de respaldo, abriu perspectivas e fez com que resistissem ao desespero, resistissem à vontade de desaparecer, sumir, mesmo com o sacrifício da própria vida. Esse estudo de Lewin foi eloquente no sentido de mostrar que o caos pode ser organizado, que o respaldo surge da própria história individual.

O judeu assimilado à cultura germânica achava impossível haver tais perseguições dentro de uma sociedade tão civilizada como a alemã. Os que estavam apoiados na tradição judaica, sabiam do antissemitismo que sempre existiu nas diversas culturas e sociedades. A vivência do terror não foi inesperada para eles, tinham o processo histórico como contextualizante.

A vivência é sempre do presente mesmo quando se recorre à memória. Na situação do presente aterrorizante, reduzido ao fato, a lembrança, a memória (recordações são vivências presentificadas, são prolongamentos perceptivos) estrutura um novo contexto que permite a percepção do que ocorre, no caso o caos, de uma maneira nova, responsável por continuidade, consequentemente por perspectiva de vida.

Na vivência pontualizada do presente como sem saída, os pontualizadores podem ser situações presentes neutralizadoras de perspectivas ou podem também ser situações de memória, presentificadas sob a forma de medo e pânico. Em um de seus escritos, Kafka nos conta que ao esperar a execução na forca para o dia seguinte, o condenado, não querendo passar pelo que o aguardava, na véspera se enforca em sua cela.

Qualquer situação absurda possibilita enfrentamento ou crise, tudo vai depender de se estar inteiro ou dividido na vivência do presente ameaçador.

Quando o passado superpõe-se ao presente, mesmo que sob forma de esperança, ele divide, consequentemente aliena do presente, criando ansiedade pela necessidade e espera da saída.

Quando o passado alarga o presente surge perspectiva, surge o futuro; a redução ao que está acontecendo, o estreitamento é alargado e novas configurações surgem neutralizando o sem saída e estruturando coragem, tenacidade, resistência.














"O Holocausto", Martin Gilbert
"O Terceiro Reich no Poder", Richard J. Evans

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 20

A vontade de dar certo é um erro

Só se pretende um futuro diferente do presente, quando não se aceita o que se está vivendo. Partindo de uma incoerência, desejando o que não está estruturado em seu presente, chega-se ao desacerto. Ninguém, satisfeito em estar vivo, deseja morrer (futuro), por exemplo. Vivenciar o presente integralmente não deixa brechas para avaliar. Só em vivências parcializadas é que surge a comparação, a avaliação. Esta divisão estabelece o bom, o ruim, o satisfatório, o insatisfatório; cria inveja, ganância, medo, insegurança. A continuidade é quebrada e classificações e tipificações aparecem.

Querer dar certo é pensar em resultados, é vivenciar o presente como ponte para atingir metas.

Evitar o que se considera prejudicial e insatisfatório demanda estratégias e esforços e assim se começa a construir metas que, quando realizadas, geram vazio. Para validar e justificar os esforços, busca-se a todo custo, manter o conseguido.

Frequentemente obstinação, compulsão, medo, aumento da necessidade de ser considerado, vontade de acertar são mantidas para corrigir o considerado erro de apenas existir e de não encontrar significado nisto.

Estes seres obstinados, cheios de propósitos, estão dedicados à suprir suas necessidades e/ou a dos que estão à sua volta. São os baluartes do sistema, os apegados a suas rotinas, a seus vícios, tanto quanto são os obstáculos a tudo que é espontâneo, instantâneo, desvinculado de referenciais. O drogado é também um mantenedor do sistema. Viver em função de seus vícios é ser obstinado, é se consagrar ao seu prazer-alívio e sobreviver dependendo de escoras familiares ou sociais.

Para o obstinado nada pode ser apenas o que é; para ele não existe nada gratuito - tudo tem preço: ele passou a vida pagando. Para ele, se não tem preço, não vale, não significa. O preço etiquetado, o valor é o determinante da motivação, da vontade. Para eles a realização, o prazer é um tesouro escondido, consequentemente tem que se descobrir o mapa da mina, tem que conseguir acertar.
















- "Os Sonâmbulos", Hermann Brock
- "O Valor de Nada", Raj Patel


verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 13

Formação de identidade

Formação de indentidade é um processo decorrente do relacionamento com o outro em um determinado contexto cultural, social, histórico.

Todo conhecimento é perceptivo, é relacional, este processo identifica o humano, permite dizer que ele é constituido pelo outro enquanto ser no mundo.

Frequentemente o que se chama identidade se refere às características culturais e sociais. O fazer parte da cultura X, Y ou Z, o estar inserido em determinados grupos sociais,  estar inserido em determinada classe econômica, determinam oportunidades, impedem satisfação de necessidades tais como a de comer nutritivamente, por exemplo. Surgem os pobres, os ricos, os remediados e medianos, as minorias etc. O acesso à educação é também outro fator usado como identificador.

Nenhuma destas dimensões açambarcam, identificam o humano. A impossibilidade de identificação se faz sentir quando nos deparamos com as pulverizações do conceito de identidade: identidade étnica, identidade cultural, identidade sexual, identidade religiosa etc.

Sociedade, Estado geralmente estão voltados para manutenção da sobrevivência de seus membros. Sobrevive-se e este processo despersonaliza pela opressão tanto quanto pelo apoio. Os homens reduzidos a suas necessidades, transformam-se em massa de manobra social. Oprimidos e apoiados pelas instituições, realizam suas "vocações" buscam melhorar, lutando e sonhando com mundos e sociedades melhores.

Sociedade e cultura não são estruturantes do humano, são estruturantes de relacionamentos que humanizam ou desumanizam, que reduzem os homens à sobrevivência, à satisfação de suas necessidades ou que permitem realização de suas possibilidades.

Limites geralmente representados pelo poder exercido por minorias sobre maiorias escravizaram e escravizam o ser humano. A transformação de seres humanos em mercadoria - antigamente o tráfico negreiro (escravidão) e agora a venda das ditas "escravas brancas" para os bordéis - é um aspecto deste poder destruidor, sinonimizado com ordem econômica ou lucro não importa como.

Cultura e sociedade são sempre estabelecidas sobre hierarquias e interesses econômicos. O homem encarcerado em sua cultura, sua sociedade, sua profissão, seus grupos, suas instituições é um ser posicionado. Agrupa-se, filia-se, satisfaz necessidades e sonha com a realização de desejos impossíveis; estas metas o transformam em massa de manobra, seus sonhos, tais como "ter um carro", "viajar", "comprar um imóvel" são manipulados e administrados pelas instituições sociais, ficando assim, acorrentado a tudo que o limita em função do que deseja.

O homem é o retrato de sua época se as contingências enquanto satisfação de necessidades são consideradas (nível de sobrevivência), e ele independe de suas molduras culturais e sociais, ele continua o mesmo em todas as épocas se forem consideradas suas possibilidades de relacionamento com o outro (nível existencial).



- "O Navio Negreiro", Marcus Rediker
- "Principles of Topological Psychology", Kurt Lewin
- "L' Homme Nu", Claude Levi-Strauss

verafelicidade@gmail.com


Thursday, October 6

Padrões e costumizações

Outro dia, lendo Proust - Jean Santeuil* - achei engraçado o que ele escreveu sobre Sarah Bernhardt, a famosa atriz de teatro do sec. XIX, ele dizia:  "... assim como todo amador apaixonado pelo talento de Sarah Bernhardt sentiria diminuir sua paixão no dia em que, mesmo que continuasse grande artista, Sarah Bernhardt já não falasse mais com os dentes cerrados, sempre rindo, bem depressa, sem que se entenda bem o que diz..."

No tempo de Sarah Bernhardt era possível se apresentar fora dos padrões, era possível expressar seus próprios hábitos. As idiossincrasias eram aceitáveis e identificadoras. O "politicamente correto" não era o determinante. 

Atualmente, para se apresentar seja na festinha do amigo, na repartição pública, na empresa, no palanque ou na TV, para ser aceitável é preciso preencher algumas regras, atender alguns padrões. Além do "sorriso branco total" comum à todas as celebridades do mundo do entretenimento, de políticos, de jogadores de futebol etc uma série de ítens devem ser preenchidos: saber como se comportar, seguir as regras das boas maneiras, usar o que está na moda etc. A mesmice, a cópia são de tal ordem que surgiu o novo padrão:  costumizar. Costumizar tudo, do sorvete às camisetas e assim tem-se a impressão de estar interagindo de maneira individualizada e única quando na verdade apenas se manipula meia duzia de variáveis padronizadas.

No universo do consumo, ao se buscar manter aparências valorizadas para ser aceito, se cria a expectativa de seguir, de imitar. O novo é o que faz igual, inovar é copiar, é costumizar. Costumizar não passa de apoderar-se de sugestões, reciclá-las e apresentá-las como próprias.

A manutenção desta atitude de apropriação e cópia cria esvaziamento, despersonaliza. Não se sabe quem se é, mas se sabe com que celebridade se quer parecer ou se acha parecido; assim se torna necessário buscar símbolos que o identifique.

As leituras dos manuais de auto-ajuda, tanto quanto o deciframento de seus mistérios, de seus arcanos, de seus portais mágicos é uma regra. É este processo de constante alienação, de coisificação que requer regras, padrões gerais e costumizações específicas. Neste contexto das costumizações, Sarah Bernhardt só seria ela própria se estivesse vestida conforme seu 'affiche' ícone.

* "Jean Santeuil" de Marcel Proust - Editora Nova Fronteira, pag. 520





 verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 29

Hybris e onipotência

A não aceitação de limites possibilita vários deslocamentos, um deles consiste na tentativa de ultrapassar o limite. Essa desconsideração do que está diante é gerada pela onipotência oriunda do autorreferenciamento. Ao se perceber impotente, surge aceitação ou não aceitação desta vivência. Recolhimento ou exacerbação vão caracterizar esta constatação. A onipotência é um deslocamento da impotência. Não existem duas situações: onipotência e impotência. A impotência não aceita e deslocada, configura a onipotência.

A construção de imagens, máscaras aceitáveis é característica dos que vão além da própria dificuldade, atingindo bons resultados que camuflam e parecem neutralizar os limites. Gigantes de pés de barro nascem. Escorar-se nos bons resultados obtidos, exibí-los, é uma atitude indicativa de que problemas foram superados e assim agindo aumenta a necessidade de mostrar, de exaltar o conseguido.

Na atitude onipotente, a vida é resultado, não é processo; não importa como foi conseguido o que era necessário para ser valorizado e considerado, basta querer e lutar para conquistar, seguindo roteiros que vão desde ter amigos influentes até realizar todas as etapas necessárias à profissionalização por exemplo e esperar o sucesso. Esta atitude em função de metas, este foco nos objetivos, desconhece limites. Para preencher o vazio daí resultante, surgem crenças e ideologias fanáticas, rigidez, obsessões, compulsões, exercícios e disciplinas extenuantes. A fé, a esperança, a persistente preocupação com os próprios direitos, os deveres cumpridos são os lemas, os suportes deste esvaziamento.

Ultrapassar limites negando-os, é autorreferenciamento. É o não limite gerador de onipotência que nada mais é que uma das formas de autorreferenciamento, característica dos processos de não aceitação. Tudo é percebido a partir das próprias necessidades, desejos e vivências. Este acúmulo de referências em um mesmo contexto, pontualiza. Quando isto acontece novas situações são requeridas, novos contextos, até um outro eu (dividir para suportar), é a imagem, hybris maior, responsável pela despersonalização, pela desumanização.

Na antiga Grécia Hybris* era uma deusa que personificava a insolência, a desmedida, o excesso. Aristóteles associava hybris ao 'erro trágico' do protagonista dos dramas gregos, erro este que advinha da tentativa de ação correta em uma situação onde isso era impossível, em outras palavras, um grande engano.

Enfatizar é parcializante, divide, consequentemente desorganiza; qualquer ênfase gera excesso, hybris.

Enfatizar o belo, enfatizar a cultura, parcializa. Achar que só se pode viver em um mundo belo, espiritualmente refinado, socialmente igualitário, economicamente justo, por exemplo, estabelece regras (o belo, o feio, o refinado, o grosseiro, o adaptado, o marginal, o rico, o pobre etc) situações antagônicas, duais, geradoras de valores determinantes de hierarquias; criadoras de posicionamentos: a luta do revolucionário, as verdades religiosas, a eternidade da beleza. Os limites não são integrados, permanecem como valores, são transformados em referenciais. É o 'erro trágico', a hybris dos bem-intencionados que enfatizando seus próprios referenciais apenas expõem sua onipotência. A superação de limites unilateraliza. Superação não é aceitação. Aceitação de limite implica em integração do limite o que só é possível se não tiver uma meta a ser atingida. Ultrapassar limites negando-os é uma forma de fazer de conta que não está limitado. Este processo não é inócuo: ansiedade, excesso de gastos, responsabilidades postergadas e imagens fabricadas se transformam em perseguidores. O gigante dos pés de barro, as imagens criadas, compromissos assumidos não têm base de sustentação. O indivíduo colapsa, tentando corrigir o erro ele mata, ele morre.

Não aceitação de limites, onipotência, excesso, exagero - hybris - é o autorreferenciamento, resultante da não aceitação.

--------------------------

* Hybris, palavra grega, excesso, arrogância, insolência, soberba, impetuosidade, violência - em português está dicionarizada como húbris















- "O Homem sem Qualidades", Robert Musil
- "A Mutilação Sacrificial e a Orelha Cortada de Van Gogh", Georges Bataille


verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 22

Limites e transformações

Aceitar o limite é transformador. Quando a percepção muda, o que antes limitava passa a ser percebido como um contexto, como realidade na qual o limite está estruturado, ele já não é um obstáculo.

Esta evidência gera mudança podendo criar, entre outras coisas, liberdade, responsabilidade e autonomia. Exemplifiquemos com algumas situações: uma do herói, outra do cidadão comum, outra do sobrevivente oprimido.

Sísifo, apesar de mortal, desafiava os deuses gregos (era, ele próprio, filho de deuses e tido como muito inteligente e rebelde). Em uma das versões do mito, Sísifo é castigado por tentar salvar Prometeu, o titã condenado por Zeus por ter roubado o fogo para entregá-lo aos humanos. O castigo de Sísifo consistia em diariamente carregar uma enorme pedra até o cume da montanha, pedra essa que era empurrada de volta à base, obrigando-o a novamente carregá-la montanha acima dia após dia. Depois de muito esforço e desespero, Sísifo percebeu que seu castigo não era apenas levar a pedra ao cume da montanha, mas sim levá-la e vê-la rolar montanha abaixo, tendo consequentemente que carregá-la novamente em um repetir incessante.  Ao perceber isto, libertou-se, apreendeu a totalidade da situação e não mais esperou se livrar do castigo. Perceber o processo o deixou sem expectativas, o fez suplantar o castigo.

O mito de Sísifo deu margem a muitas páginas de literatura e filosofia. A analogia com o trabalho cotidiano e repetitivo, com os problemas a serem enfrentados do dia a dia, se impõe. A aparente falta de sentido da vida, ou o "absurdo da vida" como diria Camus, são aí expressos e resolvidos.

São inúmeras as situações onde se vivencia o limite: a morte, as doenças, as condições diversas de vida etc. Doenças, vivenciadas como limite, geralmente desencadeiam medo de morrer, raiva e impotência. A aceitação deste limite leva à busca de tratamentos, à mudança de atitude, transformando medo e raiva em cuidado e disciplina, em responsabilidade.

Frequentemente as pessoas se queixam de falta de tempo, de falta de dinheiro e de amores permanentes. Queixas e lamentos pelo trabalho subdimensionado, vocações não realizadas, sensibilidades poéticas sufocadas pelas rotinas do trabalho, tudo isso expressa a não aceitação do limite. Só se verifica falta ou excesso quando se avalia; só se avalia quando surge verificação sobre a realização de metas e desejos.

Perceber o limite depende da estrutura de aceitação ou não aceitação. Quando a pessoa não se aceita, ela desloca seus desejos, sonhos e fantasias para objetivos, para metas a realizar e consequentemente ela se divide, vivenciando parcialmente o presente. Nesta vivência parcializada do presente, quase tudo limita, quase tudo é obstáculo. Quando este processo é percebido, surge a mudança. Essa mudança perceptiva ocorre, via de regra, na psicoterapia através de  questionamentos e antíteses. Quanto maior a divisão, maior a vivência de situações limitadoras, até ao ponto em que a própria pessoa é um limite: síndrome de pânico, depressão, hipocondria. Estes deslocamentos  são vivenciados como naturais, orgânicos, como caindo sobre o indivíduo e nada se pode fazer, exceto suportá-los com ajuda de remédios, rezas ou amuletos.

Perceber o que está ocorrendo com o limite gerado pelo processo da não aceitação, criadora de metas esvaziadoras, faz desaparecer o robô programado para dar certo e não falhar, traz de volta a individualidade, humaniza.

A não aceitação do limite pode gerar onipotência responsável pela violência. Na sociedade, o "precisar e roubar" exemplifica este aspecto, tanto quanto deixa claro que quando se transforma o problema em justificativa, mais limitado se torna e outros deslocamentos surgem: agressividade, oportunismos etc.

Também as situações de opressão percebidas como "sem saída" (donas-de-casa sustentadas por maridos opressores, homens e mulheres que se percebem incapazes de ação autônoma) se transformam quando são questionadas a submissão e tolerância em função das próprias metas e desejos. Estes questionamentos mostram que manter a conveniência é a chave perdida da saída. Encontram-se caminhos, mudanças surgem.

Alguém que só pode viver sob efeito de drogas, ao perceber que a droga é a morte, não mais consegue usá-la para viver; se continua a usá-la é para morrer.

Aceitar o limite é decidir; única forma possível de eliminar os conflitos causados pela necessidade de escolher resultante de acumulação de limites não aceitos.

Aceitar o que limita implica em poder transformar o obstáculo, implica em mudar.




- "O Diário de Frida Kahlo - Um Auto-retrato" -  Frida Kahlo
- "Berlin Alexanderplatz" - Alfred Doblin
- "Os Miseráveis" - Victo Hugo

verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 15

Monotonia

Quando o aderente é o fundamental o ser humano se escraviza ao que o aliena.

O vício (não conseguir desempenhar suas funções, não conseguir viver sem estar alcoolizado; a droga como sedativo constante do sofrimento, da dificuldade de estar no mundo com os outros), o viver em função dos outros, ou em função das aparências, ou das instituições que dignificam, que conferem status são formas de aderência.

Intrínseco, imanente é o constituinte, o legítimo. Imanente ao humano é sua possibilidade de relacionamento com os outros, consigo mesmo e com o mundo. Transformar esta possibilidade em necessidade de relacionamento, em carência* faz surgir aderência explicitada gradualmente em satisfação e insatisfação.

Possibilidades exercidas não são quantificáveis ou "quando se trata de direito não há legitimidade", como dizia Luypen, fenomenólogo holandês. Não se discute a legitimidade de caminhar, embora se discuta para onde se pode ir.

Dirigir as possibilidades para alvos específicos cria esgotamento e transbordamento. Este processo pressupõe manutenção, cuidados, aderências. Assim, para continuar é necessário manter "como um caminho no outono: mal se acaba de varrer, logo se torna a cobrir de folhas mortas…" (Franz Kafka).

Manutenção é o que dá continuidade e também o que destrói o dia a dia das pessoas. Quando ela não é realizada cria resíduos que aumentam, crescem, se tornando obstáculos no dia a dia. Quando realizada pela persistência e continuidade, exila o novo, pois o que se repete, o que continua, já é o esperado. No exemplo de Kafka, as aderências sazonais, em relação ao caminho, exigem que o mesmo tenha sua existência preservada através da limpeza (varredura) ou da drenagem (gelo e água) para que continue sendo caminho - possibilidade.

Neutralizar aderências implica em explicitar imanências. Mudar uma visão preconceituosa acerca do outro, do semelhante percebido como diferente, realiza o milagre do encontro, do reconhecimento, da descoberta do novo, por exemplo.

Abrir mão de apoio, mesmo arriscando cair, é libertador. Saber que tudo acontece na exata dimensão das possibilidades realizadas, das possibilidades atualizadas, dá consistência, confiança para mudar, para permitir o novo, para se surpreender, para quebrar a monotonia da alienação.


* Ver: Psicoterapia Gestaltista - Conceituações - Vera Felicidade A. Campos


verafelicidade@gmail.com

Wednesday, September 7

Despersonalização

Despersonalização é o que acontece quando se vive para ser ou não ser o que os outros (pai, mãe e mais tarde os amantes e amigos etc) desejam que seja.

As imagens construidas existem para compor os diversos personagens. Rebelando-se ou atendendo as expectativas ou imposições, sendo ou não, o que se espera que seja, o indivíduo se circunstancializa, começa apenas a concordar ou a discordar com o que lhe é proposto; surgem os enquadrados, ajustados e os revoltados, enfim os marginais. Ambos estão cooptados pelos sistemas, ambos sem autonomia. Não questionam, não fazem perguntas apenas respondem, reagem ao proposto. 

Este processo não cria individualidades, entretanto, estabelece espaços, posições, direitos e deveres que demarcam e estabelecem seus caminhos e motivações. 

A permanência destas aderências, destas "externalidades" inicia o processo de despersonalização. Vive-se para conseguir realizar propósitos, atingir situações à partir das quais pode ser alguem socialmente considerado. Valer pelo que representa e pelo que consegue é o sonho de todo despersonalizado. Ao realizar seus sonhos, resta mantê-los. Passa a viver em função do conseguido, tendo que cuidar da imagem, da aparência. O que se mostra, o que se expressa tem também a função de esconder e calar.  Esse jogo impõe malabarismos geralmente aliviados através da criação de personagens, receptáculos dos fragmentos causados pelas constantes e sucessivas divisões. Exemplos extremos e encontradiços dessas divisões aparecem, por exemplo, nas atitudes de padres que abusam sexualmente de seus discípulos, nos ginecologistas que, sob a máscara de atendimento profissional, abusam sexualmente de suas clientes etc. Freud fala na sublimação de desejos instintivos, exemplifica com o sádico que se transforma em cirurgião. 

Para nós, não é o que se faz, mas sim o como se faz que vai determinar a aceitação ou a não aceitação, a sanidade ou a doença. Não existe um sádico, existe o indivíduo autorreferenciado, que não se aceita e que precisa exercer função socialmente aceitável para sobreviver e deslocar seu desejo de matar e destruir sem pagar o preço disto, por exemplo. 

As situações aderentes, as vivências circunstancializadas, situações vivenciadas em função de necessidades a serem satisfeitas, são responsáveis pela despersonalização, pela não individualização. O despersonalizado procura expressar bom gosto através da escolha de objetos, da roupa que impressiona os amigos, procura ser amigo de poderosos, dos admirados, dos vencedores. É uma maneira de se identificar com o poder, sucesso e vitória. Para ele, fazer parte, pertencer é definidor do que ele é, de onde está, de que mundo domina. A vida psicológica vai depender do que consegue, do resultado dos empreendimentos. Quando não consegue, quando falha, vem a frustração. A continuidade de frustrações leva a insegurança, dúvida sobre o próprio valor, revolta, inveja de quem consegue bons resultados e vitórias.

A insegurança aumenta a necessidade de se manter, aumenta o autorreferenciamento. Percebendo à pratir dos próprios referenciais e nele se esgotando, o indivíduo se esvazia. Este processo é cada vez mais desumanizante. É como se fosse uma caixa de ressonância, apenas ecoando o que está em volta, é a despersonalização.

verafelicidade@gmail.com

Wednesday, August 31

Impasses e conflitos

Para a psicoterapia gestaltista, neurose é um processo que se caracteriza pela não aceitação.

Os relacionamentos familiares trazem padrões sociais significativos de acertos, erros, coisas boas e coisas ruins. Os resultados alcançados são compilados, e comparados; as pessoas são elogiadas ou criticadas, rejeitadas ou aceitas, mas sempre dentro de padrões. Neste processo se estrutura a experiência da não aceitação enquanto individualidade ao mesmo tempo em que se estrutura a aceitação ou não aceitação enquanto acertos ou erros determinados pelos padrões. Assim estruturados não há aceitação como individualidade, mas sim como indivíduos que acertam ou que erram. A pessoa não se sente aceita pelo que é mas sim pelo que pode ou não conseguir e consequentemente, não se aceita mas quer ser aceita. Para conseguir tal incoerência - não se aceitar e querer ser aceita - ela tem que camuflar o que não aceita em si, enganar, esconder, mentir, ousar e tentar. Neste jogo surgem sintomas, posicionamentos, inseguranças, medos, angustias, ansiedades.

A ansiedade desorganiza tudo. Dessa desorganização resulta a fragmentação, o aparecimento de partes descontínuas, posicionadas e apoiadas. Divisões, pontualizações, falta de sequência, dificuldade de dar continuidade às ações, criam paradoxo, incongruências relacionais: o indivíduo apoia-se no que oprime, conserva o que destroi etc.

Com o passar do tempo aparecem os conflitos que não são vivenciados como tal, mas que esmagam e pressionam, gerando pânico, vazio, insegurança. Não se sabe o que fazer da vida.

Em psicoterapia, quando as máscaras, os disfarces da não aceitação são denunciados, o individuo se sente ameaçado. Arrancar a máscara é vivenciado como arrancar a própria pele. Ele resiste, desiste, até que percebe que não arrancar a máscara é imobilizar-se e desistir de viver.

Este impasse entre querer continuar no processo da não aceitação e sentir-se imobilizado por ele, esta percepção das implicações, é o que possibilita a continuidade. Os pontos começam a ter sequência, o movimento começa a se estabelecer. É a mudança, é o movimento, é a transcendência dos limites até então responsáveis por medos (omissão), submissão, raiva. O processo de aceitar que não se aceita se inicia. Esta aceitação é fundamental para quebrar os posicionamentos, para mudar o autorreferenciamento, para recontextualizar os impasses e conflitos.




"Crime e Castigo" - F. Dostoievski

verafelicidade@gmail.com

Wednesday, August 24

O silêncio da maioria

Do ponto de vista psicológico, como entender o surgimento e manutenção de ditadores, torturadores, poderosos corruptos e genocidas, exploradores de toda ordem? Da mesma forma que entendemos o delator, o desesperado, o omisso, o submisso: pelo processo da não aceitação. Não aceitação não é algo quantificável, não existe não aceitação maior ou menor. Da dona de casa, mãe e esposa, do pai, trabalhador e marido, do adolescente ao jovem estudante até aos abusadores de poder (políticos, religiosos, patriarcas etc), a não aceitação é o denominador comum da inautenticidade, da desonestidade, da maldade.

Não se aceitar e querer ser aceito é um movimento contraditório, paradoxal. É a desonestidade, o disfarce, a inautenticidade.

No processo da não aceitação, por tudo que viveu, ouviu e fez, pelo esforço satisfeito e insatisfeito, o homem percebe que ele só vale se aparentar ser o que não é. Através do disfarce consegue enganar e, ao esconder o que ele considera precário, realiza sua sobrevivência, aplaca seus desejos. Caminha em direção à meta de ser aceito.

O indivíduo se sente inaceitável por vários motivos e não se aceitando passa a querer ser aceito.  Agindo assim, ultrapassa, nega o perceber-se inaceitável. Consegue isto se dividindo: ele não se aceita como "A" mas quer ser aceito como "B". A situação "A" é vivenciada em paralelo à situação "B". É uma divisão geralmente vivenciada como aparência e realidade, mentira e verdade, os outros e ele mesmo. Cada vez mais dedicado a aparentar o que não é, a esconder o que não aceita, se adapta ao processo despersonalizador. A vida de aparências, de imagem aceitável, é construida e tem que ser mantida. Esse posicionamento, cria imobilidade responsável pelo medo de ser desmascarado. Esta tensão constante aumenta a necessidade de distensionamentos: psicoterapia, remédios, drogas, sexo. O significado dos relacionamentos é vivenciado circunstancialmente, funcionando para manutenção de imagens.

Quando consegue ser aceito sente prazer; é aceito ao conseguir enganar o semelhante. As possibilidades de relacionamento foram transformadas em necessidades de relacionamento. Cada coisa devorada, digerida, utilizada aplaca e esvazia. A pessoa se sente sempre sozinha. A não aceitação é responsável por esta vivência desde que o outro é utilizado como objeto, coisa para satisfazer desejos, aplacar medos.

É muito comum os indivíduos desistirem de psicoterapia quando seus sintomas desaparecem. Quando mudar não é o propósito, quando a terapia é instrumentalizada, adquirem mais instrumentos para construir imagens, para disfarçar e enganar. Mantendo a não aceitação, seu núcleo desvitalizador, o indivíduo se desumaniza ao ponto de ser capaz de realizar qualquer coisa que o faça sobreviver melhor, até o colápso da depressão ou do pânico total do ser com os outros.

Ao virar uma "massa de manobra" do sistema e dos outros, resta ao que não se aceita se submeter. São os que formam a maioria silenciosa que cumplicia com autoridades e ditadores, são os que matam para não morrer e que assistem as injustiças e genocidios, dizendo: "ainda bem que não é comigo". Do lado dos agressores, dos subordinadores, o pensamento é "sou superior, sou melhor que eles" e assim justificam suas aberrações e perversões, assim como a manutenção de sistemas desumanizadores por eles criados e ajudados a manter pelo silêncio da maioria.



"Sociedade de Risco" de Ulrich Beck

verafelicidade@gmail.com

Thursday, August 18

A certeza como engano

Certeza, crença, convicção, dúvida, além de constantes na vida psicológica são temas tradicionais das discussões teológicas e da reflexão filosófica, amplamente conceituados e sistematizados nas várias teorias, tanto na religião, quanto na filosofia e na ciência.

Para nós, a certeza é um estado psicológico que se caracteriza por impermeabilização que impede a dúvida.

A unilateralização das vivências e desejos se constitui para muitos, em um porto seguro, uma âncora que garante não ser arrastado pelos ciclones das mudanças e da impermanência.

Ter certeza, jamais se questionar, jamais duvidar das próprias convicções ou da visão que tem de si é uma tentativa de evitar a ameaça da impermanência e a hesitação que a acompanha, é uma maneira de manter-se focado nas próprias metas.

A instrumentalização das possibilidades, a instrumentalização da crença de ser honesto, bom e capaz como um a priori, por exemplo, impermeabiliza. Manter a priori, instrumentalizar habilidades ou características próprias valorizadas, posiciona, esvazia, quebra a dinâmica relacional do ser no mundo.

O vazio e a fragmentação resultantes de posicionamentos transformam o humano em alvo eleito para arregimentação de fieis (nas várias religiões), para arregimentar amigos carentes e responsáveis (nos círculos familiares e de amizade). Surgem crenças, bem expressas em frases populares como: "se rezar estarei a salvo das tentações, Deus nos salva". Surgem as instrumentalizações, por exemplo, de ser responsável, cumprir as obrigações, atos simples e corriqueiros são transformados em credito, em certeza de que nada será ruim, pois "virtudes" estão sendo cumpridas. Esse processo normalmente resulta em compulsão ou em fanatismo.

O compulsivo é o que avalia, se enche de 'crédito', regras, senhas e certezas que o beneficiarão; seguindo todas as regras, todo o ritual, nada dará errado. A certeza decorre do exercício da regra, do método. Nesta vivência compulsiva, com todos estes controles, alguma coisa está errada, só que isto não é percebido, isto é o fundo, o contexto à partir do qual o comportamento é exercido.

O compulsivo diariamente tenta evitar enganos. Vive avaliando. Não existe por existir, as evidências não significam, tudo precisa ser avaliado, verificado; a necessidade de certeza se impõe. O natural, o instantâneo desespera. Ele existe através de senhas que devem ser cotidianamente acessadas.

O fanático, assentado em suas certezas, é basicamente intolerante e agressivo com todos que divergem de suas posições, é igualmente impermeável às evidências, mantendo-se em seu autorreferenciamento.

A falta de disponibilidade, a quebra da dinâmica relacional, o posicionamento nas próprias necessidades são algumas das consequências de posicionar-se em certezas inabaláveis.

Sempre podemos ter certeza quando vivenciamos as possibilidades relacionais. Sempre teremos engano quando, pelas necessidades a satisfazer, utilizamos nossas certezas como lemas, regras de conduta.



- On Certainty de Ludwig Wittgenstein

verafelicidade@gmail.com